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"As comunidades indígenas são elas que sabem mais sobre como forjar o futuro do planeta", afirma Santos, ex-presidente colombiano

Do IHU, 23 Junho 2020
Por Luis Miguel Modino.



Há cada vez mais pessoas preocupadas com o que acontece na Amazônia, especialmente neste período de pandemia que estamos enfrentando. Seu cuidado, um trabalho realizado secularmente pelos povos indígenas, está se tornando uma prioridade para diferentes governos, organizações internacionais, organizações indígenas e para a própria Igreja Católica, que com o Sínodo da Amazônia obteve reconhecimento e se tornou um interlocutor em diferentes fóruns.
Um webinar organizado pela International Conservation, uma organização ambiental americana sem fins lucrativos, com sede em Arlington, Virgínia, cuja missão é destacar e garantir os benefícios críticos que a natureza oferece à humanidade, como alimentos, água doce, meios de subsistência e um clima estável, a Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica – COICA, e a Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM, debateram sobre o tema "A Amazônia perto do ponto de não retorno: Covid-19, desmatamento e incêndios".



Webinar: "A Amazônia perto do ponto de não retorno: Covid-19, desmatamento e incêndios". (Divulgação)

O evento virtual desta segunda-feira reuniu o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos, o ministro do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica, Carlos Manuel Rodríguez, Avecita Chicchón, da Fundação Gordon e Betty Moore, Mauricio López, secretário executivo da REPAM e Gregorio Díaz Mirabal e Tabea Casique Coronado, da COICA. Todos eles com a mediação de Kristen Walker, da International Conservation. Díaz Mirabal definiu os participantes como "pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão próximas neste momento difícil que a Amazônia está vivendo".

De fato, é necessário tirar proveito da sensibilidade especial com a qual o mundo está atualmente, nas palavras de Juan Manuel Santos, "as ações de todos, não apenas dos governos, para maior proteção do meio ambiente". O ex-presidente colombiano enfatizou que "aprendi a escutar as comunidades indígenas e, quanto mais as escuto, mais percebi que o mundo inteiro precisa escutá-las mais, porque nesse momento são elas que sabem mais sobre como forjar o futuro do planeta”.

Essas palavras foram apreciadas por Gregorio Díaz Mirabal, que insiste que "queremos que a árvore da vida continue a viver", que para ele é a Amazônia. O líder indígena queria deixar bem claro que "não podemos viver sem a floresta amazônica" e, a partir daí, perguntou "se a humanidade pode viver sem a floresta amazônica, sem os povos indígenas". O coordenador da COICA vê a pandemia como "uma realidade que explode em nossos rostos, de violação sistemática de nossos direitos". Ele denuncia que a visibilidade atual dos povos é por eles ser infectados, morrer, por ser desprotegidos por quem os deve proteger, os governos.

Respondendo à pergunta de Díaz Mirabal, Avecita Chicchón, afirmou que "não podemos viver sem a Amazônia e não podemos viver sem seus povos originários". A Fundação Moore trabalha há 20 anos na conservação de processos ecológicos por meio de ações efetivas de proteção na Amazônia. Um desafio que deve ser enfrentado a partir do próximo ano é a sustentabilidade financeira dos projetos, prestando atenção às ameaças que pairam no ambiente dessas áreas protegidas, motivadas por infraestruturas mal planejadas.

Em referência à covid-19, ela diz que o pior foi a perda de vidas de grandes líderes e, com eles de muito conhecimento, os pilares de suas comunidades foram removidos. "A pandemia revelou a fraqueza das instituições básicas do setor público, principalmente da saúde", de acordo com a Avecita, que vê a necessidade de implementar ações que exijam transparência na gestão de recursos. Portanto, ela enfatiza que "não pode haver conservação ou desenvolvimento na Amazônia sem mecanismos claros de transparência para garantir que esse fluxo de recursos vá aonde deve ir, sem nenhum impedimento devido à corrupção ou favoritismo".

O grave aumento de incêndios florestais em todo o planeta em 2019 é visto por Carlos Rodríguez como "algo que será normal no futuro". O ministro enfatiza que "na Costa Rica a floresta queima menos porque não faz sentido econômico queimar a floresta". Para conservar as florestas, são necessários três elementos: qualidade da posse da terra, instituições ambientais fortes e entendimento de que o sistema econômico não reconhece os serviços ambientais.

Algo fundamental para o Ministro do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica é o papel das comunidades indígenas nas negociações internacionais sobre o clima, afirmando que "sem as comunidades indígenas e seus territórios o planeta nunca alcançará o objetivo", razão pela qual defende um sistema multilateral. Por esse motivo, ele cita o Acordo de Escazú, que garantirá o compartilhamento de informações dos governos, maior transparência, respeito aos espaços políticos e institucionais das comunidades, algo fundamental na pós-pandemia.



