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Edgar Morin: "Essa crise nos leva a questionar nosso modo de vida, nossas reais necessidades mascaradas nas alienações da vida cotidiana"

Em entrevista ao Le Monde, o sociólogo e filósofo avalia que a corrida pela lucratividade e as deficiências em nossa maneira de pensar são responsáveis por inúmeros desastres humanos causados pela pandemia de Covid-19.

Da Carta Maior, 22/04/2020

Por Nicolas Truong 

Nascido em 1921, ex-combatente da resistência, sociólogo e filósofo, pensador transdisciplinar e indisciplinado, doutor honoris causa de trinta e quatro universidades em todo o mundo, Edgar Morin está, desde 17 de março, confinado em seu apartamento em Montpellier com sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam.

É da rue Jean-Jacques Rousseau, onde reside, que o autor de La Voie (2011) e Terre-Patrie (1993), que publicou recentemente Les souvenirs viennent à ma rencontre (Fayard, 2019), um trabalho de mais de 700 páginas em que o intelectual se lembra profundamente das histórias, reuniões e "magnetizações" mais fortes de sua existência, redefine um novo contrato social, realiza algumas confissões e analisa uma crise global que "estimula enormemente”.

A pandemia devido a essa forma de coronavírus era previsível?

Todas as futurologias do século XX que previram o futuro ao transportar as correntes que atravessam o presente para o futuro entraram em colapso. No entanto, continuamos prevendo 2025 e 2050 enquanto somos incapazes de entender 2020. A experiência das irrupções do inesperado na história pouco penetrou nas consciências. Ora, o advento de um imprevisível era previsível, mas não sua natureza. Daí minha máxima permanente: "Espere o inesperado. "

Além disso, fui um dos poucos que previram desastres em cadeia causados %u20B%u20Bpelo desencadeamento descontrolado da mundialização tecnoeconômica, incluindo os resultantes da degradação da biosfera e da degradação das sociedades. Mas eu não tinha previsto nenhum desastre viral.

Houve, no entanto, um profeta dessa catástrofe: Bill Gates, em uma conferência em abril de 2012, anunciando que o perigo imediato para a humanidade não era nuclear, mas sanitário. Ele havia visto na epidemia de Ebola, rapidamente controlada por acaso, o anúncio do perigo global de um possível vírus com alto poder de contaminação; e destacou as medidas de prevenção necessárias, incluindo equipamentos hospitalares adequados. Mas, apesar desse aviso público, nada foi feito nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Pois o conforto intelectual e o hábito têm horror das mensagens que os incomodam.

Como explicar a falta de preparação francesa?

Em muitos países, incluindo a França, a estratégia econômica just-in-time, substituindo a de armazenamento, deixou nosso sistema de saúde desprovido de máscaras, instrumentos de teste, aparelhos respiratórios; isso, juntamente com a doutrina liberal que comercializa o hospital e reduz seus recursos, contribuiu para o curso catastrófico da epidemia.

Em que tipo de imprevisto essa crise nos coloca?

Essa epidemia nos traz um festival de incertezas. Não temos certeza sobre a origem do vírus: mercado insalubre de Wuhan ou laboratório vizinho, ainda não sabemos acerca das mutações que sofre ou poderá sofrer o vírus durante sua propagação. Não sabemos quando a epidemia regredirá e se o vírus permanecerá endêmico. Não sabemos até quando e em que medida o confinamento nos fará sofrer impedimentos, restrições e racionamento. Não sabemos quais serão as consequências políticas, econômicas, nacionais e globais das restrições trazidas por confinamentos. Não sabemos se devemos esperar o pior, o melhor, uma mistura dos dois: estamos caminhando para novas incertezas.

Essa crise global de saúde é uma crise de complexidade?

