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Mídias indígenas: por uma comunicação intercultural

O poder da comunicação para os povos indígenas no compartilhamento de saberes, reflexões e demandas das comunidades.
Da Carta Capital, 17/04/2020

Por Thaís Brito


Se os indígenas são especialistas em fim de mundo, como sugere o conhecido antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, não haveria momento mais adequado – e urgente – para ouvir os indígenas e refletir a partir das suas experiências. Nesse momento de crise planetária, as Ideias para adiar o fim do mundo, compartilhadas por Ailton Krenak, tornam-se imprescindíveis.

Ao questionar-se como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização que tentou acabar com o seu mundo, e sobreviveram a ela, Krenak lembra que os indígenas resistiram expandindo sua subjetividade e não aceitando a ideia de que somos todos iguais. Afinal, existem aproximadamente 350 etnias diferentes no território brasileiro, que falam cerca de 170 línguas. “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo. Eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa”, afirma o ambientalista e líder indígena no livro citado.

A provocação de Krenak remete, de alguma forma, às palavras de outro pensador ameríndio contemporâneo, o xamã yanomami Davi Kopenawa e sua elaborada e precisa definição sobre aqueles que chama o povo da mercadoria. Sim, nós mesmos. Na perspectiva apresentada pelo yanomami em “A Queda do Céu”, os brancos possuem um desejo desmedido pelas mercadorias e, se pudessem escutar outras palavras que não as relacionadas a essa mercadoria, “não teriam tanta gana de comer nossa floresta”.

Como expressa Kopenawa, “os brancos dormem muito, mas só sonham com eles mesmos”, são “gente de pensamento curto” e este pensamento está “cheio de esquecimento e vertigem”, pois permaneceram “cravados nos minérios e nas mercadorias por tempo demais”. Ainda ao tratar sobre o povo da mercadoria, Kopenawa afirma que, “por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, os brancos ignoram os dizeres distantes de outras gentes e lugares”. “Não há dúvidas de que eles têm muitas antenas e rádios em suas cidades, mas estes servem apenas para escutar a si mesmos”, enfatiza.

Ao fazermos uma reflexão em diálogo com o pensamento do xamã yanomami, podemos nos perguntar qual é o papel dos meios de comunicação nesse cenário de crise planetária, uma vez que não conseguem se comunicar com outros povos que poderiam pensar soluções (ou reformular perguntas) diversas daquelas que temos até o momento. As nossas supostas soluções não estariam servindo mais para aprofundar a crise do que qualquer outra coisa? Além disso, é possível uma comunicação intercultural? E que espaços a etnomídia ocupa no cenário midiático global?

Mídias indígenas

Há uma série de iniciativas de mídias espalhadas pelo ambiente virtual que trazem notícias das aldeias e compartilham saberes, reflexões e demandas das comunidades indígenas. A visibilidade que alcançam algumas pautas dos povos nativos é, muitas vezes, originada nesses veículos, em que a voz, a escrita e as imagens são produzidas pelos próprios indígenas. Parte significativa dessas pautas tem relação com a defesa dos territórios ancestrais dos povos nativos. Há, ainda, uma vasta produção cultural indígena ganhando cada vez mais espaço com músicos, cineastas, escritores e jornalistas, povoando o espaço midiático com o imaginário desses povos.

O poder da comunicação, e do audiovisual em particular, para os povos indígenas é expresso numa fala do cacique do povo Kayapó, Raoni Metuktire. Em 1989, quando visitava a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, que inundou territórios dos povos Gavião, Parakanã e Assurini, os Kayapó levaram uma câmera. Conseguiram os equipamentos, recebidos de uma rede de televisão do Reino Unido, a Granada Television, que estava produzindo o documentário “The Kayapó: Out of Forest” (1989), parte da série “Disappearing World”. Em troca da permissão para que a equipe realizasse o documentário, os indígenas pediram que a câmera ficasse para a aldeia.

Com o equipamento, alguns Kayapó puderam registrar a visita que fizeram a Tucuruí e, depois, exibir as imagens para seus parentes verem e terem uma ideia do que é uma barragem e o que aconteceria com o rio e com o território no seu entorno, caso uma construção do tipo se confirmasse no Xingu. A hidrelétrica chamava-se, então, Kararaô. O nome Kararaô, que na língua kayapó significa grito de guerra, foi substituído por Belo Monte depois de uma forte reação dos povos indígenas à ideia sarcástica de referenciá-los no nome de uma usina que era sinônimo de destruição do seu modo de vida. Apontando para a floresta inundada pela barragem de Tucuruí, Raoni tece um comentário que reflete a estratégia indígena de uso das tecnologias de comunicação naquele contexto:

― Vamos usar as imagens da floresta inundada para envergonhar os brasileiros.

A fala do cacique Kayapó e as imagens realizadas por seus parentes, entretanto, não impediram que, quase trinta anos depois, parte da floresta amazônica fosse inundada pela Hidrelétrica de Belo Monte, construída na Volta Grande do Xingu e inaugurada em 2016. Mas é certo que os indígenas se apropriaram de uma tecnologia de comunicação, o vídeo, como tática de relacionamento com a sociedade nacional. Há, portanto, uma dimensão política no uso do audiovisual no contexto narrado.

Outra experiência mais recente vem da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, território do povo Guajajara, onde a comunidade nativa decidiu se organizar para assumir o monitoramento e fiscalização ambiental de suas terras, protegendo a floresta da invasão de garimpeiros e madeireiros. De acordo com dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), foram assassinados 43 indígenas Guajajara nesse território entre 2000 e 2019.

CENA DO DOCUMENTÁRIO “ZAWXIPERKWER KA´A – GUARDIÕES DA FLORESTA”

Os chamados Guardiões da Floresta organizam-se para conter o cenário de conflitos e proteger a floresta. A tensão vivida pelos indígenas pode ser acompanhada no documentário “Zawxiperkwer ka´a – Guardiões da Floresta” (50’, 2019), lançado pela escola de cinema indígena e produtora audiovisual Vídeo nas Aldeias e dirigido por Jocy e Milton Guajajara. Por meio do filme, percebemos que uma das formas de defender a floresta encontra-se na câmera que os indígenas utilizam para registrar e circular as imagens do que acontece naquela parte do Brasil e, certamente, isso tem relação com o que estamos vivendo neste momento.

Ainda que seja cada vez mais uma realidade a apropriação das tecnologias pelos povos indígenas, uma comunicação intercultural, num contexto de concentração e hegemonia midiática, é um cenário ainda um pouco distante de se efetivar. Retomando as palavras de Kopenawa, ao afirmar que “os brancos só escutam a si mesmos”, compreendemos que não há uma comunicação efetiva entre a diversidade de povos e a quantidade de narrativas em circulação nos meios.

Krenak lembra que existem povos que falam com montanhas e para quem os rios estão vivos. “Está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo, que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim”, afirma. O paradoxo apresentado aqui está, assim, entre aqueles que não querem escutar e os muitos outros que têm histórias, continuam a contá-las e seguem adiando o fim do mundo, impedindo que o céu caia sobre nós.

Thaís Brito é jornalista, integrante do Intervozes e Doutora em Antropologia Social

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