Participantes do webinar "A Amazônia perto do ponto de não retorno: Covid-19, desmatamento e incêndios". (Reprodução)

Quando perguntado sobre o papel da Igreja na Amazônia, Mauricio López partiu da necessidade de procurar causas estruturais para entender qual é a origem dessa situação que estamos enfrentando. Essa pandemia revela um sistema da sociedade que o Papa Francisco define como um sistema que mata, mata porque exclui e mata porque é insustentável. Laudato Si', nos leva a refletir sobre a necessidade de destruir florestas para lidar com situações de pobreza, algo falso, segundo Mauricio López, que vê a causa na concentração de riqueza e no desperdício de alimentos, o que nos leva à existência de um pecado estrutural, que se manifesta na Amazônia no racismo, na extração de recursos sem retorno para as comunidades e no impacto da pandemia.

Mauricio López afirma que "é um pouco embaraçoso que uma rede eclesial da Igreja seja talvez a única instância que esteja mapeando, com todas as nossas fraquezas, os contágios na bacia amazônica", denunciando subnotificações, especialmente no Brasil, onde um etnocídio ocorre por omissão, e a necessidade de maior ação conjunta. O secretário executivo da REPAM reconhece que a Igreja precisa começar pedindo perdão, sabendo que existem diferentes visões sobre o assunto na Igreja, especialmente em relação ao modelo econômico e social. A Igreja tem uma importância histórica na Amazônia, segundo Mauricio, "estendida como poucas instituições, legitimadas pelos povos originários, apesar da fragilidade, e que é estruturalmente acompanhada para dar uma resposta a isso, ou unimos forças ou não haverá uma saída, eu insisto, será um etnocídio por omissão”.

Resistir não é algo novo para as mulheres indígenas na Amazônia, segundo Tabea Casique Coronado, algo que agora se refere à pandemia, mas também está relacionado ao desmatamento e extrativismo. Ela destaca a importância do território, como habitat, como local de convivência com a natureza para as mulheres, que vêem a floresta e a água como vida, porque ali têm suas plantas medicinais e o que garante sua vida. "Essa pandemia nos ensinou a valorizar nossas próprias plantas medicinais, que atualmente estamos usando como mulheres para salvar vidas em nossas comunidades", insiste a líder indígena.

Destaca a importância da saúde e educação interculturais, da segurança alimentar, a fim de melhorar a qualidade de vida. Junto com isso, ela denuncia outras questões em referência às mulheres, como feminicídio, violência familiar, estupro de meninas, gravidez na adolescência, algo sobre o qual pouco ou nada está sendo feito a respeito, denuncia Tabea. Ela exige cuidados de saúde imediatos diante da pandemia, “que já está em nossas comunidades". O mesmo acontece com a educação, que não chega às comunidades indígenas porque não há cobertura, supondo que o ano letivo atual esteja perdido. Também falta segurança alimentar, não se leva em consideração que existem produtos que não são adequados para os povos indígenas. Diante disso, exige projetos de economia indígena, educação para mulheres, profissionais indígenas no campo da saúde, dado que muitos profissionais não querem ir às comunidades indígenas.

No nível político, se queremos ter um novo paradigma, é necessário, segundo o ex-presidente Santos, “passar da análise à ação, real, verdadeira, eficaz, e é aí que a liderança e, acima de tudo, a vontade política devem estar presentes". Nesse sentido, destaca a importância da pressão popular, da conscientização e da sensibilização da opinião pública. Juan Manuel Santos afirma que "na pandemia as pessoas se tornaram mais solidárias, com mais compaixão, mais conscientes do que está acontecendo com os outros", algo que ele considera importante em um líder, que deve ter empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro. Colocar-se no lugar dos povos indígenas neste momento, segundo Santos, "é essencial para que isso leve a ações concretas", realizando ações do governo para evitar o desaparecimento delas na Amazônia. Diante de uma atitude dos governos, "que parece que não é com eles, aí a pressão da opinião pública deve induzir os governos a agir".

Diante da situação atual, somos obrigados, segundo Gregorio Díaz Mirabal, a realizar ações conjuntas, insistindo que "os cientistas estão fornecendo soluções para a Amazônia, mas os políticos não as ouvem". O mesmo acontece com os economistas, que afirmam que "uma economia que respeita a natureza e os povos é possível”, com os ambientalistas, com a sabedoria ancestral e intercultural dos povos indígenas. O coordenador da COICA denuncia que "a vontade política de nossos governos se uniu contra a natureza, contra os direitos dos povos indígenas", o que se traduziu no avanço de tudo o que destrói a Amazônia, usando a pandemia para agilizar os processos de consulta prévia.

Ele também denunciou a falta de concretização das políticas da ONU em relação ao cuidado com a natureza, exigindo participar das decisões, porque "em diálogos internacionais, somos colocados em uma sala separada, onde as decisões não são tomadas". Díaz Mirabal insiste em que da COICA estão buscando todos os recursos possíveis para salvar a Amazônia e a vida dos povos, mas falta um plano internacional nesse sentido, cada um tentando salvar suas próprias vidas. Ele também lembrou o que foi dito ao Papa no Sínodo para a Amazônia: "Não há problema em ele orar por nós, mas também precisamos de ações, precisamos de orações e ações, neste momento a humanidade precisa disso".

