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Por que a pandemia declina em certas cidades?

Ciência busca explicações para casos como os de Manaus e Rio, onde a covid-19 refluiu a certa altura, por causas ainda desconhecidas. E mais: debate-se também se as reinfecções são possíveis; um novo vírus no Brasil?

Do OUTRA SAÚDE, 13/07/2020

por Maíra Mathias e Raquel Torres


A MEDIDA DO ‘REBANHO’

Governos que busquem (explicitamente ou não) a imunidade coletiva como “estratégia” de controle da covid-19 têm sido alvo de críticas desde que a doença começou a se espalhar, e com razão. É claro que, na ausência de uma vacina, essa é mesmo a única forma conhecida de acabar com a pandemia, mas ao custo de uma contaminação em massa que tem gerado colapso nos sistemas de saúde e mortes desnecessárias. Mas dois estudos publicados em maio e junho têm potencial para criar certo ânimo em quem aposta que alcançar tal imunidade por meio da doença pode ser uma saída factível. Neste fim de semana, eles foram destaque no podcast Social Distance, da revista The Atlantic; e o biólogo Fernando Reinach gerou enorme repercussão ao comentar um deles em um artigo no sábado, no Estadão.

Ambos os estudos se baseiam na ideia de que as pessoas não são igualmente suscetíveis ao novo coronavírus. No artigo publicado em junho na Science, matemáticos das universidades de Nottingham e de Estocolmo criaram um modelo que categoriza as pessoas em grupos de acordo com sua idade e nível de atividade social. Quando essas diferenças são levadas em conta, o percentual de infectados para atingir a imunidade de rebanho cai de 60% (obtido por um cálculo geral, sem considerar diferença alguma entre as pessoas) para 43%. Isso considerando um R0 (o número básico de reprodução do vírus) como 2,5, que é o número considerado pelos cientistas hoje. Se, em vez disso, observa Reinach, o R0 for 2, o percentual cai para 34%.

Para o biólogo, isso explicaria a queda constante dos casos em Manaus. Após o colapso na saúde e no sistema funerário na capital, o Amazonas apresenta uma queda sustentada nos novos casos e óbitos há cinco semanas, mesmo que não tenham sido tomadas medidas drásticas. Ainda de acordo com ele, a descoberta também poderia ser um prenúncio do alcance da imunidade coletiva em determinadas áreas de São Paulo: levantamentos feitos com testes sorológicos mostram que, nos lugares mais pobres, a taxa de pessoas com anticorpos chegou a 16% em junho. “Basta dobrar a taxa, de 16% para 32%, para a cidade de São Paulo atingir a imunidade de rebanho”, escreve Reinach, concluindo: “Sem dúvida é uma boa notícia”.

Mais otimista ainda é o outro artigo, que ainda não passou por revisão de pares. Assinado por dez autores, ele estima que o limiar para que uma população adquira imunidade coletiva pode ser perto de 20% – se isso for verdadeiro, os lugares mais atingidos do mundo podem estar quase lá. Segundo uma reportagem do site Quanta, uma versão atualizada desse trabalho deve ser publicada em breve, com estimativas para Espanha, Portugal, Bélgica e Inglaterra. Nenhum dos trabalhos, porém, “crava” esses percentuais. Eles apenas demonstram o papel que essa heterogeneidade pode ter no cálculo.

TODO CUIDADO É POUCO

Vários especialistas argumentam que é cedo para tentar estabelecer com confiança os limites exatos da imunidade de rebanho no caso da covid-19. Para outras doenças, por exemplo, ela está até bem acima de 60%. Jeffrey Shaman, da Universidade de Columbia, diz na Quanta que esse cálculo para imunidade do rebanho “não é consistente com outros vírus respiratórios. Não é consistente com a gripe. Então, por que se comportaria de maneira diferente para um vírus respiratório em relação a outro?”.

Logo após a publicação do artigo, os editores da Science admitiram que tiveram dúvidas se seria válido publicar as descobertas porque “as forças que desejam minimizar a gravidade da pandemia e a necessidade de distanciamento social se aproveitariam dos resultados para sugerir que a situação era menos urgente”. Notam que os próprios autores “são muito cuidadosos ao apontar que este é apenas um modelo altamente dependente de suas suposições“, e que, de todo modo, nenhum lugar no mundo parece perto de atingir os 43% previstos no cálculo mais otimista dos pesquisadores.

