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Radiografia de três surtos de coronavírus: como se infectaram e como podemos evitar

Um escritório, um restaurante e um ônibus. Três contágios múltiplos, estudados minuciosamente pelas autoridades sanitárias, oferecem valiosas lições ao deixar a quarentena


Do El País, 15 de Junho, 2020
JAVIER SALAS, |MARIANO ZAFRA


Um restaurante lotado para comemorar o Ano Novo chinês. Uma centena de contágios em um edifício de dezenove andares. Um grupo de devotos budistas que viaja de ônibus para um ritual religioso. São três surtos reais, minuciosamente documentados pelas autoridades, em que ocorreram múltiplos contágios por covid-19. O que aconteceu nesses cenários? Quais foram os fatores de risco? Quais lições podemos aprender, agora que tentamos recuperar a normalidade em restaurantes, escritórios, meios de transporte e outros locais semelhantes?
O escritório

Em um só escritório de um call center o risco de contágio se multiplicou ao somar quatro fatores decisivos: contatos múltiplos, próximos e prolongados em um espaço fechado.








Os funcionários do 'call center' do 11º andar trabalham agrupados em mesas de 13 lugares durante sua jornada de trabalho.

Em algumas mesas, como essa, até nove dos treze funcionários testaram positivo.

Os trabalhadores estavam dentro desse local com outros 137 funcionários juntos em um lugar fechado.

Desses 137 empregados, testaram positivo 79 (57,6%). O contato permanente no mesmo espaço durante muito tempo teve papel crucial.

Os outros trabalhadores do andar fizeram o teste e a proporção de infectados foi muito menor.

Do restante do edifício, somente três pessoas testaram positivo entre as 927 examinadas (0,3%), apesar de dividirem saguões, elevadores e outros locais comuns.


Na pesquisa feita pelas autoridades de Seul, foi descoberto que lá se concentravam quase todos os contágios descobertos no surto que afetou um prédio de dezenove andares que envolvia mais de mil pessoas, entre moradores e funcionários. Mas os contágios se concentram quase exclusivamente na mesma sala. Apesar da considerável interação entre os trabalhadores em diferentes andares do edifício, nos elevadores e no saguão, a propagação se limitou a esse local lotado de funcionários em suas mesas, “o que indica que a duração da interação (e contato) provavelmente foi o principal facilitador para uma maior difusão”, dizem os cientistas coreanos em um estudo.

As recomendações dos cientistas e das autoridades sanitárias incidem em evitar essa multiplicação de riscos gerada pela concentração de pessoas. As medidas vão de decisões administrativas como teletrabalhar por turnos, usar máscaras e evitar que os empregados dividam material de escritório. Além disso, se recomenda a separação dos trabalhadores, evitar aglomerações em reuniões, acessos e refeitórios, além de manter os espaços corretamente ventilados. “Devemos reduzir a concentração de pessoas e o tempo de exposição, o tempo que passam juntas. Se reduzimos esses fatores, reduzimos o risco”, resume Maricruz Minguillón, pesquisadora do IDAEA-CSIC.


Para evitar os contágios


Ventilação natural para evitar a recirculação de partículas infecciosas

Evite aglomerar funcionários em reuniões ou áreas de café e alimentação

Mantenha os funcionários distanciados, combinando o teletrabalho e o horário flexível

2 m

Coloque os trabalhadores nas mesas em zig zag e com dois metros de distância

Evite contato físico. Não use materiais e outros dispositivos de outros funcionários sem limpá-los primeiro

O restaurante


Uma refeição de Ano Novo em Guangzhou em 24 de janeiro é o melhor exemplo dos riscos que podem ser evitados em locais fechados. Esse cenário foi analisado detalhadamente em dois estudos diferentes pelas autoridades sanitárias chinesas e a conclusão é clara: a ventilação ruim pode ser decisiva se o contato se mantém durante situações prolongadas. Novamente, a equação que soma tempo e interação social multiplica os riscos.




O restaurante está cheio no dia da comemoração. O surto ocorre em uma sala sem ventilação onde comem noventa pessoas atendidas por oito garçons.

Na mesa A come com sua família alguém que chegou de Wuhan no dia anterior. Nessa noite apresentará sintomas e irá ao hospital.

Após a refeição, outros nove clientes são diagnosticados. Todos os infectados das mesas B e C estão a mais de um metro do paciente 0, outro a quatro metros e meio. Ninguém mais foi infectado no restaurante.

