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Seis anos sem Suassuna, o “erudito-popular”

O escritor que marcou nossa dramaturgia — em uma singela conversa após uma aula-espetáculo. Entre causos, o amor à cultura popular e seus vários “joão-grilos” — e um olhar singular sobre tecnologias, arte política e a identidade brasileira.
Do OUTRAS PALAVRAS, 23/07/2020

Em entrevista a Rôney Rodrigues | Ilustrações: Carol Ito

Ariano Suassuna afunda o corpo mirrado no confortável sofá do camarim, coça a garganta num huunrumm maciço e engole um pouco de saliva. Está cansado e sua voz soa mais rouca e senil depois de uma hora e meia de “aula-espetáculo”.

“Diga”, diz ele. “Diga o que você quer saber”.

Tento pigarrear algo sobre o que acabei de ouvir no auditório do SESC Pinheiros e os personagens picarescos de sua bibliografia, quem sabe fazendo “uma ponte” sobre considerações que Suassuna fez em entrevistas perdidas nos emaranhados do Google. Mas seus olhos estão distantes, parece que tudo está opaco e ele me interrompe antes mesmo que eu possa dizer algo. Vira-se para um repórter da Folha de São Paulo que estava saindo – e que o “segurou” por um tempo e, de certa forma, despertou cansaço no escritor.

“Olhe, na minha terra tinha um coronel que estava com um punhal e segurou um cabra pela orelha; e o cabra disse a ele: ‘me mate aqui, me sangre, porque eu prefiro morrer sangrando a morrer de tédio’. E vocês estão me sangrando aqui pra tirar a minha ultima gota de sangue”, e solta uma gargalhada. Acompanho o riso, sem graça. E o carinha da Folha se manda.

“Pode continuar”, se volta ele para mim.

“Não quero te sangrar tanto agora”, digo. Novamente ri. Forçado. Como se o sangue já estivesse saindo.

CACHORRO VINGATIVO

Suassuna tem memória de cachorro vingativo. Não sou eu quem diz, mas ele mesmo, e com orgulho. Lembra histórias detalhadas de mais de 60 anos atrás – talvez preenchendo com a imaginação alguns pedaços que o tempo insiste em retalhar -, entoa cantigas de sua infância e sabe de cor mais de vinte sonetos de Camões.

Tem um apreço especial pelos causos de sua gente, pessoas que não deixaram Suassuna sair incólume da juventude. Fala de Delfilia, Don’Ana e Delmar que lhe contava algumas das chamadas “cantigas velhas”, como o “Romance da Bela Infanta” e o “Romance de Minervina”, que o escritor engata de cor para a plateia do SESC. “Com essas mulheres do povo de Taperoá eu comecei a aprender cantigas que, às vezes, eram romances ibéricos sobreviventes. Veja só, passei a infância fazendo romance ibérico sem nem saber o que era isso”.

A sua infância em Taperoá também lhe despertou o gosto pela insanidade, na verdade, “uma admiração danada por doido, pela maneira muito original que veem o mundo”. Como Noel Bento, lembra ele, um disparatado conhecido da cidade que encostou misteriosamente a orelha em um muro e um par de pessoas parou pra saber que raios esse Noel estava ouvindo, até que um mais esquentado desandou a perguntar: “Que raios está acontecendo, não estou escutando nada”. “Psiu”, respondeu Noel Bento. “Desde manhã está assim”.

“Tudo na minha obra se passa dentro dos valores, das histórias e desses personagens que conheci até os 20 anos”, afiança, como se por uns segundos resgatasse esse tempo perdido e visse Noel, Delfina, Don’Ana, Delmar. “Eu considero a infância e adolescência a formação de todo escritor, ele passa a vida toda recriando essa magia”.

“RIOBALDO ABRAÇA JOÃO GRILO”

Era sempre assim: “Aqui está o Suassuna”, saudava Guimarães Rosa. “Aqui está o Rosa”, devolvia o escritor. Talvez uma maneira de prestar reverencia ou simplesmente um broma entre os dois. Vai saber. O fato é que Suassuna também gosta de lembrar com orgulho – “não, é por vaidade sim”, conserta em seguida – que Rosa lhe dedicou um poema: “Em tempo duro ou tranquilo,/ Riobaldo abraça João Grilo/ e já que a arte é vera e una,/ o Rosa abraça o Suassuna”, recita impostando a voz, com os olhos num ponto vazio do auditório. “Bonito, não é?”.