Também é preciso dizer que, nesse cenário de 43%, teríamos só no Brasil cerca de 90 milhões de infectados. Se 1% deles morressem, seriam mais de 900 mil óbitos. Não nos esqueçamos do que aconteceu em Manaus antes da atual estabilidade.

PERMANECE O MISTÉRIO

Mas não está claro por que quase todas as regiões mais duramente afetadas pelo coronavírus que reabriram recentemente continuam apresentando queda sustentada no número de mortes e infecções. Isso parece acontecer tanto nos lugares que reabriram com mais cuidados, como na Europa, como também no Brasil e dos Estados Unidos – embora nesses dois países os locais que tinham sido pouco impactados estejam com casos em alta, elevando as médias gerais, como nota a reportagem de Fernando Canzian* na Folha. Os estados que viveram as piores tragédias num primeiro momento ainda não têm 20% da população infectada, mas não tiveram repiques após as reaberturas. Neles, mesmo que os casos estejam crescendo, isso acontece a uma taxa menor e não há por exemplo falta de leitos de UTI.

Um dos motivos para isso, escreve a jornalista, pode ter a ver com o fato de que aparentemente o número de anticorpos para o SARS-CoV-2 diminui com o tempo. Assim, haveria mais gente infectada do que as pesquisas sorológicas mostram. Tanto é que no Brasil a Epicovid-19 mostra grandes reduções na prevalência da população com anticorpos em várias cidades do Norte, por exemplo. Mas mesmo essas pessoas que perdem anticorpos (e não aparecem nos levantamentos sorológicos) podem estar imunizadas pela ação de linfócitos T, que não produzem anticorpos mas também combatem o vírus. “Para Julio Croda, infectologista da Fiocruz, a imunização contra o coronavírus pode estar se dando de forma “cruzada”: pela suscetibilidade individual (com linfócitos B e T) e por outros fatores genéticos combinados às políticas de distanciamento social e o uso de máscaras”, diz a matéria.

DO FUTURO, NINGUÉM SABE

Há outro problema no horizonte da imunidade coletiva: é que ninguém sabe ainda por quanto tempo uma pessoa fica imune ao novo coronavírus depois de se infectar. Há meses falamos aqui sobre isso. Na Coreia do Sul foram encontradas pessoas que testaram positivo novamente depois de terem recebido testes negativos; mas elas não apresentavam sintomas, e ainda em maio a líder técnica da Organização Mundial da Saúde, Maria van Kerkhove, afirmou que não se tratava de vírus ativos: os testes estavam reagindo com células mortas que emergiam da cicatrização dos pulmões.

Mas o relato de um médico no site Vox nos traz novos calafrios. Clay Ackerly fala de um paciente que pegou o vírus com sintomas leves, curou-se, fez dois testes PCR que deram negativo após essa infecção e, seis semanas depois, testou positivo de novo. Mas sentindo-se pior: teve febre alta, falta de ar e hipóxia, No texto, Ackerly cita outros relatos semelhantes. “Estou ciente de que meu paciente representa um tamanho de amostra de um, mas, juntamente com outros exemplos emergentes, histórias estranhas como a dele são um sinal de alerta de um possível padrão. Se meu paciente não é, de fato, uma exceção, mas prova a regra, muitas pessoas podem pegar a covid-19 mais de uma vez e com gravidade imprevisível. (…) Esta é uma doença nova: as curvas de aprendizado são íngremes e precisamos prestar atenção às verdades inconvenientes à medida que elas surgem. A imunidade natural ao rebanho está quase certamente fora do nosso alcance. Não podemos colocar nossas esperanças nisso.”

JÁ SÃO 21

O número de potenciais vacinas que estão sendo testadas em seres humanos chegou a 21. A Folha lista todas. Duas estão mais avançadas, na fase 3, quando as substâncias são administradas a milhares de pessoas: a da farmacêutica chinesa Sinovac, que em breve vai começar a ser testada em São Paulo; e a da Universidade de Oxford, cujos ensaios no Brasil já tiveram início. Além de São Paulo e Rio, agora Salvador também faz parte do ensaio.

