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Covid: crise das UTIs expõe negligência total do governo

Faltam até os medicamentos necessários para intubar pacientes. Os fatos: ministério ignorou alertas de seu próprio Centro de Operações de Emergência e preferiu… comprar cloroquina. E mais: outra filha de general ganha cargo alto.

OUTRASAÚDE, 24/07/2020

por Maíra Mathias e Raquel Torres

LINHA DO TEMPO DA NEGLIGÊNCIA

Desde o início da pandemia, já vimos no Brasil dramas provocados pela falta de equipamentos de proteção, de ventiladores pulmonares, de profissionais treinados para atuar nas UTIs… Agora, estamos no limiar de uma situação extrema: o fim dos medicamentos que sedam os pacientes intubados. Em bom português, mais mortes – dolorosas e evitáveis. Nas contas do secretário de saúde do Paraná, o estoque do estado chega ao fim no domingo. No comunicado, feito em uma transmissão ao vivo na última quarta, Beto Pretto ressaltou: a crise é generalizada. E, acrescentamos: ontem, ganhou uma nova dimensão.

Documentos obtidos pelos maiores veículos da imprensa praticamente desenham a conduta negligente da atual gestão do Ministério da Saúde diante do problema. Os detalhes estão nas atas de numerosas reuniões realizadas pelo COE, o Centro de Operações de Emergência. Criado em janeiro para assessorar a pasta, ele é composto por autoridades do Ministério, mas também por especialistas de outros órgãos (Anvisa, Fiocruz, etc.) e até de fora do Brasil, como a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Por isso mesmo, as discussões promovidas por lá trouxeram contrapontos às ‘políticas’ do governo federal. A conclusão? O Ministério preferiu ignorar os alertas sobre o desabastecimento de sedativos fundamentais para o tratamento dos casos graves da covid-19 e se concentrou totalmente na importação de insumos e distribuição de cloroquina. Mas vamos por partes.

O assunto veio à tona em 14 de maio, um dia antes de o general Eduardo Pazuello assumir o comando da pasta. Na ocasião, o COE debateu o “desabastecimento de medicamentos utilizados na UTI” – que vinha sendo relatado pelos secretários estaduais de saúde. No dia 25 daquele mês, o comitê estabeleceu a necessidade de apurar “por que os estados não estão conseguindo comprar os medicamentos de UTI”.

A próxima reunião – e a mais chocante – aconteceu no dia 29 de maio, quando se constatou que a dificuldade se devia a problemas na produção dos remédios, como escassez de matéria-prima, e a dificuldades na importação dos medicamentos. O documento aponta risco de falta de 267 “insumos” (sem especificar quais) – e informa que 88 deles vêm da Índia. Aconselha que a Anvisa faça um levantamento junto às empresas sobre exatamente quais produtos estariam prejudicados. A resposta do Ministério da Saúde é uma operação-abafa. “Importante: Não fazer divulgação dos dados”, diz a ata. Detalhe: a orientação foi feita cinco dias antes de estourar a crise envolvendo a falta de transparência na divulgação dos casos e mortes por covid-19.

Em paralelo ao COE, o sentimento dos gestores locais era o de que “a reação inicial do governo federal foi questionar os dados sobre desabastecimento relatados pelas secretarias e afirmar que a busca pelo produto cabia a estados e municípios”, escreve o repórter Mateus Vargas. Com isso, o Ministério da Saúde perdeu um tempo precioso para evitar a crise.

Foi mais de um mês depois da primeira reunião do COE que discutiu o assunto que a pasta se movimentou para realizar a compra centralizada dos medicamentos. Em 17 de junho, o procedimento recebeu o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). Mas no dia 24 daquele mês, 22 unidades da federação já estavam com o estoque zerado de ao menos um sedativo usado na intubação de pacientes.

