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A ciência econômica e seus abismos frente aos problemas contemporâneos

Do IHU, 14 Agosto 2020
Por Isaac Enríquez Pérez


“Regida pelo pressuposto de um homo œconomicus imaginário, a-histórico, eterno, desvinculado da dimensão territorial/ambiental e dotado de uma suposta racionalidade ilimitada, a teoria econômica convencional se perde na areia movediça da era da incerteza. Essa abordagem teórica da ciência econômica, em sua modelagem, torna o ser humano um ciborgue a-histórico e comercializado que compra, vende e maximiza os lucros, como se não houvesse poder, política, sentimento, o poético, o lúdico, o desperdício, as decisões e comportamentos artísticos, religiosos e irracionais”, escreve Isaac Enríquez Pérez, sociólogo e economista mexicano, da Universidade Nacional Autônoma do México, em artigo publicado por Tercera Información, 13-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

As ciências econômicas não são apenas um discurso acadêmico, dotado de uma linguagem sofisticada e especializada, e adornado pela modelagem matemática. São também um conjunto de referências teóricas/éticas/ideológicas e um conjunto de prescrições sobre a realidade social, que incidem - direta ou indiretamente, em maior ou menor medida - na construção do poder e na tomada de decisões públicas. Dessas referências, derivam diretrizes normativas que modelam cursos de ação, comportamentos e processos ou estratégias de intervenção na realidade e em seus problemas. Portanto, em princípio, não são ciências neutras ou objetivas como as ciências físicas se orgulham de ser, mas são disciplinas interessadas, pois estão repletas de traços éticos e ideológicos. Apesar da arrogância dos economistas.

Nesse sentido, pode-se argumentar que não existe uma teoria econômica monolítica, mas que existem múltiplas e diferentes teorias econômicas que bem poderiam se complementar, mesmo que seja delas a que se erige no ‘mainstream’, na corrente hegemônica que tende a subsumir e ignorar o restante, após delinear sua superioridade científica. Ressalte-se ainda que o econômico não se refere exclusivamente à relação custo/benefício, ao agito e à simples ação de compra/venda.

Não apenas invadida pelo autismo que corrói suas entranhas e a afasta de outros saberes e disciplinas, a teoria econômica convencional - nos referimos à teoria neoclássica das escolas anglo-saxãs de economia, negócios e finanças - é ultrapassada pelo futuro incerto e volátil de eventos históricos e é incapaz de explicar a origem e o comportamento das crises econômicas contemporâneas. Essa teoria econômica atinge tal nível de sofisticação que se esquece - deliberadamente ou não - de estudar a realidade social como um todo e de atender às suas dimensões histórico/geográficas.

Apesar de suas deficiências preditivas e suas limitações teóricas para explicar um grande número de fenômenos (subdesenvolvimento, extrema desigualdade, injustiça social, pobreza, fome, as recorrentes crises do capitalismo, crescimento econômico insuficiente, desemprego, entre outros) que afetam o cotidiano dos cidadãos, a teoria econômica convencional sofre com a arrogância, a jactância e a complacência de quem a exerce acadêmica e profissionalmente.

Revestidos da aura da cientificidade objetivista, encobrem, invisibilizam e distorcem o caráter histórico da práxis econômica, as relações de poder que fundamentam o processo econômico, as condições de exploração como gênese da desigualdade econômica, as contradições da ilusão de progresso, o caráter consubstancial ou inerente das crises no capitalismo, a relação contraditória e predatória entre sociedade/natureza e o colapso climático, bem como a gênese de guerras e conflitos internos.

Além disso, persistem várias inadequações entre a teoria econômica convencional e os fatos históricos. De tal forma que, como corrente principal, faz de seus pressupostos um dogma inquestionável e imutável que tem precedência sobre a realidade para prever o comportamento humano. Por exemplo: o autismo da teoria econômica convencional recai no tratamento da pobreza a partir de uma perspectiva quantitativa e paliativa, ao mesmo tempo que elimina as relações de exploração, exclusão social, estratificação e poder inerentes ao capitalismo.

Incapazes de prever e explicar a crise econômico-financeira de 2008/2009, os representantes dessa profissão que entronizaram seu discurso nos meios de comunicação de massa, instalam - neste 2020 - a ideia de que a pandemia de coronavírus SARS-CoV-2 foi a causa da crise da economia mundial.

