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Indígenas Xavante são os mais atingidos pela Covid-19 no Mato Grosso

Mortes e contaminações pelo novo coronavírus avançam entre os indígenas da etnia, que se sentem abandonados pelas autoridades (Foto: Adriano Gambarini/OPAN).

Por: Marcio Camilo | 21/07/2020 às 23:46

Cuiabá (MT) – Desde meados de maio, o novo coronavírus avança pelos territórios da etnia Xavante. No boletim epidemiológico, divulgado nesta terça-feira (21), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) aponta 286 pessoas confirmadas com a Covid-19 e 28 mortes. A campanha “A’uwe tsari: S.O.S. Xavante”, que também monitora os casos da doença, registrou 41 mortes na maior etnia do estado do Mato Grosso.

A etnia Xavante é considerada a terceira população indígena mais vulnerável à pandemia do coronavírus no país, segundo o diagnóstico “Análise de Vulnerabilidade Demográfica e Infraestrutural das Terras Indígenas à Convid-19”, da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP). Com mais de 22 mil pessoas, a etnia se autodenomina de A’uwe, que na língua Jê significa “gente”. Eles vivem em nove territórios que possuem mais de 300 aldeias espalhadas entre o leste e nordeste mato-grossense.

Na região leste dos territórios foi registrado o primeiro caso confirmado de coronavírus, em 14 de maio. em uma indígena Xavante da Terra Indígena Sangradouro/Volta Grande, e a primeira morte foi de um bebê em 11 de maio. A criança era neto de uma grande liderança, o cacique geral da Terra Indígena Marãiwatsédé, Damião Paridzané.

Lideranças apontam a falta de profissionais, equipamentos, medicamentos, barreiras sanitárias para conter a disseminação do vírus nas aldeias, que são atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Xavante, do Ministério da Saúde. (Leia no final do texto a resposta do órgão)

Foi na Terra Indígena São Marcos, que nos dias 9 a 11 de maio, os Xavante organizaram um torneio de futebol na aldeia Namunkurá, no município de Barra do Garças, também no leste do estado do Mato Grosso. O jogo, que contou com a presença de políticos, contrariou as normas estabelecidas de distanciamento social para prevenir a disseminação do vírus, como decretou a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mas, segundo as lideranças Xavante, São Marcos se tornou o epicentro da pandemia depois que jovens da aldeia Namunkurá foram participar de uma cerimônia cultural nas aldeias Fátima e Nossa Senhora da Guia, que já tinham registrados casos de coronavírus.

Nos últimos dois meses na TI São Marcos, 187 indígenas foram infectados pela doença e 16 morreram, segundo o boletim epidemiológico do Dsei Xavante, de segunda-feira (20). A população – formada por 2.848 pessoas – vive em uma área de 188 mil hectares, conforme dados do Instituto Socioambiental (ISA).

Só na aldeia Nossa Senhora de Guadalupe, dentro de São Marcos, foram confirmadas nove mortes por coronavírus, de acordo com o boletim Dsei Xavante divulgado do dia 13 de julho.

Entre as vítimas está Hilário Abreta Awe Predzawe, que morreu em 18 de junho na Unidade de Terapia Intensiva do Pronto-Socorro do município de Barra do Garças, a 139 quilômetros da terra indígena.

Félix Tsiwepsudu Tseredze, liderança da aldeia Guadalupe, era cunhado de Hilário. Em entrevista à Amazônia Real, ele reclamou da estrutura do hospital para atender os xavantes, principalmente com a falta de aparelhos respiradores.

“Tem bastante Xavante no pronto-socorro e poucas vagas. Tem que tirar [aparelho respirador] oxigênio do paciente que está internado para dar para o outro que chega. E aí o que fica sem oxigênio volta a piorar de novo. Foi assim que aconteceu com meu cunhado”, lamentou.

Fabrício Upréwa, também da TI São Marcos, foi outra vítima da Covid-19. Ele dedicava sua vida a ajudar as pessoas de sua comunidade. Morreu no dis 29 de junho. “Era enfermeiro e tinha uns 38 anos. Sempre cuidando com carinho do povo”, lembra a ativista Ana Paula Sabino, uma das organizadoras da campanha S.O.S. Xavante.