A culpa pelo desabastecimento, que hoje beira a totalidade dos insumos – ao menos no Paraná –, foi jogada na Anvisa e na Opas pelo assessor especial da Secretaria Executiva do Ministério, Alessandro Glauco. Questionado pelo jornal O Globo, ele disse que a pasta aguardou um parecer da agência sobre a regularidade da compra por meio da Opas e, na sequência, afirmou: “Até este momento, também não conseguimos saber por que as compras não estão sendo realizadas.”

ENQUANTO ISSO…

As atas do Centro de Operações de Emergência revelam que o Ministério da Saúde não marcou bobeira quando o assunto era a cloroquina. Cinco dias depois de divulgar o documento em que orienta o uso do medicamento em todas as fases da covid-19, a pasta propôs uma discussão sobre a capacidade nacional de produção.

Na ata da reunião que aconteceu em 25 de maio, o Ministério informa que fez um levantamento junto a empresas no Brasil e no exterior e concluiu que seria necessário importar três toneladas de insumos para a produção da cloroquina. Importante notar que, naquele momento, cloroquina não faltava: havia 1,46 milhão de comprimidos em estoque e a expectativa de receber outros 1,3 milhão do Laboratório do Exército.

“Devido à atual situação, não é aconselhável trazer uma quantidade muito grande, pois caso o protocolo venha a mudar, podemos ficar com um número em estoque parado para prestar contas”, ponderou um integrante do COE. Não dá para saber quem, já que as atas não identificam os interlocutores.

Outro exemplo aponta que o COE passou a ser tratado pelo Ministério como uma estrutura meramente formal. No dia 9 de junho, representantes da Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde (SGTES) apenas comunicaram a proposta de oferta de cloroquina para crianças e gestantes. “Foi pontuado que os técnicos do COE fazem sugestões, mas não têm chancela administrativa sobre o documento. Ele é apresentado apenas para ciência deste COE”, informa a ata. A SGTES, comandada por Mayra Pinheiro, passou a ser a secretaria à frente da ‘política’ de cloroquina, apesar de ter sido criada para propósito bem diferente: a regulação da força de trabalho do setor da saúde.

Em 19 de junho, o COE indicou que o governo teria uma batata quente nas mãos depois que Donald Trump e empresas doaram – a pedido de Jair Bolsonaro – três milhões de unidades de hidroxicloroquina. Isso porque o medicamento teria de ser fracionado, e membros do comitê afirmaram que o Laboratório do Exército não tinha condições de fazer isso. A ‘solução’ do Ministério? Passar a batata para os estados, defendendo que eles assumissem a despesa.

Acontece que, àquela altura, vários governadores queriam o contrário: devolver os comprimidos de cloroquina. A ata de 3 de julho informa que alguns deles tinham pedido o recolhimento de 1.456.616 de doses. Nesse dia, aparecem outros números bem precisos da encalacrada em que o presidente meteu o Ministério: a pasta tinha um estoque de 4.019.500 comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina e outros 4.374.000 haviam sido distribuídos. Somando as doses que os estados não querem com esse estoque, temos uma montanha de 5,4 milhões de comprimidos que não servem para nada. Procurado por diversos jornais, o Ministério não confirmou o estoque atual da droga.

MAIS EVIDÊNCIAS CONTRÁRIAS

Saiu ontem outro estudo sobre a hidroxicloroquina, desta vez focado no tratamento dos quadros leves e moderados de covid-19 – exatamente como propala o Ministério da Saúde desde que Pazuello assumiu. A pesquisa, feita no Brasil e publicada no New England Journal of Medicine, repercutiu no mundo todo. Aponta que a hidroxicloroquina, associada ou não ao antibiótico azitromicina, não tem eficácia. E pior: constatou que pode fazer mal, aumentando risco de arritmia cardíaca e lesões no fígado.

Participaram do ensaio clínico 667 pacientes internados em 55 hospitais. Eles foram divididos em três grupos de forma randomizada (por sorteio): 221 pessoas receberam hidroxicloroquina; 217 também receberam o medicamento, mas associado à azitromicina; e 227 foram tratadas com suporte clínico padrão. Os voluntários receberam as medicações por sete dias e foram acompanhados por duas semanas.

