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Quarentena: a janela como espaço público?

Panelaços, confinamento e crise da Era da Multidão

Apartados pela pandemia, recuperamos um fio de esperança ao nos debruçar em nossos parapeitos. Mas essa visão emoldurada também limita: lá fora, o mundo se desfaz. Reconstruí-lo exigirá, talvez, fechar as cortinas — e assim vislumbrar a cidade que desejamos ao abrir as portas.

Do Outras Palavras, 30/04/2020

Um ensaio de Rôney Rodrigues

O vizinho de cima domina a arte e ciência de bater panela. Se usa Tramontina; frigideira ou caldeirão; se empunha colher de inox ou madeira; se é anarquista, comunista ou bolsonarista arrependido, não sei. Nunca cruzei com ele no elevador para radiografá-lo politicamente. Mas parece um Art Blakey do panelaço: tem cadência musical, sincopadas batidas de free jazz na bateria rudimentar e melódicas vociferações de miliciano!, interdição já!, e fascista filho da puta.

Saio à sacada quase só para ouvi-lo, mas hoje poucos somaram-se a sua sinfônica rebeldia – apenas gatos pingados. Os panelaços, na verdade, são intermitentes – e, por vezes, xoxos: janelas ora apáticas, ora contaminadas por ondas crescentes de indignação-eufórica, quase sempre reativa a pronunciamentos do presidente – ou demissões ministeriais, como a do último grande panelaço. Antes, eram pontuais: às 20h irrompiam o silêncio como despertador das frustrações sob quarentena – alentando apartamentos sem noções de tempo. Espalharam-se virais por diversas cidades, em bairros nobres e periféricos. Das janelas, surgiam corais improvisados; jogos de luzes; projeções sobre fachadas e empenas. Bate-bocas e vaias aos vizinhos-reaça mais ariscos. Havia até vídeo no Youtube para os sem-panelas entoarem caixas de som.
Muitos se perguntam: essa ruidosa vulnerabilidade compartilhada é potente ou fadada a minguar? A indignação cederá ao conformismo de que virão meses de confinamento? As panelas serão abandonadas para pedir Rappi e maratonar na Netflix? Ou são vibrantes espaços de pressão, e os silêncio seriam apenas estratégicos, à espreita de mais derrapadas do governo? Poderiam esses protestos de parcela confinada da cidade, “que reinventam os edifícios como arena compartilhada cidade”, nova Ágora urbana, dar vazão a um novo ativismo construído através das janelas, como sugeriu a professora Giselle Beiguelman, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP?

O sociólogo alemão Georg Simmel não atravessou epidemias, mas debruçou-se sobre a vida urbana no começo do século XX. Ao estudar pontes e portas (e janelas), apontou de forma brilhantemente óbvia a ideia do confinamento: o ato de estar junto com outras pessoas sempre implicou, primeiro, em separação – a pandemia, logo tento sacar eu, apenas escancara e prolonga uma parte dos antes rotineiro encontrar-se.

“Seria absurdo, prática e logicamente, voltar a unir o que não estava separado; ver o que, num sentido, não permanece separado. A fórmula segundo a qual se conjugam, nas operações humanas estas duas atividades – seria o estado de união ou de cisão que é percebido como naturalmente dado e o seu contrário a cada vez como tarefa que nos é fixada? – esta fórmula então, articula todo o nosso fazer. Num sentido imediato assim como simbólico, corporal e espiritual, a cada instante somos nós que separamos o que está ligado ou voltamos a unir o que está separado.”

Esse desejo de junção, reflete Simmel, “de ligar um lugar a outro”, motivou o primeiro ser humano a gravar, visivelmente, um caminho sobre a terra, o que daria origem às estradas, rodovias e ruas. Uma radical separação do estar no mundo: os animais continuariam a superar distâncias com base em eixos individuais e instintivos; os homens, com esse traçado, mostraria ao mundo sua pretensão coletiva.
Confinados versus desconfinados
O desejo coletivo do encontrar-se é tácito no panelaços, elemento tão relevante quanto a manifesta indignação política. Em quarentena, sabemos que demorará para tranquilamente circularmos pela cidade, encontrar amigos no boteco, ir ao estádio de futebol, marcar dates, se apertar no metrô ou busão, protestar nas ruas. Ansiamos por um carnaval que tardará – se é que virá. E nessa espera, pessoas queridas – ou nós mesmo – estamos sujeitas a perder o desfile do bloco Pós-Pandemia.

