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Pandemia recrudesce ao atingir em cheio as periferias

Meio milhão de mortes — e Américas são o centro da doença. No Brasil, ela castiga o interior. Fracasso total da ultradireita (de Trump e Bolsonaro) no enfrentamento da covid-19. E mais: o limbo dos pacientes crônicos.Do OUTRA SAÚDE, 29/06/2020

por Maíra Mathias e Raquel Torres

MEIO MILHÃO DE MORTES

O mundo chegou ontem a dez milhões de casos e 500 mil óbitos confirmados pelo novo coronavírus. Do primeiro caso registrado até a marca de um milhão, foram necessários três meses; agora, as novas infecções têm acontecido num ritmo de um milhão por semana: eram oito milhões no dia 15 de junho e nove milhões na segunda-feira passada. Isso ainda pode mudar – para pior. Afinal, também ontem foi alcançado um recorde de novos casos diários, com mais de 190 mil ao redor do planeta. Se a tendência continuar, teremos quase 1,4 milhão de registros a mais na próxima semana.

Os países responsáveis pelo crescimento acelerado estão hoje nas Américas. Mais de metade desses novos casos (117,1 mil) vieram do continente, e ontem a América Latina, com 2,5 milhões de infecções acumuladas, superou a Europa. Os EUA lideram a lista dos países com maior número absoluto de infecções e óbitos (mais de 2,5 milhões de casos e 125,7 mil mortos), seguidos pelo Brasil (1,3 milhões de infectados e 57,7 mil vítimas fatais). Na sequência, em número de casos confirmados, aparecem Rússia (640 mil), Índia (548 mil), Reino Unido (312 mil), Peru (279 mil) e Chile (271 mil). Aliás, a Índia, numa tendência alarmante, teve um recorde de novas infecções ontem, com quase 20 mil registros em 24 horas.

Até agora, foram em média mais de 80 mil mortes por mês, em comparação com 64 mil relacionadas ao HIV e 36 mil por malária, de acordo com dados de 2018 da Organização Mundial de Saúde. Com um agravante: as mortes por covid-19 ainda tendem a crescer. Os países que lideram a lista dos mais atingidos não estão sequer no fim da sua primeira onda. Eles apresentam crescimento acelerado nos contágios sem nunca terem experimentado uma queda realmente vertiginosa.

Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Políticas para Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, resumiu de forma muito angustiante o momento atual: “Este é um grande incêndio florestal que continua se consumindo e procurando madeira para queimar. Acontece que essa madeira são os humanos”, disse, segundo o Wall Street Journal.

NÃO SURPREENDE

Os Estados Unidos, que continuam sendo o país com os piores números da pandemia, bateram um novo recorde nos casos de covid-19, com mais de 45 mil registros na sexta-feira. Os estados de Flórida, Texas, Califórnia e Arizona foram, juntos, responsáveis por quase metade desse número. Só dois estados têm reportado declínio: Connecticut e Rhode Island.

O presidente Donald Trump já disse pelo duas vezes que pretende reduzir as testagens para ‘melhorar’ os números. Ainda na sexta, o vice-presidente Mike Pence insistiu em coletiva de imprensa que os EUA “achataram a curva” e que grande parte do crescimento se deve ao aumento das testagens. “Isso pode explicar em parte a alta. Mas há um limite. E deixar de testar não adianta, porque não se pode esconder cadáveres“, rebate, na BBC, o epidemiologista Arnold Monto, da Universidade de Michigan.

Também contrariando Trump, o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, alertou ontem que a “janela” para agir e controlar o vírus “está se fechando” para os EUA; ele disse ainda que o surto é atualmente “muito, muito sério”. E o chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Anthony Fauci, afirmou em coletiva que era hora de “recuar alguns metros” em relação à retomada econômica e que alguns estados podem estar reabrindo “cedo demais”. Num embate nada sutil com o presidente, Fauci afirmou ainda que os EUA precisam começar a considerar “inundar o sistema com testes” porque, de acordo com o Centro de Controle de Doenças do país, para cada pessoa diagnosticada por lá há outras dez que não sabem que foram contaminadas.

