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Pacto Irã -China, virada geopolítica na Eurásia

Negociações avançam — e revelam recuo dos EUA na região. Acordo de 25 anos prevê bilhões em cooperação energética e infraestrutura — em arranjo financeiro contra a hegemonia do dólar. Por trás de tudo, erros trágicos de Trump e Obama.

Do OUTRAS PALAVRAS, 21/07/2020

Por Alfredo Jalife-Rahme, na Sputnik News |Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

A partir do momento da ressurreição da Rússia do cemitério geopolítico e da ascensão econômica irresistível da China, tanto o democrata Barack Obama quanto o republicano Donald Trump cometeram dois graves erros geoestratégicos na Eurásia, no contexto do declínio global e doméstico dos Estados Unidos, que têm vivido uma guerra civil sub-reptícia, a que alguns caracterizam como uma guerra de classes e/ou guerra cultural.

O erro grave de Obama foi ter lançado a Rússia nos braços da China. Os dois países conformaram então uma associação estratégica, cujo alcance e envergadura ainda não chegam a ser plenamente conhecidos pelo grande público.

Pelo seu alcance, o erro de Obama supera, inclusive, o outro cometido por Trump, incitado que foi pelo seu grande aliado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, correligionário sionista do seu genro talmúdico Jared Kushner. Netanyahu impeliu Trump a romper com o criativo acordo nuclear com o Irã ― forjado por Obama, no âmbito do assim chamado grupo “5+1”: os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha –, com o objetivo de, através da aplicação da “máxima pressão”, por meio de asfixiantes sanções econômicas, obrigar o Irã a um novo tratado, já agora favorável a Tel-Aviv. O resultado foi que Teerã também arrumou as trouxas para lançar-se nos braços de Pequim.

O erro estratégico definitivo de Trump, no entanto, foi o de ter ordenado o assassinato, por meio de um drone, do icônico general Soleimani e seu colega iraquiano Abu Mahdi al Mohandes. Depois disso, a teocracia xiita iraniana não teve outra opção que não apurar os detalhes que faltavam para um pacto estratégico de um quarto de século com a China.

Os dois erros, de Obama e de Trump, devem estar fazendo se revolver na tumba o geopolítico inglês Halford MacKinder [o pai da Teoria do Heartland], a quem destroçaram todos os seus axiomas euro-asiáticos que fundamentaram o domínio anglo-saxão exercido por Reino Unido e Estados Unidos no controle do mundo. Curiosamente, a aproximação do Irã às duas superpotências ― Rússia, de uma parte (a máxima superpotência nuclear, na era das armas hipersônicas), e China, de outra (máxima superpotência geoeconômica, quando se toma seu PIB ponderado pelo poder aquisitivo e paridade de compra) ― expõe a orfandade euro-asiática dos Estados Unidos. Essa potência em ocaso tem sofrido sérias avarias geopolíticas em todo o Grande Oriente Médio, sobrando-lhe apenas o salva-vidas um tanto aleatório da Índia, que, por casualidade, mantém excelentes relações com a Rússia.

Simon Watkins, no site Oil Price, noticia que há um ano o chanceler iraniano Mohamed Zarif visitou seu homólogo chinês Wang Li para lhe apresentar o roteiro de uma “associação estratégica integral” de 25 anos entre a China e o Irã; algo que se somaria ao acordo preliminar de 2016. Ao que tudo indica, existem termos secretos aos quais “se acrescentaria um elemento militar novo”, com as tácitas bênçãos da Rússia, e que terá “enormes implicações na segurança global”.

Entre os presumidos elementos secretos do pacto firmado há um ano, “a China poderia investir cerca de 280 bilhões de dólares no desenvolvimento dos setores de petróleo, gás e petroquímica do Irã”, que viriam a ser aplicados no primeiro período de cinco dos 25 anos de validade do pacto. Também nesse quinquênio, a China poderia investir 120 bilhões de dólares no sistema de transporte ― trens-bala e metrô ― e na infraestrutura fabril do Irã, em troca da compra de petróleo, gás e petroquímicos pelas empresas chinesas com a garantia de um desconto mínimo de 12% ou por meio de outras fórmulas que favoreçam a China. As vantagens incluem ainda um prazo de carência de dois anos para o pagamento das aquisições chinesas, que será feito em renminbi/yuan. Esse termo do acordo tem, então, a virtude de contornar o sistema SWIFT de pagamentos bancários, controlado pelos Estados Unidos.

