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A hora do planejamento ecológico

E agora, o que fazer com o caos planetário? Continuar como antes ou romper com os dogmas neoliberais que conduziram a negligenciar as necessidades básicas da população, começando pela saúde?
 
Do Le Monde Diplomatique Brasil, 29/04/2020

por Cédric Durand e Razmig Keucheyan


A pandemia de Covid-19 convida a pensar numa sociedade que respeite os equilíbrios ambientais e esteja à altura dos desafios climáticos. Ela também alerta para os perigos em termos de liberdade individual colocados pelas políticas desenvolvidas durante o estado de emergência, situação da qual a Suécia configura uma notável exceção. A pandemia exige, principalmente, nunca mais deixar o mercado agir sozinho e, desde já, ser imaginativo para absorver seu custo e não poupar os mais ricos de pagar pela recuperação, como parece ser o caso do Brasil. Por aqui, a ameaça de ruptura institucional é cada vez mais real. Adotando uma postura que parece sem sentido, o governo Bolsonaro aposta no caos para manter mobilizadas suas bases e criar situações que justifiquem medidas de emergência para ampliar seu poder. Em meio a isso, o presidente resiste como pode a pagar o tímido auxílio emergencial de R$ 600 para as pessoas mais vulneráveis, conquista que poderia se configurar uma via expressa para a adoção de uma utopia, a renda básica universal

Desvelar o funcionamento do capitalismo foi um dos maiores méritos de Martin Luther King: é socialismo para os ricos e livre iniciativa para os pobres. Essa lógica pode ser verificada em tempos normais: nas últimas décadas, por exemplo, os Estados nacionais construíram um mercado de dívida pública, oferecendo deliberadamente a operadores privados o controle sobre o crédito de que eles gozavam desde o pós-guerra.1 Mas ela é ainda mais fácil de observar em tempos de crise. Os planos de apoio à economia lançados após a quebra de 2008 totalizaram 1,7% do PIB global. Na crise do coronavírus, a França já havia mobilizado no início de abril o equivalente a 2,6% da riqueza produzida a cada ano, enquanto países como os Estados Unidos (10%) e o Reino Unido (8%) exibiam percentuais que iam muito além. Cabe lembrar que esses números dizem respeito apenas aos primeiros esforços empreendidos pelos Estados, e ninguém tem dúvida de que eles serão ainda maiores nos próximos meses.

A essas medidas orçamentárias somam-se os montantes titânicos mobilizados pelos bancos centrais. Ao contrário de seus equivalentes do Japão ou do Reino Unido, o Banco Central Europeu (BCE) ainda se recusa a financiar diretamente os Estados, mas assumiu o compromisso de comprar 1,12 trilhão de euros em títulos no mercado, não apenas títulos públicos, mas também a dívida de multinacionais como BMW, Shell, Total, LVMH e Telefonica. Essas medidas complementam uma série de disposições que facilitam o acesso dos bancos à liquidez. Honrar o totem da estabilidade financeira significa que, no auge da crise do coronavírus, fundos de investimentos, bancos e grandes empresas, incluindo as mais poluentes, são os primeiros beneficiários do apoio oferecido pelos poderes públicos. O “socialismo para os ricos” nunca foi tão protetor.

No entanto, a gravidade da crise e o fato de que ela atinge a economia “produtiva” em vez das finanças perturbam um pouco a definição de Martin Luther King. Nos Estados Unidos, o Tesouro está enviando cheques, ainda que modestos, diretamente aos cidadãos: é o princípio da moeda “helicóptero” (do qual as cédulas seriam lançadas), por meio da qual os bancos centrais subsidiam famílias e empresas sem a mediação dos bancos nem contrapartidas. Na França, no início de abril, um em cada cinco trabalhadores estava em situação de desemprego parcial financiado pelo Estado, um número que deve crescer. O Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE) estima em mais de 21 bilhões de euros o custo mensal das medidas que garantem aos trabalhadores parte de sua remuneração.2
Arte Bruna Barros
Fragmentos de uma lógica econômica distinta

A pandemia tornou possível, mais uma vez, a suspensão, da noite para o dia, de dogmas neoliberais que até a véspera eram apresentados como sagrados, entre eles os critérios de convergência da zona do euro. A ideia de que os bancos centrais podem “monetizar” as dívidas públicas, ou seja, regular diretamente as despesas do Estado, é agora amplamente discutida entre as elites políticas e financeiras. A batalha promete ser dura, mas o atual “estado de exceção” ideológico é uma oportunidade histórica para cortar o cordão entre o financiamento da economia e a propriedade privada do capital. De fato, se (re)descobrirmos que os bancos centrais podem, dentro dos limites das capacidades de produção de determinada economia, financiar os avanços necessários à atividade, então os mercados perdem sua posição de chantagistas: não há mais motivo para cortejar a confiança dos investidores, assim como não há legitimidade para as políticas de austeridade.