O fato é que, diante do aumento de casos de coronavírus, 11 estados voltaram atrás em suas reaberturas, ou decidiram não avançar nos seus planos de flexibilização. Os resultados da retomada precoce estão muito óbvios. Um exemplo é o que aconteceu em um bar em Michigan, que abriu com metade de sua capacidade no último dia 8. Pelo menos 85 clientes pegaram a covid-19. Agora as autoridades pedem para que todos os que frequentaram o local entrem em quarentena por 14 dias. A probabilidade de que o vírus já tenha passado adiante a partir dessas pessoas é imensa.

A população tem motivos de sobra para se preocupar. Na hora em que o vírus volta a crescer com força no país, Trump pediu à Suprema Corte que revogue o Obamacare; se a demanda vingar, trará o fim permanente do programa popular de seguros de saúde, deixando 23 milhões de pessoas sem cobertura. Essa é uma briga antiga do presidente, retomada no pior momento.

A propósito, Trump compartilhou ontem, no Twitter, um vídeo mostrando um de seus apoiadores na Flórida gritando “white power”. Apagou em seguida, depois de uma forte repercussão negativa, inclusive entre republicanos.

MIREM-SE NO EXEMPLO

“A lição para o Brasil é ver o que está acontecendo nos EUA. Estou preocupado com o Brasil relaxando medidas de distanciamento social quando os casos estão subindo, é uma decisão errada”. O alerta foi feito na Folha por Ali Mokdad, especialista em saúde pública e um dos responsáveis por compilar os números brasileiros para o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington. O IHME tem apresentado os principais modelos preditivos usados pela Casa Branca durante a crise.

Mas o Brasil não aprende nem com o que vem acontecendo no próprio território. As cidades do interior do estado de São Paulo que começaram planos de flexibilização e já precisaram voltar atrás) tiveram mais internações e mortes do que a média. Em uma semana, dois prefeitos do interior morreram pela doença. Ainda assim, a capital e outros 14 municípios estão seguindo a todo vapor com o plano de retomada da economia e avançaram para a fase 3, amarela. Com isso, a cidade de São Paulo já pode reabrir bares, restaurantes e salões de beleza. “A reabertura é uma receita do caos. (…) Abrir shoppings já é ruim, mas agora os ambientes que serão abertos são particularmente os de alta transmissão, porque as pessoas vão ficar conversando, sem máscara, próximas umas das outras. Em vários lugares do mundo, os parques foram os primeiros lugares que as pessoas puderam ocupar. Aqui não. Como shopping abre antes do que parque?”, pergunta, no El País, Patrícia Magalhães, física e pesquisadora da Universidade de Bristol e do Grupo Ação Covid-19.

Na capital do Rio, o prefeito Marcelo Crivella antecipou a volta do comércio, que estava prevista para o dia 2. As lojas reabriram no sábado, com grande aglomeração nas ruas. O isolamento na cidade chegou a 39%, contra 71% em meados de junho. Escolas privadas vão poder reabrir no dia 10 de julho. E tem mais: a prefeitura já quer retomar, no mesmo dia 10, os jogos de futebol com a presença de torcedores.

“O Brasil está navegando ao sabor do vírus. Abrimos mão de controlar a pandemia e o vírus está nos levando para onde deseja. (…) Sem dúvida estamos caminhando em direção à tragédia, mas em câmera lenta, e não temos planos para retomar o controle”, escreve o biólogo Fernando Reinach, no Estadão. Quando vai “ao sabor do vírus”, a pandemia só termina quando há imunidade de rebanho. E isso, que não está sequer no horizonte devido ao ainda baixo percentual de contaminados no país, vai custar muitas vidas. Ele completa: “Não existe nenhuma medida em andamento que tenha alguma chance de reverter o andamento da pandemia nos próximos meses. Nenhuma. A impressão é que nossos governantes esperam por algum milagre, alguma intervenção divina que provoque a diminuição do espalhamento da doença de maneira mágica, sem que eles tenham de executar algum plano que tenha embasamento científico”.

De sexta até ontem, foram confirmados 69.169 casos e 1.661 mortes no país – há hoje 1.345.254 registros de infecção e 57.658 óbitos conhecidos no Brasil. São Paulo continua sendo o pior estado, com 271.737 casos, 14.338 óbitos e 75 novas mortes registradas ontem. Mas o Nordeste é a região com maior número de novas mortes confirmadas: 246, contra 178 no Sudeste.

