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A Embraer voa para o nada

Vendida à Boeing por uma ninharia, com as bênçãos de Temer e Bolsonaro, ela foi agora enjeitada. Maior empresa tecnológica do país está sem rumo. Ficará com a China? Cairá em irrelevância? Governo divide-se. Crise expõe país em queda livre.

De OUTRAS PALAVRAS, 06/05/2020

Por Raúl Zibechi, na Sputnik | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel


A aliança estratégica entre o governo civil-militar do Brasil e os Estados Unidos sofreu um sério revés com a decisão da Boeing de cancelar o acordo de compra da Embraer, a terceira maior empresa de construção aeronáutica comercial do mundo. Agora, a joia da coroa dos militares brasileiros está sem rumo, e pode precipitar-se em uma crise demolidora.

A empresa norte-americana “não recebeu um único pedido novo de fornecimento de aviões em janeiro” pela primeira vez em mais de meio século [segundo notícia da sua página web]. A crise é tão profunda que em 2019, “o fornecimento de aviões comerciais da Boeing se retraiu à metade na comparação com o mesmo período de 2018”.

O negócio com a Embraer consistia na compra de 80% da divisão comercial da empresa brasileira por cerca de 4,2 bilhões de dólares e a criação de uma joint venture para buscar novos mercados para o cargueiro militar C-390, além do desenvolvimento de aerotáxis para mobilidade aérea urbana. Na terceira semana de abril, a Boeing rescindiu o Master Transaction Agreement (MTA) assinado com a Embraer, por meio do qual as duas companhias afirmavam buscar “um novo nível de associação estratégica”.


“É decepcionante, mas chegamos a um ponto em que as negociações não vão resolver os problemas”, afirmou o vice-presidente senior da Boeing, Marc Allen. A data limite para chegar a um acordo era 24 de abril. Um dia depois, a Boeing fez o anúncio. O lado brasileiro assegura que “a Boeing encerrou injustamente a aliança e inventou pretextos para evitar o pagamento dos 4,2 bilhões da compra”.

As razões não expressadas pela Boeing devem ser buscadas na crise provocada pela paralisação da produção do 737 MAX, ao que se deve somar a situação criada pela pandemia de coronavírus na indústria aeronáutica. A Boeing teve um déficit de 633 milhões de dólares em 2019, com a consequente crise financeira, uma vez que o fim da produção do MAX implica a perda de 19 bilhões de dólares. A empresa norte-americana está pedindo uma ajuda de 60 bilhões de dólares ao governo Trump para sobreviver à atual paralisia do setor aéreo.

O jornal especializado espanhol El Economista lembra que a crise da Boeing começou quando, em menos de cinco meses, caíram dois aviões 737 MAX, obrigando a firma a deixar em terra, durante mais de um ano, o modelo projetado para ser sua nova sensação de vendas. [O acordo com a Embraer foi assinado apenas doze dias antes da queda do segundo avião]. O objetivo da compra da Embraer era competir no segmento de mercado dos aviões médios (90-120 lugares), que hoje é dominado pela francesa Airbus, com o A220. Para a empresa europeia, a quebra do acordo é uma excelente noticia, mas para a brasileira é alguma coisa como um monumental chute do traseiro, uma vez que, agora, a própria continuidade da empresa fica sob suspeita.

Tão logo se tomou conhecimento do cancelamento da venda, as ações da Embraer caíram 14%. No entanto, ao longo do ano, essas ações já tinham se desvalorizado 60%. Agora é a Embraer que busca um plano B, que não parece ser de modo algum simples.

Analistas citados pela famigerada revista Veja notaram que o rompimento de acordo com a Boeing “não poderia acontecer em um momento pior: as vendas estão paradas; a demanda geral de jatos desapareceu devido ao coronavírus; [e] a queda nos preços do petróleo enfraqueceu ainda mais os novos aviões”.

Fracassado o acordo, e na espera da ação judicial que a Embraer vai impetrar contra sua quase sócia, os olhares agora se dirigem à China. “Do ponto de vista estratégico, é uma opção, mas pode ser politicamente problemática”, destaca a consultora norte-americana Lundquist Group, especializada no setor aeroespacial.

A maior dificuldade vem da parte do governo de Jair Bolsonaro, que sustenta uma ampla e perigosa confrontação com Pequim, a quem acusa de querer “comprar o Brasil” mais do que fazer negócios. Por outro lado, pedir um empréstimo de socorro nesses momentos seria quase impossível, dada a situação delicada em que se encontra a economia brasileira.

Um relatório do banco suíço UBS estima que será muito difícil para a Embraer ir adiante sem sócios em um mercado cada vez mais complexo, e no qual sua maior competidora, a canadense Bombardier, mantém aliança com a Airbus para a produção de aviões de 70 a 120 lugares, o mesmo segmento no qual a empresa brasileira se destaca.

“Não seria surpresa ver outras empresas iniciando contatos com a Embraer. Acreditamos que a China ainda aspira liderar o mercado aeroespacial global e, em nossa opinião, a Embraer aportaria talento para projetos e desenvolvimento e – mais importante – conhecimento e capacidade em serviços globais e redes de apoio”, assinala o UBS.

Na equipe econômica de Bolsonaro, algumas vozes se inclinam em favor de abrir negociações com a China. Uma “possibilidade [que] deixa os generais de cabelo em pé, [pois a] área aeroespacial é considerada sensível pelo fato de, na visão dos militares, envolver riscos à soberania nacional”, considera a colunista do portal UOL Thaís Oyama.

O que aconteceu com a relação entre Embraer e Boeing é apenas um sinal do naufrágio estratégico do Brasil, incluindo o setor militar do governo. Os fatos começam a demonstrar que a aliança com os Estados Unidos é um beco sem saída que, além do mais, obstrui a possibilidade do Brasil se erigir como país relativamente autônomo na porção sul-americana, capaz de liderá-la e de servir como referência aos demais.

O que está em jogo é muito mais que o futuro da Embraer. Evidentemente, trata-se da única empresa brasileira que exporta tecnologia de ponta. E um país seguramente não prospera apenas vendendo grãos de soja e ferro em estado bruto. Talvez por isso, o vice-presidente e general aposentado Hamilton Mourão qualificou o giro dos acontecimentos como uma “bênção disfarçada”. Com relação a uma possível aliança com a China, foi suficientemente claro: “Temos o know-how, eles têm a demanda. (…) Isso mostra mais uma vez que um casamento

[com a China]

precisa ir adiante, porque é um casamento inevitável”.

Que o setor militar chegue a se inclinar a favor da China seria um desastre para a estratégia do Pentágono e uma reviravolta interna de grande envergadura no Brasil. Tudo indica, no entanto, que a situação do país deverá ainda deteriorar bastante antes que se abra o caminho para uma opção tão radicalmente oposta àquela que ainda predomina em Brasília.

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