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A China estende a Rota da Seda da Saúde

Do 247, 2 de abril de 2020
Pepe EscobarAsia Times;Tradução de Patricia Zimbres, para o 247


Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

No âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, a China vem fornecendo a boa parte do mundo, inclusive à Europa assolada pelo vírus, materiais médicos e sanitários

Quando, em meados de março, o Presidente Xi Jinping conversou por telefone com o Primeiro-Ministro da Itália Giuseppe Conti, antes da chegada de um voo da China Eastern de Xangai a Milão carregado de ajuda médica, o principal tópico foi a promessa chinesa de desenvolver uma Rota da Seda da Saúde (Jiankang Sichou Zhilu).

Essa proposta, na verdade, já estava embutida na estratégia da Iniciativa Cinturão e Rota desde pelo menos 2017, no contexto de uma maior conectividade sanitária pan-eurasiana. A pandemia só fez acelerar o cronograma. A Rota da Seda da Saúde correrá paralela aos múltiplos corredores terrestres e à Rota da Seda Marítima.

Em uma demonstração explícita de poder brando, a China, até agora, ofereceu ajuda médica e equipamentos hospitalares relativos ao Covid-19 a nada menos que 89 países, lista essa que continua a crescer.

Incluídos aí estão países africanos (em especial a África do Sul, a Namíbia e o Quênia, sendo que a Alibaba de fato anunciou que enviará ajuda a todas as nações africanas); América Latina (Brasil, Argentina, Venezuela, Peru); o arco que vai do Leste ao Sudoeste Asiático e a Europa.

Entre os principais recipientes europeus estão Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, Sérvia e Polônia. Mas a Itália, principalmente, é um caso muito especial. A maior parte da ajuda consiste de doações. Outra parte é de transações comerciais - como as milhões de máscaras vendidas à França (e aos Estados Unidos).

Há menos de um ano, a Itália se tornou o primeiro país do G-7 a assinar um memorando de entendimento por meio do qual o país se juntou formalmente à Cinturão e Rota - para o forte desagrado de Washington e da galáxia atlanticista, em Bruxelas e mais além.

No início deste ano, na Sicília, discuti esse tema complexo em grande detalhe com Enrico Fardella, Professor de História da Universidade de Pequim e especialista em relações sino-mediterrâneas.

A Itália vem recebendo apoio em uma infinidade de frentes - não apenas no mais alto escalão político mas também por intermédio da Cruz Vermelha Chinesa, de associações sino-italianas, de empresas chinesas de tec/logística e de doações da Alibaba, da Huawei, da ZTE e da LeNovo. Três equipes médicas chinesas encontram-se neste momento na Itália.

Tudo isso se encaixa no quadro mais amplo da Cinturão e Rota, incluindo investimentos em Gênova e Trieste, dois portos de importância chave e futuros nós da Cinturão e Rota.

Essa ofensiva do poder brando chinês foi cuidadosamente calibrada para contrabalançar a atual paralisação das cadeias globais de abastecimento. A China está agora trabalhando em turnos ampliados para abastecer diversas partes do mundo com medicamentos e equipamentos de serviços de saúde - sempre tendo em mente a Cinturão e Rota, como se dobrando a aposta na Globalização 2.0.

Isso significa a interconectividade dos países com necessidades prementes de desenvolvimento e infraestrutura, e também de bons sistemas e práticas de saúde.

E, além disso, prepara o terreno para - quando o Covid-19 estiver mais ou menos contido e a economia tiver se recuperado plenamente - uma reinicialização da Cinturão e Rota: uma inexorável tendência histórica, embasada em um novo modelo econômico que Pequim vê como mais equitativo e voltado para os interesses do Sul Global.

"Mentira chinesa"

Uma Rota da Seda da Saúde já está em funcionamento, o que fica evidente quando a China, a Rússia - e Cuba, com seu sistema de saúde de primeira linha - enviam equipes de médicos e virologistas, além de aviões carregados de equipamentos médicos para a Itália, e a China envia medicamentos, kits de testes e suprimentos para o Irã submetido a sanções ilegais.

A China entendeu imediatamente o que estava em jogo quando viu o Covid-19 assolar muitos dos pontos-chave dos Made in Italy de fama mundial. Com sua oferta de processos de fabricação especializados e mais baratos, a China, a princípio, atraiu grandes marcas da indústria da moda italiana, que terceirizaram sua produção para a China, principalmente para Wuhan.

A conectividade - que já existe há décadas - funciona em mão-dupla. Os investidores chineses começaram a chegar ao norte da Itália em inícios da década de 1990. Eles compraram uma série de fábricas, renovaram-nas e criaram suas próprias marcas Made in Italy, trazendo dezenas de milhares de costureiras chinesas para trabalhar nessas indústrias.

Há um grande número de voos diretos de Wuhan para a Lombardia - para atender aos pelo menos 300.000 chineses que se mudaram para a Itália em caráter permanente, para trabalhar nas fábricas de propriedade chinesa que produzem mercadorias Made in Italy.

Não é de admirar, portanto, que o Dr. Giuseppe Remuzzi, diretor do Instituto de Farmacologia Mario Negri, em Milão, tenha se tornado um superstar na China. Em uma entrevista que viralizou, Remuzzi fala de suas descobertas explosivas em conversas com clínicos gerais da Lombardia.

Isso é o que diz o Dr. Remuzzi (4:19): "Sabe o que aconteceu? Alguns médicos de família, que são os mais antenados ao que se passa no território, pelo menos os mais capazes e atentos, me disseram recentemente que estavam vendo casos graves de pneumonia que nunca haviam visto antes".

Esses casos de pneumonia não tinham nada a ver com a pneumonia típica das gripes, eram pneumonias intersticiais, [só diagnosticáveis] com tomografias computadorizadas, e isso foi verificado em outubro, novembro e dezembro. Então, esse vírus já vinha circulando há muito tempo".

Isso, de fato, ocorreu paralelamente, ou até mesmo precedeu os primeiros casos de coronavírus em Wuhan, ocorridos em meados de novembro. Já ficou cientificamente estabelecido que as cepas de vírus encontradas em Wuhan e na Lombardia são diferentes. Qual delas veio primeiro, e de onde, são questões que continuam sendo objeto de debates inflamados.

Como não poderia deixar de acontecer, a Rota da Seda da Saúde foi repudiada pela gangue atlanticista como sendo uma manobra visando a explorar a pandemia com o objetivo de "desestabilizar" e enfraquecer a Europa. Foi essa a narrativa promovida pela EUvsDisinfo, uma ONG cuja equipe ganha a vida detonando a Rússia e a China, e o faz com o maior prazer.

Portanto, para a burocracia de Bruxelas, a Rota da Seda da Saúde não tem como objetivo salvar vidas, e sim "desestabilizar" a União Europeia e melhorar a imagem de Xi Jinping em meio ao povo chinês, depois de a China ter mentido repetidamente quanto à extensão e a gravidade do coronavírus. Essa, por acaso, é exatamente a mesma narrativa do governo Trump, da mídia empresarial norte-americana e dos serviços de inteligência dos Estados Unidos.

Isso tem alguma importância? Não para os 89 países que vêm recebendo a tão necessária ajuda na forma de pessoal e equipamentos médicos. Os cães da demonização ladram e a caravana da Rota da Seda da Saúde passa.

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