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Uma estratégia capenga para se esquivar da crise

Bolsonaro privilegiou elites, devastou serviços públicos e agora, com pandemia, tenta transferir ônus do desemprego a quem defende isolamento. Catástrofe aproxima-se — por isso os ataques ao STF, Congresso, governadores e prefeitos…
De OUTRAS PALAVRAS, 22/04/2020
Por Paulo Kliass | Imagem: Lo Cole

A estratégia política de Jair Messias Bolsonaro está cada vez mais cristalina. Só não enxerga suas intenções quem não quer. A cada dia, o pai de 01, 02 e 03 avança uma casa no xadrez que pretende levar ao caminho do autogolpe com apoio das Forças Armadas. Ao adotar a conhecida tática do morde/assopra, ele busca sentir o terreno para avançar rumo ao aniquilamento paulatino das nossas já fragilizadas instituições democráticas e republicanas.

De um lado, acena vigorosamente à sua base de apoio incondicional, onde alimenta o discurso de ódio contra o Supremo Tribunal Federal (STF), o Senado, a Câmara dos Deputados, os governadores dos estados e os prefeitos. Ele encarna a narrativa contra “tudo o que está aí” e afirma que não vai se render à velha política do toma lá, dá cá.

Então, tá certo. O cara fica 28 anos como deputado em Brasília, bota os filhos para serem eleitos como senador, deputado federal, deputado estadual, vereador e se diz de uma nova forma de fazer política. Mas o pior é que essa lengalenga engana muita gente. Segundo sua ótica estreita e seu discurso raivoso, são essas instituições pilares de nossa ordem democrática que o estão impedindo de governar. Como precisa personificar os inimigos a serem combatidos pela horda de seus seguidores ensandecidos, Bolsonaro cita Rodrigo Maia e Dias Toffoli, entre outros, para identificar o mal a ser cortado pela raiz.

No dia seguinte ao estrago realizado, o ex-capitão avalia os efeitos de seus atos e falas na véspera. Em geral, ensaia um recuo tático e providencial, para que a parcela das elites que o apoiaram nas eleições – e seguem vacilando no comportamento a adotar na hora presente – arranjem um argumento para justificar sua própria passividade irresponsável. “Afinal, não foi bem isso que ele quis dizer, não é mesmo?”. E segue o barco com o leme apontado rumo à tragédia anunciada.

A entrada em cena da pandemia da covid-19 passou a operar como fator catalisador de seu intento golpista. Depois do fracasso em se apoiar nos principais líderes da extrema direita mundial, a começar pelo amigão Donald Trump, Bolsonaro teve que se contentar com seu próprio capital político interno para se equilibrar na corda bamba do negacionismo. Aquilo que antes o presidente dos Estados Unidos o havia convencido ser apenas mais uma gripezinha, passou a ganhar ares de epidemia descontrolada. Bolsonaro insiste no terraplanismo genocida e todos os dias oferece um cenário trágico à população brasileira e à opinião pública internacional. Ele ridiculariza em público as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e contraria as orientações das principais autoridades médicas do nosso País. Estimula atos políticos com centenas de pessoas agrupadas, desorienta a população e vai aos estabelecimentos comerciais, abraçando e beijando correligionários e apoiadores.

Depois de uma longa disputa com seu ministro da Saúde, resolve demiti-lo, mesmo sabendo da perda de popularidade associada a tal decisão. No centro da polêmica, a questão do isolamento social, do confinamento, da quarentena. Bolsonaro identifica ali a possibilidade de criar um novo foco de tensão permanente. Afinal, se a gripezinha segue matando a cada dia mais vítimas em ritmo acelerado, a estratégia agora é sugerir que a economia não pode parar e o confinamento deve mesmo ser eliminado. Novamente, o presidente vai contra todas as indicações adotadas na maior parte dos países para salvar vidas e evitar um desastre social e econômico ainda mais grave do que o previsto.