O conhecimento se multiplica exponencialmente, de repente, vai além da nossa capacidade de nos apropriarmos e, acima de tudo, lança o desafio da complexidade: como confrontar, selecionar, organizar adequadamente esse conhecimento, conectando-o e integrando incertezas. Para mim, isso revela mais uma vez as deficiências do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar o que é inseparável e reduzir a um único elemento aquilo que forma um todo ao mesmo tempo uno e diverso. De fato, a revelação avassaladora das mudanças pelas quais estamos passando é que tudo o que parecia separado está ligado, pois uma catástrofe na saúde traz catastrofes em cadeia para tudo o que é humano.

É trágico que o pensamento disjuntivo e redutivo reine supremo em nossa civilização e detenha o controle na política e na economia. Essa deficiência formidável levou a erros de diagnóstico, prevenção e decisões aberrantes. Acrescento que a obsessão com a lucratividade entre nossos dominantes e dirigentes levou a economias culpadas, como em hospitais e no abandono da produção de máscaras na França. Na minha opinião, as deficiências no modo de pensar, combinadas ao domínio indiscutível de uma sede frenética por lucros, são responsáveis %u20B%u20Bpor inúmeros desastres humanos, incluindo aqueles que ocorrem desde fevereiro de 2020.

Tínhamos uma visão unitária da ciência. No entanto, multiplicam-se em seu interior debates epidemiológicos e controvérsias terapêuticas. A ciência biomédica se tornou um novo campo de batalha?

É mais do que legítimo que a ciência seja convocada pelas autoridades para combater a epidemia. No entanto, os cidadãos, inicialmente tranquilizados, sobretudo por ocasião do remédio do professor Raoult, descobrem em seguida posições diferentes e até contrárias. Cidadãos mais bem informados estão descobrindo que determinados grandes cientistas têm relações de interesse com a indústria farmacêutica, cujos lobbies são poderosos junto a ministérios e na mídia, capazes de inspirar campanhas para ridicularizar idéias em desconformidade [com as dominantes].

Lembremo-nos do professor Montagnier que, contra medalhões e mandarins da ciência, foi, com alguns outros, o descobridor do HIV, o vírus da Aids. Esta é uma oportunidade para entender que a ciência não é um repertório de verdades absolutas (ao contrário da religião), mas que suas teorias são biodegradáveis sob o efeito de novas descobertas. As teorias aceitas tendem a se tornar dogmáticas nas cúpulas acadêmicas, e são os que delas se desviam, de Pasteur a Einstein, passando por Darwin, e Crick e Watson, descobridores da dupla hélice do DNA, que fazem as ciências progredirem. É que controvérsias, longe de serem anomalias, são necessárias para esse progresso. Mais uma vez, no desconhecido, tudo progride por tentativa e erro, bem como por inovações desviantes inicialmente incompreendidas e rejeitadas. Esta é a aventura terapêutica contra vírus. Os remédios podem aparecer onde não eram esperados.

A ciência é devastada pela hiperespecialização, que é o fechamento e a compartimentalização do conhecimento especializado, em vez de sua comunicação. E são sobretudo pesquisadores independentes que estabeleceram desde o início da epidemia uma cooperação, que agora se amplia entre infectologistas e médicos em todo o mundo. A ciência vive da comunicação, toda censura a bloqueia. Portanto, devemos ver a grandeza da ciência contemporânea ao mesmo tempo que suas fraquezas.

Como podemos tirar proveito da crise?

Em meu ensaio Sur la crise (Flammarion), tentei mostrar que uma crise, além da desestabilização e da incerteza que traz, se manifesta pelo fracasso das regulações de um sistema que, para manter sua estabilidade, inibe ou repele desvios (feedback negativo). Deixando de ser reprimidos, esses desvios (feedback positivo) tornam-se tendências ativas que, se se desenvolverem, ameaçam cada vez mais perturbar e bloquear o sistema em crise. Nos sistemas vivos e especialmente sociais, o desenvolvimento vitorioso de desvios que se tornaram tendências levará a transformações, regressivas ou progressivas, até mesmo a uma revolução.