Mas não devemos nos enganar: o neoliberalismo está longe do fim. Na França, por exemplo, a timidez das medidas em favor das famílias mais pobres indica que o governo está mantendo um exército de reserva a baixo custo, de modo a conseguir impor um ajuste salarial para baixo a fim de amortizar a crise.3 Ainda assim, também vemos aqui fragmentos de uma lógica econômica diferente. Isso é algo que costuma ocorrer em conjunturas de crise, como os conflitos armados. Durante a Primeira Guerra Mundial, Paris sofreu com a escassez de carvão.4 O Estado então se encarregou de produzir e distribuir o combustível. A cota alocada para cada família baseava-se em dois critérios: o tamanho dos apartamentos e o número de pessoas que viviam neles, com base no que se avaliava a quantidade de carvão necessária ao aquecimento. O combustível deixou, portanto, de ser distribuído com base na solvência das famílias: ele era distribuído de acordo com a necessidade real. Passou-se de um cálculo monetário para um cálculo em espécie.

A crise do coronavírus é certamente menos trágica do que a Primeira Guerra Mundial. Há, porém, uma lógica similar em ação. As máscaras de proteção e os respiradores são extremamente escassos. Ninguém hoje ousa falar do custo desses equipamentos. A única coisa que interessa é: quanto podemos produzir e a que velocidade? As quantidades substituíram os preços. A subordinação do mercado às necessidades reais também pode assumir a forma da requisição. Templo do neoliberalismo, a Irlanda não hesitou em nacionalizar seus hospitais privados pelo tempo que durar a crise. A fim de acelerar a fabricação de respiradores artificiais, o próprio Donald Trump invocou a Defense Production Act [Lei de Produção de Defesa], uma lei da época da Guerra da Coreia (1950-1953) que autoriza o presidente dos Estados Unidos a obrigar as empresas a produzir prioritariamente bens que atendam ao interesse geral. A urgência revela a necessidade para além dos mecanismos de mercado.

As crises levam as sociedades a bifurcações. Em geral, as rotinas anteriores retomam o controle assim que a tempestade passa – foi mais ou menos o que houve após o colapso financeiro de 2008. Mas a crise também pode ser uma oportunidade para o envolvimento com outra lógica. Isso existe em estado potencial na situação que atravessamos: contra o mercado, priorizar a satisfação de necessidades reais.
Libertar-se da austeridade

A pandemia ligada ao novo coronavírus evidencia ainda outra exigência. A Covid-19 tem sua origem em uma crescente interpenetração, favorável à circulação dos vírus, entre os mundos humanos e animais.5 Essa transformação resulta, em si, do colapso dos ecossistemas, que leva animais portadores de doenças transmissíveis a se estabelecerem próximo a áreas de habitação humana. Além de satisfazer necessidades reais, uma lógica econômica alternativa precisa, portanto, restaurar e respeitar os equilíbrios ambientais. E qual é o nome dessa lógica? Planejamento ecológico.

Ele se baseia em cinco pilares. O primeiro deles é o controle público do crédito e do investimento. Isso significa impor, por força de lei, o fim do financiamento às atividades poluidoras e, em seguida, seu fechamento. Esse movimento deve ser acompanhado por investimentos maciços em transição ecológica, energias renováveis e infraestrutura limpa, principalmente por meio do isolamento das construções. Dados sobre isso existem, como os da associação NégaWatt.6 Mas isso também significa refundar e ampliar os serviços públicos, sobretudo aqueles ligados a educação, saúde, transportes, água, tratamento de resíduos, energia e comunicação, sucateados ou destruídos pela lógica do mercado.