Sabendo das dificuldades vividas pela grande maioria da população, Bolsonaro joga com a demagogia em direção daqueles que não estão sendo contemplados pelas medidas de auxílio que o Congresso Nacional aprovou – contra, aliás, a orientação de Paulo Guedes e da equipe econômica.

O discurso do momento é que ele não quer ser cobrado no futuro pelo desemprego criado pela crise do coronavírus. Segundo a lógica reproduzida pelo Palácio do Planalto, os atores políticos que propõem a manutenção e aprofundamento do isolamento horizontal são os verdadeiros responsáveis pelas agruras sofridas pelo povo. Sim, pois ele, Bolsonaro, quer que a atividade econômica seja retomada imediatamente e os políticos tradicionais e as instituições republicanas o impedem de fazê-lo.

A conta do desemprego é tua!

Bom, daí a participar e apoiar as manifestações a favor do AI-5, da intervenção militar e do fechamento do Congresso Nacional e do STF foi apenas um passo. O ex-deputado sabe muito bem como jogar para sua plateia enlouquecida, ainda que depois diga não foi nada daquilo que a imprensa está falando. Afinal, para esse povo cai como uma luva o argumento de que as principais redes de televisão e os grandes jornais estão todos dominados pelos interesses chineses e pretendem derrubar o presidente eleito.

“Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados na minha pessoa”. Essa é a estratégia da “famiglia”: jogar a fatura da crise social e econômica nas costas de quem defende a continuidade do isolamento. Mas esse discurso não cola. A fatura é toda tua, Bolsonaro!

No momento de sua posse, no início de janeiro de 2019, a taxa do desemprego divulgado pelo IBGE apontava para 11,6% da população economicamente ativa. Mais de 12 milhões de pessoas. Isso sem contar os demais desalentados, os que estão na informalidade e na precariedade. Quase 30 milhões de pessoas desejando trabalhar a tempo integral e não encontrando oportunidade para tal.

Ao longo desses 15 meses, a opção de Paulo Guedes foi aprofundar ainda mais esse quadro de tragédia. O Chicago old boy focou apenas em atender aos interesses do financismo e prolongou a trilha da austeridade burra e cega. Todas as propostas do superministro da economia apontavam para corte de despesas orçamentárias, privatização, liberalização e ajuda aos bancos.

As ações para recuperar a atividade econômica e o nível de emprego foram providencialmente esquecidas na última gaveta de sua mesa de trabalho. Assim, o nível de desemprego medido logo antes da emergência da crise da covid 19 em nossas terras estava exatamente nos mesmos 11,6% em que ele começou sua desastrada gestão. Com o detalhe de que haviam aumentado os índices da informalidade e da precariedade. Tudo graças à reforma trabalhista herdada de Temer & Meireles e que Bolsonaro pretende piorar ainda mais com a tal da carteira verde amarela. Felizmente, o Congresso Nacional evitou a aprovação da Medida Provisória 905, que perdeu sua validade em 20 de abril.
Impeachment ou renúncia

O Brasil não tem a menor possibilidade de recuperar a dignidade de seu povo e encontrara a saída para a crise sem tantos danos à saúde e à economia com essa duplinha da maldade representada por Bolsonaro na Presidência da República e Paulo Guedes no comando da economia.

O desemprego não é fruto do isolamento horizontal. Ele é resultado da opção política desse governo, em privilegiar as elites e o financismo. Ao esquecer as necessidades emergenciais dos setores da base de nossa pirâmide da desigualdade, o governo do capitão só fez piorar as condições sociais e econômicas em que a pandemia surgiu. Ao cortar verbas para a saúde e destruir as políticas públicas de apoio à maioria da população, Guedes nos deixou à beira do precipício.

A fatura do colapso e do desemprego é toda tua, Bolsonaro!

A população sabe disso e não quer continuar nessa tragédia.

Você pode escolher: impeachment ou renúncia.

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