“Outros estudos internacionais já mostraram que ela [hidroxicloroquina] não tinha eficácia para casos graves, mas muitos críticos diziam que ela não havia funcionado porque foi administrada muito tarde, quando o paciente já estava em estado grave. Mostramos que, mesmo quando o início do tratamento é precoce e em casos leves, não há eficácia”, destaca Renato Lopes, professor da Unifesp, em entrevista ao Estadão.

Ao divulgar os resultados, o dirigente do Hospital Albert Einstein – que também coordenou o estudo –, rebateu especificamente Jair Bolsonaro. “Foi comprovado que não funciona“, ressaltou Sidney Klajner, em referência à declaração do presidente de que “não tem comprovação científica de que [a cloroquina] seja eficaz [contra a covid], mas também não tem comprovação de que não seja”.

O triste é que Bolsonaro não está só. Além do Conselho Federal de Medicina (CFM) que, lá no início da crise, fez o papelão de entregar nas mãos do presidente o protocolo isentando de processos os profissionais que optassem pela prescrição das substâncias, a Associação Médica Brasileira (AMB) defendeu na semana passada a “liberdade do médico para prescrever da cloroquina para pacientes com covid-19”. A nota da AMB foi uma resposta à outra, de autoria da Sociedade Brasileira de Infectologia, que instava o Ministério a mudar o protocolo e abandonar a indicação da droga.

Vamos refletir sobre essa situação: o CFM é uma autarquia pública que deveria fiscalizar os médicos; mas, neste momento, ao arrepio da ciência, continua liberando geral essa conduta irresponsável. Já a AMB é uma entidade que reúne sociedades de especialistas diversos; mas, na hora em que uma delas se posiciona respaldada nas melhores evidências disponíveis, resolve se contrapor à ciência. Faz algum sentido?

CONTROLE

De olho na prescrição desenfreada do vermífugo ivermectina que, segundo boatos, também ‘trataria’ a covid-19, a Anvisa baixou uma norma para restringir o acesso. A partir de agora, as farmácias terão de exigir receita em duas vias para venda do vermífugo, com a primeira sendo retida pelo estabelecimento.

AS FILHAS DOS GENERAIS

Depois do recibo passado pelos militares com a indicação da filha do general Braga Netto para um cargo de confiança na ANS, chegou a vez do ministro interino da Saúde mostrar que a ‘missão’ de integrar o governo federal pode trazer muitos frutos. Ontem, o prefeito do Rio Marcelo Crivella (Republicanos) nomeou a filha do general Pazuello para um cargo de confiança na Prefeitura. Stephanie dos Santos Pazuello será supervisora da Diretoria da Gestão de Pessoas, da RioSaúde, estatal responsável pela administração de várias unidades da rede municipal.

“O prefeito Marcelo Crivella está em pré-campanha pela reeleição, e espera que um de seus trunfos seja o apoio da família Bolsonaro e a consequente proximidade com o governo federal. Anda até procurando um general para chamar de vice nas eleições de novembro”, escreveu a colunista Berenice Seara, que deu o furo e lembrou ainda de um terceiro exemplo dessa nova ‘tendência’. A filha do ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas – a quem Bolsonaro recorre em momentos de crise –, recebeu em novembro do ano passado um cargo com salário de R$ 10,4 mil no Ministério dos Direitos Humanos.

IMPEDIMENTO

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) quer patrocinar uma proposta de emenda à Constituição para impedir que militares da ativa assumam funções gratificadas no Executivo. “Eu acho que é bom que a gente construa, não para agora, para não achar que é contra ministro A ou B, mas um pouquinho mais na frente, via ter que aprovar uma PEC. Quem vier para o mundo civil, não vai poder estar na ativa, não é bom que seja assim. Isso não é bom para as Forças Armadas e nem para o Brasil”, defendeu em entrevista à Guilherme Amado.