A crise em uma sociedade gera dois processos contraditórios. O primeiro estimula a imaginação e a criatividade na busca de novas soluções. O segundo é a busca de um retorno à estabilidade passada ou a adesão a uma salvação providencial, bem como a denúncia ou imolação de um culpado. Esse culpado pode ter cometido os erros que causaram a crise, ou pode ser um culpado imaginário, bode expiatório que deve ser eliminado.

De fato, idéias desviantes e marginalizadas estão se espalhando confusamente: retorno à soberania, Estado de bem-estar social, defesa dos serviços públicos contra a privatização, realocações, desmondialização, antineoliberalismo, necessidade de uma nova política. Personalidades e ideologias são identificadas como culpadas.

E também vemos, na carência de poderes públicos, uma proliferação de imaginações solidárias: produção alternativa à falta de máscaras por empresa ou indústria reconvertida ou produção artesanal, agrupamento de produtores locais, entregas gratuitas em domicílio, ajuda mútua entre vizinhos, refeições gratuitas para moradores de rua, creche; além disso, o confinamento estimula as capacidades auto-organizadas para remediar a perda de liberdade de movimento através da leitura, música e filmes. Assim, autonomia e inventividade são estimuladas pela crise.

Estamos testemunhando uma verdadeira tomada de consciência da era planetária?

Espero que a epidemia excepcional e mortal que estamos enfrentando nos conscientize não apenas de que fomos conduzidos para o interior da incrível aventura da Humanidade, mas também de que vivemos em um mundo simultaneamente incerto e trágico. A crença de que a livre concorrência e o crescimento econômico são uma panaceia social universal escamoteia a tragédia da história humana que essa crença agrava.

A loucura eufórica do transhumanismo leva ao clímax o mito da necessidade histórica do progresso e do domínio do homem, não apenas da natureza, mas também de seu destino, ao prever que o homem alcançará a imortalidade e o controle de tudo pela inteligência artificial. Ora, somos jogadores / jogados, possuidores / possuídos, poderosos / fracos. Se podemos atrasar a morte por envelhecimento, nunca conseguiremos eliminar acidentes fatais em que nossos corpos são esmagados, nunca conseguiremos nos livrar de bactérias e vírus que se automodificam constantemente para resistir a remédios, antibióticos, antivirais, vacinas .

A pandemia não acentuou a reclusão doméstica e o fechamento geopolítico?

A epidemia global do vírus desencadeou uma crise sanitária que se agravou na França, causando confinamentos que sufocam a economia, transformando um estilo de vida extrovertido em introversão para a casa e colocando em violenta crise a mundialização. Esta havia criado uma interdependência, mas sem que essa interdependência fosse acompanhada de solidariedade. Pior, causou, em reação, confinamentos étnicos, nacionais e religiosos que se agravaram nas primeiras décadas deste século.

Então, na ausência de instituições internacionais e até europeias capazes de reagir com ações solidárias, os Estados nacionais se voltaram para si mesmos. A República Tcheca até roubou máscaras destinadas à Itália e os Estados Unidos conseguiram desviar para si um estoque de máscaras chinesas inicialmente destinadas à França. A crise da saúde, portanto, desencadeou uma cadeia de crises que se concatenam. Essa policrise ou megacrise se estende do existencial ao político, passando pela economia, do indivíduo ao planetário, passando pelas famílias, regiões, Estados. Em suma, um pequeno vírus em uma cidade ignorada na China provocou a perturbação de um mundo.

Quais são os contornos dessa convulsão global?

Como crise planetária, ela coloca em destaque a comunidade de destino de todos os seres humanos, ligada inseparavelmente com o destino bioecológico do planeta Terra; intensifica simultaneamente a crise da humanidade que não consegue se constituir em humanidade. Como crise econômica, abala todos os dogmas que governam a economia e ameaça agravar-se em caos e escassez em nosso futuro. Como crise nacional, revela as carências de uma política que favorece o capital em detrimento do trabalho, sacrificando a prevenção e a precaução para aumentar a lucratividade e a competitividade. Como crise social, dá destaque as desigualdades entre aqueles que vivem em pequenas habitações povoadas de crianças e pais e aqueles que foram capazes de fugir para sua segunda residência verde.