Apesar da amizade, falavam de sertões diferentes. O sertão do mineiro, segundo o próprio Suassuna, se parece mais com a Zona da Mata, ao contrário do seu, mais parecido com o de Euclides da Cunha. Mas ressalta que o seu sertão não vem carregado da “falsa ciência social europeia do século 19”, que Euclides da Cunha tanto prezava.

COMPUTADORES E CABRAS

Suassuna está se lixando se o mundo, ultimamente, só fala em computador e internet: só escreve a mão. É esse contato íntimo, o grafite arranhando o papel. Não é por princípio filosófico nem nada, já adverte, mas por prazer mesmo. E só. Meneia a cabeça quando alguém lhe aporrinha em louvar os prodígios da modernidade. “Nunca olhei a internet. A velocidade da comunicação não é coisa boa. Arte exige vagar e dedicação exclusiva”, diz o escritor, já se lembrando de outro de seus causos.

“Uma amiga minha foi botar meu nome no computador, que quando acha que alguma coisa está errada, recusa e sugere. Eu vou lá aceitar sugestão de computador?” conta ele. “Meu nome completo é Ariano Villar Suassuna. Botou Ariano, e o computador aceitou, foi colocar Villar, ele recusou e sugeriu vilão. Aí ela foi colocar Suassuna ele recusou e, não sei se por causa do número de S, sugeriu assassino. Meu nome no computador é Ariano Vilão Assassino. E dizem que eu sou inimigo dele. Ele que é meu” e arranca risos da plateia.

Hoje Suassuna tem uma criação de cabras no interior da Paraiba “com três cores: avermelhada, branca e preta; porque eu queria prestar homenagem às três cores iniciais da cultura brasileira: o negro, o índio e o branco”. E ministra suas “aulas-espetáculos”, apesar de preferir não ter que viajar de avião para isso. “Minha filha, vai me desculpar”, conta ele, que respondeu a uma comissária de bordo que lhe desejava boa viagem. “Mas não tem viagem boa de avião, não. Só conheço duas: as tediosas e as fatais. E eu rezo pra ser tediosa”.

O escritor também foi escolhido pelo Senado como “candidato oficial” do Brasil ao prêmio Nobel de Literatura. A indicação, feita pela Comissão de Relações Exteriores da instituição, aprovada em maio e encaminhada à Academia Sueca, será feita com colaboração do Itamaraty. O vencedor é anunciado em outubro, a partir de uma lista de cinco finalistas.

MISSA E SPORT

Antes de Suassuna, converso com Alexandre Nóbrega, espécie de “braço direito” do escritor e que o acompanha em suas “aulas-espetáculos”. Antes de mais nada, faz questão de ressaltar que o admira extremamente pela pessoa, qualidade da obra e quantidade de trabalho que ainda desenvolve. “Olhe, 12 anos trabalhando com Suassuna, há 21 anos casado com a filha dele e, de quebra, tenho um filho chamado Ariano. Preciso dizer mais alguma coisa?”.

Mesmo assim, pergunto:

“E em que ele está trabalhando no momento?”.

“Estamos trabalhando juntos em um livro. Você sabe, ele escreve a mão, não usa computador, e aí precisa de ajuda para ‘traduzir’ o que quer. É um livro que tem ilustrações em todas as páginas, sem exceção e tá na fase de arrumação. O texto tá pronto, mas ele tá num dilema, não queria que o livro fosse feito a ‘Pedra do Reino’, um livro muito grosso, não sabe se faz em um volume ou dois”.

O livro que Alexandre se refere é “O Jumento Sedutor”, uma homenagem a “O Asno de Ouro”, do escritor Lucius Apuleio [125-164, filósofo e escritor satírico romano], do século II. Porém, Suassuna escreve , e reescreve, e já deu por pronto tantas vezes que alega estar “desmoralizado” e não gosta de falar muito no assunto.

“A mancha do texto é pequena. Mas ele não decidiu nada ainda e acho que não vai decidir tão cedo. Ele me entrega. Depois toma. Entrega. Toma”, diz, rindo com a indecisão do escritor. “A tentativa é de unir tudo: a música, a prosa, as artes plásticas, a poesia, o cinema”.

“E ele trabalha muito?”.

“É muito disciplinado e trabalha diariamente. Mas uma coisa que ele sente muito, por causa do trabalho e também do incômodo do assédio, é não poder ir a jogo de futebol e na missa”.

“Ele é católico e Sport roxo, não é?”.

“Fanático! Você já ouviu Ariano contar a história do por que vestir esporte fino? Pede a ele, fala assim: ‘Suassuna, porque você sempre veste essa mesma roupa em apresentações…”’, diz Alexandre, segurando o riso com a história que vem.

