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O mundo está de cabeça pra baixo, mas começa a pôr as ideias no lugar

O governo enfrenta a epidemia da melhor maneira possível... Mas as posturas bélicas são muitas vezes ineficazes diante das forças da natureza. Os vírus são seres poderosos, capazes de modificar nosso genoma, vamos tratá-los, se não com respeito, pelo menos com modéstia.


Créditos da foto: Coline Serreaus na SACD em 3 de dezembro de 2019 (SACD/LNFHOTOGRAPHERS)

Da Carta Maior, 03/04/2020

Por Coline Serreau 


Aprendamos a sobreviver em meio a eles, a nos proteger deles, fazendo a espécie humana viver em condições sanitárias ideais, que fortalecem sua imunidade e lhe dão o poder de enfrentar sem danos os micróbios e vírus pelos quais estamos cercados, uma vez que vivemos nesta grande sopa cósmica onde todos devem ter seu lugar. A guerra contra os vírus sempre será uma guerra perdida, mas o equilíbrio entre nossas vidas e as deles pode ser conquistado se fortalecermos nosso sistema imunológico com um estilo de vida não mortífero.

Nesta crise, o que surpreende é a velocidade com que a inteligência coletiva e popular se manifesta.

Poucos dias após o início da crise, os franceses estabeleceram rituais de agradecimento (aos profissionais da saúde, ao sistema público de saúde) com enorme adesão, um dos mais belos gestos políticos já vistos na França – espécie de desdobramento das greves contra a reforma da previdência e da ação dos coletes amarelos – gritando em alto e bom som quem e o que é importante em nossas vidas.

Em nosso país, aqueles que garantem as funções essenciais e aquelas que mantêm a sociedade de pé são mal pagos, desprezados. Auxiliares de enfermagem, enfermeiras e enfermeiros, médicos que trabalham em hospitais públicos, os funcionários das escolas, professores, pesquisadores, todos ganham salários miseráveis enquanto jovens idiotas e arrogantes recebem milhões de euros por mês para pôr uma bola na rede.

Em nosso mundo, a palavra camponês é um insulto, mas quem se autodenomina "agronegociante" recebe centenas de milhares de euros para matar nossas terras, nossos corpos e nosso meio ambiente enquanto a indústria química prospera.

E eis o pequeno vírus põe tudo em seu devido lugar, agora que, das janelas, um povo confinado grita para expressar seu respeito, amor e gratidão pelos verdadeiros soldados de nosso tempo, aqueles que estão prontos a dar suas vidas para salvar as nossas enquanto, por décadas, sucessivos governos trabalharam duro para desmantelar nossos sistemas de saúde e educação, enquanto os lobbies reinam supremos, financiando políticos com o dinheiro da corrupção.

Não temos dinheiro suficiente para equipar nossos hospitais, mas, ora essa, que busquemos o dinheiro onde ele está, que os gigantes da GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) paguem seus impostos e devolvam à sociedade pelo menos metade do que ganham. Porque, afinal, como ganharam esse dinheiro? Ganharam porque existem povos que formam nações, equipadas com ruas, rodovias, trens, esgotos, eletricidade, água corrente, escolas, hospitais, estádios e assim por diante, porque a comunidade pagou por tudo isso, e é graças a toda essa infraestrutura que essas empresas podem obter lucro. Eles precisam, portanto, pagar seus impostos e devolver à população o que lhes é devido.

Provavelmente também será preciso rever a questão da dívida que nos arruína, enriquecendo os mercados financeiros. Ao longo dos séculos passados, os reis da França decidiram, com bastante regularidade, cancelar a dívida pública, para zerar o contador.

No fim desta crise, quando as contas bancárias de pessoas estiverem vazias, quando as empresas não puderem mais pagar seus funcionários, que não poderão mais pagar aluguel, eletricidade, gás, comida, não vejo como o governo poderá continuar a desperdiçar 90% do orçamento pagando uma dívida que só beneficia os banqueiros.

Espero que o povo se levante e reivindique o que é seu, ou seja, exija que a riqueza da França, produzida pelo povo, seja redistribuída ao povo e não ao sistema financeiro internacional. E se os outros países também deixarem de pagar suas dívidas conosco, será preciso voltar a produzir aqui, nos contentar com os nossos recursos, que são imensos, e desfazer a trama de uma parte da globalização que só nos deixou mais pobres.

E o povo entendeu tão bem que grita toda noite das janelas para expressar seu respeito por aqueles que cuidam, pelo próprio ato de cuidar, pelas mães, pelas mulheres e pelos homens que põem os seres humanos acima do dinheiro.

Não nos enganemos, não haverá como voltar atrás após esta crise.

Pois apesar do sofrimento, apesar desses lutos terríveis que afligem tantas famílias, apesar desse confinamento, cujo preço mais alto é pago pelos mais pobres, a saber, os jovens, os idosos isolados ou confinados em lares de idosos, as grandes famílias, presas nas cidades, geralmente em casas mínimas, apesar de tudo isso, o mundo, que estava de cabeça para baixo, começa a pôr as ideias em ordem.

Onde estão os verdadeiros valores? O que é realmente importante em nossas vidas?

Viver virtualmente? Comer produtos de uma terra massacrada e que envenenam nossos corpos?

Enriquecer, através do nosso trabalho, aqueles que recebem bônus faraônicos para planejar demissões?

Aceitar a violência social daqueles que empobreceram sistematicamente o sistema de saúde e hoje nos dão lições de solidariedade?