Além de ir para a reserva, seria bom que os militares tivessem alguma qualificação para exercer as funções para as quais são nomeados. Ontem, Eduardo Pazuello errou ao afirmar que pessoas assintomáticas não transmitem o novo coronavírus e confundiu a data do início do inverno (disse que era 21 de julho; foi 21 de junho). Perguntado sobre o alerta do Centro de Operações de Emergência de que, sem incentivar o isolamento social, a crise sanitária poderia durar dois anos, Pazuello fez um malabarismo retórico precário: “Não cabe ao ministro executar essa ou aquela medida de distanciamento social. Ou me pronunciar sobre ação do gestor. O gestor é que por lei tem essa obrigação. Nessa linha, seria um pronunciamento praticamente político, e não é da minha linha”, disse ontem. Ele esqueceu, mas nós lembramos: ministro interino, você também é gestor.

POSITIVO E CIRCULANDO

Jair Bolsonaro informou na terça que continua com o coronavírus circulando no organismo. Apesar disso, ontem o presidente resolveu parar um passeio de moto para conversar com garis que estavam trabalhando no Palácio da Alvorada. Sem máscara. Não satisfeito, ele burlou o isolamento para conversar também com apoiadores.

“A questão da pandemia não existe como evitar, a não ser ficar isolado em um canto aí. Fora isso, quem está vivendo em sociedade, mais cedo ou mais tarde vai pegar. Não tem como evitar morte no tocante a isso. No Brasil, ninguém morreu, pelo que eu tenho conhecimento, por falta de atendimento médico. Todos os recursos o governo passou para estados e municípios”, propagandeou falsamente Bolsonaro.

Para ficar no exemplo mais recente que dialoga com a fala do presidente: o Conselho Nacional de Saúde atualizou ontem o acompanhamento de como o Ministério gasta a verba de R$ 39 bilhões que tem para combater a pandemia. A execução orçamentária deu uma melhorada, mas continua baixa: subiu de 31% para 44%.

A pasta poderia gastar bem pouco, sem ter trabalho – e com qualidade – se mantivesse o financiamento do inquérito sorológico nacional conhecido como Epicovid. “Junto com um estudo da Espanha [Ene-Covid], esse é um dos maiores estudos do mundo, e seria um mico histórico para o Brasil parar a pesquisa no meio da pandemia sendo o segundo país mais afetado”, resumiu o coordenador do inquérito e reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, à Folha. Os pesquisadores estão em busca de patrocínio. “O que não dá é parar a pesquisa no meio da pandemia”, constatou.

OS TRÊS LÍDERES

Quase metade de todos os 15,5 milhões de casos de covid-19 registrados no planeta estão em três países: Estados Unidos, Brasil e Índia. Eles concentram hoje cerca de 7,6 milhões de infecções, segundo o monitoramento da Universidade Johns Hopkins, e a questão foi apontada ontem pelo diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus. Os três líderes também são responsáveis por quase metade das mortes: 258 mil, das 633 mil confirmadas no mundo todo.

Os Estados Unidos bateram ontem a marca de quatro milhões de casos, sendo um milhão computados nas duas últimas semanas. Durante algum tempo, pareceu estranho que, por lá, o número de casos viesse subindo assustadoramente, mas não o de mortes. Alguns fatores podem realmente fazer com que se morra menos com covid-19 hoje do que há alguns meses – o principal é que, mesmo sem que tenha sido descoberta uma cura, já há evidências apontando as melhores formas de manejar quadros graves. No caso dos EUA, a ampliação da testagem poderia estar ‘pescando’ mais casos leves e assintomáticos, o que também poderia ser uma explicação. Mesmo assim, parecia provável que as mortes voltassem a subir em breve. Isso porque o vírus chegou a novos lugares, e leva tempo até as infecções se transformarem em internações e mortes.

Recentemente, comentamos na newsletter que as taxas de internação em vários estados estavam crescendo sem parar. Hoje, segundo a reportagem da Vox, há mais pessoas hospitalizadas no país do que em qualquer outro momento da pandemia. E, enfim, os óbitos começam a aparecer de forma inequívoca, aumentando consistentemente este mês. Na quarta-feira, pela primeira vez desde o dia 2 de junho, foram registrados mais de mil óbitos em 24 horas. Ontem, aconteceu de novo. No total, pelo menos 143 mil pessoas morreram por covid-19 naquele país.

