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Dia dos Povos Indígenas, “grito vivo” de respeito pela natureza

Do IHU, 10 Agosto 2020
A reportagem é de Gabriella Ceraso, publicada em Vatican News, 09-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


A proteção e o respeito pelos povos nativos do mundo: um imperativo para a Igreja a partir das palavras do Papa Francisco. A Covid-19 está ameaçando – assim como a pobreza, a discriminação e a exploração – cerca de 370 milhões de indígenas. A Amazônia está entre as áreas mais críticas. Conversamos a esse respeito com o bispo da diocese brasileira de Macapá, Dom Piero Conti.

Pobreza, discriminação, exclusão dos processos decisórios políticos e econômicos, exploração: ainda são muitos os problemas que afligem os povos indígenas no mundo, e hoje, acima de tudo, abate-se também o flagelo da pandemia do coronavírus, que os encontra despreparados e frágeis.

Os vulneráveis do nosso planeta

Isso também está no centro do Dia Internacional dos Povos Indígenas, instituído pela Assembleia Geral da ONU, todos os dias 9 de agosto, desde 1994, para promover os direitos das comunidades nativas do planeta.

Espalhadas em 70 nações diferentes, elas são mais de 370 milhões – 6% da população da nosso planeta – e falam mais de 5.000 línguas, das quais 25% ainda são desconhecidas.

Infelizmente, os indígenas também representam 15% dos pobres do mundo. Habitam as florestas, os prados, os desertos, mas também as geleiras perenes. Alguns hoje já são indistinguíveis das sociedades ao seu redor; muitos, por outro lado, conservam completamente a sua identidade distinta, embora vivendo há séculos em contato com ou ao lado dos colonizadores. Outros, por sua vez, representam certamente as sociedades mais vulneráveis do nosso planeta e ainda não têm nenhuma relação com o mundo exterior. São pequenas tribos – há pelo menos 100 delas em todo o mundo – que correm o risco de perder, mesmo que simplesmente com um contato, a sua vida e o seu futuro; não desenvolveram – por exemplo – resistências imunológicas contra as doenças mais comuns que podem exterminá-los.

A pandemia e os povos indígenas

Hoje, mais do que nunca, isso é verdade com a pandemia da Covid-19. Nesse sentido, repetem-se os alertas da Igreja, das ONGs e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que denunciam com dados oficiais como o impacto da pandemia do coronavírus, embora afetando as pessoas de todas as camadas sociais, agride particularmente os mais pobres e vulneráveis.

Somente desde o mês de julho, entre as populações indígenas das Américas, foram registrados pela OMS mais de 70 mil casos de Covid-19 e mais de 2.000 mortes. Mais recentemente, foram identificados pelo menos seis casos entre o povo Nahua, que vive na Amazônia peruana.

Uma situação preocupante, que se entrelaça com questões de exploração econômica e ambiental dos territórios em que vivem, a ponto de levar a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) a falar de “um concreto risco de genocídio”.

Respeito, proteção da sua dignidade e envolvimento nos grandes projetos que afetam os seus espaços. É o que o papa nunca deixou de pedir para os povos indígenas, particularmente na encíclica Laudato si’, em que se reconhece o seu forte vínculo com o território, não como um bem econômico, “mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores” [n. 146]. “Quando permanecem nos seus territórios, eles são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura”.

A relação com a terra e a sabedoria ancestral

Encontrando-se com os participantes do Fórum Internacional dos Povos Indígenas, em fevereiro de 2019, na sede da FAO em Roma, por ocasião da cerimônia de abertura da 42ª Sessão do Conselho dos Governadores da Fida [Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola], Francisco falou para uma representação de 31 diferentes povos indígenas provenientes da América, África, Ásia e área do Pacífico.

Naquela ocasião, ele falou deles como de um “grito vivo” em favor da esperança, pois eles nos lembram a responsabilidade “comum no cuidado da ‘casa comum’”, sabem dialogar com a terra, que hoje sofre, sabem escutá-la, vê-la, tocá-la. Conhecem a arte de viver em harmonia com ela: e isso também deve ser aprendido por aqueles que são tentados por uma espécie de ilusão progressista em prejuízo da terra.