Submeter-se a uma medicina exclusivamente voltada para o tratamento dos sintomas, sem se preocupar com prevenção, que entope as pessoas de remédios que matam tanto quanto ou mais do que curam? Uma medicina a serviço dos laboratórios farmacêuticos?

Enquanto a única medicina de fato válida é aquela que se dedica a manter o meio ambiente saudável e que proíbe todos os venenos, não importa quão lucrativos. Por que será que esse vírus, que atinge os pulmões, tem se espalhado e causado tantos danos? Porque nossos pulmões já estão enfraquecidos pela poluição e esta fragilidade os transforma em receptores ideais para os vírus.

Na agricultura, quanto mais intensamente cultivamos plantas geneticamente modificadas ou híbridas, em dezenas de hectares de terras doentes, mais os predadores ou pragas os atacam e se deleitam, e mais elas precisam ser pulverizadas com pesticidas para sobreviver, é um círculo vicioso que só pode levar a desastres.

E não podemos esquecer que os seres humanos mais humildes são tratados da mesma forma que as plantas e os animais massacrados são tratados.

Nas grandes metrópoles do mundo, quanto mais as pessoas estiverem aglomeradas, malnutridas e respirando um ar viciado que enfraquece os pulmões, mais os vírus e outras "pragas" estarão à vontade para atacar seu ponto fraco: o sistema respiratório.

Se tivermos inteligência para analisar a origem desta epidemia e a maneira de combatê-la pela prevenção, e não somente pela vacina, todos nós – os políticos e especialmente as populações – entenderíamos que só através de uma alimentação e de um meio ambiente saudáveis poderemos nos defender de maneira eficaz e durável contra os vírus.

O confinamento também tem importantes consequências mentais e sociais para todos nós. De repente, várias coisas que considerávamos vitais provam-se fúteis. Comprar todo tipo de objetos e roupas é impossível e essa impossibilidade se torna um bônus: comprando menos ficamos ricos.

E como não perdemos mais tempo em transportes exaustivos e poluentes, de repente percebemos o quanto esse transporte nos destruía, como a superlotação nos deixava agressivos, como o ódio e a desconfiança com os quais nos protegíamos para preservar um vago espaço vital nos faziam mal.

Hoje temos tempo para cozinhar, em vez de nos encher de junk food, podemos conversar, enviamos mensagens cheias de criatividade e humor.

O teletrabalho se impõe a toda velocidade; o que mais tarde permitirá que um número cada vez maior de pessoas viva e trabalhe no campo, deixando as megalópoles menos saturadas.

Quanto à cultura, o povo nos dá lições magníficas: a cultura não é um vetor de vendas, nem uma fábrica de lucros, nem mesmo propriedade de uma elite que quer afirmar sua superioridade; a cultura é o que nos une, nos consola, nos permite viver e compartilhar emoções com outros seres humanos.

O que é pode ser pior do que um confinamento para se comunicar? E, no entanto, os italianos cantam nas varandas e vimos policiais fazerem serenatas para confortar os moradores. Ruas inteiras de Paris organizam shows noturnos, leituras de poemas, manifestações de gratidão. É essa a verdadeira cultura, a bela, a grande cultura de que o mundo precisa, simplesmente vozes que cantam para espantar a solidão.

É o oposto da cultura dos departamentos do governo que nunca se preocuparam em satisfazer as necessidades das populações, oferecer a elas aquilo de que realmente precisam para viver, mas nunca deixaram de confortar as elites, desprezando qualquer manifestação cultural que agradasse às pessoas comuns.

Nesse sentido, o cancelamento do festival de Cannes é uma ótima notícia.

Após a explosão em pleno voo dos Césars, manipulados há anos por uma máfia opaca e antidemocrática, após os escândalos de abuso sexual no cinema, dos quais só uma parte ínfima foi revelada, o festival de Cannes também terá que fazer uma profunda autocrítica e se reinventar. Este festival de Cannes sem limites, ou festival dos idiotas cúmplices de um sistema devorado pela falocracia, pela corrupção da indústria do luxo, onde se expõe, de forma complacente, a carne fresca de pernas longilíneas, pobres mulheres-cabide manipuladas pelas marcas, humilhadas, angustiadas com a ideia de não agradar suficientemente aos velhos que as ostentam em seus braços como troféus; neste festival, venham de jeans furados e tênis, meninas, porque é o seu talento, suas qualidades artísticas que devem ser celebradas ali, não deve ser uma competição para ver quem será a mais nua, a mais puta!

Se as manifestações tão generosas e emocionantes das pessoas confinadas pudessem influenciar o futuro da cultura, que sonho lindo seria!

Para concluir, gostaria de dirigir uma palavra de compaixão aos muitos doentes e seus próximos e lhes dizer que, de dentro de nossas casas ou apartamentos, onde estamos trancados, nunca deixamos de pensar neles e desejar sua recuperação. Não sou crente, as preces sempre me fizeram rir, mas eis que me pego rezando para que todas essas pessoas se recuperem. Essas orações nunca substituirão os cuidados do hospital, a dedicação heroica dos profissionais de saúde e uma política de saúde digna desse nome, mas é tudo o que posso fazer, então eu faço, esperando que as ondas transportem a minha mensagem, as nossas mensagens de amor e de esperança para aqueles que precisam.

Coline Serreau é cineasta, e dirigiu, entre outros, os filmes La belle verte e Soluções locais para uma desordem global

*Publicado originalmente em 'Les Nouvelles News' | Tradução de Clarisse Meireles

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