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Mineração segue a todo vapor e expõe trabalhador a mais riscos sob coronavírus

Na surdina, governo tornou essencial atividade de mineração. Na CSN são 6 mil trabalhadores expostos ao coronavírus. A Vale está sendo investigada pelo MPT


Da  Redação RBA, 3 de Abril, 2020
Por Observatório da Mineração


São Paulo – Incluída na lista das atividades essenciais por meio de uma portaria assinada na surdina, na noite do sábado (28), pelo ministro das Minas e Energia Bento Albuquerque, a mineração está expondo milhares de trabalhadores à infecção pelo novo coronavírus.

De acordo com o Observatório da Mineração, só na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Congonhas (MG) são 6 mil trabalhadores se revezando em turnos ininterruptos de 24 horas para extrair 30 milhões de toneladas de minério por ano. Segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil e sexta do mundo, a empresa opera a mais antiga mina do tipo, a Casa de Pedra, explorada desde 1913.

Há no município pelo menos 125 casos suspeitos de coronavírus sob investigação. Uma reportagem do Observatório mostra fotos e vídeos de trabalhadores embarcando nos ônibus da empresa e circulando normalmente no ambiente de trabalho, sem o uso de máscaras. É como se a mineradora fosse uma zona livre da circulação da covid-19.

O presidente do Sindicato Metabase Inconfidentes, que representa os trabalhadores da CSN em Congonhas, afirmou que a postura da empresa é “um crime”. Segundo ele, a regra de trabalhar de casa para parte do efetivo valeu somente para o escritório central em Pinheiros, na capital paulista, as as medidas anunciadas, na prática, foram ignoradas, e a negociação é inexistente.
À greve

No dia 1º, o Sindicato Metabase e o Sindicato Metabase Mariana divulgaram a nota conjunta Paralisar a Mineração por Nossas Vidas. O manifesto, que tem o apoio de 65 entidades e centrais sindicais, partidos políticos, representações estudantis, de cientistas, professores e dos movimentos sociais, afirma que passou da hora de ser garantido aos trabalhadores e trabalhadoras da mineração o direito ao isolamento social.
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As 67 organizações signatárias exigem a paralisação imediata das grandes mineradoras para barrar o vírus e salvaguardar as cidades. “Se não vier por parte da administração dessas empresas ou por ordem dos poderes públicos, convocamos os trabalhadores a construírem uma forte greve em defesa de suas vidas, de suas famílias e de suas cidades. Não podemos ser bucha de canhão da ganância das empresas, nem da irresponsabilidade e covardia dos poderes públicos. Nossas vidas primeiro!”
Vale

A Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale, maior mineradora do Brasil, a empresa tem utilizado a situação para buscar recuperar sua imagem e credibilidade junto aos brasileiros, anunciando, entre outras coisas, ajuda na aquisição de testes rápidos para detecção da covid-19. Tanto que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, chegou a anunciar em entrevista coletiva dias atrás.

Em nota, a Articulação afirma que a Vale informou à Bolsa de Valores de Nova Iorque a “doação humanitária”, dentro de uma estratégia de frear as perdas por conta da emergência sanitária global. “De igual maneira, a mineradora tem publicizado a utilização de cerca de R$ 5 milhões, anteriormente repassados ao estado de Minas Gerais, para o enfrentamento da pandemia”.

Denúncias da Articulação levaram o Ministério Público do Trabalho a instaurar ação que pode ser convertida em Inquérito Civil por expor a vida dos funcionários em risco, bem como a de seus familiares de toda a sociedade.

Na terça (30), a Comissão Episcopal Pastoral Especial sobre Ecologia Integral e Mineração (CEEM) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) externou preocupação. A manutenção das atividades pelo setor minerário em tempos de disseminação do coronavírus, segundo a nota púbica, coloca em risco a vida dos trabalhadores e operadores das minas, bem como os trabalhadores terceirizados, que continuam suas rotinas de trabalho normalmente, colocando em risco os colegas, seus familiares e as comunidades onde vivem ou que encontram em seu trajeto de trabalho.

Ontem (2) a bancada do Psol na Câmara protocolou um Projeto de Decreto Legislativo para revogar a portaria do Ministério das Minas e Energia. O projeto destaca que esta é mais uma atitude do governo federal que demonstra descaso e desrespeito aos trabalhadores e suas famílias, às comunidades do entorno e às instituições internacionais e nacionais. “Isso porque a mineração não cumpre as recomendações de evitar aglomerações e praticar o isolamento social, conforme orientação do próprio Ministério da Saúde.”

O autor da proposta, deputado federal Ivan Valente (PSol-SP) destacou ainda reportagem do Intercept, segundo a qual pelo menos dois dos 55 mil funcionários da mineradora Vale estão infectados pelo coronavírus, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. “Mas quem atua nas minas segue trabalhando em todo o Brasil como se não houvesse uma pandemia a se alastrar pelo país”.

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