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Marcuse e as traições da tecnologia

Para filósofo alemão, tecnociência prometeu fim do trabalho degradante, mas gerou novas servidões — e alimentou guerras e fascismos. Décadas depois, uma estética multimídia tenta reduzir imaginação ao corpóreo e ao consumo.







Do Outras Palavras, 10/06/2020


Por Ricardo Neder | Imagem: Pawel Kuczynski

Todo deslocamento (ou Verschiebung,
 em Freud) assume uma correspondência linguística na metonímia que consiste em designar uma coisa A pelo nome de outra B, em virtude de uma relação não de semelhança ou similaridade, mas de contiguidade, de interdependência real entre ambas: o deslocamento metonímico é extensamente trabalhado pelos autores da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Está presente em Theodor Adorno, quando nomeia por exemplo, nostalgia (Sehnssucht) simultaneamente, nostalgia (passado) e ânsia (futuro). Aqui tomado como vivência de como algo que orienta o imaginário criado pela tecnologia em direção a uma certa (in)capacidade estética de condensar a experiência humana da memória e do fluxo do tempo dos nossos sentidos; seria, também, o que – depois da experiência do aqui-e-agora (presente realizado) – sentimos como uma irremediável perda de substância e aura.

É precisamente essa ambivalência que nos assola como sujeitos nem modernos nem contemporâneos, projetando-nos ora no campo das práticas de sujeitos heterônomos, ora no campo da fluidez e da garantia da autonomia. Estamos diante de uma inevitável estrutura ambivalente que marca com tinta forte a matéria-prima entre o artificial e o gerado por processos espontâneos, como se, finalmente, aí residisse toda a unidade da narrativa na pesquisa e no invento científicos, nas correntes do romance, no cinema e no vídeo, enfim, o que unifica a narrativa é a similitude, a verossimilhança com o natural, a imitação (mimesis) do real.

Marcuse anteviu há meio século (em Eros e Civilização) que a relação entre fascismo, capitalismo e tecnologia não sairia do horizonte histórico da modernidade. Sob esta tríade, a tecnologia comporta uma traição da estética e da liberdade. A primeira é ter se convertido em uma forma quase própria de dominação pelo auto-engano, dissimulação ou engodo (mímesis). Com a falsa promessa de alforriar a humanidade do trabalho degradante. A segunda traição foi o capitalismo gerar uma tecnologia que tem por base a sublimação repressiva mediante novas formas de servidão mediadas pelos dispositivos (celulares, computadores, comunicações de satélite, alimentos industrializados, armas etc). Promessas da vida moderna. Aspiramos a uma vida autêntica mas temos que apoiar a esfera das instituições que nos garantem a vida em comum, subjetividade da nossa consciência, emoções, sentimentos afetos associados ao consumo como regra e estilo de vida. Elas nos permitem a intersubjetividade nos espaços públicos. Mas as instituições ameaçam esta intersubjetividade devido aos dispositivos que nos invadem pela maré neoliberal, ideologia de uma sociedade cataláctica (das trocas); neste caso devemos reformá-las e sua legitimidade ser refundada. Na impossibilidade, devemos derrubá-las. Se isso for inviável, temos que achar os meios de destruí-las, contrapondo força-contra-força se necessário, pois neste caso elas já se converteram em domínio da tirania (Hannah Arendt).

Na sua origem, a civilização ocidental avançou contra a barbárie na luta tenaz da emancipação contra a servidão. As formas de servidão, contudo, sucedem-se historicamente. Hoje deparamos com a potenciação do corpo exomático (tecnológico) do trabalho humano na sua relação com a natureza, o que é fruto de criação, transformação cultural e expansão tecnológica desde o século XVIII. O sujeito das tecnociências (ordem e desordem, controle e vigilância, real e virtual, metonímia e deslocamento, abolição do natural, naturalização do tecnológico) pratica hoje – por comutação digital da vida – algo próximo a uma solução artificial. Estamos longe de uma comprovação de que se converterá em solução cultural na dimensão da inteira humana condição (Montaigne). Embora seja um tema clássico no Ocidente, a mundi machina ou máquina do mundo é um signo polissêmico, cujo desvelamento nos nossos dias tem afinidades com a teoria crítica em sua análise das novas formas de repressão da cultura de massa.

Esse signo (máquina do mundo) revelou-se promessa de fidelidade do pensamento ao ser e à verdade no Renascimento. Como resgatar a máquina do mundo enquanto imagética da grande recusa, rebeldia, transgressão? Diante de uma desvairada cultura tecnocientífica instaurada na era napoleônica e humboltiana, a ciência foi no berço prometida como virgem ao senhores da guerra e da acumulação industrial. Elaborar esta recusa tem sido um empreendimento de múltiplas vertentes e potenciais no último século.

Esse empreendimento encarado por Herbert Marcuse, em Eros e Civilização, buscava uma nova leitura do desafio posto por Freud ao realizar certa psicanálise da grande recusa à máquina do mundo, a fim de identificar o caráter reprimido desta insurgência contra o poder destrutivo da civilização, utilizando o ensaio para expressar o princípio de contradição.

