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''O capitalismo moderno é um vírus global, que se espalha como uma epidemia''

Segundo o antropólogo Philippe Descola, a pandemia atual deve nos conduzir a uma verdadeira ''política da Terra''.

Da Carta Maior, 27/05/2020

Por Nicolas Truong

Antropólogo, estudioso do povo indígena Jivaro achuar, na Amazônia equatoriana (As lanças do crepúsculo: relações jivaro na Alta Amazônia, Cosac & Naify, 2006), Philippe Descola é professor do Collège de France e titular da cadeira de antropologia da natureza.

Discípulo de Claude Lévi-Strauss, medalha de ouro do Centre National de la Recherche Scientifique em 2012 pelo conjunto de seu trabalho, Philippe Descola desenvolve uma antropologia comparativa das relações entre humanos e não humanos que revolucionou tanto a paisagem das ciências humanas quanto a reflexão sobre os desafios ecológicos de nosso tempo, evidenciados especialmente nos livros Par-delà nature et culture (Gallimard, 2005) e La Composition des mondes (entrevistas com Pierre Charbonnier, Flammarion, 2014).

Por que essa pandemia global é um "fato social total", como disse Marcel Mauss, um dos fundadores da antropologia?

Um fato social total é uma instituição ou eventos que põem uma sociedade em movimento, que revelam seu caráter e seus valores, sua natureza profunda. Nesse sentido, a pandemia é um reagente que condensa não as singularidades de uma sociedade em particular, já que é global, mas certos traços do sistema que rege o mundo hoje, o capitalismo pós-industrial.

E quais são estes traços? Primeiro, a degradação e a diminuição sem precedentes dos meios pouco antropizados, devido à exploração pela pecuária extensiva, agricultura industrial, colonização interna e extração de minerais e de combustíveis fósseis. Essa situação teve o efeito de intensificar o contato entre espécies selvagens – reservatórios de patógenos – e os seres humanos vivendo em habitats muito mais densos. As grandes pandemias são zoonoses, doenças que se propagam de espécie em espécie e cuja disseminação é, portanto, em grande parte, dependente das perturbações ecológicas.

O segundo traço é a persistência escandalosa das desigualdades revelada pela situação de crise, dentro de cada país e entre os países, o que torna suas consequências muito diferentes dependendo da situação social e econômica em que cada um se encontra. A pandemia permite confirmar a observação feita pelo antropólogo David Graeber de que quanto mais um trabalho é útil para a sociedade, menos é remunerado e valorizado. De repente, descobrimos a importância vital das pessoas de quem dependemos para nos tratar, nos alimentar e levar nosso lixo – que são, também, aquelas mais expostas à doença.

Terceiro traço: a rapidez da propagação da pandemia. Não há nada novo no fato de doenças infecciosas darem a volta ao mundo; mas o fato deste vírus dar a volta ao mundo tão rapidamente é que chama a atenção para a atual forma de globalização, que parece inteiramente governada pela mão invisível do mercado, ou seja, pela regra do lucro mais rápido possível. O que salta aos olhos, especialmente com a escassez de máscaras, testes ou moléculas terapêuticas, é uma divisão internacional da produção baseada em duas omissões: a do custo ecológico do transporte de mercadorias e a da necessidade, para que haja coesão social, de uma divisão local do trabalho onde todos os saberes estejam representados.

Esta crise se deve à devastação do planeta ou é preciso, ao contrário, considerar que as epidemias fazem parte da história, desde as eras que precederam o Antropoceno, e o homem deveria demonstrar mais humildade?

Como americanista, estou dolorosamente ciente do preço que as populações ameríndias pagaram pelo encontro com as doenças infecciosas trazidas pelos colonizadores europeus: entre os séculos 16 e 18, em certas regiões, 90% das populações desaparecem. As epidemias nos acompanharam desde o início da hominização. Simplesmente, o desenvolvimento do estado de bem-estar da Europa, desde o fim do século 19, tende a fazer com que os que dele se beneficiam esqueçam que as casualidades e a incerteza ainda são componentes fundamentais de nossos destinos coletivos.

Por que o capitalismo moderno, segundo o senhor, tornou-se uma espécie de "vírus mundial"? Tudo é culpa do capitalismo, mesmo quando essas pandemias parecem ter relação com os mercados de animais vivos e a medicina tradicional chinesa?

Um vírus é um parasita que se replica às custas de seu hospedeiro, às vezes chegando a matá-lo. É o que o capitalismo faz com a Terra desde o princípio da revolução industrial, por um longo tempo sem saber. Hoje, nós já sabemos, mas parecemos ter medo do remédio, que também conhecemos: uma mudança radical de nosso estilo de vida.

Sem dúvida, os mercados tradicionais chineses contribuem para o desaparecimento do pangolim ou do rinoceronte. Mas as redes de contrabando de espécies protegidas que as alimentam operam com uma lógica perfeitamente capitalista. Para não falar do capitalismo selvagem das empresas madeireiras chinesas ou malaias que operam na Indonésia, de mãos dadas com as plantações de dendezeiros e a agroindústria.

Quem não opera de acordo com esse modelo são as populações autóctones de Bornéu (e de muitas outras regiões do mundo), que defendem seus territórios contra o desmatamento. O capitalismo nasceu na Europa, mas não pode ser definido etnicamente. E continua a se espalhar como uma epidemia, exceto que não mata diretamente aqueles que o praticam, mas as condições de vida, no longo prazo, de todos os habitantes da Terra. Nós nos tornamos vírus para o planeta.

