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Medo e solidariedade, escreve Kakay

Do Poder 360, 28 de Agosto, 2020
Por ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO (KAKAY)


Há 1 culto à insensibilidade
Não devemos ser cúmplices


Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como apelido de Kakay, é advogado criminalistaSérgio Lima/Poder60 - 29.out.2019

“Comovo-me em excesso,
por natureza e por ofício.
Acho medonho
alguém viver sem paixões”
Graciliano Ramos

Estranho país virou o Brasil. Não nos dão o direito, sequer, de fazer o acompanhamento da tragédia da pandemia com a necessária “normalidade” dentro da loucura, do caos que vivemos, que o mundo vive.

O medo do desconhecido, a dor das perdas de vidas, a incredulidade frente aos desencontros dos atores da área científica, da saúde, a preocupação extrema da derrocada econômica, o desemprego, a perplexidade do drama que nos assola, a falta de estrutura por parte da saúde pública, a solidão, enfim, tudo isso que é comum aos cidadãos do mundo todo, no Brasil, ainda é pouco. Nós temos que viver um calvário próprio, as nossas pitadas de um descaso dentro das mazelas já quase incontroláveis.

A deliberada banalização da vida por parte do governo federal, a falta de seriedade no trato da pandemia, a sórdida postura frente aos milhares de mortos, a indiferença com a dor do outro, o desdém com angústia dos que sofrem, o pouco caso, a pilhéria, tudo leva a um estranho sentimento de individualismo que é o contrário do que se espera em um momento como esse. As ações de solidariedade, que brotam e se multiplicam no meio da sociedade, são o inverso dessa postura mesquinha que é a marca desse governo. Nas coisas simples, nos detalhes, as pessoas se revelam nas horas difíceis.

Como bem expressou o mestre Paulo Leminski:

“Ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo.
Ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isto mesmo”

São admiráveis a coragem e a dedicação das pessoas da área de saúde. A entrega visceral para, ainda que com graves riscos, cuidar dos infectados. Emociona. Correm riscos não só para a saúde pessoal, mas também da exposição aos que lhes são caros e amados. E não somente na área da saúde, naturalmente mais exposta, mas de inúmeras outras áreas que são imprescindíveis para que o mundo não entre em colapso.

Lembro-me de Manuel Bandeira:

“Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
….
Não quero mais saber
do lirismo que não é libertação”

Os dramas vividos aqui no Brasil apresentam contornos dramáticos. A discussão da volta às aulas passa também pela triste discussão sobre o fato real de que as crianças, milhares delas, não estão se alimentando minimamente com dignidade em razão da falta da merenda escolar. A pobreza, a miséria agravada pela crise, bate às nossas caras com a cruel realidade. Sem contar a disparidade entre o aparato tecnológico existente entre as escolas públicas e as privadas.

Em um país onde não existe, há meses, em plena crise sanitária, um ministro da Saúde que possa ostentar esse nome, não temos sequer campanhas oficiais de esclarecimento para explicar à população o que realmente está ocorrendo e como fazer o enfrentamento. Até o número de mortos nos é comunicado por um pool de empresas de comunicação, pois o governo optou pela irresponsabilidade criminosa do silêncio.

O mantra de que é necessário lavar as mãos incontáveis vezes ao dia e manter o isolamento bate de frente com a realidade da falta de água potável e de esgoto numa imensidão de lares. Assim como a falta de estrutura de moradia de uma parte significativa da população faz com que o discurso do isolamento, neste particular, mostre-se irreal.

Quase em todos os lugares do mundo a regra foi não politizar o combate ao vírus. Uma natural corrente de solidariedade colocou de mãos dadas, ainda que simbolicamente, as pessoas dentro e fora dos governos, sem ideologia, sem partidarismo, sem cor ou credo. Um inimigo comum, insidioso e desconhecido derrubou barreiras que a diplomacia e a política não conseguiam ultrapassar.

Talvez o medo, a angústia e o desconhecido tenham assumido um papel agregador e ecoado um surdo grito de alerta. De tão surdo esse grito falou diretamente aos corações, antes mesmo de romper o silêncio que caracteriza o individualismo nas sociedades. O individualismo inclusive como marca de governar, para fomentar grupos e manter privilégios, para esconder o fosso social.

Volto a Fernando Pessoa, no livro do Desassossego:

“Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar.
…..
Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para minha alma. Todos os olhares para onde olho estão tão escuros de lhes bater esta luz empobrecida do dia para se morrer sem dor”.

Este grito surdo certamente chegou a boa parte da sociedade brasileira. Mas um silêncio ensurdecedor domina o governo e seus seguidores insanos. É o silêncio da cumplicidade que nos faz ser o país onde o desdém com a vida derrubou qualquer mito sobre um Brasil de um povo bom, humano e solidário.

É necessário, ainda que com contínua e persistente resistência a este desgoverno, que nós ampliemos nossa visão e atuação. É hora de nos reinventarmos, nos desdobrarmos, nos posicionarmos em cada pequeno gesto de indignidade. Não só contra este governo genocida, mas contra os que alimentam a indiferença, pregam o ódio, desrespeitam a ciência, debocham da dor.

É ler e ouvir Manoel de Barros:

“A maior riqueza do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam
como eu sou-
eu não aceito.
…..
Perdoai
Mas eu preciso ser outros”

Contraditoriamente ao que possa parecer, ser verdadeiramente solidário agora é expor publicamente, enfrentar aqueles que têm o egoísmo como meio de vida. É enfrentar e deixar expresso a todos que essa postura de cumplicidade com a morte não pode ser aceita no nosso meio. É romper com os que têm, como regra, a insensibilidade, o individualismo, a insensatez. O silêncio e a covardia desses não podem ter nossa solidariedade, não podemos ser cúmplices dos que cultuam a insensibilidade.

Se não for possível um rompimento às claras, que o desprezo seja nosso ato de posicionamento. Nestas horas extremas é que se forja e se mostra a personalidade e o caráter. Não vamos nos igualar a eles. Ser justo e solidário é ter lado e, antes que o cansaço nos vença, não é muito mostrar aos hipócritas o que eles são. Nesses tempos de guerra, ter solidariedade é, também, não perdoar os gestos e as atitudes de quem não tem solidariedade. Não nos posicionar é nos posicionar.

Como ensinou o grande Padre Antonio Vieira:

“A omissão é o pecado
que com mais facilidade
se comete,
e com mais dificuldade se conhece;
…..
A omissão é um pecado
que se faz não fazendo”

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