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Pandemia: a esperança é tênue; a ignorância abunda

No Reino Unido, um medicamento reduz (em apenas 1/3) as mortes dos pacientes já entubados. No Brasil, o General da Saúde quer otimismo, em meio ao agravamento da tragédia. E mais: já temos 30,2% de desempregados ou desalentados.

Do OUTRA SAÚDE, 17/06/2020

por Maíra Mathias e Raquel Torres

UMA PROMESSA

Pesquisadores da Universidade de Oxford deram ontem uma baita notícia: eles verificaram que o corticoide dexametasona aumentou a sobrevida de pacientes de covid-19 hospitalizados. O melhor é que se trata de um medicamento barato, fácil de produzir e disponível no mundo inteiro. Anti-inflamatória e imunossupressora, a dexametasona é usada há décadas em doenças inflamatórias e respiratórias, reumatismo e alergias.

É a primeira vez que um medicamento tem esse tipo de resultado em um estudo clínico randomizado, o ‘padrão ouro’ da ciência. O ensaio em questão é o Recovery, que investiga seis potenciais tratamentos em mais de 11 mil pacientes. Em relação à dexametasona, 2.104 pessoas a receberam por dez dias junto com os cuidados habituais, enquanto 4.321 não tomaram a droga. No fim, o remédio reduziu em um terço as taxas de mortalidade dos pacientes graves, que estavam submetidos à ventilação mecânica. Nos que recebiam oxigênio, a redução foi de um quinto. Naqueles que não precisavam de ajuda para respirar, não houve benefícios.

Tem um problema: os dados completos não foram divulgados e o trabalho ainda não passou por avaliação de pares. A divulgação veio por uma nota de duas páginas escrita pelos pesquisadores, e não por publicação em uma revista científica. A pandemia está (ou deveria estar) nos deixando calejados quanto a isso. “A gente viu muita coisa que parecia promissora, e foi retirada. Ainda estamos naquela fase de ver para crer. Precisamos ter o artigo completo em mãos, para ter certeza que faz todo sentido”, diz no Globo Luciano Cesar Azevedo, médico e especialista em medicina intensiva do Hospital Sírio Libanês.

Mas, se os dadosforem confirmados, essa será provavelmente a melhor novidade dos últimos tempos. Os autores do estudo estimam que, se o medicamento estivesse disponível no Reino Unido desde o início da pandemia, até cinco mil vidas poderiam ter sido salvas (houve cerca de 40 mil mortes por lá).

De todo modo, deve ser preciso tentar frear desde já uma possível corrida às farmácias e os boatos vindouros de que o remédio poderia prevenir a covid-19 ou curar casos leves. Na realidade, a dexametasona não ataca o coronavírus, mas atua suprimindo o sistema imunológico (já que em alguns pacientes a doença parece se agravar justo por conta de uma resposta forte demais desse sistema, levando a grandes inflamações). Isso significa que, se tomado muito cedo, o remédio pode até mesmo dificultar que o corpo combata o vírus. No Brasil, a Câmara avalia restringir a compra a pacientes com prescrição, para evitar desabastecimento.

O fato de o remédiosó funcionar em pacientes graves quer dizer também que eles não devem fazer muita diferença em termos de sobrecarga dos sistemas de saúde: só são beneficiadas as pessoas internadas, que portanto precisam encontrar leitos disponíveis. “O verdadeiro fator de mudança será uma droga que impede as pessoas de passarem de sintomas leves a um estado grave, além uma vacina”, nota Devi Sridhar, da Universidade de Edimburgo, no site da Science.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou em nota que vai coordenar uma “meta-análise para aumentar a compreensão geral dessa intervenção”, e ainda que vai atualizar suas diretrizes sobre a covid-19 “para refletir como e quando o medicamento deve ser usado”. No Reino Unido, o equivalente ao ministro da Saúde, Matt Hancock, disse que vai adotar o remédio como tratamento padrão desde já.

