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China se reinventa ante o coronavírus

Do IHU, 20 Agosto 2020
Por Ulises Noyola Rodríguez



“O gigante asiático está motivando as indústrias emergentes acelerando a revolução tecnológica nas tecnologias digitais. O assunto pendente é incluir os trabalhadores migrantes nos benefícios com o fim de consolidar uma classe média. Ademais, eliminar a ineficiência das empresas estatais é crucial para contar com mais recursos para a industrialização”, escreve Ulises Noyola Rodríguez, em artigo publicado por Alai, 19-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“O gigante asiático está motivando as indústrias emergentes acelerando a revolução tecnológica nas tecnologias digitais. O assunto pendente é incluir os trabalhadores migrantes nos benefícios com o fim de consolidar uma classe média. Ademais, eliminar a ineficiência das empresas estatais é crucial para contar com mais recursos para a industrialização”, escreve Ulises Noyola Rodríguez, em artigo publicado por Alai, 19-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

O gigante asiático se reinventa ao sustentar a indústria digital em vez de continuar apoiando a construção de infraestrutura em vias de transporte. O programa de recuperação econômica implicará em um déficit fiscal de 3.6% neste ano. Isso permitiu à economia chinesa recuperar seu crescimento, porém persistem desafios para incluir a população marginalizada no progresso tecnológico.

A crise econômica causada pelo coronavírus apareceu em condições diferentes na economia chinesa a respeito da crise financeira de 2008. O programa massivo de investimento em infraestrutura como resposta à crise financeira deixou as companhias estatais severamente endividadas, o que limitou sua capacidade de investir em grandes projetos de infraestrutura. Porém, o gigante asiático agora cresce na economia mundial, contando com novas tecnologias, profissionais qualificados e mercados externos. O primeiro ministro Li Keqiang anunciou o objetivo de criar nove milhões de empregos neste ano, onde as empresas privadas exerceram um papel crucial na reativação da economia.

O governo chinês aumentou o gasto em pesquisa com a finalidade de apoiar as indústrias de tecnologia avançada, especialmente redes de 5G, informática, inteligência artificial e tecnologia digital. A tecnologia digital oferece a oportunidade de estimular a expansão de companhias que estão gerando uma importante renda na pandemia, dentre as quais, encontram-se entretenimento, educação e serviços on-line. Além disso, profissionais contratados pelas empresas no ramo da tecnologia digital, podem trabalhar remotamente, o que reduz a possibilidade de contágio. A aposta do governo chinês no desenvolvimento tecnológico rendeu frutos considerando que os jovens estão melhor capacitados para se dedicarem a atividades que aportem maiores salários.

É importante destacar que a iniciativa privada tem papel preponderante na economia chinesa em relação às empresas estatais. Prova disso é que as empresas privadas contribuíram com 60% da produção nacional, 50% da arrecadação de impostos, além de 80% dos empregos urbanos há dois anos. A imposição da indústria digital beneficiará os empresários chineses que controlam a tecnologia digital, incluindo Alibaba, Huawei, Tencent e Baidu. Com isso, as empresas privadas vão aumentar sua preponderância, tornando-se o motor da economia chinesa nos próximos meses, mas vão precisar do apoio financeiro do poder público para continuar promovendo o investimento e a geração de empregos.

Para isso, o gigante asiático aproveitou a digitalização da economia dos Estados Unidos para aumentar suas vendas de eletrônicos, que obtiveram os financiamentos necessários para sustentar empresas privadas. As empresas chinesas estão exportando cada vez mais produtos tecnológicos, incluindo computadores, telefones celulares e circuitos integrados exigidos por empresas americanas, que estão aumentando suas receitas com a crescente demanda por eletrônicos. Como resultado, o comércio entre os Estados Unidos e a China não foi substancialmente prejudicado, apesar da pandemia e da guerra comercial. A entrada de divisas será usada pelo governo chinês para continuar a implementar o programa Made in China 2025 e, portanto, dependerá menos de tecnologia importada dos Estados Unidos.

A empresa Foxconn, que se destaca na produção de componentes eletrônicos, está contratando em larga escala diante do aumento de pedidos, oferecendo bônus como estímulo aos trabalhadores. Porém, a exportação de componentes tecnológicos continua dependendo de mão de obra barata, fator que incentiva empresas multinacionais a investirem na China. A força de trabalho vem de áreas rurais onde a população migra para as cidades em busca de emprego. Portanto, grande parte da população rural voltou às cidades para trabalhar nas fábricas com a flexibilização das medidas de confinamento.

