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'Bolsonaro vai de rival da quarentena a quarentenado isolado', diz psicanalista Christian Dunker

Presidente vive na pandemia um acirramento do processo de solidão do tirano, quando se vê inimigos em todo lugar, diz professor

Christian Dunker durante palestra na Flip,
em Paraty - Keiny Andrade-1.jul.16/Folhapress



Da Folha de São Paulo, 6.jun.2020
Por  Marcella Franco



Excetuando-se os raros centenários espalhados pelo mundo, praticar quarentena com isolamento social devido a uma pandemia é algo inédito para todos. Com isso em mente, fica óbvio o humor no título de Christian Dunker, “A Arte da Quarentena para Principiantes” (Boitempo, 77 páginas): não há peritos entre nós.

Psicanalista e professor titular da USP, Dunker mira o momento atual sob dois recortes. Um, da saúde mental; outro, da regionalização do enfrentamento ao coronavírus. E conta à Folha que arrisca, mesmo no caos, tentar fazer rir.

Para ele, o Brasil é um país onde a produção de inimigos foi retórica de campanha e virou método de governo. Aqui, portanto, a estratégia de enfrentamento de um adversário real – “uma forma de vida composta de uma capa de gordura com proteína” – acaba contaminada e menos eficaz.

No livro, o psicanalista avalia como a pandemia vem para destruir o engrandecimento narcísico da sociedade atual, e fala em “oniropolítica”, conceito em que o futuro é feito de solidariedade e sonho, e onde “Bolsonaro não governa mais este país”.

“A Arte da Quarentena para Principiantes” é um livro sobre a quarentena, um livro sobre o governo ou um livro sobre o governo na quarentena? É um livro sobre o governo na quarentena, e eu diria que é um governo sob o risco de entrar em quarentena ele próprio, no sentido de se isolar, de perder contato com as instituições. Basicamente, tento ajudar as pessoas a interpretar essa situação inédita, em que a gente vai buscar referências para lidar com isso, para tornar o desconhecido um pouco mais conhecido, e não encontra. Elas são ou muito antigas, do tempo da peste, ou não são suficientemente fortes para falar da mudança que realmente aconteceu.

Você menciona que, no Brasil, havia “uma produção contínua de inimigos imaginários”. Com quais sentimentos um indivíduo afeito a essa prática tem de se deparar quando finalmente surge um inimigo real? É um sentimento de extrema contrariedade, porque cada país foi atravessado pelo coronavírus a partir do seu próprio processo. No Brasil, a polarização exigia das pessoas que se eliminasse a posição do terceiro. Só existia ser a favor ou ser contra.

Quando você tem um terceiro, que não é vermelho, nem azul, você introduz um lugar, e isso coloca a gente em contato com o resto do mundo. Isso dá mais valor para a comunidade de cientistas, pesquisadores, que estavam envolvidos justamente nessa produção de inimigos. Eles tinham se tornado verdadeiros inimigos inclusive do ministro da Educação, como se fossem inconsequentes, plantadores de maconha, de quem se deve tirar bolsas, insumos e financiamento.

É muito contraditório quando você tem a aparição de um terceiro que nega essa lógica. As pessoas eventualmente vão cair desse negacionismo quando forem elas mesmas contaminadas ou perderem um familiar.

A chegada do coronavírus ao Brasil acentuou a prática da necropolítica em território nacional? Sim. Ela evidencia verdades que estavam intactas, processos que já estavam acontecendo, mas que agora ficaram muito explicitados.

A necropolítica, descrita pelo filósofo Achille Mbembe, é a face mais mórbida do processo. Ele desenvolve esse conceito em oposição à biopolitica. A necropolítica estabelece que nem todos vão poder participar, nem todos são de fato sujeitos. Alguns são corpos que a gente não vai ativamente por numa câmara de gás, mas vai deixar morrer, vai privar de máscara, deixar de assistir eles na saúde publica.

O processo típico é a lentificação do auxílio. Isso a gente vê sob a capa da descoordenação, na reunião de ministério que veio a público, no discurso de que é só uma gripezinha, no discurso sobre as armas.

Você comenta o mecanismo de negação descrito por Freud. Quando um presidente da República comparece a atos antidemocráticos, incita o povo a pegar em armas, e, ao mesmo tempo, diz “eu vou seguir a Constituição”, esse é um exemplo do tal mecanismo? É um exemplo cabal. E não é só um processo de distorção cognitiva de não querer ver as coisas ruins, uma positividade tóxica. É também uma forma de convocar as pessoas, de tornar a mobilização permanente, porque a gente precisa se juntar para negar, tornar isso um processo coletivo.

