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As cartografias anticapitalistas de David Harvey

Raquel Rolnik escreve sobre "Os sentidos do mundo", novo livro de David Harvey que acaba de ser editado pela Boitempo.
Do Blog da Boitempo, 28/04/2020

A Boitempo acaba de lançar o novo livro de David Harvey! Os sentidos do mundo, reúne ensaios essenciais escolhidos pelo próprio autor, oferecendo uma síntese retrospectiva de suas mais importantes e originais contribuições teóricas.

A antologia abarca um imenso leque de temas – da ecologia à pós-modernidade, passando por imperialismo, geopolítica, história urbana, crises financeiras e as dinâmicas de urbanização – e ao mesmo tempo revela um fio condutor comum e uma coerência articulada no trabalho de edição. Um dos autores mais citados do mundo nas ciências sociais, Harvey é um dos mais notáveis intelectuais marxistas da última metade do século. Este livro traça o itinerário intelectual do encontro fértil entre o marxismo e geografia que constitui o cerne da obra de Harvey. Com cinco décadas de carreira acadêmica e militante, escreveu diversos livros e dezenas de ensaios e artigos influentes sobre temas que atravessam política, cultura, economia e justiça social. Além de reunir artigos clássicos, a obra traz ensaios inéditos em língua portuguesa, todos acompanhados de comentários do autor, explicando o contexto da publicação original e refletindo sobre sua atualidade e sua relevância para a contemporaneidade. No texto abaixo, Raquel Rolnik escreve sobre a importância do livro e da obra de Harvey para o pensamento crítico contemporâneo.



Por Raquel Rolnik

Reunindo artigos de David Harvey escritos ao longo de quarenta anos, a preciosa coletânea Os sentidos do mundo registra sua busca incansável por explicar como a geografia mundial é constantemente refeita – e muitas vezes destruída – para responder à exigência de crescimento infindável do capital e à permanente absorção de seus excedentes. E mais: explicita as consequências sociais, políticas e ambientais, tantas vezes catastróficas, dessa exigência.
Harvey constrói um arcabouço teórico para compreender esses processos, interpelando, desde os anos 1970, os escritos de Marx a fim de integrar explicitamente as relações espaciais e os fenômenos geográficos ao corpus principal da teoria marxista, e vice-versa. Articulando a leitura de notas de rodapé, parênteses e digressões, fragmentos em que Marx se refere ao espaço e à geografia, com um enorme cabedal de informações históricas sobre momentos cruciais de transformação urbana, como a Paris de Haussmann ou a construção das megalópoles chinesas contemporâneas, Harvey demonstra que o espaço não é um cenário inerte no qual as forças econômicas se movimentam. Pelo contrário, ao percorrer seus escritos, é possível descortinar a contribuição do estudo das relações espaciais para o entender o mundo. E poder, assim, transformá-lo.
A trajetória intelectual de David Harvey é indissociável de sua perspectiva crítica anticapitalista e seu vínculo com as várias lutas implicadas nessa tarefa. Aliás, sua inflexão na direção do pensamento marxista se dá em 1968, a partir de seu contato com os conflitos raciais em Baltimore e com as ruas de Paris. Desde então, seus textos são marcados pela questão de limites e possibilidades de abolição ou contenção do impulso à acumulação infinita de capital que está em sua raiz e a construção de outros mundos possíveis.
Exatamente porque o desejo de entender está conectado com as lutas, não com os cânones disciplinares, Harvey define sua produção como “mapas cognitivos”, registros parciais e incompletos que buscam superar as limitações do trabalho intelectual quando este é confinado em disciplinas, não como “teoria”.
Revelando as tensões internas ao sistema capitalista, suas contradições, a insanidade que marca seu momento atual, a leitura deste livro nos mobiliza a, nas palavras finais do autor, “refletir sobre as estratégias políticas para confrontar os excessos do capital no aqui e no agora e encontrar aberturas para a construção de alternativas econômico-políticas viáveis”.


Raquel Rolnik é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, urbanista especializada em política habitacional, planejamento e gestão da terra urbana. Foi Relatora Especial para o Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU, entre 2008 e maio de 2014. Foi diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo (1989-1992), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades no Brasil (2003-2007), e Coordenadora de Urbanismo do Instituto Pólis (1997-2002). Prestou consultoria a governos, organizações não governamentais e agências internacionais, como UN-Habitat, em política urbana e habitacional. É autora, entre outros, de Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2015). Colabora quinzenalmente com a Folha de S. Paulo e o portal Yahoo, e mantém o Blog da Raquel Rolnik, onde escreve regularmente sobre questões urbanas.

David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes são O enigma do capital, Para entender O capital, livro I, Para entender O capital, livros II e III, 17 contradições e o fim do capitalismo, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI e Os sentidos do mundo.

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