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Ernesto Sabato e a potência humana que falta à Ciência

Um dos maiores autores argentinos do século XX, também doutor em Física Quântica, refletia: ao perder empatia com o mundo, cientistas geraram mais desigualdades. Mas, com alma coletiva, avanços tecnocientíficos podem ser atos de criação.

Do OUTRAS PALAVRAS, 22/07/2020

por Ricardo Neder

Às quartas-feiras, Outras Palavra publica uma série de artigos de Ricardo Neder, intitulada A Gambiarra e o Panóptico (fruto de livro homônimo, publicado pelo Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina, da UnB, e editora Lutas Anticapital) que, por meio dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, visa compreender a sociedade de controle e vigilância – e se é possível superá-la e reconstruir o Socialismo e as Democracias. Leia a apresentação da série. Aqui, todos os textos já publicados. Título original: ciencia@maquina.com

Duas poltronas na sala. Em uma delas, está Ernesto Sabato, escritor e dramaturgo; e na outra poltrona, há uma mulher, Cesaria Lagos, pesquisadora sobre história de cientistas cujas trajetórias mergulham numa linha divisória entre as humanidades e as ciências.

CL – Agradeço sua disposição em se deixar entrevistar ou seria melhor dizer, ser colhido por um olhar externo de alguém que mergulha na literatura como ofício, e que foi também físico quântico? Esse diálogo sobre práticas nas humanidades e nas ciências com cientistas e intelectuais. Precisamos nessa hora de qualidades que são estritamente humanas. Estamos nesse umbral, diante do qual trememos.

ES – É verdade que todos somos um caso problemático nesse aspecto. Apesar de físico teórico especializado em teoria quântica, nunca abandonei minha paixão pela literatura, apesar de ter-me dedicado à física e à matemática no início da minha vida profissional. Isto poderia ser visto como um caso de extrema conciliação: atuar como cientista e pesquisador e, ao mesmo tempo, ser escritor. Não foi o caso, entretanto, porque não há compatibilidade possível, quando se é da área de física e matemática e se tem paixão pela literatura.

CL – Haveria algo como um choque cognitivo?

ES – Não. É um choque de personalidade, pois todos os que se aproximam da ciência são capturados, devendo alterar ou adaptar sua personalidade a ela. Em várias ocasiões pediram que eu ingressasse na Real Academia Espanhola, mas sempre recusei. Não posso explicar em poucas palavras os motivos dessa decisão sem ofender grandes cientistas e escritores…

CL – Mas, e a academia, em geral, haveria algo que o faria mudar?

ES – Bem, esse é um problema muito complexo e do qual já falei em uma centena de páginas de ensaios. Se bem que a posição da academia tenha variado ao longo dos anos, me parece um ato desonesto modificar uma crença pela qual lutei durante toda minha vida.

CL – Os pesquisadores têm certas passagens biográficas que os obrigam a mergulhar no dilema de largar tudo… Quando não há espaço para criação ou a verdade é destruída, quando há apenas um lado que impõe sua versão, digamos, vencedora da história. Diante dessa extrema agudeza outro movimento parece arregimentar as pessoas, alguns deixam como está, outros se rebelam, uns terceiros se aferram à autodisciplina racional, pagando por isto um custo emocional. Essa autodisciplina imposta pela academia torna-se inaceitável para o espírito da nossa época.

ES – Mas para quem ela se torna inaceitável? Não devemos substituir uma disciplina ruim por outra pior. Há algo prévio à experiência acadêmica, algo que tem origem ao longo da adolescência e vida adulta cuja essência ou elemento genético distintivo é o nosso desencontro, como sujeitos, com o mundo. Ele não se resolve, apenas tentamos dar-lhe uma feição socialmente aceitável pela ciência; algo que não se equaciona jamais… Nunca poderemos apagar da memória emoções e sentimentos derivados desta percepção do desencontro agudo demais do problema político diante da verdade científica. O que tem impactos terríveis para a condição humana de todos os jovens…

CL – Parece que há algo de irremediavelmente humano na verdade, e o seu movimento nas nossas vidas cotidianas gera esse emaranhado que mencionou. Acho que foi a filosofia da negatividade que apontou que só a arte impede a verdade de nos destruir. Pergunto-me se é o sentimento, ou a vivência em torno desse emaranhado que é a verdade. Seria uma experiência estética em si mesma, ou apenas uma idiossincrasia?

ES – Talvez. Mas a condição humana não é feita apenas de idiossincrasias. Há muitas particularidades que têm sentido por si próprias e que não pedem ou exigem explicações para ser. São, simplesmente. Têm uma história ou um momento próprio. De fato a arte tem uma missão muito mais importante do que a de entretenimento. Se não entendermos isto, talvez as novas tecnologias que se preparam para serem lançadas nos próximos anos, sejam apenas repetição de um mesmo desastre, que é a televisão…

CL – Mas a emoção registra tanto a história quanto a razão instrumental. Ouvir outros sentidos é como avançar por caminhos onde não há ciência.