Historicamente, os iranianos são lendários mercadores, e seguramente encontrarão saídas criativas para trocar as divisas chinesas através do Catar, até Istambul, e acumular moedas fortes. Enquanto isso, o renminbi/yuan se fortalece e se internacionaliza. E a infraestrutura do Irã estará alinhada ao “projeto geopolítico multigeracional” da Nova Rota da Seda.

É preciso notar que o Irã faz fronteira com 15 países: sete terrestres (Afeganistão, Armênia, Azerbaijão, Iraque, Paquistão, Turquia e Turcomenistão), dois no Mar Cáspio (Rússia e Cazaquistão), e mais as seis monarquias árabes do Golfo Pérsico (Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar e Omã). A China também é um país de 15 fronteiras. O problema do Irã não é sua conectividade geopolítica, mas sua asfixia geofinanceira advinda do bloqueio de Trump à exportação de hidrocarbonetos pelo país, o que produziu uma brutal desvalorização da sua moeda, o rial. O pacto de um quarto de século com a China não apenas dilui a guerra multidimensional de Trump contra o país como também o posiciona como pivô de primeira grandeza nesse espaço de 30 fronteiras compartilhadas.

A China se coloca hoje com capacidade para driblar as sanções econômicas de Trump e até mesmo se esquivar da segunda fase de negociações comerciais com os Estados Unidos.

O pacto deixou nervosos tanto os Estados Unidos quanto Israel, a ponto de que o belicoso Secretário de Estado, o evangélico sionista e ex-diretor da CIA, Mike Pompeo viesse a pressionar Netanyahu para abandonar todos os planos de investimento chineses em Israel.

Por motivos eleitorais, Trump se empolgou com a ideia de despejar um tsunami de sanções contra a China, sob os mais variados pretextos, em especial, contra o 5G da empresa Huawei. Ele também elevou as tensões militares, a ponto de colocar dois porta-aviões no Mar do Sul da China e estimular a venda de armas pela Lockheed Martin a Taiwan, enquanto atiça velhos rancores da Índia e estimula o secessionismo dos uigures da região islâmica autônoma de Xinjian. Isso tudo sem contar as pressões sobre a anglosfera em geral ― do Reino Unido à Austrália ― para que evitem a presença da Huawei, sob o pretexto de protestar contra a nova lei de segurança de Hong Kong.

O site de notícias cipriota, alternativo e pró-russo, The Duran considera que o acordo entre China e Irã constitui, nesse contexto, “um enorme golpe para as aspirações dos Estados Unidos na Ásia Central”. Um ano depois dele (na realidade quatro), The New York Times, por outro lado ― hoje mais questionado que nunca por seus próprios jornalistas (que argumentam que seu jornalismo é feito mais sobre tuits que sobre análise e investigação, coisas a que o jornal abdicara desde que aderiu à mentira oficial sobre as armas de destruição em massa do Iraque) ― publica um documento supostamente vazado, mas com o claro tempero do Departamento de Estado norte-americano, que torna clara a angústia, senão o desespero, de Trump. Entre tais condimentos se inclui o termo duvidoso da cessão do Irã à China de vantagens portuárias ao longo da costa do Mar de Omã, especialmente Jask, já fora do Estreito de Ormuz, nas portas do golfo Pérsico, “o que daria à China um ponto de vantagem estratégica no tráfego da maior parte do petróleo mundial”.

O New York Times também se inquieta com o exercício naval conjunto entre Irã e Rússia no último mês de dezembro no Golfo de Omã, do qual participou o contratorpedeiro de mísseis chinês Xining.

Como é de hábito na terminologia diplomática interna norte-americana, seus futuros anais históricos, ao oscilar entre Obama e Trump, provavelmente se perguntarão: “quem perdeu o Irã?”. O certo é que a Rússia e a China o ganharam.


ALFREDO JALIFE-RAHME
Professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM).

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