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A sórdida campanha contra os servidores avança

A maioria deles ganha pouco, até dois salários mínimo. Na pandemia, endurece perseguição difamatória promovida pelo empresariado – simplesmente por defenderem setor público, melhores condições de trabalho e o direito à quarentena.

Do OUTRAS PALAVRAS, 21/08/2020

por José Álvaro de Lima Cardoso

Já há muitas décadas existe no Brasil (e no mundo) uma campanha contra o serviço público, desdobrada em combate permanente às estatais e as estruturas públicas, de uma forma geral. Essa campanha é especialmente dura contra o funcionalismo público. A onda neoliberal que começou a varrer o mundo a partir dos anos de 1980, rebaixou o Estado em geral à condição de culpado de todos os males do mundo. Essa onda praticamente começou, mais fortemente, em 1979 com a assunção de Margareth Thatcher no governo do Reino Unidos e se reforçou com a eleição de Ronald Reagan nos EUA, em 1981. As primeiras eleições pós ditadura no Brasil, em 1989, já tiveram como uma das suas tônicas principais a demonização do Estado e do funcionalismo público. Para tanto, a burguesia brasileira construiu em alguns meses, um “caçador de marajás” que iria salvar o Brasil de todo o mal, Fernando Collor de Mello.

Com o golpe de Estado no Brasil em 2016, coordenado pelos EUA, em conluio com conspiradores internos, somado à fraude eleitoral de 2018, que alçou a extrema direita ao núcleo do poder, os ataques ao setor público no Brasil foram elevados à décima potência. O governo Bolsonaro trata todos os trabalhadores como inimigos. Mas, dentro da classe trabalhadora o funcionalismo público é o inimigo principal. Esse sentimento pode ser ilustrado pela linguagem metafórica que Paulo Guedes utilizou na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, quando se referiu à proposta de suspender por dois anos os reajustes salariais de servidores públicos: “já colocamos a granada no bolso do inimigo”. Essa pérola pode ser apreciada em vídeo disponível na internet.

A grande imprensa em geral desenvolve, historicamente, uma campanha diuturna contra o funcionalismo público e para isso, se utiliza de todos os instrumentos. Esse ataque é tão sistemático, que influencia fortemente, inclusive, alguns sindicatos do setor privado e suas respectivas bases. Imaginem um entregador de comida por aplicativos, que precisa trabalhar 10 horas diárias para apurar uma renda mensal de R$ 1.500,00, (seco, sem carteira assinada e sem benefícios), assistir na TV que o auxílio-moradia de um juiz (R$ 4.377,73) equivale a três meses de salário dele. A tendência é este trabalhador supor que esta é a condição do servidor público, em geral. Na cabeça desse trabalhador, tal distorção explicaria, inclusive, a razão do teu salário ser tão baixo. A matéria da TV ou do rádio, ou não mencionam, ou esse trabalhador hipotético não pararia para escutar, que metade dos servidores no Brasil ganha menos de R$ 2,7 mil por mês, brutos (ou seja, antes dos descontos).

Os ataques sofridos pelo setor público ocorrem em várias frentes: mentiras e distorções disseminadas à vontade, tentativa de privatização de tudo que é público, venda de ativos das empresas públicas a preço de banana, destruição dos direitos do funcionalismo, e assim por diante. Esta campanha contra o setor público, que inclusive faz parte de uma articulação internacional, visa colocar o Estado exclusivamente ao serviço dos ricos. Por uma série de fatores, sabe-se que os servidores públicos no Brasil detêm uma boa capacidade de organização e mobilização, o que significa também uma razoável condição de oposição aos privatistas de uma forma geral. Por isso querem destruir as organizações sindicais em geral, mas especialmente as estruturas sindicais que organizam as lutas dos trabalhadores do setor público.

No Brasil o ataque aos servidores públicos está ligado também à pressão para que saiam do isolamento social decorrente da pandemia, já que essa é a orientação da burguesia no mundo todo. Os EUA e o Brasil são o epicentro da doença no mundo, com cerca de 40% dos doentes e 36% das mortes no conjunto do globo, somados. E a orientação do Capital no mundo todo é “primeiro os lucros, depois as vidas”! Os bocas-alugadas do capital, em todo o Brasil, têm se mostrado muito irritados com a minoria de trabalhadores públicos que ainda está conseguindo se proteger da doença através do isolamento social. Seguem as ordens de seus patrões, que querem que os trabalhadores assumam os seus postos, ignorando os riscos de contaminação. Como os donos do dinheiro, e muitos dos seus porta-vozes, não trabalham mesmo, fica fácil mandar os outros assumirem seus postos.

O setor privado no Brasil, na prática, já saiu do isolamento social, assim como uma parcela expressiva também do setor público. A pressão é para que o setor público saia também totalmente do isolamento, independentemente do risco que isso signifique para os servidores e seus familiares. Existe, por exemplo, uma campanha contra os professores, que estão sendo acusados de “ganhar em casa sem trabalhar”, de ficar fazendo uma “boquinha” em casa com salários garantidos, e assim por diante. Evidentemente o objetivo é jogar a população contra os servidores, como se estes fossem culpados pelo isolamento social decorrente da covid-19.

Os bocas-alugadas do capital, os políticos de partidos de direita, e os grandes empresários, que puxam a campanha para os servidores saírem do isolamento, obviamente estão bem protegidos da doença. Trabalham em casa, contando com todas as condições possíveis de resguardo. Quem sofre os ataques são justamente os servidores públicos, que estão na linha de frente do combate à Covid-19, lutando contra o vírus, a falta de condições de trabalho e em constante risco de contaminação. São trabalhadores que estão na linha de frente da guerra à doença. Muitos deles, inclusive, sacrificando a própria vida.

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