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Erundina: “A mudança virá não apenas pelas mãos de quem se elegeu, mas pelas mãos do povo”


ERUNDINA EM CONVERSA COM MINO CARTA
Da Carta Capital 20 DE JULHO DE 2020
Por MINO CARTA
 

Sou irredutível, incondicional admirador de Luiza Erundina há cerca de 50 anos. Ela tem o poder de me deixar em paz de espírito, a singular qualidade de me transmitir a sua esperança atingida pelas sendas do coração e da mente. “O oposto da esperança é o desencanto, o desalento, a gerar depressão, sofrimento, perda de sentido da vida, e este sentimento negativo é reacionário, desmobilizador. A esperança, pelo contrário, é revolucionária, sentimento contagiante para gerar força, organização, vontade coletiva.” Tal o pensamento contagiante de Luíza Erundina, mestra em direitos populares, contrária a qualquer gênero de conciliação, de resto impossível entre os donos do dinheiro e da terra e as suas vítimas.

Em outras palavras, esta nordestina indômita, já reeleita por seis vezes consecutivas à Câmara Federal, é uma das raríssimas figuras do nosso cenário político capaz de arcar com o papel revolucionário que cabe ao esquerdista autêntico. O raciocínio é simples e direto: o poder de quem se elege há de ser exercido em nome de quantos o elegeram, tornados claros os propósitos de um pleito que visa o interesse dos pobres oprimidos. “Um sonho, para caber em uma vida, torna-se uma meta. O sonho tem de ser tão grande que não cabe na sua vida, muita pequena em termos de tempo, mesmo que sejam cem anos, e aí se transforma em meta, em objetivo.” Pois a meta que deixou de ser sonho confere sentido à vida desta figura de força incomum.


Nos seus tempos de professora universitária, Luiza Erundina costumava levar os seus alunos a visitar as favelas, e entre eles figurava a minha mulher Angélica, que justificou a minha presença em algumas destas surtidas, a remontar os anos 70. Tratava-se, de certa forma, de aulas práticas para aprender a dimensão exata dos direitos humanos traídos pela prepotência dos senhores, todo um enredo de vexames e humilhações sofridos por quem não tinha condições de registrar a ofensa. As expedições organizadas pela professora iluminavam os alunos, mas também abriam os olhos dos favelados.

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A infatigável Luiza Erundina prepara-se a assumir as funções de vice na chapa de Guilherme Boulos, candidato do PSOL na próxima eleição à prefeitura de São Paulo. É um reforço importante, porque a enérgica senhora de 85 anos, radicada em São Paulo por causa da seca desde os seus 5 anos, até hoje se reelege por obra do seu impecável passado de prefeita que governou em proveito dos seus eleitores. Inútil dizer que CartaCapital apoiará sem hesitações a dupla Boulos/Erundina na certeza de agir a bem da cidade, do Brasil, da razão, da democracia. Seguem-se os pontos centrais da conversa mantida com Luiza Erundina, uma verdadeira aula de política praticada com insólito senso de responsabilidade. A íntegra da conversa entre os amigos Erundina e Mino está no site de CartaCapital desde a segunda-feira 13.


Ela é uma das raríssimas figuras políticas brasileiras a cumprir seu papel de esquerda

São Paulo ontem e hoje


As pessoas vinham do Nordeste vítimas da seca, vítimas do latifúndio, vítimas da pobreza, da miséria, e também influenciadas pela ideologia religiosa que as formou. Por exemplo, a propriedade privada era sagrada, e aquelas famílias buscavam espaço para erguer um barraco e escapar do frio, pois naquele tempo o frio era maior do que é hoje. Aquelas pessoas tinham dentro delas o sentimento de estar cometendo pecado, o crime de ocupar um chão que não era delas. E com o aumento da pobreza, da desigualdade, da exclusão social, as pessoas também foram se informando. (…) Nós queríamos a democracia e aproveitávamos o contato com o povo, por isso o assistente social era muito perseguido pela ditadura, porque estava sempre perto do povo. (…) Além de levar ajuda material, a preocupação era, sobretudo, levar a consciência da cidadania. (…) E aí as favelas foram crescendo e o povo foi se organizando, adquirindo fôlego, força e consciência. (…) Os pequenos núcleos de favela transformaram-se em grandes cidades ocupadas por trabalhadores que não tinham trabalho fixo, não tinham renda, ainda mais nos dias de hoje. E este não é um fenômeno que tenha mudado, só a escala se tornou maior. A raiz da situação é a concentração da terra, por isso os migrantes não podem ficar no campo, e há a desigualdade na cidade grande, onde eles não têm acesso ao mercado formal, porque não são preparados para tanto e, portanto, são excluídos a vida toda, e o caminho para o crime fica muito rápido. (…) Os favelados precisam de pessoas preparadas junto deles, educadores, trabalhadores sociais e outros que os ajudem a se perceberem como sujeitos, donos de suas próprias histórias, capazes de mudar esta realidade, de se unirem para adquirir força e fôlego. Desse ponto de vista, a situação não mudou muito. (…) Meu vínculo e a minha relação afetiva com eles é a mesma, sou uma deles. Minha família migrou por causa da seca. Eu tinha 5 anos e migrei nas piores condições, como Graciliano Ramos pintava em sua obra Vidas Secas. Não é muito diferente ainda hoje, apenas viaja-se mais de ônibus, de trem, mas as raízes da pobreza continuam intactas, porque a terra permanece concentrada.

