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Žižek: Morte no paraíso: violência policial, pandemia e o crime do capital

A crise atual trouxe à tona as consequências bastante materiais do abismo de classe nos Estados Unidos: não se trata apenas de uma questão de riqueza e pobreza, é também (e de maneira bastante literal) uma questão de vida e morte – tanto no que diz respeito à violência policial quanto no que diz respeito à pandemia do novo coronavírus.
Do Blog da Boitempo, 01/06/2020 

Manifestantes durante protesto nos EUA no último sábado com máscaras faciais dizendo “I can’t breathe” [Eu não consigo respirar], últimas palavras ditas por George Floyd, imobilizado, ao ser sufocado por um policial em Minneapolis no dia 25 de maio. Los Angeles, 29 mai. 2020. (Foto: Gary Coronado, L. A. Times)


Nosso mundo está gradualmente afundando em insanidade: ao invés de solidariedade e ação global coordenadas contra a ameaça da covid-19, estamos testemunhando não apenas a proliferação de desastres na agricultura, agravando a perspectiva de uma fome de enormes proporções (há invasões de gafanhotos registradas em áreas desde o leste da África ao Paquistão; a gripe suína esta pipocando mais forte do que nunca), como explosões de violência policial, frequentemente ignoradas pela mídia (quão pouco se lê a respeito dos confrontos, com vários feridos, na fronteira militar entre Índia e China?). Em uma era tão desesperadora com esta, é justificável querer escapar de tempos em tempos para uma boa e velha série policial enlatada, como a produção franco britânica Death in Paradise [Morte no paraíso]. Mas vivemos em uma realidade que continua a nos assombrar mesmo na ficção, de forma que mesmo lá, na fantasiosa ilha caribenha na qual a série se passa, impõem-se paralelos com a atual crise da pandemia.



Em um dos episódios mais tardios da série, o inspetor policial descobre que o assassino se valeu de um assistente para ajudar a apagar os traços de seu ato – e que esse assistente não era ninguém menos do que a própria vítima: um homem propenso a humilhar os outros, mas também com arroubos de culpa e arrependimento. Trocando em miúdos, a motivação do assassino é a tormenta e humilhação brutais às quais a vítima havia o submetido na época da escola. Já mortalmente ferida, a vítima se dá conta do sofrimento que ela provocou, e usa de suas últimas forças para adulterar a cena do crime de modo a fazer parecer que uma terceira pessoa teria cometido o assassinato, exonerando assim o verdadeiro assassino.

Há algo de nobre em um gesto desses, um traço de autêntica redenção. Mas a ideologia encontra formas de perverter tais gestos nobres: ela pode fazer com que a vítima, e não o criminoso, voluntariamente apague quaisquer traços do crime e apresentá-lo como um ato de seu próprio livre arbítrio. Não é isso que milhares de pessoas comuns que se manifestam reivindicando o fim do lockdown estão fazendo no “paraíso” chamado Estados Unidos? Voltar rápido demais à “normalidade”, como defende Trump e sua gestão, expõe muitas pessoas à ameaça potencialmente mortífera de infecção – mas ainda assim há pessoas exigindo isso, encobrindo assim quaisquer traços do crime de Trump (e do capital).

No início do século XIX, muitos trabalhadores de mineração no País de Gales recusavam o uso de capacetes e outros equipamentos protetores caros, mesmo que com eles reduzia-se drasticamente a possibilidade de acidentes fatais (que abundavam nas minas de carvão) – isso porque os custos dos equipamentos seriam deduzidos diretamente de seus salários. Hoje parece que regredimos ao mesmo cálculo desesperado, que não passa de uma nova versão invertida da velha escolha forçada entre “dinheiro ou vida” (na qual, é claro, você opta pela vida, mesmo sendo uma vida miserável). Se hoje um trabalhador optar pela “vida” em vez do “dinheiro”, ele acaba perdendo os dois, de modo que a única opção é retornar ao trabalho para poder ganhar dinheiro a fim de sobreviver – mas a “vida” que resta é brutalmente limitada por uma ameaça de infecção e morte. Trump não é culpado de matar os trabalhadores, afinal eles fizeram uma escolha livre – mas ele é sim culpado de oferecer aos trabalhadores uma escolha “livre” na qual a única forma de sobreviver é arriscando a própria vida, e ele os humilha ainda mais colocando-os em uma situação na qual precisam manifestar seu “direito” de morrer no local de trabalho.

Devemos contrastar esses protestos contra o lockdown com a explosão de raiva em curso deflagrada por outra morte no paraíso estadunidense: a de George Floyd, em Minneapolis. Embora a raiva das milhares de pessoas negras protestando contra esse ato de violência policial não esteja diretamente ligada à pandemia, é fácil identificar no seu pano de fundo a clara lição das estatísticas de morte da covid-19: pessoas negras e hispânicas têm uma chance muito maior de morrer por conta do vírus do que americanos brancos. O surto trouxe assim à tona as consequências bastante materiais do abismo de classe nos Estados Unidos: não se trata apenas de uma questão de riqueza e pobreza, é também (e de maneira bastante literal) uma questão de vida e morte – tanto no que diz respeito à polícia quanto no que diz respeito à pandemia do novo coronavírus.

E isso nos traz de volta ao nosso ponto de partida no nobre gesto da vítima da série policial ajudando o criminoso a apagar todo e qualquer vestígio de seu ato – um ato que era, se não justificado, ao menos compreensível como um ato de desespero. Sim, os manifestantes são muitas vezes violentos, mas devemos conceder à violência deles uma leniência mais ou menos análoga à que a vítima faz em relação ao seu assassino no episódio de Death in Paradise [Morte no paraíso].


Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo, de Slavoj Žižek
Uma pandemia global assola o planeta. Com a brusca mudança na rotina de bilhões de pessoas, vivemos em um momento em que o maior ato de responsabilidade é se manter distante daqueles que amamos. Em treze ensaios de escrita rápida, afiada e bem-humorada, a obra destrincha diferentes aspectos do surto provocado pelo novo coronavírus: filosóficos, psicanalíticos, políticos, sociais, econômicos, ecológicos e ideológicos.

Escrito com seu conhecido estilo irreverente e o gosto do autor por analogias da cultura pop (Tarantino, Hitchcock e H. G. Wells flertam com Marx, Hegel e Lacan nestas páginas), este livro fornece fotogramas concisos e provocativos da crise à medida que ela se alastra e engole todos nós. Para apresentar a ousada tese que atravessa os ensaios que compõem esta obra, Žižek não se furta de travar um debate direto com outros intérpretes contemporâneos da crise causada pela covid-19, como Giorgio Agamben, Byung-Chul Han, Alain Badiou e Bruno Latour, entre outros.
O autor abriu mão dos direitos autorais da obra, que serão revertidos à organização internacional Médicos Sem Fronteiras, dedicada a oferecer ajuda médica e humanitária a populações em situações de emergência em todo o planeta. Com tradução de Artur Renzo e edição de Carolina Mercês, a obra conta ainda com prefácio assinado pelo psicanalista Christian Dunker.
Pandemia Capital é uma série especial de obras curtas, objetivas e com preços acessíveis que aborda a crise atual do novo coronavírus e suas implicações na sociedade, na psicologia e na economia.



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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014), O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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