O caso indiano é muito, muito complicado. Com quase 1,3 milhões de casos e 30 mil mortes, o país ainda tem nas grandes cidades a maior concentração das infecções, mas não sabemos por quanto tempo. Kerala, por exemplo, era considerada bem-sucedida no controle da pandemia, seguindo perfeitamente a cartilha da OMS: testar, rastrear, isolar. Chegou a haver dias sem registros de nenhum novo caso. Mas, mesmo lá, as infecções começaram a aumentar de repente – tudo indica que, após o fim das restrições de viagens, o vírus voltou a entrar com as pessoas que retornam das grandes cidades, desempregadas. Agora, o governo local reconhece que já há transmissão comunitária. E talvez isso já esteja acontecendo, de forma desapercebida, em várias outras pequenas províncias e cidades que não testam tanto quanto Kerala. Ontem, várias localidades impuseram confinamentos.

Um estudo sorológico apontou que 23% da população de Nova Déli foi infectada, o que daria mais de quatro milhões de pessoas (oficialmente, são pouco mais de cem mil). Isso mostra que, mesmo em um dos maiores focos da doença, uma parte grande da população segue suscetível ao vírus.

No Brasil, mais de metade dos casos registrados em julho estão em cidades do interior, e o vírus chegou ao município que tem o menor número de habitantes: Serra da Saudade, em Minas Gerais. Só 781 pessoas vivem lá. Segundo o Estadão, não há transporte público, todas as escolas estão fechadas e há barreira sanitária, mas pelo menos quatro moradores estão com covid-19, na mesma família. A suspeita é que tenham sido contaminados por uma parente de fora, que veio visitar. Todos os outros moradores estão assustados: a UTI mais próxima está a 80 quilômetros de distância. Em São Paulo, quatro cidades de fora da região metropolitana puxam hoje os casos para cima: Santos, Campinas, Ribeirão Preto e Sorocaba estão na faixa das dez mil infecções, e nas três últimas os números estão em franco crescimento.

Nas grandes cidades, habitações precárias continuam sendo um fator para o espalhamento do coronavírus. Mais de quatro mil famílias da Rocinha, no Rio, estão sem água há oito dias. Wallace Pereira, presidente da associação de moradores, diz o óbvio no UOL: “Dessa maneira, deixaremos a covid vencer. As pessoas não conseguem nem lavar as mãos.” Mas esse nem mesmo é um problema pontual, como nota Fernando da Silva, coordenador de um espaço cultural na comunidade: “Dizer que falta água na Rocinha é redundante. O incomum é ter água frequentemente. Normalmente, a Rocinha fica três, quatro dias sem água. Em outro [dia], entra água e fica mais três dias sem.”

Ontem, foram registrados mais 1.317 óbitos e 58 mil novos casos, em todo o país. No total, são 84.207 mortes e 2.289.951 infecções conhecidas.

COPIANDO O MINISTÉRIO

O município de São Paulo mudou o jeito de divulgar seus dados sobre a pandemia. Sem explicar o porquê, a prefeitura começou na semana passada a divulgar as mortes pela data em que ocorreram, e não mais pela data do registro no sistema. É exatamente o que o Ministério da Saúde tentou implementar em junho – e que, depois de muito criticado, desistiu.

Como os registros demoram muito a sair, o número divulgado acaba sempre sendo baixo, dando uma falsa sensação de estabilidade. À medida que são registradas, as mortes vão entrando retroativamente no sistema, mas já sem alarde. A estratégia leva a problemas para a análise estatística dos dados. A reportagem do El País exemplifica a confusão: no dia 15 de julho, o número já mudou pelo menos três vezes, aparecendo com 8.705 mortos no boletim do dia 16; com 8.735 mortos totais no dia 17; e com 8.923 no dia 21. “A diluição de números de maneira retroativa fez com que na semana entre os dias 9 e 16 de julho, 185 mortos sumissem dos cálculos daquele período. É provável que esses óbitos tenham sido redistribuídos por outros dias anteriores, mas não é possível saber, já que os boletins informam somente os números dos últimos sete dias”, explica a repórter Mariana Rossi.