Em tempo: o Ministério da Saúde divulgou que o primeiro óbito pelo novo coronavírus no Brasil foi em 12 de março, e não no dia 16, como se registrava antes. Também foi identificada outra morte no dia 15.

O NOVO ACORDO

O governo federal anunciou no sábado um acordo de cooperação com a Universidade de Oxford e o laboratório farmacêutico AstraZeneca para produzir uma vacina. A fabricação no Brasil será feita por BioManguinhos, unidade da Fiocruz responsável pela produção de vacinas, e o investimento pode chegar a US$ 288 milhões – R$ 1,6 bilhão.

O risco não é pequeno. Afinal, não há eficácia comprovada, embora o imunizante de Oxford esteja avançado em seus ensaios clínicos. Além dele, há hoje outros 200 em desenvolvimento, e pelo menos 15 já começaram a ser testados em humanos. “Quem ganha uma corrida de vacina não é quem chega primeiro, é quem chega em melhores condições. (…) O que é preocupante nessa vacina de Oxford, embora todos aqui estejam torcendo para que ela dê certo e diminua essa pressão social que estamos sofrendo, é que, no experimento em macacos, ela mostrou que protegia da pneumonia, mas não eliminava o vírus circulante nas mucosas. Não sabemos se isso seria extrapolado para os homens, mas isso pode significar – não sabemos – que o indivíduo ficaria protegido da doença grave, mas continuaria transmitindo o vírus. É uma coisa grave em termos de saúde pública, porque as pessoas que não estiverem vacinadas estarão sob ameaça”, explicou o imunologista Jorge Kalil em um debate promovido pelo Estadão.

Diante do fracasso absoluto em controlar as transmissões, porém, talvez não reste muita alternativa ao Brasil além de apostar em acordos do tipo. O governo espera ter resultados preliminares nesse sentido em outubro ou novembro. Se os resultados forem negativos, o país perde o dinheiro. Se os resultados forem positivos, mas outras vacinas melhores e mais baratas forem descobertas, o acordo também pode não se mostrar muito vantajoso. Mas se tudo der certo a distribuição pode, em tese, ser rápida. Pelo menos o Brasil tem um histórico de sucesso na fabricação e distribuição de vacinas, graças ao SUS. É verdade que, nos últimos anos, com o intenso desfinanciamento do Sistema, as coberturas vacinais em geral vêm caindo, mas o programa de imunização ainda é muito robusto, de modo que existe um bom modelo.

A ideia é que o país produza 30,4 milhões de doses entre dezembro deste ano e janeiro de 2021. Essas já seriam distribuídas a idosos e pessoas com comorbidades. Em seguida, depois que houver aprovação pela Anvisa, serão fabricados outras 70 milhões de doses. As cem milhões de doses no total, segundo o Ministério da Saúde, seriam suficientes para cobrir todos os idosos, profissionais de saúde, professores, indígenas, pessoas em privação de liberdade, profissionais da segurança pública e motoristas de transporte coletivo.

MERCADORES DE ILUSÕES

De uma planta nativa do Cerrado a um kit de mais de R$ 1 mil que garantiria “imunidade de leão”: esses são alguns exemplos de curas supostamente milagrosas para a covid-19 vendidas por profissionais de saúde. Um levantamento do G1 junto aos conselhos regionais de medicina e enfermagem de todas as unidades da federação revelou que 79 denúncias foram registradas durante a pandemia. Desse total, seis já viraram processos éticos e 40, sindicâncias. Como era de se esperar pelo próprio escopo de atuação, há mais denúncias contra médicos (59 do total). Mas, por outro lado, as investigações de enfermeiros andam mais lentamente graças a uma decisão do Conselho Federal de Enfermagem que suspendeu os prazos para esses procedimentos entre março e maio. Como resultado, até agora, a categoria abriu apenas quatro sindicâncias e um processo ético.

As denúncias vão além da venda de produtos que curariam ou preveniriam o novo coronavírus. Parte delas tem a ver com a atuação dos profissionais na internet disseminando boatos, como no caso do enfermeiro Anthony Ferrari, que publicou vídeos afirmando que estados e municípios recebem “até R$ 19 mil” do governo federal por paciente morto com covid-19 – e que cerca de 60% das mortes registradas teriam como causa não a doença, mas o temor em torno dela. Procurado pela reportagem, ele colocou a culpa em “esquerdopatas”.

