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A absurda crueldade do capitalismo pandêmico

A pandemia global dá nova urgência à criação de alternativas políticas ao status quo e evidencia a necessidade de políticas socialistas e de um futuro além do capitalismo.

Da Carta Maior, 25/05/2020
Por Mark Harris
Créditos da foto: Os EUA há muito se estabelecem como a superestrela neoliberal, o país moderno com maior desigualdade de riqueza, com uma rede de segurança social precária e líderes políticos dos dois principais partidos totalmente corporatizados (Erik McGregor/LightRocket via Getty Images)

Os Estados Unidos lideram o ranking de contaminação e mortalidade por Covid-19. Também está entre os favoritos globais em idiotice política organizada, uma vez que a incompetência mortífera do presidente Trump em gerir a crise deixou muitos americanos em desespero, e suas respectivas esperanças para o futuro vacilantes, quando não respirando por aparelhos.

O Centro de Controle de Doenças (CDC) registrava 1.504.830 casos no total e 90.340 mortes em Covid-19 em 19 de maio. Embora os relatórios estaduais variem, novas ondas da doença são prováveis, a menos que medidas de vigilância em saúde pública sejam postas em prática, como testes generalizados, rastreamento de contatos e quarentenas.

Para Trump e seus aliados de direita, como a Fox News e os grupos antiquarentena, essas preocupações são incômodos menores. Eles querem uma economia reaberta já. E se isso significa subestimar ou ignorar os conhecimentos de saúde pública sobre como se deve fazê-lo com segurança, que assim seja. De fato, a pandemia expôs o impiedoso desprezo de Trump pela vida das pessoas comuns. Mais ainda, expôs o cruel absurdo de rivalidades competitivas em um mundo interconectado. Também expôs a irracionalidade e o desperdício da sociedade de classes, com sua riqueza e pobreza extremas, seu poder político concentrado numa elite e políticas sociais guiadas pelo lucro e não pelas necessidades humanas.

Riscos de reabertura subestimados

As estimativas variam agora sobre exatamente quantos testes são necessários para reabrir as atividades com segurança. Mas, até a semana passada, apenas nove dos 50 estados do país realizavam testes em número suficiente para que as taxas de infecção ficassem abaixo da referência de segurança necessária para a reabertura, de acordo com uma análise das métricas usadas pelo Harvard Global Health Institute. Os pesquisadores de Harvard calculam que são necessários no mínimo 900 mil testes diários para atenuar as medidas de distanciamento social com segurança, sem o risco de uma retomada de novas infecções. Isso é quase três vezes o número atual de testes, entre 300 mil e 400 mil testes diários realizados entre 12 e 19 de maio, de acordo com o Covid Tracking Project.

Da mesma forma, especialistas em saúde pública, como Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, alertam que a pressa excessiva em reabrir as atividades traz o risco de desfazer o que houve de êxito na contenção do vírus. Incrivelmente, Trump e seus ministros da propaganda da Fox News chamaram as preocupações de Fauci de "inaceitáveis".

Trump afirmou na semana passada que agora também acha que a importância dos testes do Covid-19 é "superestimada". "Se não realizássemos testes, teríamos muito poucos casos", explica o mesmo homem que se perguntou se a aplicação de raios UV no interior do corpo ou a ingestão de desinfetantes poderiam eliminar o vírus. Ironicamente, embora menospreze o valor dos testes, Trump também se gaba de quanto os Estados Unidos estão testando, mais do que qualquer outra nação, segundo ele.

Na verdade, até 10 de maio de 2020, os Estados Unidos ocupavam o nono lugar na proporção de testes em relação ao tamanho da população entre os países mais afetados pela pandemia. Com 52.781 e 50.767 testes por milhão de habitantes respectivamente, Espanha e Portugal foram os países que mais realizaram testes de Covid-19, aproximadamente o dobro da taxa dos Estados Unidos.

Vale lembrar que o fechamento da economia foi necessário primeiramente pela falta de capacidade de testagem adequada, como especialistas em saúde pública tentaram explicar. De fato, epidemiologistas estimam que 90% das mortes de Covid-19 nos Estados Unidos poderiam ter sido evitadas se as diretrizes de distanciamento social tivessem sido implementadas antes de 2 de março, apenas duas semanas antes do dia 16 de março, quando finalmente foram postas em prática.

Lembram quando, no fim de fevereiro, Trump declarou que os casos do Covid-19 em breve estariam "próximos de zero"? A versão mais recente de uma desinformação de direita parecida vem dos apresentadores da Fox News que agora sugerem que o número crescente de mortos está sendo "inflado". Na verdade, o mais provável é que o número de mortes esteja sub-representado nos relatórios oficiais do CDC, alerta o Dr. Fauci e outros especialistas em saúde pública.

Médicos e pesquisadores: “Derrubem o presidente”

A liderança mostrada por Trump para gerir a pandemia é um estudo de caso em muitos aspectos, mas um em especial: como fazer tudo errado. Os EUA estavam espetacularmente despreparados para a ameaça de pandemia. A Casa Branca foi alertada em meados de janeiro sobre a necessidade de medidas imediatas para impedir a propagação do Covid-19. Mas, por quase dois meses, pouco foi feito além da proibição de viagens para a China, em 2 de fevereiro, e para a maior parte da Europa, seis semanas depois. Isso apesar das evidências de que restrições de viagem, no caso de um vírus altamente contagioso como este, teriam um "efeito modesto" para frear a propagação da doença, a menos que combinadas com medidas mais rigorosas de saúde pública, como práticas de distanciamento social.