A dexametasona também está sendo testada por aqui em um estudo da Coalização Covid Brasil (que é coordenada pelos hospitais Sírio Libanês, Albert Einstein, HCor, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa). O ensaio começou em abril, envolve 40 hospitais do país e testou dois terços do público-alvo (280 pacientes). A ideia é que o restante seja submetido nos próximos 20 dias e que os resultados saiam em agosto. Não sabemos o quanto os resultados de Oxford vão impactar a continuidade desse estudo, caso o Brasil passe a usar o corticoide como tratamento padrão para pacientes graves.

E, falando em medicamentos no Brasil, a maior parte dos estados ignora a orientação do Ministério da Saúde de ampliar o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves. A informação é da Folha, que entrou em contato com todas as secretarias estaduais e recebeu resposta de 21 delas. Só seis estão prescrevendo esses remédios para casos leves.

COMO ESTAMOS

O Brasil registrou ontem mais 1.338 mortes e 37.278 casos de covid-19, chegando a 45.456 vítimas fatais e a quase 930 mil infecções conhecidas. Na última semana de maio, mais de 22 milhões de pessoas tiveram algum sintoma gripal, enquanto 3,6 milhões buscaram atendimento médico e 1,1 milhão foram ao hospital, segundo o IBGE.

O general Braga Netto, ministro da Casa Civil, disse que a crise provocada pela pandemia está “gerenciada”. Em um seminário online realizado pela Associação Comercial do Rio de Janeiro, ele apresentou um quadro com o número de mortes por milhão de habitantes em vários países, o que nos deixa abaixo de Bélgica, Espanha, Reino Unido e Itália. Ótimo. Mas nesses locais as mortes estão praticamente paradas, enquanto aqui… Bom, é claro que ele não mencionou isso. “Estou querendo levar uma mensagem de otimismo no gerenciamento da crise”, completou ele, dizendo ainda que o Brasil já está produzindo respiradores até demais: “Nós já estamos preocupados no que vamos fazer com os respiradores quando a situação melhorar”.

Já que é para comparar o Brasil com a Europa, ontem a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) alertou que a epidemia aqui deve se tornar mais longa do que a observada por lá, caso as recomendações da OMS e da própria Opas não sejam seguidas. “Estamos vendo os casos aumentarem e a pandemia ainda não atingiu seu pico na América Latina”, disse Marcos Espinal. Hoje, o Brasil tem 21% das mortes nas Américas (os EUA ficam na ponta com 54%). Ele deixou claro que o aumento de casos no continente não pode ser considerado uma “segunda onda”, já que a primeira nunca passou.

Aliás, o Equador – onde os corpos espalhados pelas ruas e mantidos por dias nas casas chocaram o mundo há dois meses – se viu obrigado a estender seu estado de emergência por mais 60 dias, porque desde a reabertura econômica (em 4 de maio) o número de mortes subiu 253%. Número assustador? Pois bem: as mortes no Brasil subiram mais de 500% desde o dia 4 de maio.

Na Bolívia, o governo estabeleceu um ‘confinamento total’ de três dias em La Paz a partir de sábado. Só será permitida a circulação de policiais e profissionais de saúde. Não entendemos bem a escolha do limite de três dias. Caso o número de infectados continue subindo, há a possibilidade de retomar medidas de quarentena rígida.

E o Chile já atualizou sua contagem oficial de casos (falamos disso ontem), acrescentando 31 mil às estatísticas oficiais, num total de mais de 215 mil.

EM ALTA

A taxa de ocupação de leitos de UTI para pacientes com covid-19 mais que dobrou em Belo Horizonte depois que a cidade reabriu o comércio, em 25 de maio, e ultrapassou os 80%. A prefeitura vai ter que implementar um plano de contingenciamento para abrir mais leitos.