O G1 também identificou casos chamativos de médicos que disseminam desinformação e defendem tratamentos sem qualquer comprovação científica, mas estão com seus registros regulares nos conselhos regionais. É o caso de Marcos Nunes Andrade – ou “Dr. Marcos da Amazônia” – que já alcançou mais de 600 mil visualizações no YouTube afirmando que a cloroquina cura e que os hospitais do Pará estariam vazios. Outro exemplo é João Vaz, do Rio de Janeiro, que divulgou que o uso de máscara de proteção faria mal à saúde por tornar o “sangue mais ácido”. Os conselhos não informam se há denúncias contra os profissionais.

BARREIRAS DE ACESSO

Um levantamento nas certidões de óbito registradas entre 16 de março a 31 de maio deste ano aponta para o aumento de 31% nas mortes por causas cardíacas. O número foi de 14.938 no mesmo período de 2019 para 19.573 em 2020. E a maior parte desses óbitos – 15.870 – aconteceu em casa, um crescimento de 32% em relação ao ano passado. Afunilando ainda mais, chega-se à conclusão que as mortes em domicílio por causas cardíacas sem um diagnóstico fechado quase dobraram (passaram de 4.852 para 8.550). O que tudo isso nos diz?

Pelo menos três coisas, de acordo com Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, entidade responsável pelo levantamento. Em primeiro lugar, o novo coronavírus tem impactos sobre o coração e agrava quadros pré-existentes. “Porém, há outros motivos que podem explicar também essa alta, como o envelhecimento da população, fatores de risco impostos pela pandemia como estresse e tabagismo”, afirmou ao Estadão.

Finalmente, a correlação mais importante tem a ver com a interrupção de tratamentos por parte de pacientes crônicos, que acontece tanto pelo medo que os doentes têm de ir ao hospital e contrair o coronavírus, quanto pela desorganização do sistema de saúde frente à pandemia. Sobre isso, a UFMG chama atenção para o seguinte dado: apesar do aumento geral nos óbitos cardíacos, houve uma redução de 11% nas mortes por acidente vascular cerebral e infarto – indicativo da falta de diagnóstico preciso, que geralmente ocorre em óbitos domiciliares.

Em relação ao atraso na busca por ajuda, há outro levantamento interessante: o Hospital do Coração registrou uma queda de 71% de exames de diagnóstico e aumento de 30,8% de pacientes críticos —ou seja, aqueles que passaram pela UTI, em algum momento da internação— entre os meses de abril, maio e junho em comparação com o mesmo período de 2019. “Ao invés de passar um dia no hospital fazendo exame e tomando as medidas necessárias, notamos que as pessoas chegam, por exemplo, com o músculo do coração muito sofrido ou com insuficiência renal, e acabam tendo que ficar uma semana internadas”, disse Alexandre Abizaid, cardiologista do HCor, à Folha.

Ao mesmo jornal, a cardiologista Gláucia Moraes Oliveira, da UFRJ, fez um alerta: as doenças cardiovasculares devem causar grande impacto nos sistemas de saúde nos próximos meses. “É preciso campanha pública para conscientizar sobre a importância do cuidado cardiovascular, mesmo durante a pandemia.”

É também o que pensam especialistas sobre outros problemas de saúde. Kim West, do Médicos Sem Fronteiras, fala que o abalo nos serviços de atenção básica mundo afora tende a aumentar as taxas de doenças evitáveis. “Algumas estimativas indicam que, se a covid-19 causasse interrupções semelhantes às provocadas pelo surto de ebola na África ocidental em 2014 e 2015, isso significaria que quase 1,2 milhão de crianças e 57 mil mães poderiam morrer em países de renda baixa e média em apenas seis meses, o que representa um aumento de mais de 45% na mortalidade infantil”.

Já a brasileira Debora Diniz e a argentina Giselle Carino chamam atenção para o aumento das barreiras de acesso ao aborto seguro, seja o ilegal, seja onde o procedimento é permitido: “Na Romênia, dos 280 hospitais públicos, somente 11 ofereciam aborto como cuidados essenciais em saúde durante a pandemia. A pandemia se tornou o acontecimento para restringir os direitos reprodutivos sem precisar nomeá-los como batalha política— basta o isolamento social, o risco de contágio nas ruas, a priorização do que seriam necessidades de saúde emergenciais.”