A baixa remuneração da força de trabalho representa uma barreira à expansão da classe média, o que tem impedido o aumento do consumo de bens. O número de migrantes que trabalham nas cidades representou cerca de um terço da força de trabalho (290,8 milhões de pessoas) no ano passado, portanto, uma parte significativa da população está em condições precárias. A marginalização dos migrantes nas províncias rurais não levará a uma rápida recuperação das pequenas empresas que se beneficiariam com o fortalecimento do poder de compra dos trabalhadores. Com isso, as empresas têm um mercado bastante restrito, de forma que a recuperação de seus resultados não é certa em meio ao confinamento.

Apesar dos empregos gerados, muitos migrantes (13 milhões de pessoas) não encontraram trabalho nas cidades e voltaram aos seus locais de origem. Em resposta, o governo chinês ajudou a população vulnerável aumentando o seguro-desemprego acrescentando os subsídios de sobrevivência. Deve-se notar que as províncias rurais tiveram problemas de violência, tráfico de drogas e roubos devido à marginalização econômica, que se reflete em muitas regiões onde abundam os vendedores ambulantes. Os programas sociais têm evitado que o desemprego exacerbe a violência nas províncias rurais, onde a população dificilmente encontraria um emprego rapidamente na ausência de oportunidades.

Por outro lado, as autoridades chinesas evitaram uma segunda onda de infecções em Pequim, estabelecendo restrições estritas ao movimento de pessoas. Entre as restrições, destacaram a imposição de quarenta nas cidades com mais infectados, a redução de pessoas permitidas no transporte público e supermercados, o fechamento de escolas e o acompanhamento de doentes. As medidas tiveram resultados efetivos ao conter a propagação de contágios evitando a imposição de mais restrições que teriam afetado a economia chinesa.

No entanto, os trabalhadores migrantes permanecem em uma condição vulnerável porque muitos não têm benefícios sociais, como seguro saúde, em seus empregos nas cidades. Este grupo tem alta probabilidade de contágio, pois está envolvido em atividades nas quais está em contato com muitas pessoas, como a construção. Consequentemente, o governo chinês deve continuar a aumentar os gastos com saúde para cobrir as despesas dos trabalhadores migrantes que estão expostos a adquirir doenças em seus locais de trabalho.

Como parte do plano de recuperação, o presidente Xi Jinping anunciou o aumento do investimento público na construção de infraestrutura que contribuirá a conectar as cidades, terminar as vias de comunicação e melhorar o transporte público. Esses programas favoreceram as empresas industriais estatais em vários setores como aço, cimento e petróleo, entre outros. Como resultado, em comparação ao período anterior à aparição do coronavírus, a produção industrial se recuperou em maio deste ano, além disso, empresas estatais iniciaram contratações de estudantes chineses egressos de universidades. A deflação de preços também foi contida, amortizando a perda de renda das companhias.

O investimento público deu um fôlego às empresas estatais industriais que têm problemas de capacidades, especialmente no aço, carvão e cimento. Por exemplo, o Grupo Tewoo reestruturou sua dívida por causa da falta de renda no ano passado. As companhias estatais foram favorecidas com a extensão das obrigações de seus pagamentos com os bancos chineses evitando a quebra de empresas, a qual teria exacerbado o desemprego. Apesar da realização de investimentos, as empresas necessitam uma reestruturação considerando que muitas delas operam com ineficiência, corrupção e níveis de produção insustentáveis.

É importante a reestruturação das empresas em uma situação financeira crítica que estejam impregnadas de corrupção. Por consequência, vários executivos em empresas estatais estão sendo investigados por casos de corrupção particularmente nos setores de energia e materiais industriais. A erradicação da corrupção permitirá poupar uma quantidade considerável de recursos que seriam destinados às indústrias mais eficientes que, assim, empregariam mais trabalhadores e diminuiriam o desemprego.

Em suma, o gigante asiático está motivando as indústrias emergentes acelerando a revolução tecnológica nas tecnologias digitais. O assunto pendente é incluir os trabalhadores migrantes nos benefícios com o fim de consolidar uma classe média. Ademais, eliminar a ineficiência das empresas estatais é crucial para contar com mais recursos para a industrialização.

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