Em fevereiro de 2019, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez apresentaram seu projeto de “new deal verde”. Recorrendo ao exemplo da tomada de controle político da economia pelo governo de Franklin Delano Roosevelt no momento da Grande Depressão, na década de 1930, o projeto propõe “descarbonizar” a economia em dez anos (ver artigo nas págs. 7-8). Não estamos mais em posição de realizar meias medidas; a situação na frente ambiental está se agravando. O programa precisa libertar-se das regras de austeridade em razão das quais os Estados se tornaram impotentes diante das questões ambientais. A crise do coronavírus jogou essas regras pelos ares.

No capitalismo neoliberal, são os mercados, apoiados pelos bancos e pelo setor financeiro desregulamentado (shadow banking), que fazem as vezes de quartel-general onde se tomam as decisões para a alocação de recursos. A escolha de investir em determinado setor ou atividade baseia-se em critérios de rentabilidade e solvência, a não ser pela camada de verniz verde que alimenta a seção “nossos valores” do site das grandes companhias. Larry Fink, chefe do fundo de investimento BlackRock, publicou em janeiro deste ano uma carta retumbante para os empresários.7 Nesse documento, ele declara que deseja fazer do “investimento sustentável” a diretriz de seu gerenciamento de ativos. O greenwashing [“maquiagem” ecológica] não passou despercebido a ninguém, vindo de um fundo que detém participações maciças no setor de petróleo e gás.8 Mesmo supondo que houvesse uma intenção séria, o investimento só seria “sustentável” se estivesse isento da lógica da concorrência, que por natureza é de curto prazo.

É necessário desfazer esse poder centralizado das finanças privadas. O investimento na transição deve se sujeitar ao controle democrático em todos os níveis de tomada de decisão. François Morin, conselheiro do governo de Pierre Mauroy na época das nacionalizações de 1981-1982 e membro do conselho geral do Banco da França, propõe: “Os poderes eleitos devem estar no centro da decisão de crédito e, com isso, da emissão de moeda nova. Em cada nível, assembleias eleitas devem definir os critérios de alocação de empréstimos, a natureza dos beneficiários e os valores alocados […] por categoria de atividade”.9
Diminuir o uso de recursos naturais

Essas deliberações sobre os investimentos teriam de cumprir objetivos gerais definidos em nível nacional – e até continental ou mundial, sobretudo no que diz respeito às questões ecológicas –, mas sua autonomia garantiria a preservação de uma forma de diversidade institucional. Longe da uniformização feita pelo mercado, a articulação entre a centralização de objetivos primordiais e a dinâmica local de sua realização favorece a inventividade das formas de vida e as capacidades de adaptação das sociedades humanas como um todo. Ela também é imperativa para dar ao planejamento uma ancoragem democrática robusta. Como a transição supõe uma realocação de recursos em larga escala e em pouco tempo, caso haja discordância entre os níveis quem decide é a última instância de nível nacional. Para isso, é preciso que ela seja legítima: melhorar a qualidade dos procedimentos de deliberação é uma questão ecológica por excelência.

A alocação de crédito também teria de levar em conta restrições do ecossistema. As experiências de planejamento do século XX, seja na União Soviética, na França ou em outros lugares, em geral focaram o crescimento dos equipamentos e da indústria, por exemplo, após as guerras. Até hoje, o planejamento foi produtivista. Mas o planejamento ecológico precisa organizar a redução do uso de recursos naturais. Para chegar a isso, a primeira coisa a fazer é poder contar com um sistema estatístico à altura do desafio. O ato de planejar supõe conhecer o presente e formular cenários plausíveis para o futuro.10 Porém, o conhecimento de que dispomos a respeito do impacto ambiental das diversas atividades econômicas ainda apresenta muitas lacunas. Não temos indicadores suficientemente ricos e precisos para orientar a deliberação e a decisão. Uma atribuição clara dessa tarefa, acompanhada de recursos reforçados, permitiria aos institutos de estatísticas públicos a produção de tais indicadores.

Não adianta fechar os olhos para a realidade: o desemprego atingiria muitos trabalhadores dos setores poluentes que seriam fechados. Ocorre que, há décadas, o ambientalismo carrega o imaginário de uma desindustrialização que, quando resulta das deslocalizações – e não tem nenhuma preocupação ambiental –, provoca dramas sociais. Mas o planejamento ecológico baseia-se acima de tudo nas classes populares. Portanto, trata-se de inverter a lógica, associando a produção limpa à conquista de novos direitos sociais para os trabalhadores.

