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Cerveja Backer: para a polícia, houve crime

Ministério da Agricultura concluiu que substância tóxica era usada deliberadamente — e não por engano. E mais: a corrida por um tratamento de anticorpos contra a covid-19; a proteção das células T contra a doença; a contaminação de jovens e crianças.

Do OUTRA SAÚDE, 05/08/2020

por Maíra Mathias e Raquel Torres

DE VOLTA AO CASO

A empresa Backer fabricava cerveja contaminada um ano antes de os primeiros casos de intoxicação virem à tona, o que aconteceu em janeiro deste ano. Essa é a conclusão do Ministério da Agricultura, que divulgou ontem à noite o relatório final sobre o escândalo que intoxicou 42 pessoas – tendo já causado a morte de dez consumidores.

De acordo com a pasta, a cervejaria mineira usava duas substâncias tóxicas – monoetilenoglicol e dietilenoglicol – de maneira deliberada, em detrimento de alternativas seguras.

A defesa da Backer alegou desde o início que a cervejaria não utilizava dietilenoglicol, ou DEG, um solvente orgânico que causou as intoxicações nos consumidores. Em junho, a cervejaria argumentou que a culpa pela contaminação por dietilenoglicol deveria ser creditada a um fornecedor que teria misturado DEG ao monoetilenoglicol, usado no processo de resfriamento para evitar que a bebida congele. Alegou ainda que a contaminação pelas substâncias teria acontecido em um único tanque, que havia sido instalado recentemente e onde foi detectado um defeito de fabricação.

Mas o Ministérioda Agricultura constatou que a contaminação não se restringiu à cerveja produzida nesse tanque: o DEG também foi encontrado em lotes comercializados antes da instalação da estrutura. Só em Minas Gerais, a pasta apreendeu mais de 56 mil garrafas de cerveja nas quais se verificou a presença dos contaminantes mono e dietilenoglicol. No Espírito Santo, foram outras nove mil garrafas.

Também ontem, a Polícia Civil e o Ministério Público retornaram à sede da empresa, onde apreenderam fichas de produção onde se lê “vazamento de glicol” – o que sugere que a Backer já sabia do vazamento. Essas fichas haviam sido digitalizadas e entregues ao Ministério da Agricultura, mas com as anotações suprimidas. “Até então não sabemos se a supressão foi voluntária ou involuntária. Isso ficou nebuloso e o Ministério Público precisava ter acesso físico a essas fichas de produção”, explicou a promotora Vanessa Fusco, em entrevista coletiva. O material apreendido passa a integrar o inquérito policial e pode complicar a situação dos acusados.

No começo de junho, a Polícia Civil indiciou 11 sócios e funcionários da cervejaria, que segue interditada. De lá para cá, três pessoas morreram. O sofrimento dos intoxicados e suas famílias é grande. A última vítima fatal, Marco Aurélio Gonçalvez Cotta, consumiu a cerveja nas festas de final de ano em dezembro e morreu em 18 de julho, depois de uma longa internação. Alguns sobreviventes lutam para superar sequelas graves, como cegueira, paralisia facial e perda de função renal.

NÃO É BEM PESSIMISMO

Gerou bastante alarde a declaração dada na segunda-feira pelo diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS).Tedros Ghebreyesus afirmou que talvez nunca exista uma vacina eficaz contra o novo coronavírus. O governador de São Paulo João Doria (PSDB), por exemplo, disse que “é preciso ter um pouco de otimismo realista“. Ontem, o diretor de Doenças Transmissíveis da Organização Pan-Americana da Saúde, Marcos Espinal, esclareceu que não se trata uma constatação de que não vai haver vacina, mas sim de entender que não dá para concluir nada até que tenhamos algum teste de fase 3 concluído.

