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“Estamos em luto, mas seguiremos na luta”, afirma associação Munduruku após morte de lideranças por covid-19

Segundo Associação Pariri, o novo coronavírus já vitimou cinco indígenas do povo Munduruku. “O descaso e a precariedade de atendimento não são por acaso”, afirma nota.

Do IHU, 05/06/2020

A reportagem é publicada por Conselho Indigenista Missionário - Cimi, 03-06-2020.

Em menos de 24 horas, o povo Munduruku, do Pará, perdeu duas importante lideranças para a covid-19. Ontem, dia 1º de junho, o cacique Vicente Saw, da Terra Indígena (TI) Sai-Cinza, no Alto Tapajós, faleceu em decorrência de complicações causadas pelo novo coronavírus. Nesta terça-feira (2), Amâncio Ikon Munduruku, liderança da TI Praia do Mangue, localizada em Itaituba, no Médio Tapajós, também morreu após contrair covid-19.

“Junto dos familiares de Amâncio Ikon, sofremos por sua partida inesperada desse mundo”, afirma nota divulgada pela Associação Indígena Pariri, organização do povo Munduruku do Médio Tapajós. “Nosso choro também vem trazer a memória de uma vida de muita luta, sempre com serenidade e alegria. Também uma vida de dedicação e ensinamentos a seus filhos, familiares, parentes e amigos”.

Segundo a associação, já são cinco Munduruku falecidos nos últimos dias em decorrência da infecção causada pelo novo coronavírus e pelo menos seis indígenas do povo internados em estado grave nos municípios de Jacareacanga e Itaituba (PA).

Após pressão dos indígenas, no final de semana, Amâncio Ikon chegou a ser transferido do hospital de Itaituba para Belém, mas não resistiu. Segundo a Pariri, “a cidade de Itaituba não tem uma estrutura de UTI minimamente capaz de atender os casos graves”.

Os dados locais apontam para um cenário preocupante. O município de Itaituba registra, em 2 de junho, 674 casos e 20 óbitos por covid-19, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Jacareacanga, na mesma data, contabiliza 75 casos confirmados e três mortes em decorrência da covid-19. Ambas as cidades são frequentadas pelos Munduruku – no caso de Itaituba, há duas grandes aldeias urbanas.

O movimento Munduruku Iperegayu também se posicionou por meio de um manifesto público, nesta terça-feira. “Essa mortandade no nosso povo não começa aqui, mas esse é um momento de luto para todos nós”, afirma o movimento, que destaca que a morte de lideranças é uma perda irreparável. “É como perder uma biblioteca que ensinava a todos”.

Segundo o Iperegayu, dos seis Munduruku internados em estado grave, cinco estão no hospital de Jacareacanga, que não possui Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs).

“O descaso do governo com a saúde pública e a precariedade de atendimento na saúde indígena não são por acaso. Todos os que sempre se omitiram e ignoraram nossas reivindicações pela saúde e os que agora se omitem diante dessa situação emergencial e descontrolada são responsáveis”, afirma a associação do povo Munduruku.

A indignação dos indígenas também se reflete nos dados disponibilizados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Segundo o boletim epidemiológico do órgão, às 19h30 do dia 2 de junho o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Rio Tapajós, que abrange a região do território Munduruku, registrava apenas 14 casos confirmados de covid-19 e um único óbito – quatro a menos do que os indígenas contabilizam.

“Amâncio partiu para junto dos nossos ancestrais. Seguiremos firmes na luta que ele e nossos antigos travaram. Não ficaremos calados e nem deixaremos que o governo nos mate”.
Eis a nota.


Estamos em luto, mas seguiremos na luta!

“A nossa história de organização começa assim… Um vereador fez um pronunciamento e falou que aqui na região não tinha índios. Nesse momento a gente despertou e começou a pensar no que ele disse, que não tinha índios aqui. Realmente não tinha organizado, representado juridicamente. (…)Isso fez com que a gente se organizasse e corresse atrás dos nossos direitos” (Amâncio Ikon, P. do Mangue, 2013)

Nós, Munduruku do médio Tapajós, estamos em uma luta muito grande contra esse inimigo invisível.

Hoje pela manhã recebemos com muita tristeza a notícia de que nossa grande liderança Amâncio Ikon Munduruku, aos seus 59 anos, partiu para outro mundo, menos de 24 horas depois de sabermos que cacique Vicente Saw, 71 anos, também havia falecido de COVID-19. Outros três anciões que, da mesma forma que Vicente e , carregam os conhecimentos do nosso povo, que são nossa biblioteca, também faleceram nos últimos dias por causa dessa doença – Jerônimo Manhuary (86 anos), Angélico Yori (76 anos) e Raimundo Dace (70 anos). Outros seis Munduruku estão internados em estado grave em Jacareacanga e Itaituba.

Junto dos familiares de Amâncio Ikon, sofremos por sua partida inesperada desse mundo. Nosso choro também vem trazer a memória de uma vida de muita luta, sempre com serenidade e alegria. Também uma vida de dedicação e ensinamentos a seus filhos, familiares, parentes e amigos.

Amâncio Ikon era uma liderança muito respeitada e reconhecida pelo povo Munduruku e por todos que o conheceram ou dele ouviram falar local, regional e nacionalmente. Nasceu na aldeia Urubuda, abaixo de Kaburua, cabeceira da nascente Waodadi e do rio Cabitutu, no alto Tapajós. Veio muito novo com seus pais, irmãos e familiares para o médio Tapajós, onde abriram a aldeia Praia do Mangue.

Amâncio foi um dos fundadores da Associação Indígena Pariri, em 08 de novembro de 1998. Até 2005, esteve na coordenação da entidade e atualmente era vice-coordenador, somando mais de vinte anos de luta. À frente da Associação, realizou inúmeros projetos e conseguiu implementar a educação bilíngue nas aldeias do médio Tapajós. Sempre se preocupou com o fortalecimento e a valorização da língua e da cultura Munduruku nas aldeias do médio Tapajós. Junto a associações do alto Tapajós, atuou com muita intensidade na defesa dos direitos territoriais do povo Munduruku e dos direitos indígenas em geral. Participou ativamente do Ibaorebu, projeto de educação diferenciada, e se formou em Agroecologia em 2015.

Seus conhecimentos sobre a história e o pensamento do nosso povo fizeram dele um grande professor para todos nós. Seus saberes foram e são fundamentais para os processos de demarcação de nossas terras e para despertar nos jovens o orgulho de ser Munduruku.

Por cinco dias esteve em sua casa com falta de ar e febre até ser levado para uma Unidade de Pronto Atendimento em Itaituba, onde testou positivo para COVID-19. Com muito esforço dos nossos parceiros e principalmente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, conseguimos que fosse transferido para um hospital em Belém, pois a cidade de Itaituba não tem uma estrutura de UTI minimamente capaz de atender os casos graves. O descaso do Governo com a saúde pública e a precariedade de atendimento na saúde indígena não são por acaso. Todos os que sempre se omitiram e ignoraram nossas reivindicações pela saúde e os que agora se omitem diante dessa situação emergencial e descontrolada são responsáveis.

Amâncio partiu para junto dos nossos ancestrais e, como um grande guerreiro, herdeiro de Karodaybi, vai continuar nossa luta desse outro lugar. Seu exemplo e sua força estão com todos os Munduruku. Seguiremos firmes na luta que ele e nossos antigos travaram. Não ficaremos calados e nem deixaremos que o Governo nos mate. De geração em geração, nós guerreiros e guerreiras Munduruku, defenderemos nosso povo e nosso território até o fim.


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