Culpar um minúsculo patógeno, novecentas vezes menos que a largura de um fio de cabelo e com letalidade de 1% (os diferentes tipos de câncer causam, anualmente e no mundo, a morte de 9,6 milhões de pessoas), de mais uma das manifestações da crise estrutural do capitalismo, não só é irresponsável, como carece de toda honestidade e mínima validade e cientificidade. Ou seja, como argumentamos em outro espaço, a crise epidemiológica global foi incubada na mesma crise sistêmica e ecossocial do capitalismo.

Além disso, em suas pretensões de cientificidade, a teoria econômica neoclássica se enredou nas prioridades próprias das técnicas administrativas e de gestão. Além disso, essa teoria econômica tende a se preocupar mais com a psicologia modelizável do consumidor e do empresário do que com o sentido e a lógica do processo econômico em seu conjunto.

Regida pelo pressuposto de um homo œconomicus imaginário, a-histórico, eterno, desvinculado da dimensão territorial/ambiental e dotado de uma suposta racionalidade ilimitada, a teoria econômica convencional se perde na areia movediça da era da incerteza. Essa abordagem teórica da ciência econômica, em sua modelagem, torna o ser humano um ciborgue a-histórico e comercializado que compra, vende e maximiza os lucros, como se não houvesse poder, política, sentimento, o poético, o lúdico, o desperdício, as decisões e comportamentos artísticos, religiosos e irracionais. Daí seu autismo e sua violência epistêmica.

Obcecada pelo equilíbrio e pela eficiência econômica, coloca o dogma da competição perfeita em primeiro lugar, porque sem estabilidade é impossível sustentar seus modelos econométricos. Evitando, com isso, o conflito social e a(s) violência(s) que estão por trás do processo econômico e da acumulação de capital, bem como o desequilíbrio inerente ao comportamento e à dinâmica do capitalismo. Ou seja, contradição e mudança social - mas não o equilíbrio defendido por uma economia neoclássica, que mais se parece com uma economia termodinâmica - são as características fundamentais do processo econômico.

O isolamento dos economistas convencionais e a crença de que sua ciência é acurada e mais rigorosa do que outras, não só abre um fosso com a própria realidade, mas também com a possibilidade de realizar diálogos interdisciplinares com vistas a subsidiar decisões sobre problemas públicos. Esses profissionais interessados em pequenos problemas suscetíveis de modelagem matemática - regidos pelo infundado pressuposto da escassez -, depois de se descontextualizarem das relações de poder, das instituições e da análise histórica, acabam não dando resposta aos grandes, imediatos e cotidianos problemas sociais entorno dos quais se questionam - e angustiam – os cidadãos comuns.

Para esses economistas –formados no paradigma das universidades anglo-saxãs–, o mercado –a intersecção das curvas de oferta e demanda– e sua soberania é o principal mecanismo de alocação de recursos e de ordenamento das relações sociais. Ao contrário da economia política clássica e da crítica da economia política, que baseava seus trabalhos na necessidade de compreender os fenômenos econômicos para melhor explicar o conjunto da sociedade, a teoria econômica convencional afirma ser asséptica e distante do resto das ciências sociais.

Tergiversando a metáfora da mão invisível introduzida por Adam Smith em sua obra fundadora A Riqueza das Nações, essa forma de ciência econômica nega as funções econômicas do Estado e o papel das instituições na busca da equidade social. Abrindo assim falsos dilemas que rompem a história do pensamento econômico, bem como do desenho e exercício da política econômica: Estado ou mercado?. Ou melhor: mais Estado ou mais mercado na vida social? Inflação ou pleno emprego? Gastos públicos ou austeridade fiscal? Eficiência econômica ou igualdade social? Esses falsos dilemas são, essencialmente, dilemas dados por juízos de valor e pelo viés ideológico que predomina entre aqueles que os levantam.

Essa utopia do mercado autorregulado é a eterna enteléquia que a ciência econômica convencional tenta justificar para omitir a relevância da práxis política e das funções estratégicas do Estado relacionadas à distribuição da riqueza e o caráter contraditório do progresso.

Os economistas convencionais não têm respostas minimamente estruturadas em relação aos principais tópicos temáticos de sua disciplina. E não por ignorância –embora não sejam poucos os que a padecem e lapida suas mentes –, mas pela obstinação ideológica que está na base dos seus pressupostos e que – como agremiação profissional– os posiciona em uma situação insular.