ES – O que marca a possibilidade de qualquer um – qualquer pessoa independente do seu tipo psicológico ao se dedicar à ciência – é que seus trabalhos poderão, mais cedo ou tarde, ter implicações práticas e nesse sentido há um positivismo básico na ciência. Implicações de ordem pragmática são geradas por outra ordem de implicância, originada de dados genéricos. Porém, o motivo psicológico que fez o cientista se mover neste ou naquela ordem de implicância está orientado por outros sentidos. A ciência não se altera pelo que os outros sentidos dizem…

CL – Somente os registros da ciência, ou tidos como tal, têm validade, é claro. Ou não há encontro entre validade e verdade, ou a verdade encontra-se divorciada de validade, fato de percepção, razão de espontaneidade da criação. Fico me perguntando onde está a empatia que no fundo é uma luta sem desespero contra a morte?

ES – Definir assim a empatia talvez ajude a nos aproximar dos outros. Mas essa questão deixou de ser respondida pelos homens de ciências… Somos nós, os herdeiros do humanismo em crise, que precisamos fazê-lo com base na literatura e nas artes…

CL – Como vamos articular as ciências e as tecnologias com as humanidades sem desfigurá-las?

ES – É trágica essa dissociação dos modernos. Mas sinto que os antigos também não podiam colocar a questão para si próprios, não estavam em melhor situação… Exceto talvez no brevíssimo século XVII, quando mentes brilhantes não acreditavam nessa falsa separação entre matéria e inteligência, pois combinavam a alma coletiva com a percepção do mundo… Eram capazes de ser felizes simplesmente por ser alguém que dizia: “pertenço a uma comunidade de pessoas que percebem o mundo de maneira similar”, e com isso podiam deixar os filósofos indagar sobre toda sorte de sentido novo para a comunidade…

CL – Eram similares até na transcendência religiosa, é claro…

ES – Sentimento de mundo compartilhado é senso de pertencimento…

CL – É como se hoje esse sentimento de pertencimento não dependesse da comunidade… quero dizer, de vinculação com o povo. A vinculação de pessoas é exclusivamente fruto de uma visão de potência da tecnociência especialmente desenvolvida pelos modernos. Sobre ela me interrogo: O que podemos contrapor a esta potência da tecnociência, este impulso criativo para mudar, e, ao mesmo tempo, também para a morte?

ES – Este problema da potência das tecnociências enquanto potência de morte é algo que está relacionado com a própria identificação da paixão pela potência da morte… os gregos antigos não a chamariam de hybris, mas sim de titanismo, uma doença autodestrutiva de querer dar combate aos deuses, e assumir uma condição de seres desmedidos pelo gigantismo. Dessa doença, que nos leva à perda do invisível, o titã Sísifo tombou vítima.

CL – Mas saberíamos, assim, dizer diante desse titanismo: “Eis a expressão concreta da potência ocidental que verteu sobre si mesma, sua bile destrutiva, que atende pelo nome de tecnociência…”

ES – Por isso é tão problemático lidar profissionalmente com a física. Saberíamos, talvez, assim, ir contra a maré com mais convicção… Precisamos de uma expressão popular para essa estética. Uma expressão capaz de reconhecer facilmente que se está diante de perdas e ganhos pela implantação das tecnociências no nosso dia a dia. As expressões que se usam, continuam em grande medida estrangeiras… Algo muito difícil de conhecer, caso não haja alguém ou um grupo decidido a revelar o que há por trás das vantagens do método científico. Ao seu redor proliferam estratégias de desigualdade… Para justificar as aplicações científicas, há uma moralidade construída. Ela está fundada em considerações que não levam em conta se a tecnologia vai gerar maior ou menor desigualdade.

A técnica é geradora de desigualdades. De qualquer maneira é preciso evitar responder ao espontaneísmo, com doses maciças de matemática e física matando o gérmen que pode gerar a rebelião autêntica da prática científica. Além disso, tenho 90 anos e tudo parece uma despedida. Não tenho medo de morrer, mas o certo é que isto me provoca uma enorme tristeza, sobretudo quando apenas se começa a aprender o duro ofício da existência… É impossível em prazo tão curto ir além de um simples aprendizado.


RICARDO NEDER
Sociólogo e economista político, professor associado da UnB. Editor-chefe da Revista Ciência & Tecnologia Social e da coleção Construção Social da Tecnologia ambas vinculadas aos Estudos Sociais da Ciẽncia e Tecnologia no Brasil, e ao PLACTS – Pensamento latinoamericano de Ciência, Tecnologia, Sociedade, associados ao grupo de pesquisa Observatorio do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina. Coordena o Núcleo de Pesquisa NP+CTS (Políticas CTS – Ciência, Tecnologia, Sociedade) CEAM/UnB, e o Programa de Extensão Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (da rede ITCP de incubadoras universitárias no Brasil) sediada na UnB Planaltina (rtneder@unb.br)

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