A conciliação impossível

A conciliação atenta contra o direito humano. Conciliar numa sociedade fechada não faz sentido. É impossível conciliar com uma minoria altamente e sempre privilegiada. Esse privilégio se reproduz permanentemente em todo o sistema. Como é possível a conciliação entre os que impõem o sistema e suas próprias vítimas? (…) Não é suficiente mudar a realidade de São Paulo e do Brasil, nós sonhamos em mudar o mundo. Para ter força e conseguir mudar, temos de sonhar em mudar o mundo. (…) Eu não sou a favor da conciliação, porque ela gera a conciliação de classes, e a conciliação de classes é sempre contra os mais fracos, que são mais numerosos, mas não têm consciência de classe. (…) O PT foi atingido pelas consequências do próprio presidencialismo de coalizão e pelo baixo nível de consciência e de organização política do povo, e a partir daí conciliou. Mas a conciliação está sempre a serviço dos que têm interesse em manter as coisas como elas são.

Casa-grande e senzala


O dono da casa era o padrinho do filho do trabalhador rural. O filho que ele explorava. O qual passava a se sentir um membro da família, o que era da conveniência do dono da terra. Este é um exemplo de conciliação. Concordo com você quando diz que é consequência da falta de verdadeiro contato com o povo por parte dos que se dizem de esquerda, que não souberam lutar contra o capitalismo. (…) Quando o PT nasceu na periferia, nasceu por estímulo, para aprender também com o povo, que adquiriu força, capacidade de resistir, mas ao chegar lá se abraçou com o poder do dinheiro, sem perceber que o verdadeiro poder é aquele que preserva a sua origem. (…) Um mandato não lhe confere poder, confere autoridade para exercer esse poder em nome de outro, e tem de dividi-lo com esse outro. Chega ao poder para conviver com aquele que não deseja a sua companhia, contenta-se com algumas migalhas e esquece a verdadeira fonte do poder. Por isso essa conciliação. (…) Quando entrei na prefeitura, com toda essa minha origem de classe, essa minha experiência de vida com o povão da periferia, eu dizia assim: “Eu quero sair da prefeitura com menos poder do que quando entrei, porque esse poder eu terei dividido com quem é de fato o dono dele, que é o povo”. Isso emancipa o povo.

O crescimento da consciência


Quando eu estava na prefeitura, as reivindicações iam mudando de qualidade. Dependendo daquilo que você atendesse, eles passavam a demandar outro direito. Os favelados, ao perceberem qual era o seu direito básico, descobriam outros direitos e aí a demanda ia se qualificando. No começo, era para fazer a coleta do lixo, que não passava na periferia, era limpar o córrego onde o esgoto passava a céu aberto, na porta da criança que ia brincar no esgoto. (…) Mas aos poucos fomos resolvendo o problema da coleta do lixo, da limpeza do córrego ou a canalização desse córrego, e o povo foi demandando outras coisas, como escola, centro cultural e biblioteca. Tudo em apenas quatro anos de governo. E isso não é fantasia, é real.

Haddad prefeito


Eu ia ser a vice do Haddad, mas aí ele se aliou com o Maluf. O Lula e ele foram à casa do Maluf para celebrar a aliança, e eu já tinha sido nomeada para vice. Não, comigo não. No entanto, eu fiz a campanha dele no segundo turno, mas os próprios petistas da periferia não concordavam em trabalhar pelo Haddad. Os núcleos do PT, que tinha redutos fortes de militantes de periferia, não estavam querendo, eles queriam outro candidato, não sei bem quem era, mas não concordavam com a candidatura do Haddad. E os petistas – eu não estava mais no PT, estava no PSB – diziam: “Vai lá com a gente, para você convencer os militantes de que era preciso ele se envolver na campanha”. Eu fiz isso muitas vezes. E posso testemunhar que o povo votou nele, fez campanha para ele, porque ele prometeu democracia governando com o povo. (…) Prometeu e não cumpriu. Prometeu educação e saúde, mas isso todo mundo promete, até a direita mais tacanha promete isso. E ele também prometeu que os subprefeitos, que na época eram administradores regionais, seriam escolhidos consultando o povo de cada região, mas ele não fez isso. Não teve uma administração regional do seu governo que tenha passado pelo crivo da população nas regiões. (…) Ele não fez um governo para a periferia, porque isso requer uma opção muito consciente, governar para o povo é tirar da minoria. (…) Para tanto precisa acreditar que o povo tem direito a isso, e você só muda a realidade humana com o povo, com esse nível de consciência e com esse nível de liberdade, de atuação, de iniciativa, de sentir ele mesmo a sua própria importância. No entanto, para a minoria privilegiada o povo nunca é capaz.

