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Europa e o coronavírus: mais mistérios. Artigo de Wolfgang Streeck

Do IHU, 26 Agosto 2020
Por 
Wolfgang Streeck


“Alguém ouviu que Bruxelas tenha utilizado o período das férias de verão para apressar os países membros a se preparar para a seguinte onda do coronavírus? Ou para que criem mais unidades de testes, proporcionem mais leitos de hospital ou acumulem depósitos adicionais de material médico? Ou para que façam dos hospitais, as residências de idosos e os centros de pessoas idosas lugares mais seguros?”, questiona Wolfgang Streeck, diretor emérito do Instituto Max Planck para Pesquisa Social de Colônia, em artigo publicado por El Salto, 23-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Lentamente o verão se aproxima de seu fim. Na Europa ocidental, o calor e a seca, que se prolonga há três anos consecutivos, parecem ter se tornado endêmicos. Não só as matas, também as pessoas estão morrendo. Alguém acredita que o Green Deal da senhora Von der Leyen introduzirá alguma diferença significativa a esse respeito?

Angela Merkel, campeã mundial da política simbólica, cujo elogio favorito de uma iniciativa política é a de denominá-la um “sinal forte”, acertou um encontro privado com Greta Thunberg, a quem recordamos na distante era AC, isto é, antes do coronavírus. O que aprenderá Angela de Greta que seu gabinete não lhe tenha dito ou que não tenha sido enunciado e afirmado pelos cientistas especialistas em questões climatológicas, que trabalham em nossas universidades?

Em certas ocasiões, durante estes dias intensos de verão, recordamos o projeto de “recuperação” do coronavírus adotado em Bruxelas, há poucas semanas, que parecem distantes no tempo. Quanto mais fazemos isto, mais misterioso esse projeto nos parece. Na realidade, o que foi decidido? Parece que o dinheiro não chegará antes de 2020. Nessa altura, a economia europeia pode ter começado a crescer novamente. Entretanto, haverá ou não “solidariedade europeia”? Em 2022, o programa pode ser pró-cíclico, provocando déficits de capacidade e propiciando a inflação nos setores em que se gaste o dinheiro procedente da União Europeia.

Também não sabemos realmente como esses recursos serão atribuídos para além das cotas nacionais fixadas. De fato, qual será o grau de discrição que os países receptores receberão? Ouvimos dizer que os Estados deverão submeter as solicitações dos correspondentes projetos ao veto de alguém em Bruxelas, que pode ser a Comissão, o Conselho ou ambos. Quem serão os especialistas que revisarão as propostas? Quem rejeitará os projetos que não se adequarem ao programa ou exigirá modificações? Quanto tempo se concederá para completar este procedimento?

Recordamos também as consideráveis somas dos Fundos Estruturais que todos os anos permanecem intocadas nas contas bancárias, em Bruxelas, ainda que foram pertinentemente concedidas, porque os países carecem dos recursos necessários para administrá-las, ou o planejamento leva mais tempo do que o esperado, ou os tribunais intervêm para aplicar diversas normativas nacionais, ou o trabalho deve ser licitado em escala europeia, etc., etc.

Na realidade, quando pensamos no assunto, o que tem a ver a luta contra o coronavírus com a digitalização e a descarbonização, que são os dois principais objetivos declarados do “fundo de recuperação”? Ouvimos dizer, por exemplo, que o Governo italiano planeja utilizar uma considerável parte de sua dotação para a construção de linhas ferroviárias rápidas, de modo que os italianos possam se deslocar a Roma em quatro horas e meia, no máximo, sempre que assim desejarem. Como se supõe que isto protege a população italiana da infecção ou de morrer em um hospital subfinanciado? Na Alemanha, o planejamento e a construção de linhas rápidas desse tipo exigem ao menos uma década. Em que medida a Itália pode fazer isso mais rápido? E quem proporcionará os trens? Siemens, Alstom ou as duas empresas conjuntamente?

Enquanto isso, a segunda onda do coronavírus parece estar ganhando força. Não é fácil, claro, compreender como o vírus distribui exatamente os seus favores. Este é, claro, outro mistério. Uma coisa que o vírus nos ensinou, no entanto, é o elevado grau de perigo representado pela dependência das economias de alguns países europeus dos turistas da Europa ocidental, em particular dos procedentes da Alemanha e Grã-Bretanha, que se embriagam em suas praias para depois retornar a seus países de origem e se comportar como o que agora se denomina supertransmissores.

Entre outras coisas, isso gera espinhosas questões internacionais sobre se os países da Europa ocidental podem emitir conselhos de viagens a esse respeito ao restante dos Estados membros da União Europeia e se é possível esperar que os países meridionais ofereçam toda a informação sobre suas taxas de contágio, o que lhes acarretaria perdas econômicas potencialmente devastadoras.

Com o vírus ou sem ele, é economicamente saudável que países totalmente desenvolvidos dependam de um modo tão vital da denominada “indústria do turismo”? Ou que o bem-estar de nações civilizadas tenha passado a depender de personagens deploráveis atraídos por companhias aéreas, em escala planetária, com slogans como “Embriague-se em um lugar diferente”?

Finalmente, alguém ouviu que Bruxelas tenha utilizado o período das férias de verão para apressar os países membros a se preparar para a seguinte onda do coronavírus? Ou para que criem mais unidades de testes, proporcionem mais leitos de hospital ou acumulem depósitos adicionais de material médico? Ou para que façam dos hospitais, as residências de idosos e os centros de pessoas idosas lugares mais seguros? Na realidade, todo mundo sabe que outro confinamento prostraria definitivamente um bom número de países, incluindo a Alemanha, a grande vencedora da primeira onda de coronavírus.

O planejamento sueco – tomar medidas de segurança delimitadas, enquanto se permite que a vida, o trabalho, as escolas e as universidades continuem – poderia, neste momento, ser considerado um modelo superior, caso o Governo sueco tivesse sido consciente da devastação causada a pacientes e empregados por sua política de privatização radical das residências de idosos, durante a última década. Alguém aprendeu algo da lição deste fato, agora, que ainda estamos a tempo? Onde está a nova normativa sobre a gestão das instituições de cuidado, que tornaria possível evitar o confinamento total e, com isso, a destruição de sociedades inteiras e economias nacionais?

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