O tempo é decisivo. As refeições das famílias B e C coincidem durante um longo período com a do paciente 0. A mesa D, somente 18 minutos.

Os pesquisadores acham que o ar-condicionado foi essencial. Fez com que o ar circulasse continuamente entre as três mesas, concentrando entre esses clientes as microgotas com carga viral expelida pelo paciente 0.

As câmeras do local mostram que as pessoas infectadas não tiveram contato nos banheiros e em qualquer outro lugar que pudesse propiciar a transmissão do vírus. Ainda que o contato próximo, dizem os cientistas, possa desempenhar um papel importante na transmissão do SARS-CoV-2, é possível a transmissão do vírus em pequenas gotículas em suspensão “em recintos lotados e mal ventilados”. Os circuladores de ar ao exterior estavam fechados. “Nosso estudo sugere que é crucial prevenir o confinamento e proporcionar uma boa ventilação em edifícios e locais de transporte para prevenir a propagação do SARS-CoV-2”, acrescentam. As recomendações das autoridades sanitárias insistem a todo momento evitar os sistemas de recirculação de ar. E levar ao exterior todas as atividades sempre que for possível”.



Para evitar os contágios

Abrir janelas, mesmo que cause desconforto devido ao calor ou frio

Evite música de fundo que o force a levantar a voz (mais gotas são expelidas pela boca)

Evite a recirculação do mesmo ar

Sempre use filtro de ar

Reduzir assentos interiores 2 ou 3 m

Expandir a distância entre pessoas

Sempre que possível, transfira a atividade para o exterior
O ônibus

As autoridades chinesas e pesquisadores de universidades dos EUA analisam um surto ocorrido em um ritual budista para onde que as pessoas se deslocaram em dois ônibus em uma viagem de 100 minutos (50 minutos por trajeto). Uma mulher com sintomas viajava em um dos veículos, em que o ar recirculava entre os passageiros. 23 foram infectados. “O paciente zero nesse surto parece ter sido um supercontaminador”, diz Emily Gurley, epidemiologista da Universidade Johns Hopkins. Esses eventos certamente ocorrem. Como no restaurante, a transmissão pode ser explicada por aerossóis e gotas que viajam distâncias mais longas através do ar da janela e do ar-condicionado”, acrescenta.








Dois ônibus vão a um ritual budista. Os veículos estão densamente ocupados, com apenas 75 centímetros entre as fileiras.

A paciente 0, uma mulher de 64 anos, esteve em contato com pessoas de Wuhan. Só teve sintomas no dia seguinte.

No total, 23 pessoas foram infectadas nesse ônibus. Ninguém ficou doente no outro, ainda que tenham realizado juntas o ritual.

O ar-condicionado estava em modo recirculação. Os pesquisadores acham que foi decisivo: os passageiros se contagiaram apesar da distância com a paciente.

Diversos estudos no Japão e outros países mostram que os meios de transporte não são lugares em que ocorrem grandes contágios se os usuários mantêm as normas de higiene e proteção, principalmente o uso de máscaras, que evitam que partículas infecciosas sejam expelidas ao ambiente, como aconteceu no caso da paciente zero do ônibus. Além disso, se sugere estabelecer medidas de proteção específicas aos condutores do transporte, melhorar a ventilação e aumentar a regularidade dos ônibus e trens para reduzir o máximo possível as aglomerações.


Para evitar os contágios


Em qualquer situação em que haja um acúmulo de pessoas por muito tempo, essa hierarquia de controle deve ser aplicada, que consiste em aplicar primeiro os métodos mais eficazes e em maior quantidade para nos isolarmos do risco de contágio.

•Teletrabalho

• Reduzir o número de trabalhadores nas empresas+

Distância física Eficaz

• Crie barreiras físicas entre as pessoas

Controle de engenharia

• Redistribuir responsabilidades para reduzir contato entre indivíduos


Controle

administrativo

• Uso obrigatório de máscaras não médicas



Proteção

Eficaz

Fontes: Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças de Guangzhou e Hangzhou, Centro Johns Hopkins para a Segurança da Saúde, IDAEA-CSIC, Centro Europeu para a Prevenção e Controle de Doenças, Laboratório Internacional de Qualidade do Ar e Saúde (OMS, Queensland), Governo da Coreia do Sul.

Desenvolvimento: Belén Polo.

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