Entre os mais de cem projetos de imunizantes que ainda não chegaram às etapas de ensaios clínicos está uma pesquisa feita em conjunto pelas universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e Santa Catarina (UFSC), pelo Instituto Butantan, de São Paulo, e pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Doenças Tropicais. A partir da BCG, ela tem o objetivo de fazer uma vacina dupla, que proteja contra covid-19 e tuberculose ao mesmo tempo. Mas, embora tenha sido aprovado pelo CNPq, não recebeu os recursos necessários. “Nós estamos tocando o trabalho com outras verbas, porque sabemos da importância dessa pesquisa”, conta o coordenador do projeto, Sérgio Costa Oliveira, na BBC Brasil. “O que esperamos é que o governo possa ajudar com mais financiamentos para desenvolvimento desse projeto e outros semelhantes, de colegas na área de vacinas. Além disso, se o imunizante mostrar efeito positivo e induzir resposta imune em animais, vamos buscar parcerias com empresas privadas, como indústrias farmacêuticas, para podermos seguir com o projeto para a etapa de testes em seres humanos”, diz.

VIGILÂNCIA CONSTANTE

Na sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou ter recebido do governo brasileiro a notificação de infecção humana por influenza A (H1N2)v. Existe uma atenção redobrada a esse vírus, que provoca infecção em porcos, e, de tempos em tempos, salta dos suínos para os seres humanos. No mundo, já foram detectados 26 casos assim – dois deles no Brasil. É importante que os sistemas de saúde fiquem alertas porque um novo subtipo pode surgir, causando transmissão entre pessoas.

O (H1N2)v foi encontrado em uma mulher de 22 anos que trabalhava em um matadouro de porcos no município de Ibiporã, no Paraná. Ela apresentou sintomas de gripe no dia 12 de abril, procurou atendimento e teve amostra de secreção respiratória coletada. Foi então que o Laboratório Central de Saúde Pública do Paraná identificou um vírus influenza A de subtipo desconhecido e encaminhou a amostra ao Laboratório de Vírus Respiratório da Fiocruz, onde a descoberta da nova variante foi feita. Há uma investigação epidemiológica em curso para verificar se não houve mais casos da infecção. Depois da divulgação da OMS, a Fiocruz publicou uma reportagem em que a coordenadora do serviço, Marilda Siqueira, explica que há o relato de outro funcionário do mesmo frigorífico que apresentou sintomas de gripe, mas não teve amostra coletada: “Vamos continuar as análises, mas, até o momento, não há evidências de que tenha acontecido transmissão [de pessoa para pessoa]”.

Enquanto isso, a China e o Cazaquistão vivem um entrevero diplomático. Isso porque a embaixada chinesa divulgou na quinta-feira um comunicado informando que há uma “pneumonia não covid” em curso. De acordo com a embaixada, houve 1.772 mortes por pneumonia no primeiro semestre – 628 apenas em junho, o que indicaria um “índice de mortalidade de longe superior à covid-19”. O informe repercutiu na mídia chinesa como se houvesse a suspeita de um novo patógeno em circulação. Mas o Cazaquistão nega.

Na sexta, o Ministério da Saúde afirmou que as informações da mídia chinesa “não correspondem à realidade” e se devem a uma falha de tradução. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou que a causa mais provável para o aumento no número de casos de pneumonia é mesmo a covid-19 – que pode estar subnotificada graças à qualidade dos testes feitos, que podem estar dando falsos negativos, por exemplo. Semana passada, o Cazaquistão voltou a decretar fechamento das atividades econômicas por conta da pandemia. Até sexta, tinham sido registrados 57,7 mil casos e 264 mortes.

UM TIME DE DOIS

O time de especialistas da OMS que tentará determinar as origens do novo coronavírus é formado por duas pessoas: um epidemiologista e um especialista em saúde animal. A identidade de ambos foi mantida em sigilo. A ideia é que eles abram caminho para outras missões, com mais pessoas. A Science reuniu algumas das dúvidas mais importantes que a investigação precisa responder – não só sobre o que já aconteceu, mas para determinar novas ações. Por exemplo: a testagem em massa de morcegos, e de pessoas que têm contato próximo com esses ou outros animais selvagens podem ajudar a descobrir como e onde aconteceu o ‘salto’ do vírus de morcegos (origem mais consensual) para o animal intermediário e, deste, para humanos.

COMO SE MOVE

A OMS anunciou no domingo mais um recorde nos casos diários confirmados de covid-19. Foram 230.370, levando o total a quase 13 milhões no mundo inteiro. São mais de 565 mil óbitos. Os maiores aumentos nos registros de infecções aconteceram nos Estados Unidos, Brasil, Índia e África do Sul.