Naquela ocasião, Francisco recordou o ditado dos seus avós: “Deus perdoa sempre; os homens, às vezes; a natureza, nunca”, olhando para os maus tratos e para a exploração contemporâneos, e confiou aos povos indígenas a tarefa de transmitir essa sabedoria ancestral. Segundo o papa, é preciso unir as forças em um diálogo “paciente e generoso”.

Ao dar à Igreja um Sínodo dedicado à Amazônia e um documento final como a exortação pós-sinodal, Francisco chamou ainda mais atenção da humanidade para temas como o “encontro intercultural”, a rejeição de um “indigenismo completamente fechado” e o das “culturas ameaçadas e dos povos em risco”.

Acima de tudo, a sua recomendação: “É preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos” que “dificilmente poderão se conservar indenes” se o ambiente em que nasceram e se desenvolveram “se deteriora”.

Bem no meio da pandemia, quando começaram a chegar os primeiros dados do impacto sobre as populações indefesas, a oração do papa elevou-se sobretudo pela Amazônia. É inesquecível a invocação de Francisco em Pentecostes:

“Por intercessão de Maria, Mãe da Amazônia, rezo pelos mais pobres e indefesos daquela querida região, mas também pelos de todo o mundo, e faço um apelo para que não falte a ninguém a assistência à saúde. Cuidar das pessoas: não poupar para a economia. Cuidar das pessoas que são mais importantes do que a economia. Nós, pessoas, somos templos do Espírito Santo; a economia, não”.

Economia e interesses humanos que não olham para o futuro da Criação e se transformam em ameaças para os povos indígenas, mas também para o planeta inteiro: também parte daí a reflexão de Dom Piero Conti, bispo da diocese brasileira de Macapá, que se pronuncia sobre o Dia Internacional dos Povos Indígenas, marcado pela emergência do coronavírus.

“O Dia Mundial dos Povos Indígenas, com razão, nos interroga sobre o que fazemos sabendo que o coronavírus e a pandemia chegaram também às aldeias indígenas. Quem levou o coronavírus para as aldeias mais distantes? Infelizmente, foram aqueles que nós chamamos de garimpeiros. São eles que encontram os índios, que negociam com eles. São situações difíceis de controlar. Pelo que sabemos, o isolamento é necessário, e, como as aldeias são distantes, quando alguém está doente, às vezes é preciso recorrer a helicópteros e aviões. Por isso, é importante exigir que o governo, o Ministério da Saúde e a Secretaria Especial de Saúde Indígena façam todo o possível.”

Eis a entrevista.

O que pode ser feito hoje à luz dos resultados do Sínodo, dedicado à Amazônia, mas também dos repetidos apelos que o papa lançou pela proteção dos povos indígenas?

O que podemos fazer é defender aquilo que expressamos no documento “Querida Amazônia”, convencer as pessoas de que esse é o caminho que vai salvar a Criação, e que só assim poderemos entregar às próximas gerações uma casa comum que seja habitável, porque, por outro lado, o peso é sempre o dos projetos que chamam de “Progresso”. Estamos falando de ocupar a terra, de infelizmente transformar a floresta, a natureza, a casa comum em plantações, especialmente a de soja. As vantagens são muitas, e são vantagens econômicas, enquanto se esquecem as desvantagens assim produzidas, não só para os povos indígenas que moram na floresta, mas também para o clima global do planeta. Pensamos que assim podemos modificar a natureza ao nosso gosto, mas não é assim.

Qual é a relação, mas, acima de tudo, qual é a interação possível hoje com as instituições sobre essas questões?

Não é fácil intervir, mas o que podemos fazer, como opinião pública e como Igreja, é procurar saber, conhecer, ver, denunciar, para que a situação não seja tão trágica. Caso contrário, infelizmente, veremos as consequências nos próximos meses ou certamente nos próximos anos.

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