São Paulo, que tinha conseguido pela primeira vez uma diminuição do número de mortes semanais, bateu ontem novo recorde de casos e mortes: 8,8 mil infecções e 365 óbitos registrados. “Essa questão do aumento especificamente em um determinado dia não é motivo pra que fiquemos imaginando que o que estávamos planejando ou que a evolução que estávamos esperando não esteja acontecendo”, afirmou João Gabbardo, ex-membro do Ministério da Saúde e atual coordenador-executivo do Centro de Contingência da Covid-19 no estado. De acordo com ele, os números refletem o aumento do vírus no interior. Que, por sinal, também está flexibilizando isolamentos. Em Ribeirão Preto, 15 dias após a reabertura, o número de mortes disparou.

Também em franca reabertura, o estado do Rio teve ontem o maior número de mortes dos últimos 12 dias: 239. O número não retrata a realidade, já que os óbitos demoram até um mês e meio para serem confirmados. Há mais de mil em investigação. Na capital, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) quer acelerar ainda mais o fim do isolamento, e cogita antecipar em uma semana a fase 3 do plano – liberando comércio, academias, creches e parte das escolas do ensino fundamental. No Mercadão de Madureira, enorme centro comercial da cidade, o movimento já é parecido com o de antes da pandemia. Ou seja, gigantesco. Nessa semana, as aglomerações cresceram em função da busca por artigos de festa junina… “As pessoas não têm vergonha em dizer que é para festa. Só vão se dar conta do perigo ao perder alguém. Olha quanta gente tem aqui!”, disse uma vendedora ao Globo.

POBREZA COMO FATOR DE RISCO

Falamos ontem aqui do estudo da Lancet que estimou que mais de 1,7 bilhão de pessoas (22% da população mundial) tem alguma condição pré-existente que signifique maior risco de ter problemas graves caso contraia a covid-19. Mas quando se olha para as mortes propriamente, o que aparece como condição de risco não tem tanto a ver com doenças anteriores. Em vários países, inclusive no Brasil, estatísticas têm mostrado que minorias étnicas e pessoas pobres morrem mais. Pesquisadores da USP e do Hospital Albert Einstein criaram um índice para medir o impacto socioeconômico na saúde da população e, em relação à covid-19, essa relação já apareceu. “Das sete dimensões analisadas pelo GeoSES, a pobreza estava com uma relação inversa à da covid-19. Quanto maior o percentual de pobreza do município, maior o risco relativo de mortalidade pela covid-19”, afirma Ligia Vizeu Barrozo, da USP, na Folha. Em São Paulo, um cruzamento de dados feito pelo Instituto Pólis mostrou que as áreas da cidade com maior número de mortes coincide com as regiões que têm mair concentração de famílias de baixa renda chefiadas por mulheres.

ATÉ O FIM DO ANO

Por 75 votos favoráveis e nenhum contrário, os senadores aprovaram ontem a medida provisória 936. A MP foi assinada por Jair Bolsonaro lá atrás, em 10 de abril, e deu sinal verde para que empregadores “negociassem” com trabalhadores a suspensão de contratos e a redução de jornada com um corte proporcional nos salários. De lá para cá, mais de 10,6 milhões de acordos do gênero foram assinados. Mas, na prática, parte da MP já tinha caducado. O que o Senado fez foi estender esses acordos enquanto durar o período de calamidade pública, ou seja, até o fim do ano.

A proposta seguirá direto para sanção presidencial. E o governo já prepara um decreto para adequar os prazos da MP. Originalmente, a suspensão de contratos poderia durar até 60 dias e a redução de jornada, até 90. Ambos os prazos devem ser estendidos para quatro meses. De acordo com a Folha, a equipe econômica estuda combinar períodos de suspensão do contrato com redução de jornada, mas ainda está em discussão o prazo máximo que o trabalhador poderá ser submetido a essas medidas.

Nos já falamos, em diversas ocasiões, dessa MP. Mas relembramos de forma resumida: em caso de suspensão do contrato, os trabalhadores recebem seguro-desemprego. Se a empresa faturar menos de R$ 4,8 milhões, o governo arca com o seguro; se faturar mais que isso, o Estado paga 70% dele. No caso da redução de salários proporcionalmente às jornadas, há três faixas possíveis: 25%, 50% ou 70%. Aqui, o governo completa o valor para os empregados – mas não com base nos seus salários reais, e sim no seguro-desemprego, que é mais baixo.