Neste domingo, o Brasil registrou 659 óbitos e 25.364 casos positivos e há, no total, 1.864.681 infecções conhecidas. Os meios de comunicação começaram a noticiar a evolução nos óbitos pela média móvel semanal, ou seja, pela média diária nos últimos sete dias. Isso ajuda a evitar uma percepção errada dessa evolução por conta de represamento de registros em alguns dias – nos fins de semana, por exemplo, há sempre uma redução dos novos casos por conta disso, e em geral uma alta desproporcional nas terças-feiras. Na média, então, o Brasil registrou 1.036 mortes por dia covid-19 na última semana. Foi a quarta seguida em que a média esteve acima de mil.

Esse ‘platô’ ainda deve durar mais algumas semanas, segundo Christovam Barcellos, da Fiocruz. Isso porque, enquanto algumas cidades veem seus números caírem, outras estão com o pé no acelerador. Para sermos mais exatas, há 11 estados com tendência de alta nos números diários de mortes na última quinzena; enquanto cinco unidades federativas têm queda e outras 11 apresentam estabilidade. Onde a pandemia avança: Distrito Federal, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina , Rio Grande do Sul, Paraíba e Sergipe.

QUEM GANHA E QUEM PERDE

O repórter Patrik Camporez respondeu uma pergunta que não queria calar: afinal, quem está ganhando dinheiro com a promoção da cloroquina feita por Jair Bolsonaro? A resposta é um punhado de empresários – dois deles bolsonaristas declarados. Caso de Renato Spallicci, dono do laboratório Aspen que triplicou a produção da droga feita à base de cloroquina logo depois que o presidente mostrou uma caixinha do seu produto em uma reunião do G-20, no fim de março.

Depois do anúncio da doença, Bolsonaro diversificou e mostrou uma embalagem de outra empresa, a EMS, de genéricos. Neste caso, o beneficiado é o controlador do grupo empresarial, Carlos Sanchez, que já participou de duas reuniões virtuais com o presidente durante a pandemia – e é o 16º homem mais rico do Brasil, segundo a Forbes.

A terceira empresa rastreada na reportagem do Estadão é a Cristália. Seu dono, Orgari de Castro Pacheco, é eleitor declarado de Bolsonaro que, ano passado, participou da cerimônia de inauguração de uma planta fabril da companhia. Pacheco também tem atuação política: o empresário é segundo-suplente do líder do governo no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO).
A propaganda também beneficia produtos estrangeiros. Em abril, o deputado federal Eduardo Bolsonaro compartilhou no Twitter uma “notícia” do site pró-governo Conexão Política. A embalagem do medicamento à base de cloroquina produzida pela gigante Sanofi aparecia bem grande – Donald Trump é acionista da empresa…

A ação movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores de Saúde, que tenta fazer com que o Supremo impeça que Bolsonaro faça propaganda da cloroquina e de outros medicamentos que não têm eficácia comprovada no tratamento da covid-19, recebeu a resposta do governo. A Advocacia-Geral da União (AGU) caracterizou como “temerária” a tentativa de botar um freio na propagação feita pelo presidente e demais membros do governo. A AGU argumenta que o que Bolsonaro faz é divulgação de “estudos em andamento de combate à pandemia”.

Falando em fazer a população de cobaia para drogas sem comprovação científica no tratamento do novo coronavírus, temos mais um município para a lista: Itagi (BA) anunciou que vai distribuir um “kit-covid” com hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina para todos os moradores com sintomas da doença. “É um desafio mostrar que, às vezes, não fazer nada é proteger o paciente. Há uma cultura de intervir mesmo quando não sabe se funciona”, resumiu o secretário municipal de Saúde de Porto Alegre em outra reportagem, que dá conta sobre o embate entre médicos, gestores e entidades a respeito da indicação desses supostos tratamentos. A capital gaúcha tem tido que lidar com o problema criado por um grupo de 18 médicos que fizeram circular ‘orientações profiláticas’ que incluem cloroquina em um documento com o brasão do Rio Grande do Sul.

E a Rússia está se movimentando para promover o que chama de “primeiro medicamento para o tratamento da covid-19”. O alvo do governo Putin é a América Latina. Na sexta, a embaixada russa organizou na Guatemala uma apresentação para representantes de vários países sobre os supostos resultados positivos do avifavir. Trata-se de um antiviral desenvolvido a partir de um medicamento japonês contra a gripe que é objeto de 25 ensaios clínicos no mundo. Até agora, o estudo mais robusto – feito no Japão – não chegou a nenhum resultado conclusivo sobre sua eficácia para o corona.