Não é só isso. No dia em que o novo método começou a ser adotado, a prefeitura fez um jogo de cena com direito à ilusão de ótica para dizer que seu plano de reabertura gradual estava sendo um sucesso. Apresentou um gráfico comparando a curva da capital com a de cidades como Madri e Nova Iorque, mas com a curva nacional do Brasil no mesmo quadro. “Quando o Brasil entra no gráfico, naturalmente a escala é aumentada, dando essa impressão falsa de que as demais cidades estão todas em uma situação parecida”, diz Marilaine Colnago, do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria da USP. Tirando o Brasil da jogada, fica bem claro que a curva de São Paulo não tem nada a ver com a das outras cidades em tela (na matéria, dá para ver as duas imagens – a apresentada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), e a produzida por matemáticos).

DESCOBERTA DE CAMINHOS

Um projeto coordenado pela Universidade de Oxford e com a participação de pesquisadores de 15 instituições brasileiras fez o maior mapeamento genético das variantes de coronavírus que circulam no Brasil. Foi sequenciado o material genético de 427 amostras, e os pesquisadores descobriram que o vírus entrou no país de forma distinta pelo menos cem vezes – a grande maioria vindo da Europa –, mas 76% das infecções no país foram provocadas por apenas três linhagens.

Houve dois momentos distintos no espalhamento do vírus por aqui. No primeiro, até o dia 20 de março, ele circulou mais nas capitais com maior incidência de voos internacionais como São Paulo, Belo Horizonte, Ceará e Rio de Janeiro; depois dessa data, começou a ser transportado para outros cantos. “A gente teve muita importação de diferentes paises para o Brasil, e a gente fechou aeroportos para voos internacionais mas não tinha fechado ainda para os voos domésticos. Só depois houve um movimento para começar a fechar as divisas estaduais, mas o vírus já tinha se espalhado entre diferentes estados formando essas três grandes linhagens”, explica Renato Santana, geneticista da UFMG e um dos autores do estudo, na Época.

A equipe cruzou dados de registros de casos de covid-19, mobilidade de pessoas e relações entre os genomas sequenciados. Segundo o trabalho, as medidas de distanciamento social conseguiram baixar a taxa de transmissão do Brasil de 3 para algo entre 1 e 1,6 – o que ainda é insuficiente, porque, para conter o avanço do vírus, o número precisa estar abaixo de 1.

PERDA INESTIMÁVEL

A falta de equipamentos e conexão à internet não são os únicos motivos para alunos pobres deixarem de frequentar as aulas virtuais. Em muitas famílias que ficaram ainda mais fragilizadas economicamente na pandemia, eles estão tendo que trabalhar o dia todo. Há desmotivação também. A volta às aulas vai ser um desafio – sanitário e educacional – sem precedentes, e há temores de que a evasão escolar cresça este ano. “Muitos são filhos de pais autônomos, como pedreiros ou pescadores. Alguns até têm celular para assistir às aulas, mas estão trabalhando manhã e tarde. Com certeza dá medo de eles não voltarem, pelo impasse [de perder a renda extra] e pela ideia de ‘não vou conseguir aprender mais'”, diz na BBC Joseline Souza Nascimento, que dá aulas na rede estadual na cidade de Cascavel (CE).

É uma bola de neve, já que não completar os estudos vai fazer com que esses jovens tenham mais dificuldade de encontrar empregos qualificados no futuro.

O abandono escolar já era um problema relevante. Dos quase 50 milhões de brasileiros entre 14 e 29 anos, mais de 20% não completaram o ensino fundamental ou o médio, segundo a Pnad Contínua 2019. As principais causas apontadas foram necessidade de trabalhar, desinteresse pelas aulas e gravidez. Mais de 70% dos estudantes que saem da escola são pretos ou pardos.