E o PT?


Meu governo na prefeitura de São Paulo nunca foi assumido pelo PT como sendo seu, porque eu não era a candidata dos capas pretas, eu fui o patinho feio da luta interna. (…) Como é que o paulistano iria escolher uma nordestina, uma mulher do povo, confundida com os favelados? Os dirigentes do partido queriam Plínio de Arruda Sampaio. (…) E foi uma luta interna para que eu não fosse candidata, mas a base mais combativa do partido resolveu me lançar. Depois disso, como consequência, o PT nunca assumiu aquele governo da capital do estado como sendo seu.

Por que a política?

Antes de mais nada, acho que a política é necessária, aquilo que a gente pretende mudar a partir do poder conquistado. (…) Depois, trata-se de entender que ele vem das mãos do verdadeiro dono desse poder, e como executá-lo, operá-lo. (…) Insisto que temos de exercer o poder de tal forma que inclua quem o elegeu. Não devemos nos apropriar dele como se fosse uma exclusividade nossa, ou seja, devemos governar com a participação real do povo nas decisões estratégicas em um determinado governo. (…) Mas o poder não é nosso, ele é delegado e nós o exercemos no interesse de quem é a sua fonte. E o meu partido tem como coligada uma figura muito interessante, que é o Guilherme Boulos, que com 17 anos já estava na luta pela população sem-teto. Ele não chegou agora. Hoje, o Boulos é uma liderança política importante, de um partido pequeno, mas representativo, o PSOL, que sonha também com mudança, com transformação, que acredita na luta. (…) Ele é um dos que lutam para levar o povo a tomar consciência dos seus direitos, a tomar consciência da sua força e se organizar na defesa dessa força, desses direitos. Aí, sim, a mudança virá não apenas pelas mãos de quem se elegeu, mas pelas mãos do povo. (…) Agora, Boulos se propõe a ser candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade, com a condição de que eu seja a vice na chapa dele.

Inspiração para o futuro

Paulo Freire foi o primeiro secretário que escolhi como prefeita. Ele não queria servir a governo algum e eu não tinha esperança, mas ele disse: “Se eu não atender a esse convite, estaria sendo inconsequente e incoerente com tudo aquilo que defendi na vida como educador”. Aí ele aceitou e fez uma grande gestão. Tanto é que hoje ele é detestado pelos bolsonaristas e pelos pretensos ministros da Educação. (…) Fizemos em São Paulo uma educação nos moldes de Paulo Freire, libertadora. Fomos os primeiros a implantar no País o Sistema Único de Saúde, modelo fantástico que estão esvaziando e estraçalhando neste governo. Só agora estão descobrindo a importância do SUS, por causa da pandemia do coronavírus, que já matou mais de 70 mil brasileiros.

Lições da pandemia


Acredito haver valores que vão resultar dessa trágica experiência, os quais vão tornar nossa sociedade, não digo mais igual, mais justa, mais solidária e consciente. Outra experiência que vale anotar: as pessoas estão administrando melhor o consumo, o padrão de consumo, contra o desperdício. Falo do pobre, do assalariado, do trabalhador de modo geral. (…) Estamos sendo obrigados a criar alternativas de geração de trabalho e renda, e a macroeconomia nunca vai ser uma solução para os problemas de desemprego. Nós vamos sempre ter muitos problemas, pois não é só a pandemia que está produzindo esse retrocesso no PIB brasileiro. É a concentração dessa riqueza mal-empregada que trava o investimento naquilo que gera trabalho e renda, elementos que permitem distribuir um pouco mais os bens e a riqueza. Então, nesta pandemia muita gente está tentando criar outras alternativas. Não é o tal do empreendedorismo, isso é fantasia, não tem esse negócio de empreendedorismo coisa nenhuma, isso é uma fantasia para esconder o verdadeiro problema do desemprego. O que realmente tem força é o trabalho puro e simples, o trabalho produtivo, as relações trabalhistas reguladas por uma legislação justa, adequada, necessária para que a sociedade se desenvolva em todos os sentidos. Eu acho que essa busca pela geração de trabalho é o fruto positivo de uma tragédia que pode tornar os seres humanos melhores depois dela. Não que seja necessária, muito pelo contrário, pois tragédia é algo que marca definitivamente a vida de uma sociedade, mas desta vez ela é planetária. Não é só no Brasil que está havendo essa desgraça, ela é fruto de décadas, séculos de um modelo de produção e concentração de riqueza que gerou, mesmo nos países ditos desenvolvidos, muita miséria e pobreza. Então, a tragédia veio antes, ela não veio com a pandemia. Esta pandemia chegou para agregar mais uma tragédia sanitária. Mas a verdade é que já havia uma tragédia social, uma tragédia humana, de pessoas morrendo de fome, de pessoas morrendo de subnutrição, de doenças que não matam, de doenças que são naturais, mas fáceis de ser tratadas.

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