A preocupação não é recente, se estende para além da descoberta e da fabricação de uma vacina, e aqui no Outra Saúde temos falado muito disso: a produção de insumos, a logística na conservação e na distribuição, as possíveis limitações dos novos imunizantes (como o não oferecimento de proteção total e uma eficácia que pode variar de acordo com a idade das pessoas) e a resistência de parte da população em se imunizar são alguns dos maiores problemas que devem ser enfrentados depois que uma boa vacina for aprovada. Não à toa, ainda em maio o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, avisava: “Desculpem se pareço cínico, mas vejam quantas doenças poderíamos ter eliminado com vacinas perfeitamente eficazes, como a do sarampo, e não o fizemos”. A descoberta de uma vacina pode dar a falsa ideia de que o problema estaria resolvido, quando a realidade provavelmente será outra.

No Brasil, acordos vão garantir a compra das primeiras dezenas de milhões de doses. Para o restante, deve haver transferência de tecnologia para a fabricação própria das vacinas pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan. “Não vamos depender de uma circunstância que alguém, ainda que de forma insana, intercepte carga aérea em algum ponto do planeta”, declarou ontem João Doria, referindo-se à pirataria dos Estados Unidos na compra de respiradores. Será?

Especialistas não têm muita certeza e, na Reuters, explicam que o processo não é tão simples. “É impossível”, crava o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, sobre a meta de produzir vacinas no Brasil em 2021. “Isso leva muito tempo. Talvez eles possam acelerar um pouco, mas não tanto”, completa. Um ex-diretor da Anvisa afirmou, anonimamente, que “um processo de transferência de tecnologia dura em média de cinco a dez anos. Quando o Brasil tiver a tecnologia completa, uma vacina covid-19 provavelmente não será mais necessária“.

Em tempo: a empresa de biotecnologia Novavax, dos Estados Unidos, apresentou ontem resultados (ainda não publicados com revisão de pares) de testes de sua vacina em seres humanos. São de fase 1 – muito preliminares, feitos com apenas 131 voluntários. Foi demonstrado que os participantes desenvolveram anticorpos (o que não é sinônimo de imunidade), mas 60% tiveram efeitos colaterais, e em 6% foram efeitos graves. A empresa recebeu US$ 1,6 bilhão do governo dos EUA, que garantiu cem milhões de doses até o início de 2021.

CORRIDA PARALELA

Também estão em andamento ensaios clínicos para avaliar drogas com anticorpos produzidos em laboratório. Esta semana a farmacêutica Eli Lilly anunciou que está entrando na fase 3 para testar a prevenção ou tratamento precoce da covid-19 em casas de repouso dos EUA. Até o fim de julho, oito candidatos a medicamento estavam em testes com humanos. Quem lidera a corrida é a Regeneron, cujo candidato também está em fase 3.

Os resultados podem chegar mais rápido do que os das vacinas. Isso porque, ao se testar uma vacina, é preciso aguardar algumas semanas para que o organismo dos voluntários desenvolva a resposta imunológica esperada, e depois mais algum tempo até a exposição ao coronavírus. No caso dos testes com anticorpos, eles já chegam “prontos” ao corpo. Há uma expectativa de que esse tipo de estratégia segure as pontas até a chegada de um imunizante. Por outro lado, como nota a matéria do site da Science, a produção é um tanto complicada, e há temores de que anticorpos eventualmente aprovados venham a ser caros e restritos. Se funcionarem, apenas os Estados Unidos podem exigir cerca de 40 milhões de doses no próximo ano, e ninguém sabe direito quantas doses poderiam ser produzidas no total. “É improvável que esse tratamento chegue a um preço que no futuro próximo seja facilmente acessível em todo o mundo”, diz Seth Berkley, que lidera a aliança GAVI e a Covax, uma iniciativa global de acesso às novas vacinas contra covid-19.