Há razões para comemorarmos meio século de publicação da obra de Marcuse, a primeira da Teoria Crítica a aprofundar o diálogo filosófico de forma sistemática com as ideias da psicanálise. Marcuse afirma que as categorias psicológicas se converteram em categorias políticas uma visão que está na base das teses de Eros e Civilização. Neste sentido, afirma a moderna simbiose entre liberdade e servidão. Embora tal perspectiva não seja o foco central das teses de Marcuse em Eros e Civilização (foi melhor desenvolvida no livro posterior, O homem unidimensional), é clara a anterioridade de Eros e Civilização para essa conclusão, pois a simbiose passa pela compreensão do papel das formas de sublimação não-repressivas do prazer pelo sujeito moderno.

Marcuse interrogou filosófica e politicamente por que o sujeito moderno continua agrilhoado à simbiose entre liberdade e servidão quando a produtividade gerada pela base técnica poderia romper estes grilhões. Sua explicação (aqui resumida e empobrecida) pode ser descrita numa interessante passagem na qual comenta o fato de que as tentativas de revisão (e absorção das teses de Freud) apresentavam (até os anos 1960) uma correlação positiva e até entusiástica entre o papel do prazer no trabalho, e o prazer libidinal. Ora, contesta Marcuse, se eles usualmente coincidem, então o próprio conceito de princípio de realidade torna-se supérfluo, e vazio de significado se este não governar o trabalho, não terá coisa alguma a governar, na realidade. O que nos convida a uma re-vivênciade Eros e Civilização não é, contudo, esse ponto – fundamental para a questão se é possível uma sociedade não-repressiva nos marcos do capitalismo e do socialismo avançados. Trata-se de outra dimensão relacionada com sua tese sobre a emergência da estética na modernidade do século XVIII.

Em “A dimensão estética” (título de um dos capítulos de Eros e Civilização) seu objetivo é demonstrar que perante o tribunal da razão teórica e prática, a existência da estética está condenada a resultar em repressão cultural de conteúdos sob o princípio do desempenho (ou da produtividade e racionalidade instrumental). Tentaremos desfazer teoricamente a repressão recordando o significado e função originais da estética (que é sua) associação íntima entre prazer, sensualidade, beleza, verdade, arte e liberdade, uma associação revelada na história filosófica do termo estética.

Essa é precisamente uma das contribuições marcantes de Eros e Civilizaçãopara o momento. Pois ela assinala a contradição atualíssima em torno da profusão de uma estética multidimensional e avassaladora que engloba as multimídias e formas visuais (sua semiologia e semiótica) na transmissão de conhecimento e proliferação das informações na web, publicidade e artes na comunicação enquanto elo crucial da indústria de consumo com a indústria cultural. Claro, essa estética é parte do imaginário criado pela tecnociência. Porém, o que é essa estética, senão uma certa capacidade de nos seduzir (estesia) por condensar a experiência humana da memória e do fluxo do tempo dos sentidos, a qual depois da experiência do aqui-e-agora (presente realizado) – sentimos como uma irremediável perda de substância e aura?

Parecem nascer desse sentimento de perda, as tentativas da estética em lidar com os suportes tecnocientíficos. Elas fazem do passado e presente, extensão para o futuro; captam e recriam o olhar, o paladar, o tato, a audição, o deslocamento pela imaginação e o mentar como algo corporal.

Tem esse suporte na estética, como se a relação com a técnica, é simples e direta, e nos permitiria – apesar da condição assexuada e descontextualizada dos dispositivos e dos maquinismos – viver coletivamente a tecnociência como condensação daciência cognitiva dos sentidos. Tal ciência nos une, pois os objetos e processos tecnocientíficos são instâncias culturais mas diante dessa condição, vivemos um estranho afeto, porque inconsciente diante da máquina.

Este nos separa justamente pelo fato da perda de substância e da aura do presente se tornar um ciclo de repetições que vai do ato de consumo no mercado para a satisfação e esgotamento do prazer do objeto consumido, e daí retorna ao consumo que retroalimenta a produção mediada pela tecnologia. Por isso mesmo toda produção de tecnologia está embebida na estética. A disciplina estética instala a ordem da sensualidade contra a ordem da razão(repressiva), segundo Marcuse, que propõe nos apropriarmos dessa origem da grande recusa das humanidades e artes diante do inexorável avanço das ciências exatas, físicas e naturais desde o século XVIII.

RICARDO NEDER
Sociólogo e economista político, professor associado da UnB. Editor-chefe da Revista Ciência & Tecnologia Social e da coleção Construção Social da Tecnologia ambas vinculadas aos Estudos Sociais da Ciẽncia e Tecnologia no Brasil, e ao PLACTS – Pensamento latinoamericano de Ciência, Tecnologia, Sociedade, associados ao grupo de pesquisa Observatorio do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina. Coordena o Núcleo de Pesquisa NP+CTS (Políticas CTS – Ciência, Tecnologia, Sociedade) CEAM/UnB, e o Programa de Extensão Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (da rede ITCP de incubadoras universitárias no Brasil) sediada na UnB Planaltina (rtneder@unb.br)

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