Assim chegamos ao segundo pilar do planejamento ecológico: o Estado precisa garantir emprego aos trabalhadores. O new deal ecológico de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez inclui essa medida, que é simples, porém crucial.11 O Estado compromete-se a oferecer ou financiar empregos a todas as pessoas que desejem trabalhar, remunerando-as no mínimo com salários-base do setor público. Assim como os bancos centrais são credores “de último recurso” no momento da crise financeira, a garantia de emprego torna o Estado o financiador “de último recurso” dos empregos.

Esse sistema criaria vagas em setores que o capitalismo considera não rentáveis, mas que normalmente aportam um alto valor agregado social e ecológico: manutenção dos recursos naturais, atendimento a idosos e crianças, conservação do patrimônio etc. Apesar de seus limites, a experiência dos “territórios com zero desemprego de longa duração”, em curso desde 2016 até 2021 em uma dezena de territórios da França, é um primeiro vislumbre do emprego garantido.12 Esse experimento baseia-se em três ideias: ninguém é inempregável (todo mundo tem habilidades e tem o direito ao reconhecimento social destas), não falta dinheiro nem trabalho – o que falta é emprego tal como definido pelo mercado, isto é, trabalho que valoriza o capital.

Trata-se, portanto, de ir além do princípio de proteção contra os riscos do mercado de trabalho, oferecendo uma garantia de trabalho que também contribua para satisfazer necessidades não cobertas pelo mercado. Pode-se imaginar que um espaço de diálogo entre, de um lado, as pessoas disponíveis e, de outro, as comunidades locais e as organizações civis possa servir para identificar os empregos úteis na escala de determinado território. Uma virtude adicional de um programa como esse seria a constituição de uma base mínima de normas sociais, em termos de condições de trabalho e remuneração, cujos efeitos protetores se estenderiam ao conjunto dos trabalhadores. Com o emprego garantido, o trabalho deixa de ser uma mercadoria, pois sua existência e utilidade deixam de ser determinadas pelo mercado.

A crise do coronavírus revelou uma nova hierarquia dos ofícios.13 De repente, a sobrevivência das populações depende do trabalho de cuidadoras, caixas de supermercado e agentes de limpeza, profissões que, em tempos normais, são pouco valorizadas, tanto do ponto de vista simbólico como financeiro. Na França, todas as noites, às 20 horas, esses profissionais são aplaudidos das varandas. Há quem diga até que eles devem desfilar no lugar dos militares no feriado de 14 de Julho. As profissões da transição ecológica precisam passar por essa mesma revalorização. Assim como o mineiro de carvão, soldado da “batalha da produção”, que após a Segunda Guerra Mundial foi erigido em símbolo da centralidade do mundo operário, a transição também precisa de “heróis” – heroínas neste caso. Isso passa tanto pela drástica compressão da escala das remunerações como pelo aumento da renda correspondente às muitas ocupações social e ecologicamente úteis que até hoje receberam pouca consideração. A batalha também será cultural: não mudaremos um imaginário coletivo com um século de idade sem fazer filmes, romances, canções, sem contribuir para elevar enfermeiras, trabalhadores da reciclagem e camponeses ao posto que hoje ocupam no mundo da ficção policiais, empresários, advogados e cientistas da computação.

Como terceiro pilar, o planejamento ecológico precisa fazer uma relocalização da economia. A União Europeia também tem seu “Pacto Verde pela Europa”, publicado pela presidenta da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, em janeiro de 2020. No exato momento em que ela apresentava as linhas gerais do plano, a União Europeia assinava um tratado de livre-comércio com o Vietnã… Assim, mais e mais mercadorias passarão a circular pelo planeta, com grande incremento das emissões de gases de efeito estufa. Além de aumentar as desigualdades, o livre-comércio gera aberrações ecológicas.

