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Produzir pragas, uma das essências do capitalismo

Agronegócio voraz, favelização das cidades e saúde fragilizada proliferaram novos vírus entre espécies. Mas epidemias são mais um dos meios do sistema sobreviver — às custa do sacrifício humano. Foi assim com as gripes “espanhola”, aviária e suína…

Do OUTRAS PALAVRAS, 04/05/2020

por Coletivo Chuang

A produção de pragas

O vírus por trás da epidemia atual (SARS-CoV-2) foi, como o antecessor de 2003 SARS-CoV, bem como a gripe aviária e gripe suína antes dele, gestado no nexo entre a economia e a epidemiologia. Não é por acaso que muitos desses vírus assumiram o nome de animais: a disseminação de novas doenças para a população humana acontece através da chamada transferência zoonótica, que é uma maneira técnica de dizer que essas infecções saltam dos animais para os humanos. Esse salto de uma espécie para outra é condicionado por questões como proximidade e regularidade do contato, que constroem o ambiente em que a doença é forçada a evoluir. Quando essa interface entre humanos e animais muda, também mudam as condições nas quais essas doenças evoluem.

Para além das quatro fornalhas, então, encontra-se uma fornalha mais fundamental subjacente aos centros industriais do mundo: a panela de pressão evolutiva criada pela agricultura e urbanização capitalistas. Isso fornece o meio ideal através do qual pragas cada vez mais devastadoras nascem, transformam-se, são induzidas a saltos zoonóticos e, em seguida, agressivamente vetorizadas através da população humana. A isso se soma processos igualmente intensivos que ocorrem nas margens da economia, onde cepas “selvagens” são encontradas por pessoas pressionadas a incursões agroeconômicas cada vez mais extensivas sobre os ecossistemas locais. O coronavírus mais recente, em suas origens “selvagens” e sua súbita disseminação por um núcleo fortemente industrializado e urbanizado da economia global, representa as duas dimensões da nossa nova era de pragas político-econômicas.

A ideia básica aqui é desenvolvida mais minuciosamente por biólogos como Rob Wallace, cujo livro de 2016 Big Farms Make Big Flu aponta largamente para a conexão entre o agronegócio capitalista e a etiologia de epidemias recentes que variam da SARS ao Ebola12. Essas epidemias podem ser fracamente agrupadas em duas categorias, a primeira originada no núcleo da produção agroeconômica e a segunda nas fronteiras agrícolas. Ao traçar a disseminação do H5N1, também conhecido como gripe aviária, ele resume vários fatores-chave geográficos para aquelas epidemias que se originam no núcleo produtivo:

As paisagens rurais de muitos dos países mais pobres são agora caracterizadas pelo agronegócio desregulamentado pressionado contra as favelas periurbanas. A transmissão descontrolada em áreas vulneráveis aumenta a variação genética com a qual o H5N1 pode evoluir características específicas para a infecção em humanos. Ao se espalhar por três continentes, o H5N1, em rápida evolução, também entra em contato com uma variedade crescente de ambientes socioecológicos, incluindo combinações localmente específicas dos tipos de hospedeiros prevalecentes, modos de criação de aves e medidas de saúde animal13.

É claro que essa expansão é impulsionada pelos circuitos globais de mercadorias e pelas migrações regulares de trabalho que definem a geografia econômica capitalista. O resultado é “um tipo de seleção demoníaca crescente”, através da qual o vírus apresenta um número maior de caminhos evolutivos em um tempo mais curto, permitindo que as variantes mais bem-adaptadas superem as demais.

Mas esse é um argumento fácil, e já é comum na grande imprensa: o fato de a “globalização” possibilitar a disseminação de tais doenças mais rapidamente – embora aqui com um acréscimo importante, observando como esse processo de circulação também estimula o vírus a sofrer mutações mais rapidamente. A questão real, porém, vem antes: antes da circulação, aumentando a resiliência de tais doenças, a lógica básica do capital ajuda a pegar cepas virais previamente isoladas ou inofensivas e a colocá-las em ambientes hipercompetitivos que favorecem os traços específicos que causam epidemias, como ciclos rápidos de vida viral, a capacidade de salto zoonótico entre espécies transportadoras e a capacidade de evoluir rapidamente para novos vetores de transmissão.

