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Capitalismo de Vigilância infiltra-se no Ensino Público

Projeto, que reúne pesquisadores de diversas áreas, aponta: Google e Microsoft dominam 70% das ferramentas usadas no ensino público. Educadores alertam: aulas online estão sendo usadas para demissões e ampla extração de dados.

Do OUTRAS PALAVRAS, 28/07/2020
Por Filipe Saraiva, em seu blog

Há alguns meses o projeto Educação Vigiada mapeou a adoção de ferramentas de produtividade e comunicação mantidas pelo Google e Microsoft por instituições públicas de educação. São universidades federais e estaduais, institutos federais, e secretarias estaduais de educação que passaram a utilizar ferramentas como e-mail, chat, edição de texto e outras dessas plataformas, entregando a elas todos os dados e metadados gerados nessa utilização.

Os números são alarmantes: mais de 70% dessas instituições adotaram estes serviços providos por estas duas empresas de tecnologia.

Mapa de adoção das soluções GAFAM (pontos em vermelho) nas instituições públicas de ensino no Brasil

Há muitas consequências graves advindas desse movimento: as ferramentas de comunicação dos centros de produção de pesquisa brasileira agora encontram-se nessas empresas; redução de prioridade de instalação de infraestrutura com a retirada desses grandes clientes do mercado de soluções de comunicação; redução de empregos e contratações no setor; mais dependência tecnológica externa; familiarização de estudantes em idade escolar com as tecnologias dessas empresas; e, certamente a pior, os dados das nossas instituições de pesquisa estão monopolizados nessas empresas, que podem obter informações e correlações de todos os tipos a partir dos mesmos.
Parafraseando algo que sempre ouvimos de especialistas em computação, “dados são o novo petróleo”. Agora relacione isso com a magnitude da adoção que nossas instituições de ensino estão fazendo dessas plataformas.

Os resultados obtidos pelo projeto estão suscitando questões entre educadores, movimentos sociais, tomadores de decisão das instituições de ensino e políticos, em especial nesse contexto de crise da pandemia onde as instituições passaram a enxergar na adoção dessas soluções a saída para realização de aulas à distância.

Sindicatos como o CEPRS, ADUFES, APG-UFSC, APUBH, ADUFPA e outros já emitiram notas ou estão se articulando para questionar a adoção a essas soluções que só fortalecem estas empresas às custas dos nossos dados. Na ALERJ foi discutido e aprovado projeto da deputada estadual Dani Monteiro (PSOL) que proíbe a comercialização de dados dos usuários pelas plataformas de ensino à distância.

Nosso desejo é que essas questões e movimentos articulados a partir dos resultados do projeto possam ganhar destaque e serem discutidos em nível federal. Os dados que produzimos devem ser encarados com seriedade, e as consequências da má utilização dos mesmos devem ser esclarecidas e colocadas para a sociedade.

Para quem quiser saber mais o projeto disponibiliza um site com o mapeamento realizado e mais informações e referências sobre o tema. Há uma live de lançamento, um episódio do podcast Tecnopolítica, e uma live do prof. Leonardo Cruz do IFCH/UFPA sobre o projeto.

O projeto “Educação Vigiada” foi desenvolvido em uma parceria do Laboratório Amazônico de Estudos Sociotécnicos (UFPA), Centro de Competência em Software Livre (UFPA), Cátedra UNESCO de Educação EaD (UnB), Iniciativa Educação Aberta (SP e Instituto EducaDigital (SP), com apoio da Derechos Digitales América Latina.


FILIPE SARAIVA
É professor de computação na UFPA

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