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A China, a sinofobia e a nova Guerra Fria

Diante do sucesso chinês no combate à covid-19, as elites ocidentais multiplicam preconceitos. Mas como Pequim foi capaz de vencer tão rapidamente a doença que apavora o mundo? E o que este êxito pode ensinar a nós, que odiamos nosso 0,1%?

Do Outras Palavras, 27/04/2020


Fernanda Ramone, entrevistada por Antonio Martins, no OP Entrevista


Enclausurado em casa, no norte da Itália, devido à pandemia, o filósofo Franco “Bifo” Berardi escreveu um diário da autor-reclusão. Em 10 de março, este pensador, conhecido por sua crítica às esquerdas institucionais, sua colaboração com Michel Foucault e Toni Negri e suas relações com o pensamento pós-capitalista, registrou:

“‘Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim’. Isso está escrito nas dezenas de caixas de máscaras, vindas da China. As mesmas máscaras que a Europa nos negou."
Em todo o mundo, a influência chinesa multiplica-se. Num longo ensaio, publicado há menos de uma semana, a revista Economist associa-o a dois fatores. Primeiro, o declínio dos EUA, acentuado sob Donald Trump. Só nas últimas semanas, Washington caracterizou-se por se tornar o epicentro da pandemia global, devido tanto a seu sistema de Saúde caótico e mercantilizado quanto às posturas negacionistas de seu presidente. Além disso, sequestrou equipamentos e fármacos que se dirigiam para todas as partes do mundo – da França ao Brasil e às nações mais empobrecidas da África. Por fim, anunciou, sem qualquer justificativa plausível, o cancelamento de suas contribuições financeiras à Organização Mundial de Saúde, o único órgão que procura, mesmo em meio à penúria, coordenar ações globais contra as ameaças sanitárias

Porém, a influência de Pequim, reconhece a revista, não cresce apenas graças aos fracassos de sua rival. Em paralelo a sua presença econômica no mundo, os chineses desenvolvem, muito antes da pandemia, um enorme esforço de diálogo político e cultural – que certamente irrita a ultradireita e os discípulos mais lunáticos de Steve Bannon… Em 2017, no congresso mais recente do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, o presidente, anunciou os planos para fazer do país um líder em termos de “influência internacional”. A eclosão da covid-19, que poderia retardar estes planos, acabou por antecipá-los.

Um outro texto, publicado pelo analista indiano Vijay Prashad, na revista eletrônica sul-africana New Frame, relaciona este passo com a impressionante resposta chinesa à covid-19. Ele narra um processo de mobilização social que parece impossível em países submetidos – como o Brasil – à privatização da vida social e à ditadura das finanças. Foi graças a esta ação que a China, mesmo tendo sofrido a pandemia sem poder contar com qualquer experiência anterior, reagiu a ela. Hoje, dos 200 mil mortos no mundo pela covid-19, menos de 5 mil (2,5%) são chineses, embora o país reúna quase 25% da população do planeta. Os Estados Unidos, com uma população 4,5 vezes menor, já têm dez vezes mais óbitos.

O texto de Vijay relata, por exemplo, que na virada do ano a Comissão Nacional de Saúde e o Centro para Controle de Doenças da China localizaram, com base nos relatos de hospitais públicos, a existência de uma “epidemia viral de causa desconhecida”. Em 4 de janeiro, um primeiro manual (atualizado dezenas de vezes depois) recolhia as experiências do pessoal de saúde que primeiro lidou com a ameaça e o difundia. Três dias depois, o vírus foi isolado e seu DNA distribuído para to mundo. Na mesma data, ficou pronta, no Instituto de Virologia de Wuhan, a tecnologia que permitiria produzir os testes para o vírus. Em 19 de janeiro, os reagentes estavam disponíveis em todo o país.

Seguiu-se uma ação produtiva e de pessoal médico impressionante. Em 28 de janeiro, a China produzia menos de 10 mil kits de equipamento de proteção (máscaras e luvas, principalmente) por dia. Menos de um mês depois, a capacidade de produção ultrapassava 200 mil por dia. O número de kits de teste produzidos passou de 773 mil por dia, já em 1º de fevereiro, para 4,3 milhões por dia, em 31 de março.

Em poucos dias, 40 mil médicas, médicos, enfermeiras e enfermeiros, chegaram a Wuhan, centro da pandemia. Eles formaram 1,8 mil equipes epidemiológicas, que, até 9 de fevereiro, haviam examinado 4,2 milhões de casas e 10,6 milhões de pessoas. Em 23 de janeiro, o governo chinês decretou quarentena na em toda a província de Hubei. Em cada casa, apenas uma pessoa era autorizada a sair, uma vez a cada dois dias Em 8/4, as cidades foram liberadas, com um número de vítimas mínimo, em relação a todos os países que seriam em seguida atingidos.

Fernanda Ramone, colaboradora de Outras Palavras, viveu por nove anos – de 2004 a 2013 – na China. Jornalista e produtora cultural, trabalhou e estudou em Pequim. Quando chegou, o país recém se recuperava da pandemia do coronavírus anterior. Em nossa entrevista, ela descreve aspectos de vida social e cultural chinesa. Debate, em especial, o choque de culturas, hoje e no passado. Observa que o Ocidente parece incapaz de enxergar a China com olhos que não sejam os do colonizador. Mas nota que este ponto de vista terá de mudar – ou por adaptação constrangida dos ocidentais, ou pelos próprios fatos, que terminarão por se impor.

Fernanda lamenta, em especial, a sinofobia, triste doença de alma. Sugere que a visão eurocêntrica de mundo parece incapaz de dialogar com qualquer outra em que os brancos ocidentais não sejam hegemônicos e predadores. Avisa: o que parecia natural será – um pouco mais, a cada dia – bizarro.


FERNANDA RAMONE
Sinóloga, morou 9 anos em Pequim (2004-2013) especialista em softpower chinês, mestre em gestão da indústria cultural pela Universidade de Beijing. Foi correspondente da BandNews Tv, trabalhou na Rádio Internacional da China e atua como consultora, realizadora cultural, curadora, jornalista e palestrante. Idealizadora e organizadora do DocBrazil Festival, autora do capítulo “A Produção Cultural na China” no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, Edição Sesc SP.

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