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“Como país, nós fracassamos no enfrentamento da pandemia”, aponta colóquio sobre distanciamento físico

Do IHU, 03 Julho 2020
Por Pedro Martins, publicada por Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco


Desde os primeiros casos notificados no país, em março deste ano, algumas medidas para conter o avanço da pandemia de Covid-19 vêm sendo tomadas seguindo recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Entretanto, mesmo com todas as indicações científicas sobre a importância do distanciamento físico (ou social, como preferem alguns), as medidas foram durante todo o tempo atacadas, principalmente pelo presidente da República. Por conta de tal pressão a essas medidas, além da dificuldade de garantir maior adesão da população a elas, o relaxamento tem sido realizado de forma precipitada em diversas cidades e com críticas de diversas entidades especialistas no caso.

Com este cenário, o colóquio “Medidas de distanciamento físico no atual momento da pandemia” debateu o relaxamento precoce de algumas cidades do país e trouxe também medidas que tiveram êxito na contenção da pandemia. O debate contou com a participação de Ligia Kerr,professora do Departamento de Medicina Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC); Rômulo Paes de Souza, pesquisador do Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas); Rodrigo Oliveira, médico e secretário municipal de saúde de Niterói (RJ). A coordenaçãofoi de Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Abrasco e professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ).

Desinformação atrapalha debate sobre possíveis saídas


A professora da UFC, Ligia Kerr, abriu o debate expondo a importância das medidas de distanciamento e apontou exemplos de outros lugares no mundo como Wuhan, na China. Além disso, expôs medidas tomadas na Etiópia com antecedência, quando já em janeiro estabeleceu rigoroso controle sanitário nas fronteiras e utilizou o sistema de telecomunicações para sistematizar dados. Ligia apontou ainda a retomada de alta de casos na Europa e na Ásia após a reabertura e apontou: “Cada país está escolhendo seu caminho no enfrentamento à pandemia. O Brasil escolheu o pior de todos”. Ela apontou problemas como o do Rio de Janeiro que vem adotando relaxamento nas medidas: “Segundo dados, o Rio teve 10227 mortes em maio, 93,4% acima das últimas duas décadas deste século para o mesmo mês. Em meio a isso, o prefeito diz que as aulas voltarão”.

A experiência da cidade de Niterói foi trazida pelo secretário municipal da cidade, Rodrigo Oliveira. Além de todo um conjunto com medidas restritivas de circulação para a população, a prefeitura elaborou iniciativas de apoio a pequenas e médias empresas com intuito de manter empregos e também fez um programa próprio de renda básica. Também foram adotadas estratégias de comunicação para informar a população e combater fake news. Para Rodrigo, um dos principais problemas enfrentados foi a falta de liderança em nível nacional: “Hoje, 30 de junho, eu recebi do Ministério da Saúde 10 respiradores. depois de ter comprado 130 e feito várias outras coisas”.

Falta de governança e desorganização


Rômulo Paes iniciou sua explanação de forma bastante contundente: “Como país, como nação, nós fracassamos no enfrentamento da pandemia até agora. É importante dizermos isso”. Para o pesquisador da Fiocruz, a falta de governança em nível nacional e as mensagens confusas emitidas pelo governo federal contribuíram para que a população não tomasse consciência da importância das medidas adotadas: “Estamos com municípios em relaxamento, outros em lockdown… em fases diversas. Se não estamos em uma nau sem rumo, estamos muito desorganizados”.

Diante desse quadro colocado pelos três expositores do colóquio, os demais debatedores abordaram dificuldades que podem se dar no período seguinte ao relaxamento das medidas. Segundo os especialistas, a possibilidade de ter de se retomar medidas restritivas mais duras é grande e a falta de segurança nas informações passadas à população geram um ambiente ainda mais difícil. A importância do SUS também foi destacada com necessidade de dar fim ao subfinanciamento do sistema que, com todas as dificuldades, livrou o país de um quadro ainda pior.

Assista íntegra do colóquio na TV Abrasco:


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