Como crise civilizacional, nos conduz a perceber as deficiências de solidariedade e a intoxicação consumista que nossa civilização desenvolveu; e nos leva a pensar em uma política de civilização (Une politique de civilisation, com Sami Naïr, Arléa 1997) . Como crise intelectual, deve revelar-nos o enorme buraco negro em nossa inteligência, que torna as complexidades óbvias da realidade invisíveis para nós.

Como crise existencial, nos leva a questionar nosso modo de vida, nossas reais necessidades, nossas verdadeiras aspirações mascaradas nas alienações da vida cotidiana, para fazer a diferença entre a diversão pascaliana que nos afasta de nossas verdades e a felicidade que encontramos ao ler, ouvir ou ver obras-primas que nos fazem encarar de frente nosso destino humano. E, acima de tudo, deve abrir nossas mentes há muito tempo confinadas ao imediato, ao secundário e ao frívolo, em vez do essencial: amor e amizade pela nossa realização individual, a comunidade e solidariedade dos nossos "eu" nos "nós", o destino da Humanidade da qual cada um de nós é uma partícula. Em suma, o confinamento físico deve incentivar o descon%uF01namento das mentes.

O que é o confinamento? E como você o vive?

A experiência do confinamento domiciliar duradouro imposto a uma nação é uma experiência surpreendente. O confinamento do gueto de Varsóvia permitia que seus habitantes lá circulassem. Mas o confinamento do gueto preparava a morte e nosso confinamento é uma defesa da vida.

Eu o suporto em condições privilegiadas, apartamento térreo com jardim, onde ao sol posso me alegrar com a chegada da primavera, muito protegido por Sabah, minha esposa, com vizinhos gentis fazendo nossas compras, comunicando-me com meus próximos, meus afetos, meus amigos, solicitado pela imprensa, rádio ou televisão para dar meu diagnóstico, o que pude fazer pelo Skype. Mas sei que, desde o início, os muito numerosos em moradias apertadas suportam mal a superlotação, que os solitários e principalmente os sem-teto são vítimas de confinamento.

Quais podem ser os efeitos do confinamento prolongado?

Sei que um confinamento prolongado será cada vez mais vivido como um impedimento. Os vídeos não podem substituir permanentemente as idas ao cinema, os tablets não podem substituir permanentemente as visitas ao livreiro. Skype e Zoom não permitem contato carnal, o tilintar do copo quando brindamos. A comida doméstica, mesmo excelente, não suprime o desejo de um restaurante. Os documentários não suprimem o desejo de ir lá para ver paisagens, cidades e museus, eles não tirarão meu desejo de reencontrar a Itália e a Espanha. A redução ao indispensável também dá sede de supérfluo.

Espero que a experiência de confinamento modere a compulsão por movimento, a fuga para Bangcoc para trazer memórias e contá-las aos amigos, espero que ajude a reduzir o consumismo, ou seja, a intoxicação pelo consumo e a obediência à excitação publicitária, em favor de alimentos saudáveis e saborosos, produtos sustentáveis e não descartáveis. Mas serão necessários outros incentivos e novas tomadas de consciência para que ocorra uma revolução nessa área. No entanto, há esperança de que a lenta evolução iniciada se acelere.

O que será aquilo que estamos chamando de "mundo de depois"?

Em primeiro lugar, o que manteremos, cidadãos, o que manterão as autoridades públicas da experiência de confinamento? Apenas uma parte? Tudo será esquecido, anestesiado ou transformado em folclore? O que parece muito provável é que a disseminação do digital, amplificada pelo confinamento (teletrabalho, teleconferência, Skype, uso intensivo da Internet), continuará com aspectos negativos e positivos que não são tema desta entrevista. Vamos ao essencial. A saída da confinamento será o começo da saída da megacrise ou seu agravamento? Crescimento ou depressão? Crise econômica enorme? Crise alimentar global? Continuação da mundialização ou recuo autárquico?