Essas cepas tendem a se destacar precisamente por causa de sua virulência. Em termos absolutos, parece que o desenvolvimento de cepas mais virulentas teria o efeito oposto, já que matar o hospedeiro mais rápido proporciona menos tempo para a propagação do vírus. O resfriado comum é um bom exemplo desse princípio, geralmente mantendo baixos níveis de intensidade que facilitam sua ampla distribuição pela população. Mas, em certos ambientes, a lógica oposta faz muito mais sentido: quando um vírus tem numerosos hospedeiros da mesma espécie mantidos em proximidade, e especialmente quando esses hospedeiros já têm ciclos de vida mais curtos, o aumento da virulência se torna uma vantagem evolutiva.

Novamente, o exemplo da gripe aviária aqui é inequívoco. Wallace ressalta que os estudos demonstraram que “não há cepas endêmicas altamente patogênicas [da gripe] em populações de aves selvagens, a fonte reservatória inicial de quase todos os subtipos de gripe”14. Em vez disso, as populações domesticadas reunidas em fazendas industriais parecem exibir uma clara relação com esses surtos, por razões óbvias:

A crescente monocultura genética de animais domésticos remove qualquer obstáculo imunológico disponível para retardar a transmissão de novos patógenos. Tamanhos e densidades populacionais maiores facilitam maiores taxas de transmissão. Tais condições de densidade deprimem a resposta imunológica. O alto rendimento, parte de qualquer produção industrial, fornece um suprimento continuamente renovável de organismos suscetíveis, o combustível para a evolução da virulência15.

E, é claro, cada uma dessas características é uma consequência da lógica da concorrência industrial. Em particular, a acelerada taxa de “produtividade” em tais contextos tem uma dimensão biológica acentuada: “Assim que os animais industriais atingem o volume certo, são mortos. As infecções por influenza residentes precisam atingir seu limiar de transmissão rapidamente em qualquer desses animais […] Quanto mais rápido o vírus é produzido, maior o dano ao animal. ”16 Ironicamente, a tentativa de suprimir esses surtos através do abate em massa – como nos recentes casos de peste suína africana que resultaram na perda de quase um quarto do suprimento mundial de carne suína – podem ter o efeito não intencional de aumentar ainda mais essa pressão de seleção, induzindo assim a evolução de cepas hipervirulentas. Embora esses surtos tenham ocorrido historicamente em espécies domesticadas, muitas vezes após períodos de guerra ou catástrofes ambientais que pressionam mais as populações de gado, o aumento da intensidade e virulência de tais doenças seguiu inegavelmente a expansão da produção capitalista.
História e etiologia

Pragas são em larga medida uma sombra da industrialização capitalista, enquanto também agem como seu arauto. Os casos óbvios da varíola e outras pandemias introduzidas na América do Norte são um exemplo muito simples, uma vez que sua intensidade foi aprimorada pela separação de longo prazo das populações humanas por meio de barreiras geográficas e essas doenças, independentemente, já haviam ganhado sua virulência via redes mercantis pré-capitalistas e a urbanização precoce na Ásia e na Europa. Se olharmos para a Inglaterra, onde o capitalismo surgiu primeiro no campo, através da expulsão em massa de camponeses da terra, que passou a ser dedicada às monoculturas de gado, vemos os primeiros exemplos dessas pragas distintamente capitalistas17. Três pandemias diferentes ocorreram na Inglaterra do século XVIII, abrangendo os períodos de 1709-1720, 1742-1760 e 1768-1786. A origem de cada uma foi gado importado da Europa, infectado pelas pandemias pré-capitalistas normais que se seguiram às guerras.

Mas na Inglaterra o gado começou a se concentrar de novas maneiras, e a introdução do estoque infectado atingiria a população de maneira muito mais agressiva do que na Europa continental. Não é por acaso, então, que os surtos se concentraram nos grandes laticínios de Londres, que proporcionaram ambientes ideais para a intensificação do vírus.