Pelas contas do governo, o programa de proteção ao emprego deveria ter alcançado 24,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada, mais de 70% de todos os empregados formais do país. Mas, como se viu, as adesões ficaram bem abaixo do esperado.

No acordo para, enfim, aprovar a MP os senadores retiraram todas as mudanças que haviam sido feitas à medida. E recorreram a um expediente para que o texto não precisasse retornar à Câmara. É que foram “impugnados” dois artigos inteiros do texto aprovado pelos deputados. E a impugnação formalmente não conta como mudança. Um desses artigos autorizava a renegociação de empréstimo consignado (descontado direto do contracheque) pelos trabalhadores afetados. O outro alterava o índice de correção de dívidas trabalhistas e inseria na CLT um dispositivo que aumentava o valor da gratificação de função do bancário.

Para quem não lembra, na Câmara, Orlando Silva (PCdoB/SP), então relator da MP, havia tentado dar uma melhorada nos valores recebidos pelos trabalhadores afetados, aumentando o valor máximo da compensação de R$ 1.813 para R$ 3.135 – mas foi barrado pelo Centrão, que já estava num namoro firme com o governo.

“UM CANADÁ”

O IBGE divulgou novos dados sobre desemprego ontem. E o Estadão resumiu bem a nossa situação: temos o equivalente a um Canadá sem emprego. São 36,6 milhões de pessoas, se incluirmos a parcela da população que não procura emprego no momento, mas gostaria de trabalhar. Sem essa porção de desalentados, a taxa de desemprego diminui de 30,2% para 11,4%, sendo que esse último número corresponde a 28,5 milhões de pessoas que ainda não desistiram de procurar emprego. Desagregado, o dado fica assim: 10,5 milhões que buscaram, mas não encontraram trabalho; e 17,7 milhões que não conseguiram procurar por conta da pandemia.

A partir de agora, o Instituto vai divulgar informações semanalmente como parte do esforço da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Covid (Pnad Covid), primeiro do IBGE feita completamente por telefone.

Pensando na retomada, o governo estuda revogar uma regra aprovada 28 anos atrás. Trata-se de uma portaria do extinto Ministério do Trabalho que proibia que as empresas recontratassem a mesma pessoa num prazo inferior a 90 dias. Detalhe: há um projeto de lei do Partido Novo nesse sentido e, de acordo com esse texto, o empregador pode recontratar o trabalhador com um salário menor

QUEDA NO COMÉRCIO

O mesmo IBGE mediu o tombo no comércio varejista. Detectou queda de 16,8% entre março e abril, a pior em 20 anos, quando começou essa série histórica. A surpresa é que até o ramo que inclui supermercados e bebidas sofreu uma queda de 11,8%. O pior desempenho foi do ramo de tecidos, vestuário e calçados (-60,6%). Nenhum estado brasileiro ou ramo econômico se salvou da retração.

O fenômeno se dá pelo menos de três jeitos diferentes. Por um lado, parcela expressiva da população perdeu renda durante a pandemia (a redução da massa salarial ficou em torno de R$ 7,3 bilhões no primeiro trimestre, segundo o IBGE). E quase todo mundo está segurando os gastos. Por outro, as pessoas optaram por fazer compras grandes, estocando muitos itens em março, começo das quarentenas Brasil afora. Por fim, empresas fecharam.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o comércio varejista acumula perdas de R$ 200,71 bilhões desde a segunda quinzena de março.

Há dúvidas se a reabertura econômica vai trazer resultados imediatos no Brasil. Nos Estados Unidos, que tem outra realidade, as vendas subiram 17,7% em maio (mas mesmo assim, esse mês teve desempenho 6% pior do que em 2019). Para o diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, Carlos Braga, a expectativa de uma recuperação em “V” é equivocada, tanto para os EUA quanto para o Brasil. Ele lembra que, por lá, o que ajuda a manter a renda dos consumidores são medidas de auxílio que devem acabar nos próximos meses.