Qual será o futuro da mundialização? O neoliberalismo abalado retomará o controle? As nações gigantes se oporão mais do que no passado? Os conflitos armados, mais ou menos mitigados pela crise, se exacerbarão? Haverá um momento internacional salvador em proveito da cooperação? Haverá algum progresso político, econômico e social, como ocorreu logo após a Segunda Guerra Mundial? O pedido de solidariedade provocado durante o confinamento será prolongado e intensificado, não apenas para médicos e enfermeiras, mas também para coletores de lixo, manipuladores, entregadores, caixas, sem os quais não teríamos sido capazes sobreviver quando conseguimos passar sem o Medef (Mouvement des entreprises de France; Movimento das empresas da França) e o CAC 40 (índice da Bolsa que reúne as 40 maiores empresas da França)? As inúmeras e dispersas práticas de solidariedade de antes da epidemia serão ampliadas? Os que saírem do confinamento retomarão o ciclo cronometrado, acelerado, egoísta e consumista? Ou haverá um novo boom na vida amigável e amorosa em direção a uma civilização onde a poesia da vida se desdobra, onde o "eu" floresce em um "nós"? Não podemos saber se, após o confinamento, o comportamento e as ideias inovadoras retomarão seu impulso, se revolucionarão a política e a economia, ou se a ordem abalada se reestabelecerá. Podemos temer com força a regressão geral que já estava ocorrendo durante os primeiros vinte anos deste século (crise da democracia, corrupção e demagogia triunfantes, regimes neoautoritários, impulsos nacionalistas, xenófobos e racistas).

Todas essas regressões (e, na melhor das hipóteses, estagnações) são prováveis %u20B%u20Benquanto não aparecer o novo caminho político-ecológico-econômico-social guiado por um humanismo regenerado. Este multiplicaria as verdadeiras reformas, que não são cortes no orçamento, mas reformas da civilização, da sociedade, ligadas a reformas da vida.

Esse novo caminho associaria (como indiquei em La Voie) os termos contraditórios: "mundialização" (com tudo o que é cooperação) e "desmundialização" (para estabelecer a auto-suficiência alimentar e salvar os territórios da desertificação); "crescimento" (da economia de necessidades básicas, da sustentabilidade, da agricultura orgânica) e "não crescimento" (da economia do frívolo, do ilusório, do descartável); "desenvolvimento" (de tudo que produz bem-estar, saúde, liberdade) e "envolvimento" (em solidariedades comunitárias).

Você conhece as perguntas kantianas - O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? O que é homem? -, que foram e continuam sendo os de sua vida. Que atitude ética devemos adotar diante do inesperado?

A pós-epidemia será uma aventura incerta, onde as forças do pior e as do melhor se desenvolverão, sendo estas ainda fracas e dispersas. Saibamos enfim que o pior não é certo, que o improvável pode acontecer e que, no combate titânico e inextinguível entre os inimigos inseparáveis %u20B%u20Bque são Eros e Thanatos, é saudável e enérgico ficar do lado de Eros.

Sua mãe, Luna, foi ela mesma acometida de gripe espanhola. E o trauma pré-natal que abre seu último livro tende a mostrar que ele lhe deu uma força vital, uma capacidade extraordinária de resistir à morte. Você ainda sente esse impulso vital no cerne desta crise global?

A gripe espanhola deu a minha mãe um problema no coração e o conselho médico para não ter filhos. Ela tentou dois abortos, o segundo falhou, mas a criança nasceu quase asfixiada, estrangulada pelo cordão umbilical. Posso ter adquirido forças de resistência no útero que permaneceram comigo a vida toda, mas só consegui sobreviver com a ajuda de outros, o ginecologista que me deu tapas durante meia hora antes que proferisse meu primeiro choro, depois sorte durante a Resistência, o hospital (hepatite, tuberculose), Sabah, minha companheira e esposa. É verdade que "o impulso vital" não me deixou; até aumentou durante a crise global. Qualquer crise me estimula, e esta, enorme, me estimula enormemente.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher

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