Essa crise não seria uma oportunidade de conceber de forma diferente as relações entre a cultura e a natureza, entre humanos e não humanos? Ou, pelo contrário, ficaríamos tentados a aumentar a distância entre "eles" e "nós" em razão das zoonoses?

Na virada do século 17, começa a se desenvolver na Europa uma visão das coisas que chamo de "naturalista", baseada na ideia de que os humanos vivem em um mundo separado do dos não humanos. Sob o nome de natureza, esse mundo separado podia se tornar objeto de investigação científica, recurso ilimitado, reservatório de símbolos. Essa revolução mental é uma das fontes da exploração desenfreada da natureza pelo capitalismo industrial, bem como do desenvolvimento sem precedentes do conhecimento científico.

Mas ela nos fez esquecer que a cadeia da vida é composta de elos interdependentes, alguns dos quais não são vivos, e que não podemos nos abstrair do mundo ao nosso bel prazer. O "nós", portanto, tem pouco sentido se considerarmos que a microbiota de cada um de "nós" é composta por trilhões de "eles", ou que o CO2 que emito hoje ainda afetará o clima daqui a mil anos. Vírus, microrganismos, espécies animais e vegetais que modificamos ao longo dos milênios são nossos comensais no banquete às vezes trágico da vida. É absurdo pensar que poderíamos nos separar deles para viver em uma bolha.

Os povos indígenas da Amazônia se fecham, se dispersam e se afastam para enfrentar a epidemia. Também devemos nos esconder atrás de nossas fronteiras e nossas nações? Seria o fim não apenas da globalização, mas também de certo cosmopolitismo?

Se falamos de uma cosmopolítica no sentido do sociólogo Ulrich Beck, isto é, a consciência adquirida por grande parte da humanidade de que compartilha um destino comum por estar exposta aos mesmos riscos, podemos ver que é ilusório fechar as fronteiras. Podemos retardar a propagação do Covid-19, mas não impediremos que outra zoonose venha a eclodir em outro lugar.

Sobretudo, não podemos parar a nuvem de Chernobyl ou o aumento do nível do mar. E se alguns ameríndios da Amazônia podem impedir que humanos entrem em seus territórios, por serem vetores de doenças ou garimpeiros atrás de ouro, eles são, por outro lado, muito mais acolhedores com os não humanos que lhes são familiares. E é nesse sentido que a palavra "cosmopolítica" pode assumir todo o seu significado. Não como um prolongamento do projeto kantiano de formular as regras universais com as quais os seres humanos, onde quer que estejam, poderiam levar vidas civilizadas e pacíficas. Mas no sentido literal, como uma política do cosmos.

Uma política da Terra entendida como uma casa comum, cujo uso não é mais restrito apenas aos humanos. Isso implica uma revolução do pensamento político da mesma magnitude que a realizada pela filosofia do Iluminismo e depois pelos pensadores do socialismo. Já é possível ver seus sinais.

Em vários países, foram dadas personalidades jurídicas a espaços naturais e ecossistemas (montanhas, bacias hidrográficas, campos), capazes de fazer valer seus interesses por meio de mandatários cujo bem-estar depende do de seu mandante. Também em vários países, inclusive na França, pequenos coletivos romperam com o movimento contínuo de apropriação da natureza e de bens comuns que caracteriza o desenvolvimento da Europa, e depois do mundo, desde o fim do século 19. Eles priorizam a solidariedade entre espécies, a identificação com o meio ambiente, a preocupação e o cuidado com o outro e o equilíbrio dos ritmos da vida, no lugar de competição, apropriação privada e exploração máxima das promessas da Terra. É um cosmopolitismo real, em pleno exercício.

Assistimos a uma virada antropológica no pensamento francês, com o nascimento de uma geração formada especialmente por Bruno Latour e pelo senhor, que já não separa mais radicalmente os seres humanos dos não humanos?

Podemos chamar isso de um ponto de virada antropológico, se acrescentarmos que, paradoxalmente, trata-se de uma antropologia que se tornou menos antropocêntrica, porque deixou de relegar os não humanos a uma função de coadjuvantes, reduzindo-os às aspirações e aos códigos que os humanos projetam sobre eles. Uma das maneiras de fazê-lo foi tornar os não humanos atores de pleno direito no cenário da análise sociológica, tirando-os de seu papel usual de bonecos manipulados por um hábil ventríloquo.

É um exercício que vai de encontro a séculos de excepcionalismo humanista, ao longo dos quais nossos modos de pensamento tornaram incongruente o fato de máquinas, montanhas ou micróbios poderem se tornar autorreferenciais. Isso exigiu tratar o não humano como um "fato social total" justamente, ou seja, transformá-lo em algo como um planeta em torno do qual gravitam múltiplos satélites. É o que chamei de antropologia da natureza.

Falamos muito sobre o "mundo de depois" (pós-coronavírus), e acabamos por não pensar o presente. O que seria possível e importante mudar o mais rápido possível?

Sempre podemos sonhar. Então, de forma bem solta: estabelecimento de uma renda mínima; desenvolvimento de convenções cidadãs por sorteio; imposto ecológico universal proporcional à pegada carbono; tributação dos custos ecológicos de produção e de transporte de bens e serviços; desenvolvimento da atribuição de personalidade jurídica a espaços naturais etc.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Clarisse Meireles

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