Isso é perigoso, porque produz uma massa artificial de negadores que precisa falar mais alto, gritar, se impor aos outros, ocupar as ruas, se manifestar para conseguir aumentar o sentimento de que estão com a razão.

Em tempos de pandemia, qual a importância do medo? O medo é esperado para essa situação. Ele evoca um perigo real. Não é fantasia que as pessoas estão perdendo a vida. Mas não se deve confundir medo com angústia. A angústia vem de dentro, tem a ver com nossos modos de sofrimento, como a gente individualiza o que está acontecendo.

O que leva influenciadores a darem festas, famílias a passearem na rua, e manifestantes a se aglomerarem quando as recomendações das autoridades mundiais sugerem que se faça exatamente o oposto? Essas pessoas se acham especiais? É uma confluência de fatores. Estamos diante de um processo de obediência. E obedecer convoca a referência de como esse conceito se formou dentro de nós, nas referências simbólicas, os pais, a escola, os patrões. A gente aprende a obedecer a partir de um laço de suposição de saber a autoridade no outro.



Bolsonaro cumprimenta apoiadores na frente do Palácio do Planalto e durante uma manifestação em apoio ao governo e contra o STF Pedro Ladeira/31.mai.2020/Folhapress

O primeiro motivo para estarmos nos últimos lugares na resposta à Covid-19 é porque as nossas autoridades simbólicas, em vez de concorrer para unidade, para o consenso de que é preciso obedecer, elas mesmas se colocaram em um lugar de exceção.

A autoridade simbólica é constituída por aqueles que conseguem se limitar. Aqueles que não conseguem são os que dizemos que têm poder, mas não têm autoridade. O processo inicial de traição e desobediência vem daí. Em vez da política bem concentrada, o que vimos foi lentificação, substituição de ministros e confusão.

Você comenta que Bolsonaro adota a “dualização de razões”, ao “exagerar declarações para depois voltar atrás”. Você acha que essa conduta está mudando? É um dualismo que progride a partir de uma desmemória, coisa que, para a psicanálise, é muito ofensiva. É um regime de inconsequência com a palavra. Eu digo algo exagerado e ofensivo e isso se torna tolerável. Quando passo de um limite, digo que estava brincando. Isso ajuda a elevar o tom de inconsequência, os inimigos, a polarização.

Há uma inferência em curso, porque os inimigos começaram a se tornar cada vez mais internos. [Os ex-ministros da Segurança, Saúde e a secret´ria da Cultura, respectivamente Sérgio] Moro, [Luiz Henrique] Mandetta, Regina Duarte. É o processo de solidão do tirano, descrito desde o século 16. Ele vai descobrindo que tem menos poder do que gostaria, fica mais colérico, paranoico, ataca, e termina como tirano solitário.

Bolsonaro está passando de adversário da quarentena a um quarentenado isolado.

Há um trecho em que você comenta que Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública , não abre a boca. É difícil escrever uma obra sobre o governo quando as coisas mudam com velocidade?​ É um livro de intervenção, muitas coisas não vão permanecer como leitura de longo prazo. Foi feito e gestado em uma situação de exceção. É como os víveres que a gente joga de paraquedas no Vietnã sitiado para ver se ajudam.

A história do Moro curiosamente continua valendo, se a gente pensa que, na reunião do dia 22 de abril, quando tem aquele conjunto execrável de declarações, ele fica em silêncio. Claro que depois ele denuncia, mas acho isso muito simbólico e representativo do que eu chamaria de conservadores, que não são os bolsonaristas. Os conservadores verdadeiros estão envergonhados, às voltas com a decisão sobre como pedir desculpas e voltar atrás.

Em um dos capítulos finais do livro você diz que, se você não está confuso neste momento, você tem um problema, e ele não é o coronavírus. Pode explicar? Nessa travessia, precisamos lembrar da música que diz “quando eu estiver louco, se afaste”.

É a ideia de que todos vamos ter momentos de enlouquecimento, e precisamos ser tolerantes com eles. Reconhecê-los, e avisar aos outros quando eles acontecerem.

É uma atitude preventiva, de não tomar grandes decisões, de não achar que está tudo como estava antes. Estamos em um estado de muita alteração psíquica.
RAIO-X

Christian Dunker, 54, é psicanalista, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Cursou pós-doutorado na Manchester Metropolitan University. Atualmente é professor livre docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais “Mal-estar, sofrimento e sintoma” (Boitempo) e “Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano (Ubu).

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