Carlos Rodríguez, que em breve assumirá o cargo de Diretor Geral do Fundo Global para o Meio Ambiente, ao falar sobre planos de recuperação econômica, destaca a necessidade de uma abordagem abrangente, defendendo “preparar nossas economias para um modelo que não aspira ao desenvolvimento ilimitado a todo custo, deixando muitos atores em nossa sociedade relegados, sem entender que o planeta Terra tem limites”. Ele afirma que, diante da recessão econômica, será gerada uma decomposição social em todos os países, aos quais se une, nos próximos 10 anos, o desafio de enfrentar o colapso do planeta. Ela vê uma mudança geracional na liderança política dos países, um maior investimento em fundos para a conservação da natureza, deixa de financiar todas as atividades que geram degradação ambiental, maior investimento em energia renovável, inclusive com reformas tributárias que geram impostos sobre aquilo que machuca o planeta.

"Temos que fazer um grande esforço, quando procuramos soluções, para poder olhar o macro sem perder de vista o micro", insistiu Avecita Chicchón. Ela denuncia que "existem fundos nos países para abordar e responder à covid-19 na Amazônia, mas é muito difícil para as comunidades acessarem esses fundos", algo que eles procuram articular da Fundação Moore. Nesse ponto, destaca-se o papel da Igreja, citando o que aconteceu em Iquitos, Peru, para obter plantas de oxigênio, algo que foi feito imediatamente. Ela também considera necessário pensar nos povos indígenas das cidades, afirmando que "até hoje temos uma configuração de relações sociais em que os povos indígenas continuam a suportar o peso", uma discriminação que deve ser superada.

Houve uma mudança, a ponto de, segundo Mauricio López, "termos de reconhecer que passamos de homo sapiens a homo virus, destruidores de nossa casa comum", o que nos coloca em necessidade de mudanças radicais, algo no que o Papa Francisco insiste em Laudato Si', "não há duas crises separadas, uma social e outra ambiental, é uma única crise". O secretário executivo da REPAM fala sobre o "desafio da mudança epistemológica, uma alteridade com a Irmã Mãe Terra", que foi o motivo de um ataque durante o Sínodo, “algo que foi dito por São Francisco de Assis há 800 anos, hoje é algo que causa picada e reação”. Na geração de recursos, os povos indígenas têm muito a ensinar, porque "esse modelo que temos, o que continuará produzindo, é descartados". Ele considera a desigualdade planetária como a causa estrutural subjacente, juntamente com "um modelo de desenvolvimento voraz, como se houvesse um planeta ilimitado".

Quando perguntado por que as vozes das comunidades indígenas não são ouvidas, Juan Manuel Santos destacou que esta é “uma questão política, um problema que vem de muito tempo atrás”, pois em sua opinião, “comunidades indígenas para muitos presidentes e muitos governos são um problema, porque pensam tão diferente da tradição que causam um conflito”. A partir daí, propõe um novo conceito de desenvolvimento, diferente do que temos há quase 100 anos, baseado no Produto Interno Bruto, que mede apenas a produção, não o bem-estar das pessoas. Por esse motivo, ele vê a necessidade de valorizar, capacitar as vozes das comunidades indígenas.

Dada a total falta de controle da pandemia, Mauricio López destaca a “relevância do ato político como uma possibilidade de fornecer meios mínimos de resposta a situações especialmente urgentes”, o que o leva a afirmar que “qualquer política pública nessa pandemia deve testar a capacidade prioritária de resposta à crise, e vemos o contrário”. Nesse sentido, ele sustenta que "a Igreja deve estar onde estão os crucificados de nosso tempo, mas é um erro histórico que a Igreja tenha que sair para pedir ajuda humanitária", o que mostra a ineficácia dos convênios internacionais. , como foi o Pacto de Letícia. É também um problema ético e social, segundo o secretário da REPAM, priorizar o pagamento da dívida externa à atenção de pessoas, que "são templos do Espírito Santo, a economia não é, não é possível salvar a economia e as pessoas não estão mais, e isso está acontecendo aqui e agora, especialmente com os povos originários".

Nesta situação, Gregorio Díaz Mirabal ressalta que "precisamos criar espaço de ação diante dessa emergência", insistindo em "criar uma nova aliança que veja o rosto do povo" e denunciando a corrupção diante dessa pandemia, pois não se sabe onde se encontram os muitos recursos que chegaram. Algo que, segundo Juan Manuel Santos, exige passar da deliberação para a ação, com um plano concreto, com força política, para gerar o quanto antes uma massa crítica, no momento em que o mundo, o desenvolvimento, está sendo redesenhado

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