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“O mercado não é Deus e a meritocracia é apenas um grande blefe”, desabafa banqueiro italiano

Do IHU, 14 Julho 2020
A entrevista com Pietro Modiano é de Antonello Caporale, publicada por Il Fatto Quotidiano, 13-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.


"O mercado não é Deus, como se pensava, terá que acertar as contas com o Estado. O Covid causou avarias no turbo capitalismo. E isso para mim é uma boa notícia."

O banqueiro Pietro Modiano que, como comissário extraordinário, acaba de injetar um pouco de fôlego no corpo quase exangue do Carige, o banco de Gênova quebrado por seus empréstimos não saldados, era - antes do Covid - um turbo milanês.

"Eu também pensava que era correto dizer 'Milão não para'. Eu também pensava que o vírus não poderia afetar uma cultura, uma modalidade de vida, a classificação social e econômica da cidade".
Eis a entrevista.

A primeira da fila do PIB.

A ideia errada, mas consagrada, nos textos sagrados do "turbo-capitalismo", de uma ascensão sem limites, sem correções, sem condições.

A Covid colocou de joelhos as economias mais ricas do mundo.

Revelou a fragilidade da convicção colocada como premissa: a certeza de que o mercado - graças também à crise dos títulos soberanos em 2011 - era o único altar ao qual se ajoelhar. E suas regras fossem tão perfeitas que nada poderia atingi-lo. Mercado igual a Deus.

Vocês, banqueiros, têm muitas culpas.

Eu fiz carreira durante os anos das propinas. As privatizações significaram também (e com razão) a libertação da mão morta do estado e de alguns juízes. Foi um processo de emancipação civil contra o clientelismo estatal, da ética manchada pelo suborno, resultado operacional das conveniências.

O privado lindo e limpo, o público sujo e ruim.

Aqui está a lição do Covid.

O Covid tomou como alvo vocês, ricos.

Wuhan, Milão, Londres, Nova York. Causou medo também porque atingiu os idosos e a classe dominante mundial tem mais de sessenta anos. Não sei se isso contribuiu para desencadear uma resposta tão poderosa. Teria a mesma resposta se fosse a vez dos jovens? Agora, o vírus está massacrando os países pobres e continua a sua revolução.

Nos anos 1970 e além, foram feitos investimentos na indústria bélica para garantir a paz.

Quantos bilhões gastos! Vencia a ideia de que quanto mais armas houvesse, menor seria a vontade de fazer guerras. Eu vou me rearmar e você também. O equilíbrio das forças. Agora, o Covid obriga-nos a cuidar mais da nossa saúde e evitar a catástrofe ecológica. Parece-me que o ponto de vista está mudando bastante.

Vocês, banqueiros, sempre são os últimos a perceber as revoluções.

Os bancos andam como um bando, não possuem políticas diversificadas, processos de tomada de decisão autônomos e originais. Abrir ou fechar a torneira dos financiamentos é um procedimento quase coletivo, uma expedição comunitária. Nunca os encontrará em ordem aleatória. Os bancos como tantos outros sujeitos acreditavam que não havia Deus além do mercado.

E, em vez disso, existem os hospitais a serem recuperados.

Aqui está, por exemplo. Nós lombardos vivíamos a era da excelência. Incrédulos, percebemos quantas falhas tinha o sistema de saúde. Vocês ficaram surpresos que o problema estava recaindo sobre vocês e não sobre os napolitanos.

Embora muito surpresos, sim.

Houve o colapso da supremacia, da ideia de vida vertical, uma corrida para inflar a conta bancária sem perder o happy hour das dezenove horas.

De fato, agora estamos dizendo que o crescimento econômico deve ser sustentável com o meio ambiente e que algumas tarefas não podem ser delegadas a privados, mas garantidas pelo público. Que deve ser um concorrente e não um coadjuvante.

Quantas coisas teremos que mudar.

Entre as muitas coisas a mudar, há também a profissão de fé absoluta na meritocracia.

Ah, o mérito!

As sociedades mais paradas, onde o elevador social está bloqueado no térreo, são as britânica e estadunidense, porque a desigualdade entre as classes sociais lá é mais evidente. E, portanto, o mérito, entre os desiguais, geralmente beneficia aquele que tem menos mérito. Temos que explicar isso de uma vez por todas.

Na Itália de hoje, você seria classificado como um perigoso extremista de esquerda.

Você acha?

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