Quando a emergência pandêmica começou, também havia enorme escassez de equipamentos médicos e pouca capacidade de testagem. Trump afirma que ninguém poderia ter previsto uma pandemia dessa magnitude; outra mentira. Como mostrou a revista The Nation, um relatório do Pentágono de 2017 previa uma futura escassez de ventiladores, máscaras faciais e hospitais no caso de uma pandemia de um novo vírus.

A atual crise de liderança nos Estados Unidos é severa e se aprofunda. Trump é claramente um iludido incompetente, um homem cujo pensamento mágico não está exatamente nos conduzindo à terra encantada. Acusando o governo Trump de dar “uma resposta inconsistente e incoerente à crise do Covid-19” ao menosprezar o conhecimento especializado do CDC, a prestigiosa revista médica britânica The Lancet chegou ao ponto de pedir a destituição do presidente americano, algo sem precedentes.

"O governo [Trump] está obcecado por poções mágicas – vacinas, novos medicamentos ou a esperança de que o vírus simplesmente desapareça", escreveram os editores da revista em editorial de 16 de maio. "Mas apenas uma confiança total nos princípios básicos de saúde pública, como um programa de testes, rastreamento e isolamento, levará ao fim da emergência, e isso requer uma agência nacional de saúde pública eficaz".

Uma crise que vem de longe

A crise social em que entramos não é uma crise para meias medidas. Infelizmente, o ato HEROES, pacote de estímulo de US$ 3 trilhões, aprovado recentemente pela Câmara dos Representantes, não assegura os meios de subsistência nem atende as necessidades dos trabalhadores americanos, rejeitando propostas de garantias de salário ou incentivos regulares a trabalhadores em dificuldades.

“Esta legislação não mantém os trabalhadores em seus empregos nem garante a segurança dos salários”, diz a deputada Pramila Jayapal (Partido Democrata-Washington), líder da Frente Progressista do Congresso, que votou contra o projeto. "Mais de 36 milhões de pessoas pediram auxílio-desemprego em apenas oito semanas e, só em março, em 40% das famílias que ganham menos de 40 mil dólares (por ano), pelo menos um dos membros perdeu o emprego", diz Jayapal em um texto em seu site. “O desemprego em massa é uma escolha e não podemos esperar e deixar a taxa de desemprego subir para 40% ou 50%, o que acontecerá se não agirmos com coragem. Temos o mais alto índice de desemprego desde a Grande Depressão e não podemos ficar sentados esperando, enquanto oferecemos meias medidas, nem deixá-lo subir”.

Poderíamos, logicamente, supor que a nação mais rica do mundo seria a mais bem preparada para uma pandemia de doença infecciosa. A suposição estaria errada – e isso não seria também uma surpresa. Os EUA há muito se estabelecem como a superestrela neoliberal, o país moderno com maior desigualdade de riqueza, com uma rede de segurança social precária e líderes políticos dos dois principais partidos totalmente corporatizados.

Obviamente, a corrida de Trump pela reabertura da economia não é motivada por preocupações com a subsistência dos trabalhadores, além de talvez algum cálculo superficial de que um país aberto aos negócios se traduziria em popularidade eleitoral em novembro. Na verdade, é mais provável que o incentivo de Trump aos protestos contra o confinamento acelere as taxas de contágio e mortalidade nos próximos meses. Por outro lado, Trump conta com a lealdade inabalável de sua base de apoiadores de direita, um grupo que, aparentemente, não vê problemas nas infinitas mentiras de seu querido líder e cujos clamores por "liberdade" se traduzem cada vez mais em atitudes violentas e fascistas.

É possível que o ex-vice-presidente democrata Joe Biden ganhe a eleição presidencial, com sua campanha discreta, contando basicamente que Trump derrote a si mesmo em novembro? Talvez. E depois? Teremos mais desta política que bajula Wall Street, adaptada à nova era da pandemia, mas ainda oferecendo basicamente o mesmo “liberalismo” democrata cujas falhas prepararam o terreno para a ascensão de Trump e da política de extrema direita?

Em caso afirmativo, preparem-se para um fortalecimento da extrema direita, cujos apoiadores incluem não apenas a elite e seus interesses financeiros, mas autodenominadas milícias armadas, cujos protestos são um sinal provável de coisas piores por vir. O extremismo do Partido Republicano está em rota de colisão com qualquer falsa aparência de democracia. Será necessário um tipo diferente de política, transformadora, construída com mobilizações de massa por um programa de justiça social e econômica de amplo alcance, para derrotar de verdade os demônios reacionários que estão levando este país à beira da ruína.

A pandemia global evidenciou a vulnerabilidade de nossa humanidade comum. Também deu nova urgência à criação de alternativas políticas ao status quo e mostrou a necessidade de organizações e políticas socialistas e de uma visão de um futuro para além do capitalismo. Sob a atual emergência de saúde pública, está evidente como a venalidade no cerne do estilo de vida capitalista é uma grave ameaça à vida.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Clarisse Meireles

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