AS ÚLTIMAS DE GUEDES

Mas Paulo Guedes está otimista. O ministro da Economia ontem afirmou que espera uma retomada até novembro. “Vejo um futuro brilhante porque é muito difícil a gente piorar, nosso viés cultural já nos botou num buraco, então nós vamos ter que melhorar”, disse em um evento virtual promovido pelo Instituto de Garantias Penais (IGP).

Foi uma daquelas ocasiões em que Guedes abriu a torneira de besteiras. Sobre o crescente autoritarismo do governo que compõe, afirmou: “Essas crises que a gente vê toda hora entre os poderes são ruídos de uma democracia vibrante. Eu não compartilho do pessimismo de quem olha para isso e teme o caos, acha que o Brasil vai se incendiar a qualquer momento, o meu acompanhamento da história brasileira é outro, meu acompanhamento é que a democracia está cada vez mais robusta e mais flexível“. Flexível é ótimo…

Numa longa reportagem, Thiago Resende e Fábio Pupo reconstroem em detalhes as previsões e erros da equipe econômica desde 11 de março, quando a OMS declarou a pandemia. A trajetória parece ser marcada por omissão e otimismo infundado. Exemplo disso é que, até hoje, Guedes mantém uma previsão para o PIB divulgada em 14 de maio, de queda de apenas 4,7% – quando Banco Mundial e OCDE já divulgaram estimativas de -8% e -7,4%, respectivamente. “O processo da crise é muito dinâmico e requer revisões mais frequentes de projeções macroeconômicas e fiscais”, ponderou Felipe Salto, da Instituição Fiscal Independente do Senado.

A propósito: Paulo Guedes parece ter se entendido com Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional que ensaiou, junto com os militares, o plano “Pró-Brasil” de retomada econômica baseado em obras públicas. Aparentemente, concordaram em bolar um plano mais enxuto de obras.

Mas o que anima o ministro da Economia é o projeto de reforma tributária do governo, ainda desconhecido, mas que deve centrar-se na desoneração da folha de pagamento e redução de benefícios fiscais. “Quando você tem contenciosos acima de R$ 1 trilhão e desonerações de R$ 300 bilhões, está muito claro a configuração de um manicômio tributário”, disse Guedes, no evento do IGP.

ENQUANTO ISSO…

Um relatório divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pela Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) recomenda apoio em dinheiro à população pobre. Estima que 16 milhões poderão ser empurrados para a pobreza extrema em 2020 na região. E 53,7 já estariam em “grave insegurança alimentar”.

Já o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU apontou que nos 11 países latino-americanos onde opera (o Brasil não está entre eles), o número de pessoas que estão nessa condição passou de 3,4 milhões, no começo do ano, para 14 milhões agora.

PLANOS DE RETORNO ÀS AULAS

Sem a participação do MEC, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) publicou ontem um protocolo de retorno às aulas presenciais. Entre as medidas de prevenção à transmissão do coronavírus, estão o controle de temperatura de estudantes e funcionários, a distribuição de máscaras, a instalação de “estações de higiene”, a diminuição do número de alunos por sala, o cancelamento de atividades em grupo e a sinalização de rotas dentro das escolas e lugares marcados nos refeitórios para que os alunos mantenham distância entre si. Também haverá rodízio entre estudantes em sala e em casa, com continuidade das atividades online. Não há indicativo sobre datas. “A discussão no conselho não foi sobre quando voltar, mas como voltar”, resumiu a presidente do Consed, Cecilia Motta.