No dia 7 de julho morreu o indígena Oscar, da aldeia Serra Verde. “Ele era motorista da saúde indígena e estava usando uma máscara há mais de uma semana, porque não forneceram EPIs. Teve um dia que enterramos nove em 24 horas. Final de junho e começo de julho eram duas mortes por dia”, conta Ana Paula.

O luto entre os Xavante teve seu dia mais trágico no dia 26 de junho, quando mais seis indígenas morreram de Covid-19: Tadeu, Davina, Damião, Maria Mazzarello, um bebê natimorto da indígena Vanira e uma criança não identificada, todos da TI São Marcos.

O coronavírus também atingiu aldeias do município de Campinápolis, onde morreu, também no dia 26 de junho, Ângela, da aldeia Três Maria.

Antes, faleceu a anciã Mônica Rênhinhai’õ, da Terra Indígena Marãiwatsédé, ao nordeste de Mato Grosso, no dia 21 junho. Ela era bisavó do neto de Damião Paridzané. (Leia mais no final do texto).

Crisanto está se recuperando

Crisanto Rudzö pediu cuidados na pandemia (Foto arquivo pessoal)


O coronavírus também atingiu Crisanto Rudzö Tseremey’wá, uma das principais lideranças indígenas Xavante e de Mato Grosso. Ele se recupera da Covid-19 depois de 19 dias de internação, em uma UTI de Barra do Garças. Crisanto fazia um constante trabalho de visitas e conscientização nas aldeias sobre a doença quando, no dia 19 de junho, teve que ser internado com urgência no pronto-socorro. Teve várias crises respiratórias e lesões no pulmão. Mesmo com muita dificuldade para falar, ainda internado, gravou um vídeo na língua Xavante pedindo para seu povo redobrar os cuidados com o coronavírus.

Crisanto já recebeu alta, mas seu estado de saúde ainda requer muitos cuidados. “Ele está de repouso em casa, sem fazer as atividades enquanto presidente da Fepoimt. Ainda está com muita dificuldade para falar e respirar e a gente sempre fica em alerta, com medo de que o quadro se agrave de novo, como aconteceu com os meus avós paternos, que morreram de Covid”, observa Cristian Wairu, filho de Crisanto.

O que diz a Secretaria de Saúde

Aldeia Xavante Marãwatsédé (Foto: Arquivo Opan)


Em entrevista por telefone à Amazônia Real, a secretária de Saúde de Barra do Garças, Clênia Monteiro, disse que o mês de junho “realmente foi muito tenso”, quando, num período de 15 dias, cinco dos oito leitos de UTIs do pronto-socorro foram ocupados por xavantes com o novo coronavírus. No boletim epidemiológico do município (de 18 de julho), consta que a ocupação subiu para sete leitos, restando apenas uma UTI desocupada. Mas, segundo a secretária, “nenhum desses pacientes atuais são indígenas”.

Ela disse que “jamais ocorreu” a situação de tirar aparelho respirador de um paciente por causa da chegada de outro, como denunciou a liderança indígena. “Como ele sabe disso? Ele estava dentro da UTI? Esse tipo de pergunta é absurda e sem cabimento. De forma alguma isso aconteceu”, ressaltou a secretária visivelmente irritada com os questionamentos da reportagem.

Nos territórios indígenas de Mato Grosso, há 629 casos confirmados do novo coronavírus, de acordo com o boletim epidemiológico da Sesai. A Terra Indígena Xingu, que fica entre o estado e o Pará, aparece na segunda posição, com 74 casos e cinco mortes.

A anciã que reflorestava a mata


Mônica Rênhinhai’õ

(Foto cedida por Marcelo Okimoto)

A anciã Mônica Rênhinhai’õ era incansável no seu trabalho de reflorestar a Terra Indígena Marãiwatsédé – uma das terras indígenas mais desmatadas do Brasil, no nordeste de Mato Grosso. Aos 100 anos de idade, ainda liderava as mulheres na colheita de sementes, na busca pela autonomia alimentar de seu povo. Respeitada e admirada por muitos, a líder Xavante morreu vítima da Covid-19 no dia 21 junho.

