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Movimento negro no Brasil tem que rumar para nova abolição, diz ativista há 65 anos

Oswaldo de Camargo, 84, terá três livros relançados pela Companhia das Letras; seu filho Sérgio, da Fundação Palmares, já afirmou que ativismo racial é 'escória'

O escritor Oswaldo de Camargo, 84 -
 Raphael Aguiar/Arquivo Pessoal

Da Folha de São Paulo, 12.jul.2020 
Por Ivan Finotti



Poeta, escritor e ativista dos mais importantes do movimento negro brasileiro, Oswaldo de Camargo terá pela primeira vez, aos 84 anos, parte de sua obra publicada por uma grande editora. A Companhia das Letras acaba de fechar o negócio, e três livros sairão no ano que vem.

O primeiro é “15 Poemas Negros”, que teve prefácio do sociólogo Florestan Fernandes em 1961 e está fora de catálogo há décadas. Os outros são “O Carro do Êxito”, contos ficcionais de 1972, e a novela “A Descoberta do Frio”, de 1979, que tiveram edições pela Ateliê há quatro anos. Alguns desses poemas e contos foram publicados em francês, inglês e alemão.

“É enorme alento para outros autores envolvidos com a literatura negra, demais desconhecida. Conhecer e divulgar autores desse ‘coletivo negro literário’ vai trazer muitas surpresas”, diz Camargo.

Militante desde 1955, quando tinha 19 anos, o escritor faz uma literatura do negro urbano, “de gente jovem preta que procura simplesmente ser, mas nem sempre se consegue ser ou sentir que é”.


Manifestação pela fundação do Movimento Negro Unificado, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, em 7 de julho de 1978 s - Jesus Carlos

Enfrenta resistência, no entanto, dentro de casa. Seu segundo filho é Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares no governo Bolsonaro. Sérgio se notabilizou por chamar de “escória maldita” o movimento negro tão caro a seu pai. Reclama ainda de um suposto “vitimismo” e sugeriu acabar com o Dia da Consciência Negra (20/11).

Desde que Sérgio assumiu a instituição, Oswaldo tem se negado constantemente a comentar o assunto. Abriu, no entanto, uma exceção para a Folha. Confira na entrevista a seguir.

O senhor se considera mais um ativista do movimento negro ou um escritor? Oswaldo de Camargo, como já assinalou Florestan Fernandes no prefácio para “15 Poemas Negros”, é sobretudo escritor, no caso, poeta.

Pertence ao mais antigo movimento negro do país, feito com palavras (lembre-se de Cecília Meireles com os versos “Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência, a vossa!”, no “Romanceiro da Inconfidência”).

Esse primeiro movimento (mover algo para mudar) foi a Imprensa Negra, iniciada em 1833 com o jornal O Mulato, mudado o título no terceiro número para O Mulato ou O Homem de Cor.

Sou escritor que tenta desmontar, com contos, novelas ou poemas, alguns castelos em que se escondem, há séculos, o preconceito e o racismo. A arma, julgo, tem que ser a verdade literária, com a vitória da estética.

Sou um escritor que procura expor à luz da crítica patriotadas como a que se encontram no Hino da Proclamação da República, versos de Medeiros e Albuquerque: “Nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre país/ Hoje o rubro lampejo da aurora/ acha irmãos, não tiranos hostis”. Sim, parece que o país não teve escravos...

Como vê o movimento negro hoje? Qual é a situação do homem negro em São Paulo? O movimento negro continua existindo; basta isso. Com todos os percalços que costumam acompanhar as ações de negros. De 1978 para cá muita coisa mudou, para melhor, fruto também dos que já na década de 1930 se moviam para fazer, como se dizia, uma nova abolição.

Lembrem-se os versos de Carlos de Assumpção em seu poema “Protesto”: “Foi um cavalo de Troia/ A liberdade que me deram/Havia serpentes futuras/ Sob o manto do entusiasmo”. O movimento negro tem que, infelizmente para o país, seguir no rumo de fazer uma nova abolição, como iniciaram intentar a Frente Negra e a imprensa negra nos anos 1930.

Uma nova abolição? Creio que a expressão uma “nova abolição” merece algum comentário. Após o júbilo comemorativo depois do 13 de maio de 1888, logo se percebeu que não era bem aquilo que devia ser a verdadeira liberdade do negro brasileiro. LIBERDADE, com letras maiúsculas. Durante alguns anos, até 1930, sustentado pelo poder oficial, a data foi feriado em todo o país.

O negro, porém, continuava ausente das benesses da igualdade, do respeito e, mais, teve a concorrer com ele o imigrante, italiano, alemão, sobretudo. O negro continuou sendo visto como fadado à ignorância, feio, em grande número marginalizado socialmente, como se vê até hoje.

Foi nesse quadro que alguns negros e mulatos bem-pensantes começaram a se convencer da necessidade de se fazer, de verdade, uma segunda —e verdadeira— abolição, com autêntica inserção do elemento negro na sociedade.

Entre eles, Arlindo Veiga dos Santos, fundador da Frente Negra [partido político fundado no início dos anos 1930 e declarado ilegal no final daquela década], o poeta Lino Guedes e vários outros, que haviam saído da condição geral de analfabetismo (parceiro poderoso da miséria negra) e anomia.

O Movimento Negro Unificado [união de entidades em 1978 que marca o retorno do ativismo desmantelado pela ditadura militar], pela sua história e abrangência (coloco a literatura negra como parte dela), é, pode-se afirmar, a expressão maior dessa decisão nascida nos anos 1930, de extraordinária importância para a história do negro brasileiro.