MAIS EVIDÊNCIAS

Dois novos estudos sugerem que pessoas que nunca tiveram contato com o SARS-CoV-2 podem ter algum grau de proteção contra ele. Como já explicamos por aqui, isso tem a ver com as células T, que reconhecem células infectadas e as destroem. E, provavelmente, se deve ao contato prévio das pessoas com outros coronavírus. Num desses trabalhos, publicado na Nature, pesquisadores analisaram amostras de sangue de cem pessoas, e em 35% das que nunca tiveram covid-19 houve resposta das células T ao novo coronavírus. Em outro, publicado na Science, foram descobertas células T reativas ao SARS-CoV-2 em amostras colhidas antes de 2019. Fazendo testes específicos, os cientistas identificaram que havia uma relação com contaminações por quatro outros coronavírus: OC43, 229E, NL63 e HKU1. Nenhum dos dois estudos confirma que a mera existência dessas células T garantiria imunidade à covid-19, mas suas conclusões podem ajudar a entender as diferenças no impacto da doença entre indivíduos com perfis semelhantes.

OS JOVENS NA PANDEMIA

Pessoas que têm entre 15 e 24 anos já representam 15% das infecções conhecidas pelo novo coronavírus. A marca foi atingida em julho e significa um salto e tanto quando levamos em consideração que essa proporção era de 4,5% em fevereiro. Também há crescimento das contaminações na faixa etária que vai dos cinco aos 14 anos, com um salto de 0,8% para 4,6% no mesmo período. Os dados são da OMS, que credita o fenômeno à preocupação menor com o vírus entre os jovens.

“COVIDÁRIO”

Em menos de um mês, o número de infecções registradas entre funcionários da Presidência da República aumentou 65%. O boom coincide com o diagnóstico do próprio presidente Jair Bolsonaro, confirmado em 7 de julho. Pouco antes, no dia 3, havia 108 registros. No dia 31 de julho, já eram 178 casos. Isso significa que 5% das pessoas que trabalham por lá já foram contaminadas. Segundo O Globo, alguns servidores apelidaram o Planalto de “covidário”. Ironicamente, ontem Jorge Oliveira se tornou o oitavo ministro diagnosticado com o vírus. Ele é o titular da mesma Secretaria-Geral da Presidência que divulgou os dados.

HISTÓRIA SEM FIM

Com 96.096 óbitos e 2.808.076 casos conhecidos de covid-19, o Brasil está há 15 semanas com contágio acelerado. Nos últimos sete dias, a média de mortes diárias foi de 1.066 (ontem foram 1.394 novos registros), o que nos leva à sétima semana consecutiva com a média acima de mil.

E Eduardo Pazuello tem cobrado da equipe técnica do Ministério da Saúde que a divulgação dos dados nacionais seja feita com “ressalvas”: “Todas as santas vezes que o Ministério falar de dados de Brasil, eu quero a ressalva. Todas as vezes. Abriu a planilha, eu quero a ressalva. Todas as vezes que falar de dados do Brasil eu quero a ressalva regional. Tá bom? Obrigado”, cobrou, em reunião da equipe com secretários estaduais e municipais de saúde. Errado, não está: as diferenças regionais são importantes, e a relativa estabilidade da curva brasileira (com casos e mortes crescendo, mas numa taxa mais ou menos constante), esconde que há estados onde o vírus se espalha aceleradamente. Pegando apenas os óbitos – que são um sinal tardio de aceleração dos contágios –, em 11 unidades federativas há tendência de alta enquanto há estabilidade em sete, e queda em nove. Mas, para Pazuello, a “ressalva” não serve para aumentar o cuidado nos locais críticos… E sim para evitar a adoção de “medidas drásticas” onde há melhora dos números.

Em tempo: Pazuello chegou ao Ministério como número dois da pasta durante a curta gestão de Nelson Teich. Precisou ter aulas sobre o funcionamento do órgão que, semanas depois, começaria a chefiar interinamente. Quanto Teich pediu demissão, o general dizia que seu prazo no cargo seria de três meses – que já passaram. Pazuello tem afirmando, agora, que sua “missão” ainda não terminou.

