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Virá a 2ª independência da América Latina?

Sai no Brasil mais um livro de Fernando Martínez, pensador cubano revolucionário e crítico. Na obra, caminhos para romper o presente petrificado do neoliberalismo — com ênfase na imaginação e renovação do pensamento político.

Do OUTRAS PALAVRAS, 23/07/2020

por Luís Felipe Machado de Genaro

Oportuno momento em que a Editora Expressão Popular compilou uma série de textos do filósofo e advogado cubano Fernando Martínez Heredia, organizados por Olivia Caroline Pires e Ronaldo Pagotto, na obra Socialismo Como Alternativa Aos Dilemas da Humanidade. O livro chega em meio a uma das maiores crises sanitárias e políticas brasileiras, num dos contextos mais sombrios da História do capitalismo globalizado.

Participante da Revolução Cubana de 1959, intelectual e professor ativo até o fim de sua vida, em 2017, Heredia escancara em seus escritos os males atrozes do capitalismo financista e transnacional – parasitário, como descreve – que não oferece qualquer alternativa ou futuro digno aos latino-americanos (e ao restante do mundo). Nada diferente do que vivemos atualmente.

Dentro do sistema capitalista tal como nos encontramos, presos em um eterno presente, onde sonhos e utopias não mais existem por que assim uma minoria proprietária o quis, não ocorreriam maiores transformações ou surgiriam diferentes formas de governo e participação política. Viveríamos na era do consenso neoliberal total num “estado de exceção permanente” onde classes dominantes regionais e a grande elite mundial teriam, finalmente, colocado o ponto final na História.

Pobres daqueles que acreditaram em tamanha farsa, escreve Heredia, com otimismo. Apesar do saqueio secular, do parasitismo financista e do leque extenso de revezes, não existe como parar o motor da História. Focado nos rumos latino-americanos e seus momentos de rebeldia em detrimento ao Velho Mundo, afirma sem rodeios que aqui na América Latina sempre existiu uma pulsão criadora e revolucionária: aqui, a ordem do capitalismo “não pode reinar em paz”. “Revolucionários (latino-americanos) lutavam pelo governo do povo desde muito antes do liberalismo europeu se decidir aceitar e utilizar sua democracia”.

Martínez Heredia não deixou de se engajar em ideais e projetos revolucionários, mas acreditava serem difíceis de se erigirem frente a hegemonia neoliberal, principalmente após a década de 1970, possuindo inúmeras contradições internas, encontrando barreiras e obstáculos quase intransponíveis (a “onda rosa” de governos progressistas de 2000 a 2016 é evidência disso). Também era o sujeito que se colocava em seu devido lugar. Passou a vida como professor de Filosofia da Universidade de Havana, escrevendo, debatendo e construindo o socialismo cubano. Em seus textos exclui análises exaustivas sobre Cuba, sem poupar críticas e comentários ácidos.

Aliás, seria interessante questionarmos, como fez Fábio Luís Barbosa dos Santos em sua obra Uma História da Onda Progressista Sul-Americana (2018), a razão para tamanho ódio contra a ilha cubana. Seria o sistema de lá “ineficiente”, detratam. Oras, “mas sob qual critério um Estado que abriga, alimenta, educa, cuida da saúde e defende toda a sua população em meio ao subdesenvolvimento é considerado ineficiente?”, escreve.

Em meio à miséria e o desemprego, precarização da vida em todos os seus sentidos, ameaças visíveis e invisíveis, desmonte de instituições “democráticas” e espaços públicos, como as Universidades federais no Brasil, para citar apenas um exemplo, além da verborragia diária de lideranças ignóbeis e odientas, corrupção escancarada e ligação estreita com esquemas paramilitares, o ataque deliberado a um país que envia médicos e não bombas a dezena de regiões periféricas com suas brigadas médicas durante uma pandemia beira a idiotice.

Há alguns meses escrevi neste espaço uma breve história das utopias e distopias em um alerta aos latino-americanos. Ventos bruscos estavam por vir em meio à tamanha agitação política e social. No Chile e Equador, protestos contra truculências e desmandos presidenciais, além do anseio chileno por uma Assembleia Constituinte; na Bolívia, o escancarado golpe de Estado paramilitar sustentado por Washington e a OEA, derrubando Evo Morales; no Brasil, a catástrofe corrosiva do desgoverno Jair Bolsonaro que toma proporções cada vez mais autoritárias; na Argentina e Uruguai, eleições apertadas, tensão política e revezes e conciliações outrora impensáveis. Isso sem contar as sanções e bloqueios econômicos cada vez mais estreitos do Império estadunidense contra Cuba e Venezuela.