Por fim, os surtos foram contidos por meio de abate precoce seletivo e em menor escala, combinado com a aplicação de práticas médicas e científicas modernas – em essência semelhantes à forma como essas epidemias são combatidas atualmente. Esta é a primeira instância do que se tornaria um padrão claro, imitando o das próprias crises econômicas: colapsos cada vez mais intensos que parecem colocar todo o sistema em um precipício, mas que são superados por meio de uma combinação de sacrifício em massa que limpa o mercado / população e de uma intensificação dos avanços tecnológicos – nesse caso, as práticas médicas modernas somadas às novas vacinas, muitas vezes chegando tarde demais, mas mesmo assim ajudando a limpar as coisas após a devastação.

Mas este exemplo da terra natal do capitalismo também deve ser acompanhado de uma explicação dos efeitos que as práticas agrícolas capitalistas tiveram em sua periferia. Enquanto as pandemias de gado da Inglaterra capitalista inicial estavam contidas, os resultados em outros lugares foram muito mais devastadores. O exemplo com o maior impacto histórico é provavelmente o do surto de peste bovina na África18 que ocorreu na década de 1890. A data em si não é coincidência: a peste bovina atormentou a Europa com uma intensidade que acompanhou de perto o crescimento da agricultura em larga escala, apenas controlada pelo avanço da ciência moderna. Mas o final do século XIX viu o auge do imperialismo europeu, simbolizado pela colonização da África. A peste bovina foi trazida da Europa para a África Oriental com os italianos, que buscavam alcançar outras potências imperiais colonizando o Chifre da África19 através de uma série de campanhas militares. Essas campanhas em geral fracassaram, mas a doença se espalhou pela população local de gado e finalmente chegou à África do Sul, onde devastou a economia agrícola capitalista da colônia, matando até o rebanho na propriedade do infame supremacista branco Cecil Rhodes. O efeito histórico foi decisivo: matando de 80 a 90% de todo o gado, a praga resultou em uma fome sem precedentes nas sociedades predominantemente pastoris da África Subsaariana. Esse despovoamento foi seguido pela colonização invasiva da savana pelo espinheiro, que criou um habitat para a mosca tsé-tsé, que carrega a doença do sono e impede o pastoreio de animais. Isso garantiu que o repovoamento da região após a fome fosse limitado e possibilitou a disseminação das potências coloniais europeias por todo o continente.

Além de induzir periodicamente crises agrícolas e produzir as condições apocalípticas que ajudaram o capitalismo a ultrapassar suas fronteiras iniciais, essas pragas também assombraram o proletariado do próprio núcleo industrial. Antes de retornar aos muitos exemplos mais recentes, vale a pena notar uma vez mais que simplesmente não há nada exclusivamente chinês no surto de coronavírus. As explicações sobre por que tantas epidemias parecem surgir na China não são culturais, é uma questão de geografia econômica. Isso é bastante claro se compararmos a China com os EUA ou a Europa, quando estes eram polos de produção global e emprego industrial em massa20. E o resultado é essencialmente idêntico, com os mesmos recursos. A mortandade de animais no campo se encontrou na cidade com a falta de saneamento básico e contaminação generalizada. Isso se transformou no foco dos primeiros esforços liberal-progressistas de reformas nas áreas da classe trabalhadora, simbolizados pela recepção do romance de Upton Sinclair The Jungle (A Selva, de 1906), originalmente escrito para documentar o sofrimento dos trabalhadores imigrantes no setor de frigoríficos, mas adotado por liberais mais ricos preocupados com violações sanitárias e com as condições geralmente insalubres em que seus próprios alimentos eram preparados.

Esse ultraje liberal à “sujeira”, com todo o seu racismo implícito, ainda define o que podemos pensar como a ideologia automática da maioria das pessoas quando confrontadas com as dimensões políticas de algo como as epidemias de coronavírus ou SARS. Mas os trabalhadores têm pouco controle sobre as condições em que trabalham. Mais importante, embora condições insalubres saiam da fábrica para a mesa devido à contaminação de alimentos, essa contaminação é realmente apenas a ponta do iceberg. Tais condições são a norma para aqueles que trabalham ou vivem em assentamentos proletários próximos, e essas condições induzem declínios na saúde da população que fornecem condições ainda melhores para a disseminação das muitas pragas do capitalismo. Tomemos, por exemplo, o caso da gripe espanhola, uma das epidemias mais mortais da história. Esse foi um dos primeiros surtos de influenza H1N1 (em relação aos surtos mais recentes de gripe suína e aviária), e supunha-se que ele fosse de alguma forma qualitativamente diferente de outras