COM QUE ROUPA SUASSUNA (SEMPRE) VAI

“O Alexandre, seu genro, está ali me ‘manipulando’ para que eu pergunte o porquê do senhor sempre vestir a mesma roupa em apresentações. Eu fiquei curioso para saber”.

“É por causa de Gandhi” desemboca a falar. “E Gandhi, não sei se você sabe, foi uma pessoa que sempre olhei com muito cuidado e com uma admiração muito grande. Ele libertou sua terra e expulsou os invasores sem disparar um tiro. Gandhi dizia que se um indiano que pertencesse às classes superiores como ele, mas que amasse verdadeiramente seu país, nunca vestiria uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando com os invasores; segundo, porque estaria tirando o trabalho das mulheres pobres da Índia, pois a costura era um dos poucos mercados de trabalho que elas tinham. E quando li isso que Gandhi disse, decidi: ‘Nunca mais eu boto paletó e gravata, principalmente pronto’”, afiança Suassuna.

Porém faz questão de completar:

“Mas eu não sou grande não e nem tenho as dimensões morais dele, só pedi a minha mulher para me apresentar a costureira dela, uma mulher chamada Edite Minervina de Lima. E Edite passou a fazer minha roupa. Pedi, então, mescla azul, caqui e branco; uma media da roupa de trabalho e um casaco como esse”, aponta, passando as mãos entre nas abas de seu blaser preto, mostrando-me.

“Quando eu fui eleito pela Academia Pernambucana de Letras eu não queria também chocar, iria sem gravata e resto todo com? Não. Então, eu chamei Edite e disse a ela: ‘Edite, eu quero que você faça uma roupa igualzinha a essa, mas preta’. Era para não destoar muito. Aí eu fui tomar posse com uma camisa branca e o pessoal não reclamou. E quando eu ia a Academia Pernambucana de Letras, eu ia assim. Aí o presidente Mário Soares, de Portugal [entre 1986 e 1996], me deu a medalha do Infante Dom Henrique e foi entregar no Recife. Quando eu recebi o convite para a cerimônia, tinha escrito: ‘Traje: Esporte Fino’. Meu Deus, o que é ‘esporte fino’, pensei comigo. Ai eu fiz uma brincadeira: o meu time é o Sport Clube Recife, as cores são preto-encarnadas, assim eu botei o casaco preto da Academia Pernambucana de Letras e uma camisa vermelha. E disse: ‘vou de Sport fino’”, ri Suassuna, satisfeito com sua molecagem.

“Você já tá gravando, é?”.

“Claro, já tá gravando”.

“Isso é pra entrevista? E você já me botou pra falar tudo isso? Pois bem. Quando ele me deu a medalha, contei ao auditório porque eu estava vestido assim e os portugueses deliraram e acharam bom. E assim fiquei usando o ‘Sport Fino’ como roupa de cerimônia e quando é uma cerimônia muito grande eu boto um medalhão”, completa. “Eu já dei uma entrevista pra essa revista, não dei?”.

“Sim e na ocasião do pedido de entrevista o senhor confundiu Caros com Caras e pediu ‘mais respeito’. Disse também que não fazia concessão em nenhuma circunstância”.

“E não faço mesmo. Eu procuro defender minhas ideias, mas não estou dizendo que estou sempre certo; posso estar errado, claro. O que eu digo é aquilo que eu acredito, não minto, estou acreditando que aquilo é certo. Então é uma coisa que pode até preocupar um pouco, porque eu realmente sustento a coerência e, portanto, tenho esse meu ponto de loucura. Mas eu tenho, pelo menos, a convicção e a paixão daquilo em que eu acredito”.

“Uma vez em ouvi alguém dizer que uma das melhores coisas para um artista seria gozar a posterioridade em vida. Me parece que isso está valendo para o senhor…”.

“Não!”, responde meneando a cabeça, resoluto. “Olhe, o escritor que vive e se envaidece da sua obra é um idiota”, e repete o idiota, sentindo cada silaba na boca: I-DI-O-TA. “Porque só o tempo é que pode mostrar algo. Você ouviu na aula-espetáculo que eu admiro Guimarães Rosa, não é? E admiro mesmo. Mas quando vou citar o caso de um escritor brasileiro que me toca, que me serve de guia e estrela de iluminação, eu cito Euclides da Cunha. Guimarães Rosa foi de ontem, eu o conheci, foi meu amigo e eu não sei se gosto porque fui contemporâneo dele. Enquanto que para Euclides da Cunha já se passaram cento e tantos anos de sua morte e da publicação d’Os Sertões, então, eu já posso dizer. O que posso dizer de Guimarães Rosa é que existe uma presunção de que o “Grande Sertão: Veredas” é um livro tão importante no Brasil quanto “Os Sertões”. Mas, quanto a esse negócio de posterioridade, tem que passar cem anos pra gente saber, eu estou vivo e nem essa presunção pode existir ainda”.