Estátua de Jefferson Davis, militar americano que defendia a manutenção da escravidão nos EUA, foi derrubada em Richmond, no estado americano da Virgínia Parker Michels-Boyce - 10.jun.20/AFP

A morte de George Floyd nos EUA foi gatilho para manifestações no mundo inteiro contra o racismo. O senhor acha que isso pode mudar realmente algo agora ou, aos 84 anos, perdeu o otimismo? A morte de George Floyd, para mim, foi impressionante pelo que sugeriu. Pareceu-me, pelo que tenho já vivido e por algumas situações pelas quais já passei, ver ali o Ocidente branco calcando forte a cabeça de um negro (sua parte mais nobre) para que permaneça no chão, aspirando poeira e vergonha. “Seu lugar é o chão!”, berra.

Sou otimista, sou religioso, católico, organista de uma igreja, a de Santo Antônio, em Lauzane Paulista [zona norte de São Paulo]. Gosto muito de um pensamento, se não me falha a memória, do pensador francês Leon Bloy: “Só existe uma tristeza: a de não sermos santos”.

Quem sabe se, depois de tanta tristeza e mazelas, homens e mais homens, mulheres e mais mulheres percebam que, na atitude diante da questão raça, entraram em trilha errada e é urgente dar uma guinada, com base no pensamento de Leon Bloy?

Um de seus seis filhos é Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, que constantemente ataca o movimento negro. Por que ele faz isso, na sua opinião? O Sérgio, com suas ideias e seus propósitos, está dentro da normalidade do governo Bolsonaro. Assim não fosse, lá não continuaria.



Militantes do movimento negro fazem protesto na fundação cultural Palmares, por conta da indicação de seu novo presidente, Sérgio Camargo. Após um ato marcado por palavras de ordem contra Camargo e cânticos do movimento negro, os manifestantes entraram no prédio e subiram até a sede da fundação Pedro Ladeira/Folhapress

Quando começaram seus atritos com ele? Sérgio é meu segundo filho, fez jornalismo na PUC, trabalhou na Rádio Eldorado, teve cargo de chefia na Agência Estado. Nunca tive atritos com ele. Apenas uma coisa: Sérgio está usando, a seu modo, e conforme o que ele acha a melhor escolha, a sua liberdade. Seu caminho não é o meu. Pai sempre será pai; filho, filho. Houve amigos que me deram solidariedade, vendo-me atingido pelo rumo do Sérgio.

Com tudo isso, ele me respeita muito; indiquei leituras a ele. Apenas há a distância de ideias, um valor bastante fundo. Muito notado, no meu caso, por eu ser alguém que desde os 19 anos está embrenhado, sem interrupção, com a questão negra em São Paulo, erguendo e divulgando valores que têm norteado muitas gerações de afro-brasileiros.

Qual é sua relação atual com ele? Meu filho Sérgio está há uns cinco anos fora de São Paulo. Viveu em Natal, viveu no Maranhão, dali saiu rumo a Brasília para ocupar seu cargo na Fundação Palmares. Não é uma aventura extraordinária (goste-se ou não dela) do neto de um preto analfabeto e muito pobre, nascido em 1910 em uma Bragança naquele tempo extremamente racista?

Nessa história da Fundação Palmares, a despeito de toda a revisão que se tente, persistirá o que tiver solidez histórica e cultural. A única fórmula para saber mesmo qual é minha posição diante da gestão do Sérgio é ler meus livros, sobretudo os que a Companhia das Letras está anunciando para publicação. Eu os escrevi sem me vigiar.

Obras de arte abordam escravidão




(1) “Máscara Que Se Usa nos Negros Que Têm o Hábito de Comer Terra” (c. 1820-1830), de Jean-Baptiste Debret. Museu Castro Maya

Como foi sua infância? Nasci em Bragança Paulista, no bairro da Bocaina, numa fazenda chamada Sinhazinha Félix, em 1936. Meu pai e minha mãe apanhavam café. Eles não possuíam nada, a não ser o próprio corpo, algo comum a muito negro logo após a abolição.

Apesar da pobreza de meus pais, tive uma infância luminosa, algo que percebo chegado à idade em que estou. Minha mãe, que faleceu com 27 anos, lavava roupa para a pianista Miquelina Ozório; daí talvez o meu afinco para estudar piano na adolescência.

Morta minha mãe, fui internado, com meu irmão de cinco anos e minha irmã de quase dois, no Preventório Imaculada Conceição. Aos dez, fui para o Reino da Garotada Dom Bosco de Poá, instituição fundada pelo padre Simon Switzar, holandês, com métodos de educar vanguardeiros na época. Tive sorte. Essa instituição foi fundamental para meu gosto pela leitura. Gosto não, paixão. Padre Simão é meu pai espiritual.

Quando e como foi a primeira vez que sentiu o racismo? A expressão mais funda de racismo que registro em minha história é esta: “Não aceitamos negro porque negro é muito violento e sensual”. Eu ainda estava no Reino da Garotada, e o padre procurava lugar para eu ser seminarista em São Paulo.

A última vez que senti racismo, não me lembro. Será que foi quando, sendo revisor de uma agência de propaganda, devendo falar com o diretor dela em um prédio de classe alta, o porteiro me indicou a entrada de serviço? Após ameaçar como uma reportagem do Estadão, subi pela social, mas após ouvir a seguinte frase: “Deixa subir, ele é meu amigo!”. E se não fosse?

RAIO-X

Oswaldo de Camargo

É escritor, poeta e ativista do movimento negro. Estreou na literatura em 1959 e na militância em 1955. Filho de colhedores de café de Bragança Paulista, estudou com padres até que chegou a São Paulo no início da vida adulta. Fez parte da Associação Cultural do Negro. No ano que vem, a Companhia das Letras publicará três obras suas: “15 Poemas Negros”, “O Carro do Êxito” e “A Descoberta do Frio”, escritos nos anos 1960 e 1970

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