variantes de influenza, dado seu alto número de mortos. Embora isso pareça verdadeiro em parte (devido à capacidade da gripe espanhola de induzir uma reação exagerada do sistema imunológico), revisões posteriores da literatura e da pesquisa histórica em epidemiologia descobriram que o vírus pode não ter sido muito mais virulento do que outras cepas. Em vez disso, sua alta taxa de mortalidade provavelmente foi causada principalmente por desnutrição generalizada, superlotação urbana e condições de vida geralmente insalubres nas áreas afetadas, o que incentivou não apenas a disseminação da gripe em si, mas também o cultivo de superinfecções bacterianas sobre a infecção viral inicial21.

Em outras palavras, a alta taxa de mortalidade da gripe espanhola, embora retratada como uma aberração imprevisível característica dessa cepa do vírus, foi incrementada pelas condições sociais. Em paralelo, a rápida disseminação da gripe foi possibilitada pelo comércio global e pela guerra global, naquele momento volátil envolvendo os imperialismos que sobreviveram à Primeira Guerra Mundial. E encontramos novamente uma história agora familiar de como uma cepa mortal de influenza foi produzida: embora a origem exata ainda seja um pouco obscura, é agora amplamente aceito que ela se originou em suínos ou aves domésticas, provavelmente no Kansas. O tempo e a localização são notáveis, pois os anos que se seguiram à guerra foram uma espécie de ponto de inflexão para a agricultura americana, que viu a ampla aplicação de métodos de produção cada vez mais mecanizados, quase fabris. Essas tendências só se intensificaram na década de 1920, e a aplicação em massa de tecnologias como a ceifeira-debulhadora induziu ao mesmo tempo uma gradual monopolização e um desastre ecológico, cuja combinação resultou na crise do Dust Bowl22 e na migração em massa que se seguiu. A concentração intensiva de gado que marcaria as fazendas industriais posteriores ainda não havia surgido, mas as formas mais básicas de concentração e produção intensiva que já haviam criado epidemias de gado em toda a Europa eram agora a norma. Se as epidemias de gado inglesas do século XVIII foram o primeiro caso de uma praga pecuária distintamente capitalista e o surto de peste bovina da África dos anos 1890 foi o maior dos holocaustos epidemiológicos do imperialismo, a gripe espanhola pode ser entendida como a primeira das pragas do capitalismo no proletariado.
Contagio Social – Coronavírus e luta de classes microbiológica na China
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Notas:

12 Muito do que explicaremos nesse trecho é simplesmente um resumo dos argumentos de Wallace, voltados para uma audiência mais geral e sem a necessidade de “debater” com outros biólogos através da exposição de uma argumentação rigorosa e extensa pesquisa. Para aqueles que contestariam as evidências básicas, nos referimos ao trabalho de Wallace e seus compatriotas.

13 Big Farms Make Big Flu: Dispatches on Infectious Disease, Agribusiness, and the Nature of Science, Monthly Review Press, 2016. p. 52

14 Ibid., p. 56

15 Ibid., pp. 56-57

16 Ibid., p. 57

17 https://www.bahs.org.uk/AGHR/ARTICLES/31n2a3.pdf

18 http://www.faculty.umb.edu/peter_taylor/pearce00.pdf

19 Região no leste da África que inclui Etiópia, Somália, Eritreia e Somalilândia.

20 Isso não quer dizer que as comparações dos EUA com a China hoje também não sejam esclarecedoras. Como os EUA possuem seu próprio setor agroindustrial, eles próprios contribuem enormemente para a produção de novos vírus perigosos, sem mencionar infecções bacterianas resistentes a antibióticos.

21 Ver: Brundage JF, Shanks GD, “What really happened during the 1918 influenza pandemic? The importance of bacterial secondary infections”. The Journal of Infectious Diseases. Volume 196, Number 11, December 2007, pp. 1717–1718, 1718–1719; Morens DM, Fauci AS, “The 1918 influenza pandemic: Insights for the 21st century”. The Journal of Infectious Diseases. Volume 195, Number 7, April 2007, pp. 1018–1028.

22 Tempestades de areia que assolaram os Estados Unidos na década de 1930, provocadas principalmente pelas práticas da agricultura mecanizada.

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