SÓCIOS DO GENOCÍDIO

Os ministérios da Defesa e da Saúde planejam uma viagem com jornalistas para dentro da terra indígena do Parque do Tumucumaque, no Pará. As lideranças do local estão preocupadas. Primeiro, por temer a contaminação de gente vinda de Brasília em um território onde vivem três mil indígenas, entre eles grupos isolados. Mas também porque acreditam que o governo vai aproveitar a ‘press trip’ para desovar a produção de hidroxicloroquina do Laboratório do Exército (66 mil comprimidos foram entregues na semana passada em outro distrito sanitário indígena, o Yanomami). “Não somos cobaia. Não somos objeto de teste para fazer esse tipo de ação e maquiar o envio das cloroquinas”, disse Ângela Kaxuyana, da Coordenação das Organizações dos Indígenas Amazônia Brasileira (Coiab), ao repórter Rubens Valente, no UOL.

Esta semana o Brasil vai completar dois meses sem ministro da Saúde. Em videoconferência realizada pela revista IstoÉ, o ministro do STF Gilmar Mendes criticou o que parece uma estratégia do governo para retirar seu próprio protagonismo e atribuir a responsabilidade pela crise sanitária aos estados e municípios. “Se for essa a intenção é preciso se fazer alguma coisa. Isso é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. É preciso pôr fim a isso”, afirmou. O Ministério da Defesa rebateu, em nota, argumentando que mais de 30 mil militares estão na Operação Covid-19 e que “os resultados mostram que a Operação está atingindo os objetivos a que se propõe”. Se o objetivo é a vice-liderança do país em número de casos e mortes pela doença no mundo, então está mesmo.

ANTES E DEPOIS DO QUEIROZ

João Otávio de Noronha tem pesos diferentes para situações parecidas. O presidente do Superior Tribunal de Justiça autorizou a prisão domiciliar para Fabrício Queiroz – e até para a esposa do ex-funcionário da família Bolsonaro, que é foragida – com a justificativa da proteção à saúde. Mas negou o mesmíssimo benefício para outros doentes crônicos, idosos e gestantes.

Agora, o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos tenta se aproveitar da contradição: pede que o STJ amplie a todas as pessoas presas preventivamente e que integram grupos de risco para a covid-19 o que foi concedido a Queiroz. O pedido deve ser apreciado pelo próprio Noronha.

“Noronha é conhecido nos bastidores do mundo jurídico por ser linha dura na área criminal. Desde o início da pandemia, negou habeas corpus a quatro investigados”, ressalta Leandro Colon, para quem o presidente do STJ “matou no peito o maior pesadelo de Jair Bolsonaro” – de olho, é claro, na vaga de Celso de Mello, que deixa o Supremo em novembro.

Na Califórnia, o benefício da prisão domiciliar que já foi dado a dez mil presos será estendido a outros oito mil. A decisão do governador Gavin Newson foi tomada depois que em um único presídio mais de mil detentos testaram positivo para o novo coronavírus.

MAIS UM NOVO MINISTRO

O novo ministro da Educação é professor, advogado e pastor evangélico. Milton Ribeiro tem como padrinho político o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, que também é pastor presbiteriano. “Eles se conheceram quando Ribeiro era pastor na cidade de Pederneiras (SP) na igreja que era frequentada pela família de Mendonça. Assim que se tornou advogado-geral da União, Mendonça indicou Ribeiro para o cargo na Comissão de Ética da Presidência da República”, conta o El País. Na época, Ribeiro deu uma entrevista ao portal gospel Guiame dizendo que era um “ministro do Supremo Deus”: “Deus abriu as portas para eu poder contribuir de alguma maneira com a minha pátria, com o Brasil”. Também não passou desapercebido como o novo ministro defende ‘educar’ crianças: “Deve haver rigor, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir dor“, afirma ele, em vídeo que circula nas redes sociais.

FUNCIONANDO

O Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (CNPEM) inaugurou a primeira linha de pesquisa do superlaboratório que acelera partículas com uma imagem em 3D de uma proteína do novo coronavírus. A partir dessa semana, cientistas interessados em usar a estrutura para avançar no conhecimento sobre a estrutura do vírus podem enviar propostas de pesquisa.

*Este conteúdo foi alterado para uma correção. Inicialmente, escrevemos que a reportagem da Folha era de autoria de Natália Cancian, mas a informação está errada. O correto é Fernando Canzian.




MAÍRA MATHIAS E RAQUEL TORRES
Maíra Mathias e Raquel Torres são editoras do Outra Saúde.

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