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Como EUA fabricaram o “marxismo cultural”

No Documento de Santa Fé, de 1988, novo intervencionismo dos EUA: infiltrar-se em instituições latino-americanas, alegando combater subversão. Coopta parte do Exército, Judiciário e das elites — receituário que retorna com BolsonaroDo OUTRAS PALAVRAS, 14/07/2020

por Lincoln Barros

É real o risco da radicalização da direita, no sentido de um golpe de estado para a implantação de uma ditadura militar no estilo tradicional, tipo fechamento do Congresso e do STF, prisões massivas de opositores, empastelamento da imprensa e todo a série de barbáries decorrentes? Essa perspectiva seria de interesse das Forças Armadas Brasileiras (FFAA), do capital internacional, do imperialismo americano e da nossa elite vendida e associada a eles, ou seria apenas o sonho da família 00, 01, 02 e 03?

Em um texto publicado no ano passado, no qual Maurício Abdalla busca apontar alternativas para a esquerda enfrentar o Golias do autoritarismo com armas adequadas, o autor cita um documento elaborado por quatro especialistas americanos de política externa, ligados ao Departamento de Estado, intitulado “Documento de Santa Fé – 1988”, que define claramente a estratégia para a expansão americana na América Latina na década seguinte. O documento, como estratégia de enfrentar o “estatismo”, ou seja, operar a redução do papel do estado, recomenda o fortalecimento da sociedade civil liberal, a cooptação das elites locais, o convencimento das FFAA e a intensa propaganda, tal como depois se veio a definir como guerra híbrida, apontando para formas de dominação político-ideológicas sem o uso de canhões.

Em outro texto mais recente, Thales Coelho n’Os Divergentes, sobre o artigo 142 da Constituição de 1988 e o poder moderador, lembra um informe sigiloso sobre “a situação da subversão no Brasil” apresentado na 17ª Conferência dos Exércitos Americanos, realizada em Mar del Plata, na Argentina, em novembro de 1987. Citando:

na referida conferência militar identificara-se o dedo do “movimento comunista internacional” nos movimentos ecológicos, feministas, estudantis, antirracistas, de defesa dos povos indígenas, de liberdade de orientação sexual e da descriminalização do uso de drogas, ou na teologia da libertação. Para os militares ali reunidos, seria preciso combater o “amerocomunismo”, que não se orientava mais por táticas guerrilheiras revolucionárias ou atos de “terrorismo”, mas pelo que, hoje, conhecemos como, soit disant, “marxismo cultural”, baseado nas ideias de Antonio Gramsci. Segundo o relatório do encontro, “para Gramsci, o método não consistia na conquista ‘revolucionária do poder’, mas em subverter culturalmente a sociedade como passo imediato para alcançar o poder político de forma progressiva, pacífica e perene”. E continuava: “Para este ideólogo, a ideia principal se baseia na utilização do jogo democrático para a instalação do socialismo no poder. Uma vez alcançado esse primeiro objetivo, se busca impor finalmente o comunismo revolucionário. Sua obra está dirigida especialmente aos intelectuais, profissionais e aos que manejam os meios maciços de comunicação social.
Chama a atenção a simultaneidade dos dois eventos, Mar del Plata e Santa Fé. Revisitando com um pouco de detalhes o documento resgatado por Mauricio Abdalla, a similaridade do conteúdo fica evidente.

O Documento de Santa Fé – 1988 parte da afirmação de que as Américas estariam sob ataque de uma aliança entre a subversão comunista, o terrorismo e o narcotráfico, vistos do ponto de vista de que os americanos são o xerife do mundo. Expressa o temor de que as políticas americanas para a região, por pouco efetivas, levariam a mais governos pró-soviéticos, mais subversão, mais crimes e narcotráfico, mais imigração de cucarachos para os EUA e, por último, uma probabilidade maior de intervenção militar pelo xerife. Citando uma recomendação exemplar:

“EEUU debe estar preparado para ampliar su programa de asistencia militar a las fuerzas armadas latino-americanas como parte de su reconocimiento de que las insurgencias indígenas son explotadas y agravadas desde el exterior”.

Os conceitos do marxismo cultural, tão em voga atualmente, são aí apresentados, sendo possível reconhecer no texto as raízes do discurso dos gurus da extrema-direita. Numa suposta estratégia gramsciana, os intelectuais marxistas e seus métodos poderiam criar os valores dominantes de uma nação mediante a dominação cultural, em um processo que “requería una fuerte influencia en su religión, escuelas, medios de difusión masiva y universidades. Para los teóricos marxistas, el método más prometedor para crear un régimen estatista en un ambiente democrático era através de la conquista de la cultura de la nación. Conforme a este patrón, los movimientos marxistas en América Latina han sido encabezados por intelectuales y estudiantes y no por trabajadores.” Nesse contexto é que a Teologia da Libertação deveria ser entendida, como uma doutrina política disfarçada de crença religiosa.

O ataque do marxismo cultural não atingiria apenas um ou dois componentes da cultura. Seria eficaz se de forma ampla buscasse redefinir toda a cultura em uma nova terminologia, impulsionado por diferentes teóricos da educação marxista em escolas e universidades e pelo controle estatal sobre a educação através de livros e manuais.

A predominância da esquerda, em grande parte da mídia da América Latina, também deveria ser entendida nesse contexto. Nenhuma eleição democrática poderia modificar a inclinação contínua ao regime estatista, se a “indústria de conscientização” estivesse nas mãos de intelectuais estatistas. A mídia, igrejas e escolas continuariam a desviar formas democráticas para o estatismo, se os EUA e os novos governos democráticos não reconhecessem isso como uma luta do regime.

Como resposta institucional, sempre sob a capa da defesa da democracia, recomenda principalmente que os “Estados Unidos não podem se interessar apenas por processos democráticos formais, mas devem estabelecer programas de apoio à democracia entre a burocracia permanente, incluindo as Forças Armadas e a cultura política.” Neste sentido, devem “fornecer, sempre que possível, os meios para fortalecer as instituições democráticas locais, como sindicatos, grupos empresariais independentes, associações e organizações comerciais; (…) fortalecer sua capacidade de cultivar valores de um regime democrático com as forças armadas da região; (…) devem aumentar o orçamento da USIA (Agência de Informação dos Estados Unidos)”. Indo além, “os Estados Unidos devem ajudar a fortalecer os sistemas judiciais (isto lembra alguém em Curitiba?) na região. Também deve diferenciar grupos de direitos humanos que apoiam o regime democrático e aqueles que apoiam o estatismo.”

Frente a tal risco para os interesses políticos e econômicos dos EUA, o Documento relaciona uma longa série de recomendações institucionais, políticas e econômicas para a política externa americana, que batem exatamente com o desenrolar dos anos 90 até hoje.

Em síntese, a aplicação do receituário de Santa Fé, iniciada em 1990 no Governo Collor com a abertura de mercado e precocemente interrompida, retomada durante os governos FHC com as grandes privatizações e novamente interrompida nos governos petistas, vem se dar de forma integral no desgoverno Bolsonaro, justamente eleito pelos mecanismos já delineados no Documento: participação de Think Tanks, fake news, MBL, Cambridge Analytica e tudo mais exaustivamente conhecido. E, no governo, Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, destruição da educação pública, moralismo, anulação de direitos humanos, privatizações a preço de banana, entrega da Embraer e tecnologia, sucateamento das pesquisas e das universidades etc etc etc.

Como isto foi possível? Quais foram os agentes principais? Quem foram os cúmplices nacionais? Tudo parece indicar que os militares são mesmo parte ativa dessa empreitada sinistra, planejada e executada com rigor desde então.

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