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[Cartas do velho mundo] 29.06.20 – TRÊS ELEIÇÕES EM MEIO À PANDEMIA

França, Polônia e Islândia foram os primeiros países europeus a ir às urnas, após a eclosão da covid-19. Em nenhum deles a ultradireita venceu – e em todos foi pior do que esperava. Na França, notável sucesso de uma nova formação ambientalista.

Do Outras Palavras, 29/06/2020

por Antonio Martins

“Parece 1977”, disse ontem à noite, em Paris, Julien Bayou, o jovem secretário nacional do partido Ecologistas Europeus – Os Verdes (EELV), nítido vencedor do segundo turno das eleições municipais francesas. Ele se referia ao triunfo histórico da esquerda nas eleições para prefeitos daquele ano, que abriu caminho, em 1981, para a chegada de François Mitterrand (PS-PC) ao governo. A próxima disputa para a presidência ocorrerá em menos de dois anos, e é provável que os ambientalistas sejam, pela primeira vez, um ator decisivo.

Por diversos motivos. Primeiro, a vitória de ontem foi realmente grandiosa. O EELV, que não tem um único deputado na Assembleia Nacional e cuja estrutura conta com apenas quatro funcionários, foi o maior eleitor de prefeitos nas maiores cidades, vencendo em Lyon, Bordeux (que era governada há 73 anos pela direita), Estrasburgo, Poitiers e Grenoble, participando da vitória da candidata socialista em Paris e podendo participar da escolha em Marselha (que se fará entre os conselheiros eleitos).

Segundo, porque nenhum outro grupo destacou-se, em eleições marcadas pela fragmentação. O partido neoliberal do presidente Emmanuel Macron (A República em Marcha – LREM), não venceu em nenhuma cidade importante; e em Paris, seu candidato sequer sagrou-se conselheiro municipal [equivalente a vereador]. A ultradireita (Encontro Nacional – RN, antiga Frente Nacional, de Marine Le Pen, venceu apenas em Perpignan. Socialistas e comunistas tiveram resultados ambíguos (o PC perdeu em Sain Dennis, periferia de Paris, que governava desde o fim da II Guerra).

Terceiro, pelas próprias característica do EELV. Fundado em 2010, o partido tornou-se muito mais amplo que os antigos Verdes. Atraiu a atenção de movimentos sociais (principalmente os que se voltam à crítica da cidade capitalista) e personalidades (como José Bové). Ao contrário de certos grupos ecologistas, alia-se frequentemente com a esquerda. Sua principal referência, até ontem, era Éric Piole, o prefeito (reeleito de Grenoble), nos Alpes. Elegeu-se, em 2014, com apoio da França Insubmissa (formação à esquerda do PC) e de movimentos locais, numa coalizão denominada Grenoble em Comum. Reduziu fortemente o espaço dos automóveis. Planeja agora estabelecer tarifas sociais para os serviços públicos e estimular a agricultura urbana. Sustenta que não deseja “uma ecologia para ricos” e que deseja articular “justiça social com emergência climática”.

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Numa Polônia parlamentarista, governada desde 2015 pela extrema-direita, as eleições presidenciais ofereram algum respiro. Embora favorito, presidente Andrzej Duda, do partido governante Lei e Ordem (PiS) não conseguiu reeleger-se no primeiro turno. Foi o mais votado, com 41% dos sufrágios, mas terá de enfrentar um segundo turno contra Rafal Trzaskowski, prefeito de Varsóvia, que alcançou 30% mas deverá receber o apoio de nove outros candidatos. Espera-se que a disputa final, marcada para 12/7, seja intensa.

Trzaskowski integra a Plataforma Cívica, de tendência economicamente liberal, mas ao menos defendeu os direitos civis e a “unidade nacional” – enquanto seu oponente fez campanha aberta contra os LGBTI+s, que chamou de “mais nocivos que os comunistas”. Ao eleger-se, há cinco anos, Duda escolheu como alvo os imigrantes.

A eleição é importante porque o presidente, embora não exerça o Poder Executivo (a cargo do primeiro-ministro) tem o poder de vetar leis e é – já que escolhido pelo voto direto – referência política destacada.

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A pequena (364 mil habitantes), porém valente Islândia – que desafiou a oligarquia financeira internacional ao deixar que seus três maiores bancos quebrassem e suspender o pagamento de sua dívida – reelegeu um presidente à esquerda. Gudni Johannesson, independente porém forte defensor de formas participativas e diretas de democracia, venceu as eleições com 92% dos votos. Seu desafiante era Guômundur Franklin Jônsson – empresário, ex-investidor de Wall Street e admirador de Donald Tramp. Teve 7,8% apenas.

Também na Islândia o papel do presidente é apenas de veto. O país é governado por uma coalizão de centro-esquerda e tem como primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, do Movimento Verde e de Esquerda.


ANTONIO MARTINS
Antonio Martins é editor de Outras Palavras.

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