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Indústria brasileira no olho do furacão

Abandonada, ela estagnou em patamares da década passada. Com pandemia, crise estrutural acentua-se: produção caiu à metade e cadeias de insumos foram desmontadas — e políticas entreguistas de Bolsonaro geram mais incertezas…
Do OUTRAS PALAVRAS, 16/06/2020
Discutir a questão da indústria é fundamental, por várias razões:

1. É um setor estratégico para o país sob uma série de aspectos (emprego, renda, soberania, tecnologia, defesa nacional);

2. Todos os países dominantes têm indústrias fortes, praticamente sem exceção. Não dispor de indústria é pedir para ser país dependente e dominado;

3. Há uma relação direta entre soberania e base industrial. Nos governos nos quais o Brasil teve projeto nacional (foram poucos), aparecem também como os momentos em que mais a indústria se desenvolveu;

4.A industrialização foi um dos capítulos mais vitoriosos que o país já escreveu na sua história (após a revolução de1930). Entre 1930 e 1980 nenhum país cresceu tanto o seu PIB quanto o Brasil, e boa parte desse fenômeno se deve à industrialização;

5.O Brasil sofre uma desindustrialização há décadas, mais precisamente desde meados de 1980. Em 1985, a participação da indústria de transformação no PIB era de 35,9%, e esta caiu para 10,5% em 2019;

6. O governo atual não tem política industrial. Na verdade, só tem política “entregacional”: há 119 ativos públicos listados, para serem vendidos tão logo seja possível, a preço de banana;

7. O golpe de 2016 foi, também, contra a indústria. Não é por acaso que a Petrobras foi o centro do golpe, com a utilização da Lava Jato, operação que foi arquitetada fora do país, em algum departamento do Estado norte-americano. A Petrobras é fundamental para a indústria, tanto como fornecedora de energia, quanto na condição de provedora e desenvolvera de tecnologia;

8. Depois de cerca de meio século, o Brasil está saindo do grupo dos dez países mais industrializados do mundo.

A discussão dos problemas atuais da indústria deve levar em conta que o Brasil ingressou numa espécie de “tempestade perfeita”, caracterizada por:

a) contaminação em massa da população pela covid-19. A curva de contaminação está empinada, o Brasil tem 43.389 mortos e 867. 882 contaminados (dados até 14/06). O Brasil passou o Reino Unido e se tornou o segundo país do mundo com maior número de mortes por covid-19. Neste momento somente os Estados Unidos tem mais mortos, com mais de 117 mil. O país pode superar os Estados Unidos em número de mortes de covid-19 no dia 29 de julho, conforme a projeção da Casa Branca dos EUA. Na data referida, o Brasil alcançaria 137,5 mil mortos, ultrapassando os EUA, que teria 137 mil;

b) depressão econômica (com seis anos seguidos de recessão ou estagnação);

c) crise política inusitada (com governo Bolsonaro e inusitada polarização política).

A crise da indústria é anterior à pandemia. Em 2019 a produção industrial no Brasil já tinha diminuído 1,1% em relação a 2018. O patamar de produção industrial de 2019 foi semelhante ao de 2009: é como se o país tivesse regredido, em termos de produção industrial, em dez anos. Não tem como ser diferente: a década que se encerra em 2020, será perdida para a indústria. Isso já era espera do antes da pandemia, e do mundo ter ingressado na pior crise da história do capitalismo.

O problema conjuntural, ligado à crise, e o estrutural (desindustrialização), coincidem com um período no qual o mundo atravessa a chamada Quarta Revolução Industrial. O Brasil precisaria estar investindo bilhões em pesquisa e inovação industrial neste momento, procurando pelo menos, congelar a histórica defasagem científico técnica que temos em relação aos países desenvolvidos. Como desgraça pouca é bobagem, este período coincide com o governo mais obscurantista da história e com uma drástica queda do orçamento para ciência e tecnologia. O orçamento da ciência e tecnologia para esse ano é 7,3 bilhões, menor em termos nominais, do que o de 2014, de 8,4 bilhões.

Os dados recentes da indústria são realmente impressionantes. A produção industrial caiu 18, 8% em abril, na comparação com o mês anterior. Em relação a abril do ano passado, a queda na indústria foi de 27, 2%, Bens de consumo duráveis tiveram a queda mais acentuada de abril 79, 6%, Bens de capital caíram 41,5%. Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) com 93 segmentos industriais, concluiu que 77% do total (ou 72 segmentos) registraram desempenho negativo no acumulado de janeiro-3 abril/20 frente ao mesmo período do ano anterior. A utilização da capacidade instalada da indústria, que já vinha caindo antes da pandemia, chegou a 49% em abril. É um verdadeiro massacre.

Estes resultados decorrem de uma confluência de fatores:

a) com o isolamento social, o consumo de bens e serviços, em geral, caiu drasticamente. A produção de uma forma geral só tem sentido se houver consumo;

b) em função da recessão mundial e da pandemia, há queda acentuada das exportações de manufaturados no Brasil (-32% em abril segundo o IBGE);

c) as cadeias de produção, por sua vez, foram desmontadas. A China, que juntamente com outros países da região, provê boa parte dos insumos industriais, mergulhou numa crise brutal no primeiro trimestre, para combater o covid-19.

d) nenhuma empresa quer investir neste quadro de brutal crise e incertezas.

Graves crises como a atual, só conseguem ser enfrentadas com a coordenação do Estado, que tem condições de fazer políticas monetária, cambial, industrial, etc. No Brasil não existem medidas do governo para enfrentar os problemas da indústria e dos demais setores. O governo está preocupado em aproveitar a crise para retirar direitos dos trabalhadores e privatizar os ativos públicos. Políticas de entrega das riquezas nacionais e de destruição de direitos dos trabalhadores, são incompatíveis com projetos de desenvolvimento da indústria. Como mencionado, há uma relação entre soberania nacional e desenvolvimento da indústria. Não será o governo mais entreguista da história, que defenderá uma indústria forte e voltada para os interesses estratégicos do país. O projeto dessa turma é transformar o Brasil num fornecedor de matérias primas baratas para o centro capitalista mundial.



JOSÉ ÁLVARO DE LIMA CARDOSO
Economista, doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, supervisor técnico do escritório regional do DIEESE em Santa Catarina

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