INAÇÃO E VEXAMES

Na sexta, o Fórum Nacional de Governadores fez um apelo ao ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Em ofício, os responsáveis pelos estados cobraram o que seus secretários de saúde vêm pedindo há semanas: que a pasta tome pé do problema de desabastecimento de medicamentos de UTI e coordene um processo de compra emergencial. Pazuello havia prometido agir, mas pelo visto, ainda não o fez. Assinam o documento governadores de 24 estados, com exceção de Alagoas, Paraná e Rondônia.

A Academia Brasileira de Odontologia também decidiu escrever ao general. A entidade enviou uma carta criticando a nomeação de Vivaldo Guimarães Junior como novo coordenador nacional de saúde bucal. Ele assumiu o posto no último dia 17 por indicação do Centrão. É a primeira vez que o cargo é ocupado por alguém sem formação na área: Guimarães Junior atuava como secretário parlamentar do deputado federal Zé Vitor (PL-MG) e tem experiência com… eventos.

Temos falado bastante do empresário Airton Soligo, conhecido como “Cascavel”, que atuou um bom tempo como interlocutor de Pazuello com secretários estaduais e municipais de saúde sem ter vínculo formal com a pasta. Pois depois da nomeação, na semana passada, a imprensa descobriu que o agora assessor especial do Ministério usa a pandemia como peça publicitária. Isso porque ele é sócio de um motel chamado Opium que, nas redes sociais, veicula propaganda com a imagem de um casal abraçado sobre uma cama e a mensagem: ‘Evite aglomeração. Aqui você curte a dois.’”

E o Conselho Nacional de Saúde fez um cálculo: com o dinheiro para o enfrentamento do novo coronavírus disponível, mas ainda não usado pelo Ministério, daria para comprar 428.333 respiradores para o SUS.

BOLSONARISMO MURCHO, DEMOCRACIA EM ALTA

Na semana que passou, Jair Bolsonaro teve uma atuação muito mais discreta do que o normal. Faz parte da operação de “pacificação” colocada em marcha depois da prisão de Fabrício Queiroz na casa do seu ex-advogado, Frederick Wassef, e do andamento de inquéritos sobre atos antidemocráticos e fake news. Segundo interlocutores, ele teria dito que está “cansado dos confrontos” com Judiciário e Legislativo. Mas em relação à pandemia, a tática irresponsável de confronto com a realidade parece continuar.

No fim de semana, o presidente provocou aglomerações em Araguari, município de Minas – justamente um dos estados mais afetados pela covid-19 no momento. Em evento fora da agenda, ele saiu sem máscara a cumprimentar apoiadores e segurar crianças no colo. Por falar em máscara, a Advocacia-Geral da União cumpriu o prometido e, na sexta, recorreu da decisão judicial que obriga Bolsonaro a seguir o decreto de Ibaneis Rocha (MDB) e usar máscara no Distrito Federal – ou, do contrário, pagar multa de R$ 2 mil. A AGU argumenta que a fiscalização está sendo “mais rígida e onerosa” para o presidente em relação aos outros cidadãos.

Aliás, nos EUA – de onde Bolsonaro importa parte do seu arsenal político –, o vice-presidente Mike Pence resolveu sustentar que não usar máscara é questão de liberdade de expressão. Sabemos que Trump tem dito por lá que as pessoas usam máscara somente para irritá-lo.

Ontem, manifestações contrárias e favoráveis a Bolsonaro aconteceram em 24 países. O lema? “Stop Bolsonaro”. Por aqui, um ato em Brasília fincou mil cruzes brancas em frente ao Congresso Nacional para criticar a condução criminosa do governo federal da pandemia. Em número reduzido, apoiadores do presidente marcaram presença em frente ao quartel-general do Exército pedindo intervenção militar.