Então, sob o ataque invisível de microrganismos, quando cada corpo irradia potencial perigo, nos fechamos em microcosmos. As histórias da pandemia, principalmente aquelas que começam com “não quero provocar pânico”, tiram o sono. A temperatura é medida regularmente. A inépcia do governo apavora. A fúria contida do Mercado, também. A fábrica de lives, textões, memes e fake news, sobrecarregadas de mão de obra. Netflix, tutoriais de yoga, Pilates, zumba, vídeos pornô, bombam. Os projetos existenciais descarrilam e o tempo livre que sobra do home office é dedicado aos rigorosos rituais de purificação e assepsia: água sanitária e álcool 70º para apagar rastros virais da casa e higienização das mãos, já esfoladas e trêmulas caso passem meia hora em abstinência de álcool gel. O espírito também é desinfetado, em delivery de bebidas.

As janelas, portanto, se tornaram nosso único contato físico e perene com o mundo — e paliativo da quarentena. Forçados a parar, como o protagonista de Janela Indiscreta (1954), de Hitchcock, descobrimos o mundo que nos circula – e tentamos decifrá-los para não naufragar no tédio. As janelas, antes cenário inerte da metrópole, transformam-se em convidativas molduras da intimidade alheia. Espiamos. O que fuma de hora em hora na sacada. A senhora que rega suas plantas. O exibicionista que circula pelado. O gato amarelo que toma sol na soleira, protegido pela tela. Os notívagos quadradinhos azuis de LED nas fachadas. Sabem-se, no fundo, observados, assim como observam.

Incutidos nessa sociedade dos vivos aparentes, também espiamos consternados, das janelas ou nas fugazes saídas às ruas, a sociedade dos mortos potenciais. Aqueles desconfinados involuntários que, não menos angustiados, movem as engrenagens do consumo e da comodidade — e desconhecem o mês só de domingos dos confinados. 

Formas de estar à deriva

Nunca se leu tanto A peste, de Albert Camus – ou, ao menos, nunca se procurou tantos resumos no Google. Na obra, o existencialista francês narra, numa necrópole tomada pela peste, dois temores simultâneos: de que o não-mundo de antes retorne e ou acabe de vez. Em cenário similar ao da covid-19, que “desorganizou a vida econômica e suscitou assim um número considerável de desempregados”, vozes surgem para tentar resolver a política – não sei qual, pois com doença e mortes as instituições começam a ser demolidas.

“Sabia também que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança”.

Por isso, quem grita das janelas ocupadas que estamos no mesmo barco é porque está vivo, não teve os pés agarrados numa revolta do mortos descrita por Camus. Está num bote confortável e particular; em outras palavras, não está se afogando. Mas berram assim mesmo para extravasar a melancolia da deriva ou o medo do naufrágio iminente. O som das janelas seriam apenas o flotar de embarcações ancoradas, em congestionados portos.

Mas o coletivo de barcos não é transatlântico, e os protestos seriam mais um êxtase coletivo similar ao do povoado de Rimini, em lírica cena de Amarcord (1973), de Federico Fellini. Em botes e pequenos barcos, saem para o mar pra saudar a passagem do transatlântico Rex. Um toca acordeão; outra pensa em amores frustrados; o fascista local exalta a “obra do regime”; muitos deslumbram-se que ele “vem da América”. Uma experiência coletiva, mas na qual cada um projeta seus desejos, carências e sonhos. Juntos, mas sozinhos também. Cada grupinho em seus barcos, como premonição de crepúsculo da Era das Multidões. O medo de potenciais enfermidades epidêmicas, já transforma o reunir-se em contaminação — e os encontros poderão ficar restritos a Coletivos de Solidão. Um preço a pagar para a imunidade, presente e futura?
Janelas abertas, janelas fechadas