A anciã era bisavó do bebê de oito meses que morreu 11 de maio, que foi a primeira vítima do coronavírus entre indígenas do Mato Grosso.

Rafael Wéréé, uma das lideranças Xavante, conta como o coronavírus atingiu sua avó. “Ela ficou doente por quase dois meses e foi internada no pronto-socorro de Barra do Garças. Lá continuou lutando pela vida até o último momento. Nunca desistiu. Uma verdadeira guerreira”, disse ele, que é neto de Mônica.

Seu protagonismo na coleta de sementes teve início em 2011, a partir do projeto da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) com o Instituto Socioambiental (ISA) e apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan). Naquele ano, coletores da ARSX conscientizaram as mulheres xavantes sobre a importância da coleta de sementes no reflorestamento e na segurança alimentar da comunidade, além de técnicas de manejo com as sementes.

Mônica, juntamente com mais 15 mulheres, foram as pioneiras nesse processo, quando formaram o grupo Pi’õ Romnhá Ma’ubu’mrõiwa (mulheres coletoras de sementes) para a recuperação da vegetação de Marãiwatsédé, que por mais de 40 anos foi devastada por posseiros, até ser reconquistada novamente pelos xavantes, em 2012, com processo de desintrusão do governo federal.

“Ela gostava de cuidar das pessoas. Me ensinou a sempre respeitar os outros e a cuidar do meu irmão e dos meus pais. Dizia que eu iria ser pai um dia, e que era importante dar esse exemplo aos meus filhos para que eles cuidassem de mim também”, conta Rafael Wéréé.

O neto da anciã Mônica Rênhinhai’õ criticou o atendimento aos parentes doentes pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Xavante, ligado ao Ministério da Saúde.

“O Dsei Xavante está cometendo crime de responsabilidade. Os profissionais não têm EPIs, nas aldeias não têm medicamentos. Estamos enterrando muita gente, mesmo assim o Dsei tem feito pouca coisa. Não existe trabalho de prevenção e a coordenadora do Dsei, Luciene Gomes, fica culpando os xavantes pela disseminação do vírus, como se ela tivesse feito muita coisa. Pelo contrário, a responsabilidade é dela, de promover bem-estar e saúde do povo Xavante, coisa que não vem ocorrendo”, afirmou Rafael Wéréé.

A reportagem procurou a coordenadora do Dsei Xavante, Luciene Gomes, para ela falar sobre as críticas das lideranças. Ela não comentou, mas enviou um documento com fotos de profissionais de saúde visitando as aldeias, dando palestras sobre prevenção ao coronavírus e entregando máscaras e álcool gel em terras indígenas como São Marcos e Marãiwatsédé.

O relatório mostra ainda aquisições de medicamentos e doações de álcool gel por parte da campanha S.O.S. Xavante, de cilindros de oxigênio, resultado de uma destinação de recursos do Ministério Público Federal, e entregas de cestas básicas nas comunidades.

Em maio, a Sesai publicou em seu site que entregou no Mato Grosso 24 mil cestas básicas, totalizando 528 toneladas de alimentos, para 12 mil famílias indígenas de 43 etnias. Entre elas, Xavante, Kayapó, Bororo, Guarani-Kaiowá, Cinta-Larga, Terena e Manoki.

O movimento S.O.S. Xavante foi criado para socorrer os indígenas com mantimentos, medicamentos e EPIs [Equipamentos de Proteção Individual], como máscaras e luvas para os profissionais de saúde. Uma campanha de arrecadação pretende captar R$ 250 mil para a instalação de uma Unidade Avançada de Saúde próxima às aldeias Xavante.

O movimento é organizada pela Federação dos Bancários do Centro-Norte (Fetec-CUT/CN), pela Federação dos Povos Indígenas do Mato Grosso (Fepoimt) e pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) Xavante. Também conta com apoio de Expedicionários da Saúde, Operação Amazônia Nativa (Opan), The Nature Conservancy Brasil (TNC), Revista Xapuri e Sindicato dos Bancários de Brasília.

Para homenagear os mortos pela pandemia, a campanha “S.O.S. Xavante” publicou os nomes de todos os parentes. Apoie aqui.

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