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Simone Weil: na dança do amor, a distância e a separação

A filósofa francesa Simone Weil pode ser um dos grandes faróis de nossa civilização, pois nela se conjugam, de maneira extraordinária, a inteligência radiante da mente, que discerne o conhecimento e a sensibilidade, e a compaixão do coração, que ressoa com o outro e que penetra o essencial da vida. Weil viveu uma vida cheia de acontecimentos que a levou a morrer antes de completar 35 anos de idade, manifestando, além de uma brilhante, ainda que curta carreira intelectual, uma das posturas sociais e políticas mais congruentes e corajosas.



Do IHU, 13/05/2020

A reportagem é publicada por PijamaSurf, 10-05-2020. A tradução é do Cepat.

Em seus inesgotáveis cadernos, nos quais compartilha reflexões místicas, especulações sobre geometria e filosofia platônica, teoria social e momentos da mais intensa atenção poética, Weil refletiu sobre a distância e a separação, dois temas que agora ganham grande relevância. A própria Simone morreu durante a Segunda Guerra Mundial, em Londres, solidarizando-se radicalmente com seus compatriotas, dos quais estava separada e que viviam a invasão da Alemanha nazista.

Apesar de muitas pessoas terem uma reação (que poderia parecer completamente natural) de aversão e desprezo pela distância e a separação, Weil percebe, com grande sutileza, que a distância e a separação são parte do amor e a beleza, e não apenas como um efeito secundário ou um obstáculo que é preciso superar, mas como parte essencial do que constitui a amizade e a contemplação.

Em linhas gerais, Weil entende que a distância é “a alma da beleza” e que a separação é em si uma forma de amor, sua condição e sua purificação. Afinal, se não houvesse uma separação original, o amor seria impossível, não poderia ser um movimento radiante, não poderia ser também encontro. O amor é o pêndulo da separação e o encontro, e não mais um que o outro. O amor envolve a separação e o encontro em seu grande arco: “Para os que amam, a separação, mesmo que dolorosa, é um bem, pois é amor”. Weil acrescenta:

“Há duas formas de amizade, o encontro e a separação, e ambas são indissociáveis. As duas encerram o mesmo bem, o bem único, a amizade, pois quando dois seres que não são amigos estão próximos não há encontro, quando estão distantes, não há separação. Contendo o mesmo bem, são igualmente bons”.

A separação tem, além disso, uma função purificadora, pois, como Weil a compreende, o amor é justamente aquilo que transcende o desejo pessoal, o desejo objetificante, a gratificação de necessidades através do outro.

“A purificação é a separação do bem e da cobiça. Descer até a fonte dos desejos para extrair a energia de seu objeto. É aí, na condição de energia, que os desejos são verdadeiros. O falso é o objeto. Mas ao separar um desejo de seu objeto, produz-se um indescritível rasgo na alma. Se alguém desce para o interior de si, descobrirá que possui exatamente o que deseja”.

Transcender a necessidade do desejo é também encontrar a liberdade do amor. Por meio da separação e da fissura é possível notar que existe um fundo no ser no qual, se há amor, toda separação é de alguma maneira ilusória e todo desejo já foi satisfeito. O amor, se está presente, não pode depender de satisfazer suas necessidades, da proximidade de seu objeto. Da mesma forma, o ser humano precisa da solidão, separar-se da voz uniforme da sociedade, esvaziar-se de conceitos e falsos imperativos para, no silêncio e no escuro, encontrar sua autêntica natureza, o que é puro e indestrutível.

Simone Weil também encontra sentido para a distância, em uma perspectiva estética e espiritual. Por um lado, nos fala de uma contemplação platônica, cristã e até hinduísta das coisas, que vai além da mera sensualidade:

“Os outros objetos de desejo queremos comê-los. O belo é o que desejamos sem o ânimo de comê-lo. Desejamos que exista. Permanecer imóvel e se unir àquilo que se deseja, sem se aproximar. Com Deus nos unimos dessa forma, sem poder nos aproximar. A distância é a alma do belo... Beleza: uma fruta que se olha sem estender a mão”.

Há uma forma de estar no mundo, mais perto da luminosidade que da gravidade, que implica em ser capaz de estar apaixonado pelas coisas que aparecem, que se mostram com uma luz natural radiante, sem sucumbir ao apetite, à concupiscência. Este modo requer certa distância, não se envolver muito com o objeto, não querer possui-lo, amá-lo em sua diferença e querer que exista por conta própria. A árvore que dá fruto é bela porque é, porque existe no mundo e aparece para mim, não porque se apresenta como um objeto que tem utilidade. Há uma delicada forma de respeito e autonomia na distância.

“Dominar é manchar. Possuir é manchar. Amar puramente é consentir na distância, é adorar a distância entre alguém e o que ama”, escreve a filósofa. Weil inclusive vê neste modelo da distância uma imagem da Trindade: “Esse amor, essa amizade em Deus, é a Trindade. Entre os termos unidos por essa relação de amor divino, há algo mais do que proximidade, existe proximidade infinita, identidade. Mas pela criação, a encarnação e a paixão, há também uma distância infinita”.

Novamente, existe aqui uma dança entre a proximidade e a distância, entre o encontro e a separação. Por que escolher um ou outro? É justo não escolher, apenas prestar atenção e esperar, o que faz com que a dança ocorra, que a ação dos dois polos do eterno jogo nos seja apresentada em seu esplendor, a enorme dor e o enorme amor da existência juntos. Pois, conforme sabia Weil, as feridas da vida, o sofrimento, são também grandes aberturas, momentos de vulnerabilidade em que, se não há resistência e desejo de impor a vontade, a luz da sabedoria, a outra parceira do amor, pode começar a fazer de nós sua morada.


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