Dada a pandemia, as janelas são a nova rua, afiançam alguns, empolgados com os estranhos panelaços progressistas. Se em tempos normais, elas emolduravam em vidro, metal e concreto as interações alheias, serviam ao voyeurismo ou eram combustível à melancolia dos solitários metropolitanos, agora aquece corações e mentes no isolamento social. No mundo todo é assim. Na Itália, crianças penduram desenhos no parapeito; adultos cantam: tudo ficará bem! Os espanhóis aplaudem os profissionais de Saúde. Idosos requisitam, com cartazes, ajuda para compras, socorro médico ou mais vinho. Reproduzimos as ideias de fora, mas com nossos contornos.
Com praias e parques fechados, muitos se esgueiram de maiôs e sungas nas soleiras. Lenços brancos presos nas ventanas denunciam a violência doméstica. Músicos e atores se apresentam de sacadas — por vezes financiados por prefeituras. Evangélicos organizam louvores e cantorias gospel; DJs executam em altos-falantes playlists construídas coletivamente com os vizinhos. Um hinaço em Belo Horizonte marcou os 112 anos do Atlético Mineiro. Às 4:20, a Marcha da Maconha conclamou o Brasil para marofar as janelas. Em diversas cidades, em um megakaraokê, vizinhos desafinaram juntos cantando Evidências. Há até reação às janelas, como as Carreatas da Morte, promovidas por bolsonaristas raivosos.

Mas essas ações, com reconhecida e imediata força memética, se assemelhariam às ruas e poderiam se firmar como novo espaço público? Na cidade tradicional, praças, calçadas, parques e jardins, ruas e avenidas se conformam como elementos essenciais para nos perceber como indivíduo que participa de um ideal de coletividade chamado cidade — mais que expressão de locais geridos pelo setor público e aberto à população. Formam imaginários individuais e coletivos, relacionados com histórias pessoais, feitos históricos, lendas urbanas e movimentos populares. O lugar por excelência da expressão política e dos direitos cidadãos. Uma característica, porém, falta às janelas: a possibilidade de conectar lugares e pessoas no intercâmbio tão heterogêneo em tempo, espaço, idade, gênero, nacionalidade que, intrinsecamente, faz dos espaços públicos virtualmente os locais mais democráticos da cidade.

A janela tem limitações – é recorte, fronteira, não visão absoluta. Uma expressão da agorafobia urbana que, mesmo sob a nobre justificativa de evitar o contágio, pode favorecer uma olhar urbano estéreo, tornando visível certa cidade, enquanto outras são ignoradas. Dela, vemos uma rua e prédios, quase somente; e gritamos ou ouvimos só a eles.

Materialmente, recorda Simmel, uma janela só existe para que o ser humano possa olhar para fora; não para que outro olhe para dentro. Uma troca limitada, dada sua transparência e permeabilidade; um movimento quase único: olhar, não ser olhado. Tem apenas parte da esquecida significação principal da porta — que não é geometria morta para o ato de fechar ou isolar, mas fronteira móvel entre a finitude e a infinitude. “É feita de modo que por ela a vida se expande além dos limites do ser-para-si isolado”, aponta o sociólogo alemão. A porta, diferentemente da janela, transcenderia a separação interior e exterior — e justamente porque ela pode ser aberta, o seu fechamento suscita sensação de isolamento mais forte que a proporcionada por uma parede. Uma é muda, a outra fala
.


“A porta ilustra de maneira mais clara até que ponto separação e reaproximação nada mais são do que dois aspectos do mesmo ato”, analisa Simmel. “O primeiro homem que construiu uma cabana, revelou, como o primeiro que traçou um caminho, a capacidade humana específica diante da natureza, promovendo cortes na continuidade infinita do espaço e conferindo uma unidade particular conforme a um só sentido”.