EM BUSCA DO TESTE PERFEITO

Vários grupos de pesquisa estão tentando desenvolver testes precisos que identifiquem o novo coronavírus na saliva dos pacientes. Se vingarem, podem significar um grande avanço no diagnóstico. Hoje, as amostras para o testes PCR precisam ser colhidas por um gigante cotonete colocado no nariz até que atinja a parte do corpo em que as vias nasais encontram a garaganta. Isso tem vários problemas: não é algo que possa ser feito por profissionais não treinados; quem vai colher a amostra do paciente precisa estar paramentado com aventais, luvas e máscaras; cotonetes e reagentes são escassos no mercado; e é preciso analisar o material em uma máquina que não está disponível em toda parte.

Os testes da ‘nova geração‘, como a matéria do New York Times os chama, possibilitariam a coleta em casa ou em consultórios médicos, de forma muito mais simples. O fator limitante: é preciso que sua precisão seja tão boa quanto a dos PCR. E isso ainda está sendo avaliado.

PRIORIDADES

A China ofereceu ontem um empréstimo de US$ 1 bilhão para apoiar o acesso de países da América Latina e do Caribe a vacinas contra a covid-19, tão logo estejam prontas. O anúncio foi feito pelo ministro das Relações Exteriores chinês em uma reunião virtual com representantes de Argentina, Barbados, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, México, Panamá, Peru, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Uruguai.

Faltou o Brasil, como nota o colunista da Folha Nelson de Sá. Mas, dois dias antes, compara ele, o país esteve interessado e presente na reunião em que o Novo Banco de Desenvolvimento (o Banco do BRICs) liberou um empréstimo para combater os danos econômicos da pandemia.

O PIOR

Sabemos que uma das grandes procupações da OMS quando se trata dos ‘efeitos colaterais’ da pandemia é a queda da cobertura vacinal para outras doenças. O Instituto de Inovação da Saúde Global do Imperial College de Londres fez um levantamento com entrevistas em 23 países e concluiu que, entre todos eles, o Brasil foi onde as pessoas mais deixaram de se vacinar. Segundo a pesquisa, 18% dos entrevistados disseram ter adiado ou cancelado sua imunização ou conhecer alguém que o fez. Entre os não-vacinados no Brasil, 34% são crianças e adolescentes.

ALGUMA COISA EM COMUM

Falamos ontem sobre os apostas do governo dos Estados Unidos ao negociar com fabricantes de vacinas que ainda estão em fase de testes. Segundo a reportagem do Quartz, houve investimentos em quatro candidatas de empresas que já chegaram pelo menos à fase dois dos ensaios: Pfizer, Moderna, AstraZeneca e NovoVax. Também já foram encomendadas vacinas de duas companhias que ainda estão na fase 1: a Sanofi e a Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson. Mas há duas novas vacinas que já estão no estágio mais avançado dos ensaios clínicos, a fase 3, e não receberam nenhum centavo dos Estados Unidos: a da Sinopharm e a da Sinovac. O que elas têm em comum? São empresas chinesas.

NEM AMAMENTANDO

Uma pesquisa com 120 recém-nascidos de mães que tinham covid-19 não encontrou transmissão para os bebês, nem durante o parto, nem depois de duas semanas de amamentação – mas, ao amamentar, as mulheres usaram máscaras e lavaram as mãos e os seios com frequência. Enquanto não eram alimentados, os bebês foram mantidos em berços fechados, a cerca de dois metros das mães. O estudo sugere que o benefício do contato pele a pele e da amamentação supere o risco de contaminação, mas, segundo os autores, são necessários novos trabalhos, já que este avaliou poucas crianças. É bom lembrar que, há pouco tempo, cientistas franceses identificaram o primeiro caso de transmissão para um feto, ainda dentro do útero.


MAÍRA MATHIAS E RAQUEL TORRES
Maíra Mathias e Raquel Torres são editoras do Outra Saúde.

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