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Outras Cartografias, um olhar sobre o mundo em mutação

Nova coluna de Outras Palavras trará a força de síntese dos mapas. Usados em guerras e invasões, eles se popularizaram na era dos GPSs. Podem ser convites à reflexão: desvendam o passado, revelam o presente e caminhos para ao pós-capitalismo.

Mapa da Capitania de Pernambuco, incluindo a representação do Quilombo dos Palmares. Elaborado pelo pintor e gravurista holandês Frans Post, em 1647.

Do OUTRAS PALAVRAS, 22/07/2020

por Igor Venceslau

Nenhum império jamais manteve seus limites, elaborou uma campanha de expansão ou venceu guerras sem ter, sobre a mesa, um mapa de seus domínios e outro do território inimigo. A estratégia sempre esteve esposada da cartografia, essa ciência, técnica, linguagem e arte milenar que já foi utilizada para apontar nas paredes das cavernas os locais de abundância de alimentos, mas também para lançar mísseis na direção do alvo selecionado. Por isso mesmo, as cartas, as plantas e os mapas foram por muitos séculos mantidos em segredo por quem os detinha e a habilidade de elaborar e interpretar documentos cartográficos era valorizada pelos poderosos.

O mapa é uma síntese de informações estratégicas deliberadamente selecionadas. Ele (re)produz, assim, uma imagem do mundo segundo os interesses de quem o elabora ou coloca em circulação, pois se alguns dados são revelados, uma série de outros deles, aqueles que interessam ou não a determinado fim, continuam escondidos. O mapa também pode ser considerado, inclusive, como uma determinada visão do mundo, um ponto de vista, nada neutro, a partir do lugar onde se está. É assim que o continente europeu aparece no centro e topo do mundo, nas projeções clássicas; que o norte é visto “acima” e o sul “abaixo”; ou que as áreas subtropicais estão superdimensionadas em algumas representações.

Mas o mapa é também um instrumento de poder. Ele tanto justifica a dominação e a manutenção do status quo, quando pode ser um importante veículo de ação política com vistas à autonomia e liberdade. Foi por meio dele que os impérios europeus se guiavam para explorar a riqueza das terras de suas colônias; mas também com ele o Vietnam resistiu e venceu a guerra contra os Estados Unidos, expulsando-os de seu território.

Atualmente, na sociedade informacional, o uso generalizado dos mapas – em sistemas GPS, aplicativos de celular, rastreadores, etc. – aponta para a sua banalização. Usado no frenesi de localizar ininterruptamente as coisas e os corpos no espaço, o mapa passou a ser naturalizado, como se estivesse mostrando a realidade tal qual ela é. Mas quais informações são reveladas e quais ocultadas? Quem elabora esses mapas? Para qual finalidade? Por um instante, quase esquecemos que estamos sob vigilância constante por meio desses mapas das plataformas digitais.

Contudo, se bem utilizado, o mapa se torna um instrumento fundamental de resistência e ação política. Ele permite apresentar, numa só imagem, um conjunto de informações e relacioná-las no espaço representado, principalmente por meio da propriedade de síntese que é peculiar da linguagem cartográfica. Datados, os mapas revelam o mundo do presente; mas nos dão a conhecer, inclusive, o mundo do passado, cristalizado nas suas linhas, pontos e cores; e podem também apontar caminhos para o futuro.

Ao desenhar Outras Cartografias, não se pretende inovar nas formas do fazer cartográfico, apresentando novidades em projeções ou convenções – isso já o faz muito bem a ciência. Nosso norte, ou melhor, nosso sul será, utilizando as técnicas convencionais ou não, apresentar mapas cujos conteúdos tragam temas atuais relevantes para a reflexão e a prática política. Nesse sentido, a localização é a mesma dos textos de Outras Palavras, mas numa outra linguagem, na qual parágrafos e sentenças dão lugar a latitudes e longitudes. A mensagem, portanto, se mantém: crítica social, denúncia das desigualdades e a proposição de outro lugar possível. Nesse projeto de comunicação compartilhada, onde todas as linguagens têm o seu espaço, uma outra cartografia assume posição estratégica. Por um mundo pós-capitalista.


IGOR VENCESLAU
É geógrafo e doutorando em Geografia Humana na USP

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