O fato de estarem errados em suas teorias não é apenas uma questão de preocupação estritamente acadêmica e intelectual, mas também tem implicações sociais, na medida em que sua disciplina afeta as decisões públicas e cursos de ação. Ou seja, o tratamento desta questão não é trivial, uma vez que o trabalho dos economistas convencionais - especialmente aqueles ligados às decisões e ao poder público - não dão frutos em termos de soluções que os cidadãos esperam para os problemas públicos mais urgentes.

Isso significa que as populações sofrem os efeitos negativos de prescrições baseadas em pressupostos infundados que se afirmam universais e carecem de um mínimo de trabalho empírico quanto às especificidades dos problemas públicos e às diferenças e singularidades no modo de vida entre uma sociedade e outra. Por exemplo, se a austeridade fiscal for prescrita em economias nacionais com cenários recessivos, os impactos serão severos no declínio do crescimento econômico, do emprego e dos indicadores de "combate à pobreza". Serão mais ainda em sociedades que passam por crises institucionais.

Diante de um mundo incerto e cheio de labirintos que levam à confusão, representantes da grande corrente da economia, como Richard B. Freeman - professor da Universidade de Harvard - apontam que no crescimento de uma economia nacional, “a sorte parece tão importante quanto à política econômica”. Afundada na resignação após apelar à sorte, a teoria econômica convencional assemelha-se mais ao oculto do que à sistematização e ao rigor metodológico na construção do conhecimento científico. Por sua vez, isso mostra que a história do pensamento econômico sintetiza as disputas ideológicas que fundamentam os arranjos sociais em torno da distribuição da riqueza. A teoria econômica convencional - neste sentido - é o resultado de uma correlação de forças ideológicas próximas ao poder e que naufragam na ficção, no misticismo e no autismo.

Cabe assinalar também que a teoria econômica neoclássica é a expressão mais completa da práxis científica que esconde sua ideologia para construir poder e influenciar as decisões públicas. Nisso é crucial tornar invisíveis e silenciar vastas porções da realidade social.

Em linhas gerais, o dogmatismo e a crença em uma ciência econômica unificada nos leva a ignorar outras visões em torno dos problemas contemporâneos, a fim de legitimar um sistema econômico e um processo de (des)civilização que, em si, implica em exclusão, opressão, depredação da natureza e ausência de democracia. Não só a economia mundial contemporânea está em crise, mas também a ciência econômica que a estuda, sem grande capacidade de desvendar sua essência e dinâmica.

Ao fazer um exercício de pensamento crítico construtivo, para abrir a ostra da teoria econômica convencional, é necessário que seus acadêmicos e profissionais aprendam a dialogar com outras tradições de pensamento (keynesianismo, institucionalismo, marxismo, estruturalismo latino-americano, etc.) e, ainda, a beber dos avanços que estão se formando dentro de seu próprio paradigma, pensemos nas contribuições neoclássicas de Amartya Sen, Joseph E. Stiglitz, Dani Rodrik, entre outros.

Sem esse diálogo em seu interior, seriam impensáveis outros diálogos multidirecionais com disciplinas como sociologia, ciência política, relações internacionais, história, antropologia, entre outras, que buscam construir respostas em torno dos grandes problemas da humanidade. É preciso também romper os laços de seus pressupostos restritivos e o grilhão imposto pelo individualismo metodológico. Diante do orgulho, do complexo de superioridade e da cegueira ideológica, é necessário colocar a honestidade, a modéstia e a humildade socrática em primeiro lugar, caso contrário, a sexta extinção delineada pelo colapso do clima e pela fome imposta pelo desemprego em massa, acabará lapidando as sociedades humanas.

Que o presente e o destino que a humanidade está forjando se baseiem no que um economista sussurra aos ouvidos de governantes e planejadores, é para chamar a atenção e submetê-lo à reflexão, análise e escrutínio. Portanto, é possível argumentar que se a economia não dialoga com outras disciplinas, continuará a omitir vastas partes da realidade social e não superará sua condição de autismo induzido.

Se qualquer teoria social, política ou econômica não começar por se questionar em seus fundamentos, postulados, suposições, contribuições, alcance e limitações, não será capaz de se recriar, nem de responder às grandes questões que os problemas públicos levantam. Além disso, sem um exercício de pensamento crítico sobre si mesma, toda ciência será um corpus teórico inerte, petrificado e distante do mundo fenomênico. E se isso acontece, o conhecimento não só se transforma em dogma, mas em uma lápide que cega a própria academia e as elites políticas que tomam as decisões públicas.

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