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17.08.20 – DO DATAFOLHA AO DIAGNÓSTICO DE SAFATLE — E ALÉM

Melhor que decretar a morte da esquerda brasileira é examinar as causas de sua impressionante paralisia. E buscar, em meio à pandemia e ao caos econômico, caminhos para recriá-la.

Do Outras Palavras, 17/08/2020

Por Antonio Martins | Imagem: Hugo Simberg, O Jardim da Morte

Há duas maneiras de analisar a última pesquisa Datafolha, segundo a qual a aprovação a Bolsonaro cresceu, e parte expressiva da população (42%) não enxerga, na negligência do presidente, nexo com os 106 mil mortos pela covid 19. A primeira forma é acreditar numa espécie de exceção antropológica. Em muitas partes do mundo – do Chile aos Estados Undios; da Bolíva a Israel e à Bielorrúsia, as sociedades continuam a se mobilizar ou a disputar os futuros pós-pandemia. O filósofo Noam Chomsky chegou a falar, em entrevista que Outras Palavras traduziu, numa luta de classes em escala global. Por um conjunto de motivos, porém, o povo brasileiro teria se apassivado. Esta hipótese é uma espécie de versão de esquerda do “complexo de viralata” – a crença, por parte das elites colonizadas, de que nossa sociedade é inferior às europeias.

A segunda trilha é buscar na própria esquerda as razões da paralisia atual. No início do ano, o filósofo Vladimir Safatle diagnosticou, num artigo brilhante e desbravador a “morte” desta corrente. Mas a atribuiu ao populismo, um fenômeno que talvez não tenha estudado a fundo; e seu parecer categórico não foi acompanhado por pistas sobre os caminhos para uma possível recriação. Seja como for, no período crucial da pandemia, três marcas têm se aprofundado, nas correntes que se consideram “progressistas”: burocratização, desatualização facutal e programática e estreiteza de horizontes. As três estão intimamente interligadas.

A burocratização escancara-se no episódio do Auxílio Emergencial. Os R$ 600 não foram propostos pelo governo, que desejava um terço deste valor – e precisou curvar-se ao Congresso, onde teve grande papel a Rede Brasileira pela Renda Básica. Mas, passado este primeiro momento (em que se mobilizou, por exemplo, a pressão de centenas de youtubers), o debate logo reduziu-se aos corredores acarpetados do Legislativo. Sem polêmica, Bolsonaro assumiu facilmente a falsa paternidade pelo benefício, favorecido pelo senso comum segundo o qual era “dinheiro do governo”.

Não faltam, por parte da esquerda, projetos de lei em favor de prolongar o Auxílio Emergencial. Cada partido apresentou o seu: um ou mais. Mas não houve – nem nos momentos (muitos) em que Bolsonaro hesitou, temeroso de contrariar Paulo Guedes e a oligarquia financeira – a polêmica, o diálogo com a sociedade, a pedagogia política. A pandemia é um limitador, mas não absoluto. No Chile, neste mesmo período e em condições igualmente difíceis, um pequeno grupo de legisladores da Frente Ampla foi capaz de desencadear, nas redes e nas ruas, uma mobilização vitoriosa contra o regime privado de aposentadorias e o governo Piñera.

Burocratização anda de mãos dadas com desatualização factual e programática. É notável como não surgem, nem na fala e muito menos na ação dos personagens mais expoentes da esquerda, sinais de que estejam a par de fatos e ideias políticas contemporâneas. A reemergência da Teoria Monetária Moderna, por exemplo, que rompe de forma radical com o tabu segundo o qual “os Estados apenas podem gastar aquilo que arrecadam”. Ou mesmo os sinais de que até mesmo os políticos conservadores estão rompendo com esta ortodoxia, quando se trata de emitir dinheiro para salvar bancos e corporações, ou mesmo de distribuir algum dinheiro para amortecer os efeitos da crise e evitar a revolta social.

E esta desatualização prolonga ao infinito a ausência de horizontes. O projeto que manteve a esquerda no governo por 13 anos entrou em crise já no primeiro mandato de Dilma, quando fechou-se a janela de oportunidades internacional que lhe dava fôlego. Foi este esgotamento que abriu a brecha para o golpe de 2016. Mas, ao invés de atentar para sua própria insuficiência, a esquerda parece cultivar interminavelmente um passado que não voltará. Daí seu olhar sempre no retrovisor, nos tempos bons que ficaram para trás.

Parece não ocorrer aos partidos de esquerda que há enormes possibilidades no futuro; que a crise sanitária e econômica expões as vulnerabilidades do capitalismo. Ainda menos sensíviveis eles parecem às alternativas que emergem – inclusive devido à quebra do dogma segundo o qual as sociedades estavam sujeitas ao poder e aos desígnios financeiros dos mercados. Renda Básica Universal. Garantia de Emprego Digno. Redução da Jornada de Trabalho. Desmercantilização dos serviços públicos e ampliação radical do espaço do Comum. Virada Sócio-Ambiental (Green New Deal). Nada disso parece entrar no repertório dos partidos, de suas estruturas enferrujadas, de suas bancadas parlamentares – onde as poucas (e valorosas…) exceções confirmam a regra. Todo o esforço parece se concentrar no eleitoralismo, no cada-um-por-si, na lamentantação melancólica.

* * *

A pesquisa Datafolha é dolorosa porque expõe uma enorme oportunidade perdida. Mas seria ainda pior acreditar que as favas estão contadas, que Bolsonaro já venceu a narrativa sobre a pandemia. Erros cometidos são erros corrigíveis. Breve, irão abrir-se novas brechas, inclusive porque o conflito entre os interesses da oligarquia financeira e as necessidades políticas do “capitão” tende a crescer. Uma grande contradição aparecerá em breve: a que opõe dezenas de milhares de empresas em risco de quebrar (e, portanto, de iniciar demissões em massa) e a ausência de auxílio financeiro a elas – no país em que as taxas de juros na ponta ainda são escandalosamente superiores às médias internacionais.

Há em especial, distante da dinâmica dos partidos e desencantada com ela, uma cultura de esquerda que não está morta. É diversa. Formou-se ou nas lutas sociais que permitiram o surgimento dos governos de esquerda; ou, mais recentemente, nos movimentos que contestam o capitalismo voltando-se contra suas faces patriarcal e racista – tão opressoras no Brasil. Esta cultura de esquerda comparece, sempre que convocada. Ela ainda crê exageradamente nas referências que foram importantes nas décadas passadas, mas que estão cansadas e perdidas.

Como reanimá-la, sem contar com estruturas necessárias? Como reinventar estas estruturas? Responder a estas questões é o grande desafio de hoje.

ANTONIO MARTINS
Antonio Martins é editor de Outras Palavras.

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