Não tardou para que um acontecimento de proporções globais fizesse com que apertássemos o botão de emergência, trazendo à tona um perigo iminente de extinção global. Afinal, teríamos chegado ao clímax do Capital? “É pela própria natureza que este sistema é funesto para a maioria da população do planeta e para o planeta mesmo, e não pelas suas supostas aberrações, uma malformação que pode ser extirpada ou um erro que possa ser consertado”.

Hoje, a América Latina é uma das regiões no mundo que mais sofre com a pandemia. Imobilizados, ficam isolados em casa os que podem. Outros, impossibilitados de qualquer isolamento, continuam as suas vidas precárias entre a agonia do subemprego, o medo da morte e a total falta de horizontes de expectativa. Enquanto isso, as velhas classes dominantes permanecem parasitando, fazendo sangrar as veias abertas de um continente “que nunca foi”, da região que “poderia ter sido”.

Sujeitos onde o tempo os distancia, mas a região os une, tanto Martínez Heredia como o intelectual revolucionário peruano José Carlos Mariátegui e o brasileiro Barbosa dos Santos, citam em suas obras a ideia/conceito/profecia da “segunda independência” latino-americana, espécie de “segundo ato” histórico sempre carregado de um desejo profundo de integração regional. Todos influenciados nitidamente pelas “Veias Abertas” de Galeano, deixando claro que “não deve haver norte, para nós, senão por oposição ao nosso Sul”, como rabiscou anos atrás outro uruguaio, Joaquin Torres García. Todos, aliás, cambaleando entre a esperança revolucionária e o pessimismo agonizante.

“Os povos da América Latina caminham numa mesma direção. A solidariedade do seu destino histórico não é uma ilusão da literatura americanista. Estes povos, realmente, são irmãos não só na retórica, mas também na História”, escreveu Mariátegui em dezembro de 1924. Em 2018, Barbosa do Santos escrevia: “A integração latino-americana deve construir outro horizonte civilizatório, tendo os valores fundamentais a autodeterminação econômica, a soberania política, a integração social e a autorreferência cultural”. Outros pensadores e intelectuais revolucionários no correr do século XX ao início do XXI também colocaram em pauta a segunda independência como referência e horizonte políticos.

Se as independências ocorridas durante o século XIX não foram suficientes e as reformas e muitas revoluções abortadas pela repressão ditatorial no século XX também, é chegado o momento de repensarmos velhos conceitos, como a democracia radical e o socialismo libertário, e construirmos juntos novos contextos de libertação.

A segunda independência não ocorreria apenas no âmbito político, mas teria de se atrelar ao social e econômico de forma radical. Movimentos sociais dos mais diversos seriam seus protagonistas – dos Zapatistas em Chiapas, no México, aos movimentos de Sem-Teto, no Brasil. Um segundo ato de uma rebeldia canalizada contra as opressões diárias e uma classe dominante regional que jamais deixou de reinar sobre os corpos e a vida. Cultura política não falta aos latino-americanos.

Somente através de um maciço e articulado movimento de rebeldias que atravessariam as fronteiras do Cone Sul conquistaríamos a segunda independência, e com ela, a liberdade almejada. Barreiras impostas pelo sistema capitalista, onde somos impelidos a não imaginar alternativas possíveis, radicais, realmente democráticas, socialistas e revolucionárias, precisariam ser derrubadas.

Hoje, infelizmente, contamos com mais entraves: uma pandemia que nos ameaça a todo o momento, o crescente autoritarismo de governantes que abraçam e bailam com atitudes fascistas, e a ideia torpe de que não há mais futuro. Mesmo em agonia, imobilizados e atordoados num presente petrificado, é possível sim imaginarmos outra realidade. Heredia nos deixa aqui o seu otimismo: “recriar e criar o conceito de socialismo é um elemento fundamental para nós, diante do século XXI. Não o podemos criar somente a partir de nossos sonhos, mas não podemos criá-lo sem nossos sonhos”.

Temos o dever sagrado de não estarmos satisfeitos jamais, discursou certa vez um barbudo com os dedos apontados para o céu, em meio a uma grande tempestade, frente a uma multidão gigantesca. Foi do sonho de um novo mundo que ele e muitos outros companheiros triunfaram numa das maiores revoluções do século passado. E será de nossos sonhos que iniciaremos a “segunda independência”.


LUÍS FELIPE MACHADO DE GENARO
Historiador e professor, mestre em História pela Universidade Federal do Paraná.

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