Essa relocalização deve se basear em três princípios. O primeiro é a “desespecialização dos territórios”, que permitiria atravessar as flutuações dos mercados mundiais e, assim, recuperar uma soberania sobre o que eles produzem. A globalização capitalista e o alongamento das cadeias de valor expropriaram as populações desse controle. O segundo princípio é o do “protecionismo solidário”: o estabelecimento de barreiras aduaneiras sociais e ambientais deve ser acompanhado pelo desmantelamento do monopólio das grandes empresas em termos de conhecimento. A liberalização da propriedade intelectual permitiria que o maior número possível de pessoas se beneficiasse das inovações. E a troca de conhecimento e tecnologia promoveria uma elevação dos direitos sociais e ambientais. Longe de promover um fechamento de cada local em si mesmo, o protecionismo solidário renovaria o internacionalismo sobre bases ecológicas e de compartilhamento do saber. Em terceiro lugar, a relocalização perderia seu objetivo se não tivesse efeito sobre o que e sobre como se produz. O capitalismo tem interesse em reduzir tanto quanto possível a vida útil dos objetos, forçando o consumidor a comprar sempre outros. Para isso, coloca no mercado produtos de baixa qualidade. É necessário impor aos fabricantes padrões de durabilidade acompanhados de um período de garantia mais longo.14 Produtos mais sólidos, substituídos com menos frequência e que precisam de menos reparos aliviam a pressão sobre os ecossistemas. Os movimentos em favor de uma maior “sobriedade” vão de vento em popa. Muitas vezes, eles são acompanhados por uma moral individualista.15 A sobriedade só pode ser coletiva, portanto é necessário estabelecer regulações que a incentivem. Precisamos passar de uma visão produtivista da atividade industrial a uma concepção orientada para a extensão do ciclo de vida dos objetos: a manutenção, o reparo e a melhoria dos objetos ao longo do tempo devem prevalecer sobre a lógica do descartável. É uma questão de investimento, emprego e competência, mas também de garantias sociais.

A limitação estrita da publicidade é uma dessas regulações. Parece razoável que uma empresa queira informar seus clientes sobre os méritos de seus produtos. Mas a publicidade engoliu nossa vida cotidiana e nosso espaço para vender fantasias, em vez de produtos. Ao longo do século XX, aumentaram vertiginosamente os gastos com publicidade das empresas – principalmente as multinacionais.16 Na era do capitalismo “monopolista”, ela é uma das principais alavancas utilizadas para aumentar a participação de mercado. Sob essas condições, não há chance de formas sustentáveis de consumo surgirem.
Ferramentas digitais

O quarto pilar do planejamento ecológico é a democracia. As experiências de planejamento passadas não foram apenas produtivistas, mas também tecnocráticas, verticais e até autoritárias.17 Na União Soviética, por exemplo, uma burocracia de planejadores decidia a quantidade e a qualidade dos bens a serem produzidos. Esse autoritarismo levou ao problema da fraca legitimidade política não apenas desses regimes, mas também do conhecimento econômico: apartados da sociedade civil, os intelectuais do planejamento sabiam pouco sobre as necessidades e os desejos dos cidadãos. Isso resultou em um desajustamento às vezes imenso entre a oferta e a demanda, levando à escassez ou ao desperdício.

Essa correlação entre planejamento e autoritarismo, porém, não é uma fatalidade. Superá-la requer certa inventividade institucional. Nos últimos trinta anos não faltaram experimentações em termos de democracia participativa.18 Em geral elas são um dispositivo político, e as decisões importantes são tomadas pelo poder executivo e pelos conselhos de administração. Mas há dispositivos, como as conferências de consenso, os júris de cidadãos, os orçamentos participativos e a “assembleia do futuro”,19 que poderiam contribuir para a deliberação sobre as necessidades. A condição da eficácia de tais dispositivos, que até hoje nunca foi alcançada, é que eles realmente influenciem as escolhas produtivas. Ou seja, que façam recuar os mecanismos de mercado em benefício de uma politização da economia.

A coordenação entre a oferta e a demanda também poderia se apoiar em ferramentas digitais, como já ocorre no capitalismo atual. Em setembro de 2017, o jornal Financial Times afirmava que “A revolução do big data pode ressuscitar a economia planificada”.20 Segundo um de seus editorialistas, as possibilidades atuais de coleta de dados e de cálculos poderiam, em um futuro próximo, superar certas deficiências do planejamento centralizado do século XX. As informações produzidas em fluxo contínuo pelo conjunto dos atores econômicos permitem conhecer, quase instantaneamente, as preferências de grande número de consumidores, sem passar pelo sistema de preços. Mas esses dados pertencem a companhias privadas do Vale do Silício, bem como a infraestrutura que realiza sua geração e seu processamento. Socializados, colocados sob controle democrático e reorientados para a utilidade social, eles contribuiriam para o surgimento de alternativas ao mercado.

