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Moraes Moreira e o melhor disco da história da MPB

Acabou Chorare não é só o melhor disco da história da MPB, a mais luminosa reunião de canções brasileiras em disco desde a revolução tropicalista e até hoje: é principalmente uma experiência corpórea, política em seu sentido mais essencial.

Do 247, 14/04/2020


João Gilberto costumava dizer que os baianos eram como orientais na maneira de agir e pensar o mundo. Para ele, a Bahia era também uma China em plena Roma Negra, e não precisamos recorrer à ilustrativa figura de Dorival Caymmi e sua sabedoria minimalista de “Buda Nagô” para entender tal sugestão: podemos escutar, cantar e dançar a obra de Moraes Moreira, mais com a sentimentalidade do que com a razão, para assimilarmos num estalo o apontamento de João.

Assim como Caymmi, Moraes foi capaz de utilizar melodias não só para fazer o verso dançar, mas para oferecer a experiência em movimento do que o poema diz, mesmo que nem mesmo compreendamos o que a letra quer dizer. Acabou Chorare não é só o melhor disco da história da MPB, a mais luminosa reunião de canções brasileiras em disco desde a revolução tropicalista e até hoje: é principalmente uma experiência corpórea, política em seu sentido mais essencial, capaz de alterar nossa trajetória através de uma alegria redentora, uma esperança reflexiva e movente, para muito além de sua literatura.

Pois se o espírito hippie definiu a feitura do disco, a obra escapa de leituras apressadas com louvor: para além de seu folclore, trata-se de um trabalho profundo, que ajudou a manter vivo o Brasil na ditadura que o assolava em 1972 - não pelo engajamento direto e óbvio com a causa em canção, mas pela dança, o amor, o canto, a excelência como sentido: devolver esperança e nos lembrar daquilo que somos de melhor, através da canção popular, onde bate o coração cultural do Brasil.

Sensual e inteligente, despido de preconceitos e apaixonado pela liberdade - musical, social, cultural, sexual - Acabou Chorare é a antítese de qualquer ditadura. Tendo a fusão e a alquimia de estilos como alma do negócio, com a benção de João Gilberto entre Hendrix e Assis Valente, entre os Beatles e Jacob do Bandolim, a argamassa de tudo está no violão e nas composições de Moraes. Enquanto Caetano e Gil eram expulsos do Brasil, a chama tropicalista se mantinha acesa em Gal, em Melodia, nos Secos e Molhados, em Macalé – mas quem melhor nos ensinou a alegria como revolta, o deboche como resposta, a irreverência como libertação foram os Novos Baianos. A juventude foi o grande advento, a maior tecnologia daquela geração – e Moraes Moreira foi um compositor jovem até o fim da vida.

O querido amigo e poeta Mariano Marovatto respondeu à notícia do falecimento de Moraes com a mais preciosa síntese: “Há pouquíssimas coisas criadas pela humanidade que tenham a mesma potência do que cantar os versos ‘abra a porta e a janela e vem ver o sol nascer’”, escreveu Marovatto, coberto de razão em sua absoluta emoção. Não é por acaso que “Preta Pretinha” tornou-se hit instantâneo e imortal: cantar esses versos é vivenciar a força de sua própria imagem encarnada, como se literalmente escancarassem toda porta e a janela para que víssemos as cores do sol tingindo em dia a noite pela primeira vez – tão simples quanto capaz de colocar tudo em perspectiva, feito a sabedoria de um mestre zen: um mestre zen que dança. A melodia de Moraes não é a porta, nem a janela - é o vento, é o calor do sol.

“Preta Pretinha”, “Tinindo Trincando”, “Swing de Campo Grande”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta”, “Besta é Tu” e “Bilhete pra Didi”, e não estamos falando de uma coletânea de maiores sucesso, mas do repertório de um único disco. Raras são as obras capazes de reunir em si o apreço da crítica e o sucesso de público – e quando uma o faz normalmente traz à tona algo de profundo sobre sua época, seu povo, seu lugar. Os Novos Baianos se tornaram um fenômeno popular, e Moraes Moreira viria a cravar seu nome na história do rock, do carnaval, das festas juninas – do Brasil em sua mais reluzente alegria. Cada letra de cada canção parece funcionar como um haikai de Bashô, feito fossem a transposição em versos da mais direta e imediata experiência da vida – e Galvão merece palmas perpétuas por construir uma das poéticas mais singulares, francas e ao mesmo tempo enigmáticas, de toda a música brasileira.

E, diante de um mundo que nos olha ameaçador pela janela, não pode haver felicidade maior para um compositor do que ser celebrado por seu compromisso com a liberdade, a alegria, o amor: sentimentalidades simples e absolutas. Foram noticiados diversos tributos quarentenados, com anônimos abrindo suas justas janelas para o sol em verso a fim de deixar soar as canções de Moraes – com o ao redor aplaudindo e cantando. Não é velório, é mesmo festa: é imortal em pleno fim, e nos liberta mesmo em momento em que seguimos presos em casa – o tal mistério do planeta.

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