Mas os empresários da educação têm feito pressão sobre governos estaduais e municipais para retomarem as atividades antes das escolas públicas. “A escola pública já tem diversos problemas, uma série de questões que foram acumuladas ao longo dos anos. Não podemos ser colocados na mesma situação e esperar que elas tenham condições para que nós possamos reabrir”, afirmou Ademar Pereira, presidente da Federação Nacional de Escolas Particulares, em entrevista à Folha. É claro que se houver diferenciação, as desigualdades educacionais tendem a se aprofundar ainda mais, como apontam especialistas.

No caso do ensino superior, o Ministério da Educação divulgou ontem que vai prorrogar até o fim do ano a autorização para que aulas práticas e estágios sejam feitos de forma remota. A portaria com os detalhes deve sair amanhã.

E a abertura do Sisu vai atrasar um mês. O sistema através do qual estudantes que fazem Enem escolhem vagas nas universidades públicas deveria ser aberto ontem. Mas Abraham Weintraub anunciou que as inscrições só começarão 7 de julho, sem explicar o motivo do atraso. A situação, que prejudica quem prestou o exame no ano passado e quer decidir o ingresso no segundo semestre de 2020, causou revolta nas redes sociais.

O ministro da Educação está às voltas com sua iminente demissão. Ontem, um ato com cerca de 15 gatos pingados foi organizado em apoio a ele em Brasília. Na manifestação, marcada por ataques ao Judiciário, sobrou até para o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello. Ele foi chamado de “pai fracassado” pelo bolsonarista Renan Sena, aquele que empurrou enfermeiros no 1º de maio e é apontado como um dos autores do ataque ao prédio do STF com fogos, pelo qual chegou a ser preso no domingo. A crítica é uma referência a uma declaração do general feita em uma comissão da Câmara dos Deputados de que uma filha sua, de 12 anos, é de esquerda.

Mais pragmática, a ala ideológica do Planalto tenta emplacar um substituto para Weintraub que seja do agrado de Olavo de Carvalho. Querem a continuidade da “guerra cultural” na pasta.

ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS

O inquérito da Procuradoria Geral da República (PGR) sobre os atos contra a democracia brasileira andou ontem. A Polícia Federal cumpriu 21 mandados de busca e apreensão em cinco estados e no Distrito Federal. Dentre os alvos, alguns bolsonaristas mais conhecidos do público e outros nem tanto, embora importantes. Na primeira categoria estão o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), aquele que quebrou a placa em homenagem à Marielle Franco, e o blogueiro Allan dos Santos, do Terça Livre. Na segunda, estão Luís Felipe Belmonte, tido como principal operador político do partido que Jair Bolsonaro quer criar para si, o Aliança pelo Brasil, e o seu marqueteiro político, Sérgio Lima. Os investigados também tiveram seus sigilos bancários quebrados.

A PGR persegue a linha de investigação segundo a qual essas figuras teriam agido de maneira articulada com agentes públicos (no plural) com foro privilegiado para financiar e promover os atos antidemocráticos.

Ao longo do dia, veio à luz que o ministro Alexandre de Moraes, que também é o relator desse inquérito no STF, pediu no dia 27 a quebra de sigilo bancário de dez deputados federais e um senador (Arolde de Oliveira, do PSC do Rio). Além do próprio Daniel Silveira, estão na lista gente como Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF).

Além disso, Moraes determinou que Facebook, Instagram e YouTube forneçam dados sobre pagamentos feitos às páginas e perfis mantidos por alguns dos investigados. “A medida é relevante para saber se os blogueiros e militantes bolsonaristas estão sendo remunerados por meio de publicações contrárias às instituições democráticas, o que pode tornar o crime mais grave”, explicam Aguirre Talento e Bela Megale no Globo. Na lista, que varia de rede para rede, estão o Terça Livre, Sara Winter e Folha Política, por exemplo.

“As investigações sobre o núcleo radical do bolsonarismo chegaram ao pé da rampa do Palácio do Planalto”, avalia Bruno Boghossian, para quem a operação de ontem “se aproximou ainda mais de deputados e empresários que fazem a ponte entre os manifestantes e o núcleo de poder do presidente”.