Por fim, o quinto e último pilar do planejamento ecológico é a justiça ambiental. A Covid-19 já fez muitas vítimas nos territórios mais pobres – por exemplo, na França, em Seine-Saint-Denis. As classes populares sofrem com uma saúde mais frágil; a falta de moradia e de recursos faz que adquiram mais doenças e procurem menos os serviços de saúde, ainda mais quando as regiões onde vivem parecem desertos médicos. No entanto, os profissionais na linha de frente da luta contra o coronavírus geralmente são oriundos dessa fração da sociedade, portanto mais expostos ao vírus. As pandemias agravam as desigualdades de classe.

O mesmo se aplica à crise climática. As classes populares sofrem mais do que as ricas com a poluição e os desastres naturais21 (ler reportagem nas págs. 25-27). No entanto, é sobre elas que os governos fazem pesar o custo da transição, como prova o calamitoso episódio do imposto sobre o carbono, que desencadeou o movimento dos coletes amarelos. Tal conduta não é apenas moralmente duvidosa, mas também politicamente fadada ao fracasso: sem o consentimento das classes populares, a transição não ocorrerá. Obter esse consentimento supõe colocar a justiça no centro da transição e, para isso, impor um controle democrático sobre as escolhas de produção e consumo. Na França, os 10% mais ricos emitem oito vezes mais gases de efeito estufa que os 10% mais pobres (24 vezes nos Estados Unidos; 46 no Brasil).22 Cabe aos 10% mais ricos arcar com o custo da destruição ambiental causada por seu estilo de vida.


A ecologia deles ou a nossa?

A ecologia passou a figurar entre as principais preocupações dos europeus. Mas que ecologia? O primeiro-ministro conservador austríaco, Sebastian Kurz, tem sua concepção dela. Em janeiro, quando formou sua coalizão com os Verdes – a primeira do país –, ele disse que a humanidade enfrenta dois grandes desafios: a migração e as mudanças climáticas. Daí o sentido de uma aliança entre conservadores e ecologistas. A crise do coronavírus poderia acelerar o surgimento de uma ecologia conservadora. A demanda por um Estado “forte” suscitada pelo medo, o hábito de fechar fronteiras e “rastrear” populações e a consciência crescente de que o produtivismo gera cada vez mais catástrofes, tudo isso pode fazer que a Áustria seja o primeiro país, entre outros, a passar para uma gestão autoritária da crise ambiental. Seria um engano imaginarmos que essa é uma aliança antinatural. Na história da ecologia sempre existiu uma sensibilidade conservadora.

A essa ecologia conservadora é preciso opor outra, uma ecologia que ative todas as alavancas do Estado para realizar a transição, mas que o faça como uma oportunidade de democratizar o Estado e submeter a democracia representativa à pressão da democracia direta. Assim, a transição ecológica requer uma transformação simultânea de nossos sistemas econômicos e políticos. A ecologia deles ou a nossa:23 a grande batalha do século XXI começou.



Cédric Durand é professor de Economia da Universidade de Paris 13; Razmig Keucheyan é professor de Sociologia da Universidade de Bordeaux, França.



1 Cf. Benjamin Lemoine, L’Ordre de la dette. Enquête sur les infortunes de l’État et la prospérité du marché [A ordem da dívida. Pesquisa sobre os infortúnios do Estado e a prosperidade do mercado], La Découverte, Paris, 2016.

2 “Évaluation au 30 mars 2020 de l’impact économique de la pandémie de Covid-19 et des mesures de confinement” [Avaliação de 30 de março de 2020 sobre o impacto econômico da pandemia de Covid-19 e das medidas de confinamento], Policy Brief n.65, OFCE, Paris, 30 mar. 2020.

3 Cf. Michaël Zemmour, “Coronavirus: Le gouvernement ne se rend pas compte de l’exposition des ménages modestes à la crise” [Coronavírus: governo não se dá conta da exposição das famílias de baixa renda à crise], Le Monde, 27 mar. 2020.