É TEMPO DE COMEMORAR…

Pouco importa a tragédia sanitária do país: o governo federal anunciou ontem que vai acontecer em setembro a segunda edição da “Semana Brasil” – a Black Friday tupiniquim–, com 11 dias de promoções. O objetivo, claro, é aquecer a economia. Mas a escolha de palavras da Secretaria de Comunicação da Presidência não poderia ter sido pior: “Será a primeira data comemorativa do varejo após a reabertura do comércio“, diz a nota de divulgação.

BAIXA ADESÃO

O programa de manutenção de empregos (com redução de jornadas e salários) tinha R$ 51,6 bilhões reservados em orçamento, mas só R$ 16,5 bilhões (ou 32%) foram efetivamente desembolsados. O valor foi usado para complementar o ganho de quem teve sua renda reduzida, mas a execução foi considerada baixa pelo TCU – ainda mais levando em conta que o programa teria inicialmente vigência de três meses, um período que já terminou. Os números indicam uma baixa adesão do empresariado. E o relatório do Tribunal ainda aponta possíveis fraudes, como pagamento a pessoas mortas e casos de trabalhadores recebendo por múltiplos vínculos em uma mesma empresa.

PRESSÃO, MAS DE OUTRO TIPO

A FenaSaúde, que representa as maiores operadoras de planos e seguros de saúde do país, patrocina desde o ano passado uma investida para flexibilizar as regras do setor. O projeto, apelidado de “Mundo Novo”, propõe mudanças que prejudicam o consumidor, segundo diversas entidades. Com a crise econômica gerada pela pandemia, a FenaSaúde quer emplacar a passagem da sua boiada na lei dos planos. Embora não seja o destaque, esse recado está em uma reportagem publicada pelo jornal O Globo hoje.

O foco da matéria é a perda recorde de consumidores. Nos meses de abril e maio, 280 mil pessoas se descredenciaram dos convênios, e as razões mais prováveis são o desemprego e a queda na renda. Por isso mesmo, a expectativa é que os dados de junho sejam igualmente ruins para o setor. Indo além, a reportagem liga esses números a uma tese: o SUS correria o risco de ficar “sobrecarregado”.

Daí, decorrem algumas ‘soluções’ para que isso não aconteça. A diretora-executiva da FenaSaúde, Vera Valente, aparece defendendo o “Mundo Novo” embalado para presente como uma “proposta para ampliar modalidades de planos, para maior acesso”. A pesquisadora do setor Ligia Bahia (UFRJ), por sua vez, aponta que as empresas do setor não se mexeram para evitar a perda de beneficiários. “Por que as empresas não diminuíram mensalidades?”, questiona, lembrando que as companhias também poderiam ter optado por não expulsar os consumidores inadimplentes durante a pandemia. Já Gonzalo Vecina, da USP, propõe que o SUS melhore, que se faça mais investimentos no Sistema para que ele possa absorver um contingente que antes não recorria ao serviço público para a maior parte dos atendimentos médicos, exames e cirurgias.

Nós por aqui alertamos que a solução da FenaSaúde para recuperar clientes é vendida como uma forma de ‘diminuir a pressão’ sobre o SUS mas, de acordo com analistas, tem tudo para resultar no contrário. Além de tirar da ANS o poder de decidir quais procedimentos entram ou não no rol obrigatório, as empresas querem fragmentar a cobertura dos convênios. Hoje, eles devem cobrir todos os problemas de saúde, emergências em regime ambulatorial e hospitalar e ainda todas as ações necessárias para tratamento e reabilitação. Pelo projeto, as empresas poderiam vender módulos sem cirurgias, por exemplo – o que empurraria de qualquer forma esse tipo de procedimento mais caro e complexo para o SUS.


MAÍRA MATHIAS E RAQUEL TORRES
Maíra Mathias e Raquel Torres são editoras do Outra Saúde.

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