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“O colapso econômico está sendo gerido como uma oportunidade para obter lucros”. Entrevista com Michael Hudson

“A chave é que o colapso da economia está sendo gerido como uma oportunidade para gerar lucros para os grandes bancos e os especuladores financeiros”, avalia Michael Hudson, destacado economista estadunidense, professor na Universidade do Missouri do Kansas, ex-analista de Wall Street.

Do IHU, 12/05/2020

A entrevista é publicada por Observatorio de la crisis, 09-05-2020. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.

Suponho que, como em qualquer sistema, a economia e o sistema financeiro nos Estados Unidos e, em geral, no Ocidente, chegará a um momento em que se pode falar de um “ponto de não retorno”. Quais seriam os sinais de que este “ponto de não retorno” foi alcançado (ou está para chegar)?

O ponto de não retorno chegará quando o Federal Reserve (Fed) e o governo deixarem de resgatar os banqueiros e os mercados (de ações e bônus) e permitirem que o preço real dos ativos do “mercado livre” caia, refletindo dessa maneira a tremenda contração que a economia “real” está sofrendo. Nesse momento, aconteceria uma venda massiva de ativos porque o Fed se veria obrigado a deixar de ser o comprador de último recurso.

O problema é que a economia nunca poderá se recuperar da grande depressão iniciada no período de Obama. Seu governo se negou a cancelar as dívidas das hipotecas lixo, adquiridas fraudulentamente pelas principais instituições financeiras, e permitiu manter estas dívidas nos livros das grandes instituições financeiras.

Sendo assim, não espero um “ponto de não retorno” logo. Mas, quando finalmente ocorrer será repentino, como são todos os grandes choques. Esta crise pode ser provocada por um banco ou por um especulador que faça um negócio muito ruim e que não consiga pagar, como aconteceu com a AIG, em 2008.

Dito isto, como se explica que o mercado de valores continue subindo, enquanto a economia “real” está se comprimindo drasticamente?

Obviamente, há um desacoplamento de dois setores da economia: o setor financeiro, de seguros e de bens de raiz (FIRE), e o setor econômico da produção e consumo.

Acredito que o Fed permitirá que as pessoas com informação privilegiada continuem fazendo fortunas, vendendo ações e bônus “a curto prazo”, antes de acabar com os resgates. A chave é que o colapso da economia está sendo gerido como uma oportunidade para gerar lucros para os grandes bancos e os especuladores financeiros.

Há economistas que dizem que esta crise é pior que a de 2008 e até mesmo em relação à Grande Depressão. Em sua opinião, qual o tamanho da gravidade da crise atual em termos financeiros/econômicos?

A depressão atual é a pior desde os anos 1930. Haverá uma nova onda de execuções hipotecárias, tanto em bens de raiz comerciais, como em casas residenciais. O problema não será simplesmente as hipotecas lixo, mas a perda de receitas dos negócios que pagam aluguel, de outras empresas comerciais e das moradias residenciais.

Estamos ao final de uma retomada de 75 anos, que começou em 1945. Nos Estados Unidos, a guerra terminou com poucas dívidas privadas e com abundantes poupanças. Agora, a situação se reverteu: há uma forte sobrecarga da dívida, com poucas ou quase nada de poupanças por parte da maioria da população. O crescimento do superávit econômico agora é gasto – quase por completo – no serviço da dívida, em pagamentos por arrendamentos e pelos serviços financeiros. O capitalismo rentista substituiu o capitalismo industrial.

Muitas empresas estão perdendo milhões. Mas outros estão ganhando fortunas (Amazon). Quem em sua opinião se beneficia mais com esta crise?

Os financistas e políticos se beneficiam da crise, junto com os monopolistas. O resto da economia perderá. Muitas vezes, as fortunas mais rápidas são feitas durante uma crise. Como disse Adam Smith, os lucros são mais altos nos países que se arruínam mais rápido. Mas, desta vez, “os lucros de capital” são a chave para acumular fortunas. Em outras palavras, o aumento sem apoio efetivo dos preços dos ativos que foram inflacionados por bancos privados e bancos centrais.

Todos os dias, os estudiosos observam como o grande jogo das finanças é manipulado por especialistas políticos e financistas. No entanto, o marco de tempo destes operadores/especuladores é de curto prazo.

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