Não seria, portanto, a ponte a metáfora perfeita do ato de “ligar mundos”, como consolidou-se no imaginário popular. Afinal, não há diferença essencial entre percorrê-la num sentido ou noutro. A porta guarda essa diferença: cruzá-la implica dar sentido particular a cada direção que atravessaremos — para a vida coletiva das cidades ou para o cubo cômodo que habitamos. Não apenas física, mas também mentalmente.
Hora de falar de portas?

Quem é obrigado a cruzar as portas, faça chuva ou sol, são ou enfermo, em dias ordinários ou apocalípticos, ouve os panelaços a partir da segurança do confinamento. Denunciam mazelas, mas esperam de outros a resolução — o Congresso? O Judiciário? A esquerda institucional? O empresariado? A periferia? O capital financeiro? Os marines estadunidenses?

Diversas e poderosas forças digladiam-se pelo mundo pós-pandemia. Muitos dos que batem panelas ou atravessam portas diariamente para trabalhar se veem apáticos, ou mesmo perplexos, diante da crise. Sem agilidade ou imaginação, julgam-se ínfimos diante dos enormes desafios políticos que ela requer.

Que tal, então, fechar por instantes as janelas?

É verdade: apesar de pouco dialéticas, representam espaço da construção coletiva, metáfora da esperança do confinados. Não são apenas reflexão individual, do desiludido que tem em si todos os sonhos do mundo, como cantou Fernando Pessoa em Tabacaria. Mas, no poema As janelas, outro poeta, Charles Baudelaire, as toma também como possibilidade de imaginar o mundo. O francês apreende: quando trancadas, ele consegue enxergar além da paisagem que sabe de cor. Cerrá-las e abrigar-se no mundo interior não seria furtar-se da realidade, mas exercício instigante de recriação — mesmo que com isso, o quarto fique iluminado apenas vagamente, ou talvez exatamente por essa imprecisão lusco-fusco.

“Porque o homem é o ser de ligação que deve sempre separar, e que não pode religar sem ter antes separado – precisamos primeiro conceber em espírito como uma separação a existência indiferente de duas margens, para ligá-las por meio de uma ponte. E o homem é de tal maneira um ser-fronteira, que não tem fronteira”, destaca Simmel. “O fechamento da sua vida doméstica por meio da porta significa que ele destaca um pedaço da unidade ininterrupta do ser natural. Mas assim como a limitação informe toma figura, o nosso estado limitado encontra sentido e dignidade com o que materializa a mobilidade da porta: quer dizer com a possibilidade de quebrar esse limite a qualquer instante, para ganhar a liberdade”.

Quebrar limites, ganhar a liberdade e recriar o mundo que vemos do batente das janelas dependerá, ao final, de como vamos querer cruzar as portas, ao final da pandemia. Esse vírus sofreu mutações para propagar-se em todo os rincões do mundo e colocar nossa Ciência e Mercados de joelhos. Superá-lo requererá estratégia similar: uma mutação cultural que contamine a humanidade com a possibilidade de superar a normalidade ultraliberal — é isso, ou a barbárie.

“Existe uma divergência sobre o tempo que virá — poderíamos sair desta situação imaginando uma possibilidade que até ontem parecia impensável: redistribuição de renda, redução do tempo de trabalho. Igualdade, simplicidade, abandono do paradigma do crescimento, investimento de energias sociais em pesquisa, educação e saúde. Não temos como saber de que jeito sairemos da pandemia, cujas condições foram criadas pelo neoliberalismo, pelos cortes à saúde pública, pela superexploração psíquica. Poderíamos sair dela definitivamente sós, agressivos, competitivos”, analisa Francisco Bifo Berardi, filósofo italiano. “Mas, pelo contrário, também poderemos sair dela com um grande desejo de abraçar: solidariedade social, contato, igualdade. O vírus é a condição de um salto mental que nenhuma pregação política teria conseguido gerar. A igualdade voltou ao centro das atenções. Pensamos nela como o ponto de partida para os tempos que virão”, completa.

Os dias de abrir as portas virão. Estamos preparados?


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