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13.07.20 – A GLOBALIZAÇÃO (QUEM DIRIA?) PODE ACABAR NOS EUA

Contra Trump, Joe Biden propõe reativar a indústria e fortalecer os sindicatos. Seu movimento mostra por que o “patriotismo” de Bolsonaro é tão fake quanto as “notícias” que suas milícias digitais empenham-se em propagar.

Do Outras Palavras, 13/07/2020

por Antonio Martins 
Pelo menos desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, a proteção, pela sociedade e pelo Estado, dos produtores nacionais foi vista no Brasil como um anátema. Defendê-los, diziam os economistas de mercado e a mídia, era uma atitude obsoleta e ineficaz. Os consumidores – subitamente elevados à categoria de sujeitos políticos principais – mereciam acesso a mercadorias boas e baratas, não importanto sua origem. Para atender a este objetivo, a política econômica deveria promover a abertura das fronteiras às corporações transnacionais. A eliminação de setores inteiros da indústria (e das ocupações a eles associadas) era um mal necessário – parte da “destruição criativa” que o capitalismo promove incessantemente, supostamente para o bem de todos.

Por tudo isso, não deixa de ser curioso que, trinta anos depois, venha dos EUA o sinal mais eloquente de que este argumento está com os dias contados. Quem conta é Robert Reich – analista político, ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton e colaborador frequente das mídias alternativas norte-americanas. Num artigo publicado sexta-feira (10/7), no site Prospect, ele conta como Joe Biden, candidato democrata à Casa Branca, pretende emparedar Donald Trump, propondo um nacionalismo econômico que vai além da retórica vazia do falastrão.

As propostas de Biden foram anunciadas num discurso, na véspera. Elas não implicam ruptura apenas em relação a Trump. Revertem as políticas econômicas adotadas nos governos democratas de Bill Clinton e Barack Obama, que levaram boa parte da antiga classe trabalhadora a apoiar a ultra-direita. Em oposição ao que propõe o neoliberalismo, Biden quer utilizar a força econômica do Estado para reconstruir uma indústria nacional. Seu primeiro instrumento são as compras governamentais. Elas representam US$ 400 bilhões por ano – ¼ do PIB brasileiro –, que poderiam estimular a produção local. Mas este poder não é exercido, porque as próprias corporações norte-americanas preferem vender ao Estado o que produzem no exterior, onde as margens de lucros são maiores e os direitos trabalhistas, menores.

No vácuo aberto pelos presidentes democratas que o antecederam, Trump prometeu “make America great again”. O discurso garantiu-lhe os votos das antigas regiões industriais sucateadas, decisivos para sua eleição em 2016. Mas, no poder, o discurso jamais realizou-se, devido aos vínculos do presidente com o grande capital. Agora, Biden propõe uma parceria com os sindicatos. Na fala de quinta-feira, defendeu elevar o salário-mínimo a US$ 15 por hora, uma antiga reivindicação trabalhista e restituir direitos sindicais eliminados na maré ultraconservadora. Também anunciou que, para estimular a indústria, cobrará dos muito ricos e das corporações os impostos eliminados por Trump.

* * *

O resultado das eleições norte-americanas repercutirá em todo o mundo. Uma derrota da ultradireita desnorteará os Bolsonaro e merecerá intensa comemoração. Mas o mais importante é desnudar, desde já, as políticas que levaram à destruição da indústria brasileira e fizeram o país regredir à condição de exportador primário. Em 1986, a produção industrial representava quase 30% do PIB – três vezes o percentual de hoje (veja o gráfico abaixo). O resultado havia sido alcançado num esforço de ao menos quatro décadas, graças a políticas de proteção. Tinham graves distorções, produzidas em especial pela associação da ditadura pós-1964 com os “barões da indústria”. Na retomada democrática, precisariam ser aperfeiçoadas e atualizadas, para garantir distribuição da riqueza e iniciar a virada ambiental. Foram, ao contrário, desmontadas, num movimento não interrompido sequer durante os anos da esquerda no poder.


Em janeiro deste ano, Bolsonaro e Paulo Guedes agiram para atirar a pá de cal. O presidente que se diz “antiglobalista”, cedeu aos piores impulsos da globalização. O governo anunciou que o país renunciaria a proteger a produção nacional por meio das compras governamentais – exatamente o instrumento que Biden quer empregar. Se o projeto for adiante, o Estado brasileiro assumirá a obrigação de convidar corporações globais para disputar inclusive as licitações e concorrências abertas pelo Estado – oferecendo-lhes da construção de obras públicas aos serviços de limpeza nas repartições públicas.

A provável mudança de rumos, no país que promoveu o “consenso de Washington”, mostra como esta postura, além de submissa, é suicida. E revela que passou da hora de voltar a pensar numa política industrial para o Brasil

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