“Entendi. Uma vez o senhor falava sobre a unidade e a identidade do Brasil e atribuía isso a José Bonifácio…”.

“José Bonifácio deu aquela jogada inicial. Ele era um Sancho e Bolívar era um Quixote. E você veja só, a parte sonhada por Bolívar se fragmentou todinha. José Bonifácio deu aquela jogada genial: ‘vou fazer a independência do Brasil com o príncipe herdeiro de Portugal’. E foi isso que manteve a unidade do Brasil”.

“Mas se o senhor fala da jogada inicial, depois com a invenção da TV e a ditadura usando-a para a suposta unidade…”.

“Sim, é verdade”, me interrompe ele. “Mas temos que ter muito cuidado. A televisão procura sua unidade pelo gosto médio e eu acho que na cultura de modo geral – e em arte, de modo particular – a pior coisa que existe é o gosto médio. Eu conheço gênios que tinham mau gosto. Shakespeare tem verso de mau gosto, inclusive um em que Romeu diz assim: ‘eu queria nesse momento ser uma mosca para pousar nos lábios de Julieta’. Isso é de um mau gosto horroroso. Mas o gosto médio ainda é pior”.

“Sempre se referem ao senhor como muito combativo politicamente…”.

“Eu sou e acho que ninguém deve não ser”.

“Claro, inclusive Aristóteles dizia que o ser humano é um animal político”.

“Isso mesmo e você viu só isso tudo que disse na palestra? Não tem uma política por trás?”.

“Totalmente. É dar a voz para o povo”.

“É…”.

“Mas eu perguntava isso por causa dessa ideia que se tem de uma arte política”.

“Eu não gosto de ‘arte política’, como não gosto de arte religiosa. Eu acho que as ideias políticas, religiosas e filosóficas de um escritor podem e devem aparecer em sua obra, mas sua obra não deve estar a serviço dessas ideias. Você pega Ricardo III, de Shakespeare, que eu gosto: é uma peça cheia de ideias políticas e, para mim, muito superior ao teatro de Brecht, que fazia um ‘teatro político’. Brecht colocava o teatro a serviço de suas ideias e isso a meu ver prejudica o teatro e prejudica suas ideias. Aí eu fico com raiva. Toda vez que eu leio uma peça nazista eu quero virar comunista, e todo vez que leio uma comunista eu quero virar nazista, pra ficar contra. Porque é tão ruim…”, e pela expressão parece, realmente, sentir asco.

“Eu li quando jovem um romance cheio de realismo socialista, traçado pelo Partido Comunista da URSS, em que um camponês russo está em uma guerra na França e leva um tiro. Na de hora morrer chama um camarada. ‘Camarada, você aí que vai voltar pra URSS, procure o camarada Stalin e diga a ele que um camponês fulano de tal morreu com o nome dele nos lábios’. Olhe, um sujeito leva um tiro na caixa dos peitos – ‘valei, minha nossa senhora, valei, meu Deus’ – vai lá se lembrar de Stalin pra mandar um recado? Na hora eu pensei: não leio mais não…” e ri, com o absurdo do livro. “Não se pode colocar a arte a serviço dessas ideias. Vou dar outro exemplo: Calderón de la Barca [1600-1681, dramaturgo espanhol]. Vou tirar a política pra ficar mais imparcial. Ele é um dramaturgo que eu tenho maior admiração, acho que ele escreveu três obras-primas do teatro universal, que influenciaram profundamente Goethe a escrever o Fausto. Agora o mesmo Calderón escreveu ‘Os mistérios da missa’, que eu detesto porque coloca o teatro a serviço da religião, que é a mesma minha, a católica. Mas eu detesto. Já as ideias religiosas dele aparecem, nessas três obras, ideias políticas e filosóficas também”, diz ele. Bebe um pouco de água, compassadamente. “Chega?”.

Penso em perguntar sobre os ressentimentos com o assassinato de seu pai, sua vida na política e os apoios nesse ano de eleição, sobre a indicação ao prêmio Nobel. Tantas coisas. Mas se ele se sentia sangrado de tédio antes, qualquer pergunta pode desencadear um desgaste excessivo. Talvez hemorragias.

“Chega”.

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RÔNEY RODRIGUES
Jornalista formado da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru) e membro da redação de Outras Palavras

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