Representam um pensamento minoritário, prevalente em apenas 10% da população, apontou o Datafolha. O instituto divulgou no fim de semana uma pesquisa que indica que o apoio à democracia bateu recorde no Brasil, chegando a 75%. Na última pesquisa que conteve essa pergunta, feita em dezembro do ano passado, o apoio à democracia estava num patamar de 62%. O crescimento se deveu à diminuição do contingente que declara que “tanto faz” o regime político, que caiu de 22% para 12%. Para efeito de comparação, o apoio ao regime democrático chegou ao pior patamar (42%) da série histórica em fevereiro de 1992, depois de medidas como o confisco das poupanças e dos primeiros escândalos de corrupção do governo Collor. Meses depois, com o afastamento do ex-presidente, o apoio à ditadura chegou ao ápice (23%).

Ainda segundo a pesquisa, 68% dos brasileiros considera que as manifestações pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo, além dos ataques a integrantes desses poderes com fake news, ameaçam a democracia.

E um levantamento feito por O Globo em 16 unidades da federação traz outro indício positivo. O jornal conversou com ex-comandantes, ouvidores dos órgãos de segurança e promotores que cuidam do controle externo da atividade policial de locais que, juntos, detêm 88% do efetivo das polícias militares na ativa. Apesar de relatarem que o apoio a Bolsonaro continua prevalecendo, essas fontes afirmam que as tropas percebem que “medidas extremas” não teriam eco no conjunto da sociedade brasileira. “Não temo o risco de adesão institucional. Há risco de envolvimento individual, de segmentos que aderiram a propostas radicais e populistas. Estes precisam ser controlados pelas instituições, zelosas com a disciplina e o uso de arma de fogo”, ponderou o ex-secretário nacional de Segurança Nacional, Ricardo Balestreri.

E os baques da semana retrasada parecem ter sido sentidos por gente ligada ao partido que Bolsonaro quer criar, o Aliança pelo Brasil, e a movimentos e influencers bolsonaristas. Porta-vozes já trabalham para se descolar de pautas golpistas. “Não podemos ser confundidos com os mais radicais e intervencionistas”, disse Newton Caccaos, do Avança Brasil, ao Estadão. “Sou contra fechar o Supremo”, afirmou, por sua vez, Adilson Dini, um dos youtubers investigados pela Justiça. Mais de três mil vídeos contendo defesa de pautas extremistas foram apagados desde a prisão de Sara Geromini.

#BREQUEDOSAPPS

Está marcada para a próxima quarta-feira a primeira paralisação nacional dos entregadores de aplicativos como Ifood e Rappi. A greve está sendo articulada em grupos de WhatsApp e pode incluir trabalhadores de outros países, como Argentina, Uruguai e Paraguai. Em comum, todos experimentaram piora na remuneração e nas condições de trabalho durante a pandemia.

A pauta de reivindicações ainda não inclui o reconhecimento do vínculo empregatício entre entregadores e empresas. Em primeiro lugar na lista, está o aumento no valor pago por entrega. Segundo uma pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista, 59% dos entregadores sofreram perdas financeiras em comparação ao período pré-covid. Também se pleiteiam o fornecimento de itens de higiene, refeições e a revisão de bloqueios feitos pelos aplicativos por motivos abusivos.

Essa, aliás, foi a gota d´água para o líder do Movimento dos Entregadores Antifascistas. “Foi quando pensei ‘chega, mano, vou denunciar esses caras aí’. Eles não explicam por que te bloqueiam, te mandam ler o contrato e dizem que não têm que explicar nada, não”, relata Paulo Lima, mais conhecido como Galo, ao El País sobre o dia em que o pneu da sua moto furou e ele foi bloqueado porque não conseguiu concluir uma entrega. Era 21 de março, dia do seu aniversário.

AS LIÇÕES DA PESTE

Um artigo interessantíssimo publicado no site The Conversation no começo do mês foi traduzido no sábado pela BBC Brasil. O texto resgata o contexto histórico da Peste Negra na Europa: se por um lado, a morte em massa de camponeses e servos ajudou esses trabalhadores, que se tornaram escassos, a exigirem melhores condições ou mesmo abandonar o campo, corroendo o sistema feudal, por outro foi um período de concentração de grandes fortunas e estreitamento de laços entre esses ricos empresários e os nobres governantes.