Jair Bolsonaro só deu declarações tarde da noite. O presidente afirmou, via redes sociais, que não pode “assistir calado enquanto direitos são violados e ideias são perseguidas”. Prometeu tomar “todas as medidas legais possíveis para proteger a Constituição e a liberdade dos brasileiros” – o que, nesse contexto de artigo 142, sempre deixa muitas dúvidas. Também disse que o governo recebeu a operação, caracterizada como ‘abuso’, com a “cautela de sempre”. Caracterizou os inquéritos que cercam o bolsonarismo, sem mencioná-los, como “ataques concretos”.

O vice, Hamilton Mourão, se pronunciou mais cedo sobre a operação. “Eu acho que é meio exagerado isso aí. Eu acho que considerar que essa meia dúzia de gente que estava aí na rua como uma ameaça é a mesma coisa que a gente considerar aquela turma que aparece com bandeira de foice e martelo como ameaça“, comparou o incomparável.

Aliás, ao se referir ao ataque ao prédio do Supremo, Daniel Silveira afirmou que se tratava de um foguetório no âmbito de um “culto religioso”. E a pessoa que aparece no vídeo ameaçando os ministros, o Renan Sena da nota anterior, foi categorizado como “garoto que se destacou”.

NOVA DATA

As eleições municipais devem mesmo ser adiadas por conta pandemia, embora a nova data ainda não esteja definida. O presidente do Tribunal, Luís Roberto Barroso, afirmou ontem que o Congresso deve decidir isso até o fim do mês. “Nós oferecemos uma janela, com base em depoimentos científicos, entre 15 de novembro e 20 de dezembro”, disse ele, após reunião com Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e um grupo de médicos e cientistas. Segundo o presidente da Câmara, uma proposta é fazer o primeiro turno no dia 15 de novembro, e o segundo no dia 6 de dezembro. Outra proposta estabelece os dias 29 de novembro e 20 de dezembro. Em todo caso, Maia defende que isso seja votado o mais rápido possível. Para suprir a redução das campanhas corpo-a-corpo, ele sugere ampliar o tempo de propaganda eleitoral na TV.

Mas, embora os líderes da Câmara e do Senado tenham entrado em consenso sobre a necessidade de adiamento, nos bastidores ainda não se sabe se o Congresso vai aprovar a mudança. Segundo a coluna Painel muitos prefeitos são contra o adiamento, especialmente os que buscam reeleição. E devem pressionar parlamentares – líderes do Centrão já se posicionaram pela permanência do pleito em outubro. Para alterá-lo, é preciso seguir o trâmite de uma PEC, com maiorias na Câmara e no Senado e votação em dois turnos nas casas.

ATAQUES À IMPRENSA

Porque o Brasil não para de piorar um minutinho, temos que fazer menção nessa edição a duas movimentações de censura à imprensa. Uma vem do Judiciário: uma reportagem da RBS sobre o pagamento irregular do auxílio emergencial sofreu censura prévia do juiz Daniel da Silva Luz. Ele atendeu ao pedido de uma mulher suspeita de praticar a irregularidade e que não queria ter sua identidade revelada… Determinou multa de R$ 50 mil à afiliada da Rede Globo em caso de descumprimento.

A outra vem do governo federal. O ministro da Justiça André Mendonça pediu que a PGR abra um inquérito sob alegação de que o jornalista Ricardo Noblat pode ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional por compartilhar uma charge do cartunista Renato Aroeira no Twitter. A ilustração faz referência à proposta de Jair Bolsonaro feita a seguidores para que invadam hospitais e filmem. Uma cruz vermelha é transformada numa suástica pelo presidente, que carrega um balse de tinta preta e indaga: “Bora invadir outro?”.

A Rede Sustentabilidade entrou com ação no Supremo para anular a solicitação de Mendonça à PGR, pedindo que o ato do ministro da Justiça seja considerado inconstitucional. Quem resume o sentimento diante de todo esse contexto político é o próprio Aroeira: “Sou mais um aterrorizado do que um terrorista”.

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