4 Cf. Thierry Bonzon, “Consumption and total warfare in Paris (1914-1918)” [Consumo e guerra total em Paris (1914-1918)]. In: Frank Trentmann e Flemming Just (orgs.), Food and Conflict in Europe in the Age of the Two World Wars [Comida e conflito na Europa na era das duas guerras mundiais], Palgrave Macmillan, Londres, 2006.

5 Ler Sonia Shah, “Contre les pandémies, l’écologie” [Contra as pandemias, ecologia], Le Monde Diplomatique, mar. 2020.

6 Association NégaWatt, Manifeste négaWatt. En route pour la transition énergétique! [Manifesto NégaWatt. Rumo à transição energética!], Actes Sud, Arles, 2015.

7 Larry Fink, “A fundamental reshaping of finance” [Uma reformulação fundamental das finanças], site da BlacRock, jan. 2020. Disponível em: www.blackrock.com.

8 Cf. Amélie Canonne e Maxime Combes, “BlackRock se paie une opération de greenwashing grâce à Paris et Berlin” [BlackRock faz operação de greenwashing com a ajuda de Paris e Berlim], Basta!, 24 jan. 2020. Disponível em: www.bastamag.net.

9 François Morin, Quand la gauche essayait encore. Le récit des nationalisations de 1981 et quelques leçons que l’on peut en tirer [Quando a esquerda ainda tentava. História das nacionalizações de 1981 e algumas lições que elas podem nos dar], Lux, Montreal, 2020.

10 Cf. Alain Desrosières, “La commission et l’équation: une comparaison des Plans français et néerlandais entre 1945 et 1980” [A comissão e a equação: uma comparação dos planos francês e holandês entre 1945 e 1980], Genèses. Sciences sociales et histoire, Paris, n.34, 1999.

11 Cf. Pavlina Tcherneva, The Case for a job guarantee [Em defesa do emprego garantido], Polity Press, Londres, 2020.

12 Cf. Florence Jany-Catrice e Anne Fretel (coords.), “Une analyse de la mise en œuvre du programme expérimental visant à la résorption du chômage de longue durée dans le territoire urbain de la Métropole de Lille” [Uma análise da implementação do programa experimental para reduzir o desemprego de longa duração na área urbana da Metrópole de Lille], relatório intermediário, 11 jun. 2019. Disponível em: https://chairess.org.

13 Cf. Dominique Méda, “Nous savons aujourd’hui quels sont les métiers vraiment essentiels” [Hoje sabemos quais são as profissões realmente essenciais], Politis, Paris, 25 mar. 2020.

14 Cf. “De la pacotille aux choses qui durent” [Das quinquilharias às coisas duráveis], Le Monde Diplomatique, set. 2019.

15 Cf. Jean-Baptiste Malet, “Le système Rabhi” [O sistema Rabhi], Le Monde Diplomatique, ago. 2018.

16 Cf. John Bellamy Foster et al., “The sales effort and monopoly capitalism” [Esforço de vendas e capitalismo monopolista], Monthly Review, v.60, n.11, Nova York, abr. 2009.

17 Cf. Bernard Chavance, “La planification centrale et ses alternatives dans l’expérience des économies socialistes” [Planejamento central e suas alternativas na experiência das economias socialistas], Actuel Marx, Paris, v.65, n.1, 2019.

18 Cf. Yannick Barthe, Michel Callon e Pierre Lascoumes, Agir dans un monde incertain. Essai sur la démocratie technique [Agir em um mundo incerto. Ensaio sobre a democracia técnica], Seuil, Paris, 2001.

19 Cf. Dominique Bourg et al., Inventer la démocratie du XXIe siècle. L’Assemblée citoyenne du futur [Inventar a democracia do século XXI. A assembleia cidadã do futuro], Les Liens qui Libèrent, Paris, 2017.

20 Financial Times, Londres, 4 set. 2017.

21 Cf. Catherine Larrère (org.), Les Inégalités environnementales [As desigualdades ambientais], PUF, Paris, 2017.

22 Lucas Chancel, Insoutenables inégalités. Pour une justice sociale et environnementale [Desigualdades insustentáveis. Por uma justiça social e ambiental], Les Petits Matins, Paris, 2017.

23 Ler André Gorz, “Leur écologie et la nôtre” [A ecologia deles e a nossa], Le Monde Diplomatique, abr. 2010.

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