“Isso tem fortes paralelos com a situação atual em muitos países do mundo. Embora as pequenas empresas dependam do apoio do governo para evitar o colapso, muitas outras, principalmente as maiores ou as que entregam em casa, estão se beneficiando generosamente com as novas condições do mercado. A economia de meados do século 14 e a atual são muito diferentes em tamanho, velocidade e interconexão para fazer comparações exatas. Mas certamente podemos ver paralelos sobre o modo como a Peste Negra fortaleceu o poder do Estado e acelerou o domínio das megacorporações sobre os principais mercados”, escrevem os historiadores Eleanor Russell e Martin Parker, que dão uma lista grande de exemplos, que vão desde o crescimento das compras online que favorecem gigantes do varejo como Amazon (Jeff Bezos ficou R$ 130 bilhões mais rico desde o início do ano) às medidas estatais adotadas durante a pandemia que, segundo eles, impressionariam “um rei medieval”.

E A ECONOMIA?

O governo federal liberou ao menos R$ 398 bilhões para o combate à pandemia. Mas, desse total, R$ 342 bilhões (86%) foram para salvar a economia, segundo um levantamento feito pela Folha. A Saúde ficou com 13%; outras pastas, com 1%. A reportagem descreve as principais medidas da equipe econômica, relacionando-as ao estágio da pandemia que o Brasil vivia em cada momento – e com os posicionamentos do presidente. Hoje, se a doença está longe de ir embora, a economia também não mostra nenhum sinal de recuperação. Dados do Banco Central de quinta apontam queda do PIB de 6,4% neste ano.

No início de junho, caiu o número de empregados afastados do trabalho, segundo o IBGE. Provavelmente isso se deve à reabertura econômica. A taxa de desemprego, porém, não caiu. O número de pessoas ocupadas também ficou estável.

Quanto ao auxílio emergencial, o Senado está batendo de frente com a nova proposta do governo federal, de pagar mais três parcelas nos valores de R$ 500, R$ 400 e R$ 300. Os senadores querem manter os R$ 600 e, mais ainda, pressionam para sustentar o benefício até o fim do ano ou enquanto durar a pandemia. Alguns começam a discutir a criação de um programa permanente de renda mínima.

A VOLTA ÀS AULAS

Uma pesquisa Datafolha divulgada no sábado informa que 76% dos brasileiros são contrários à reabertura das escolas. Porém, ela está prestes a acontecer em pelo menos dez capitais, que preveem datas entre julho e agosto. Garantir segurança para trabalhadores, crianças e familiares nesse momento já é um problemão, mas não é o único: os enormes vãos que separam alunos pobres e ricos na pandemia possivelmente se tornaram verdadeiros abismos, com grande desigualdade de aprendizagem. Além disso, houve, e segue havendo, abandono escolar.

“Precisamos admitir que a pandemia gerou uma disrupção rara na educação e entender que as medidas para solucionar um problema desta dimensão são de grandes proporções. Talvez seja preciso contratar um contingente extra de professores, ou diminuir excepcionalmente os períodos de férias ou ainda convocar professores aposentados. Os problemas gerados pela pandemia não serão resolvidos com aplicativos ou videoaula”, afirma, no Globo, o professor da Universidade de Columbia e coordenador do grupo Ciências da Aprendizagem Brasil, Paulo Blikstein. “Os governos não fizeram hospitais de campanha, contrataram mais médicos? Por que não criar algo como escolas de campanha, programar aulas de reforço para todos os alunos da rede? As ferramentas virtuais têm eficácia limitada. Não dá para fazer milagre. Alguns conteúdos se acumulam na vida escolar do aluno. Há aspectos que, se você não aprende, não conseguirá dar o próximo passo, aprender o tópico seguinte. Se não aprender álgebra, não vai entender o que vem depois”, completa ele.

Pois é. O problema é que, para completar, as dificuldades chegam em um momento de desfinanciamento da educação pública que só tende a piorar. “Só em 2020, o Fundeb – fundo que banca a manutenção e o desenvolvimento da educação básica no país – deve perder R$ 21 bilhões dos R$ 173 bilhões previstos”, explica outra reportagem do mesmo jornal, referindo-se à perda dos recursos arrecadados por estados e municípios via impostos.

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MAÍRA MATHIAS E RAQUEL TORRES
Maíra Mathias e Raquel Torres são editoras do Outra Saúde.

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